Meu dia por um abraço: a humanidade sofre quando a ocitocina falta

Demonstrações de carinho mais constantes poderiam evitar infelicidades, depressões e até crimes? A fisiologia dos hormônios induz a pensar que sim

“Abraços grátis” como estratégia para vencer a infelicidade: uma aplicação qu e demonstra, na prática, os efeitos positivos do contato entre os corpos, como na dança | José Coelho/Lusa

Quer dançar comi­go?”. A fra­se era dita com uma voz geralmente titubeante, a senha para o frio na barriga, a expectativa pelo aceite e o temor da negativa ao convite. Uma coisa ingênua, hoje romântica num sentido diferente do da época. Era o auge da noite de um adolescente nos bailes do fim dos anos 80 e início dos 90. Se a resposta fosse positiva, o rapaz conduzia a moça pela mão até o meio do salão para dançar. Na verdade, uma “dança” entre aspas, quase parada, um ou dois movimentos leves de quadril para um lado e para o outro. O importante era o “cheek to cheek” – como dizia a letra de “The Lady in Red”, clássico das baladas românticas na voz de Chris de Burgh. Rostos colados, braços envoltos na cintura da garota, que se apoiava nos ombros de seu par. Na maioria das vezes, a dança durava apenas uma música; mas, se o casal se entendia, o prazo se estendia; falando perto do ouvido, era fácil ter um pouco mais de intimidade. Chegava a hora de sair do salão para conversar a sós e, quando havia final feliz, trocar uns beijos.

Era a geração dos filhos daqueles que foram hippies ou quase, os pós-discoteca, que sentiam a necessidade de um contato físico mais próximo, ainda que aquilo geralmente fosse coisa de uma noite só. Difícil que tudo passasse de uns beijos, mas certamente muitos casamentos se originaram exatamente nessas condições.

Foi uma geração exposta a estímulos muito diferentes dos que há hoje na convivência entre adolescentes. O mundo virtual, se facilitou tantas operações do dia a dia, ao mesmo tempo supriu indevida e incompletamente a necessidade da proximidade dos corpos, em qualquer faixa etária. Já não encaramos o caixa do banco, não passamos mais pelo cobrador da catraca do ônibus; em graus mais avançados da tecnologia, somos atendidos pelo médico via Skype e fazemos uma pós-graduação em uma sala online, com o professor expondo o conteúdo a alunos que estão espalhados em quartos e escritórios de seus apartamentos em todas as regiões do Brasil e do mundo.

Divulgação

Geração do Tinder

Essas mudanças vieram de forma súbita, repentina, como nunca havia ocorrido na história. Foi no intervalo de uma geração para outra. Um jovem de 25 anos não conhece o que era o mundo antes da internet; não tem ideia, por exemplo, de que a música antiga que escuta via Spotify um dia já foi a preferida de alguém que, no esforço de não perdê-la, remendou uma fita cassete com esmalte servindo de cola, depois de cortar aquele trecho que ficou “mordido” pelo radiogravador, também chamado de “microsystem”.

Por isso, é complicado explicar aos jovens que hoje frequentam as baladas sertanejas, as raves e os bailes proibidões como se dava, décadas atrás, o processo da abordagem de um eventual par. Os “ficantes” atuais têm, obviamente, outros métodos para chegar ao beijo e algo mais. Cada vez mais, não é mais preciso nem ir a um bar ou boate: são várias as opções de aplicativos para combinar encontros, como Tinder, Happn e outros.

Parafraseando Caetano Veloso, cada geração sabe a dor e a delícia de ser o que é e de passar pelo que passa. Se a geração do Tinder fosse submetida a estudos mais profundos que avaliassem algumas eventuais dificuldades por que passam, talvez, mais do que os beijos, os abraços que faltaram se revelariam algo essencial – fatal até, em alguns casos. Por isso, a sensação agradável ao formar juntinhos uma dupla dançando ao som de Air Supply, Chicago, Bon Jovi (sim, eles são “daquela” época) e outras bandas tinha a ver com alguma coisa além da melodia. Algo que era e é, mais do que físico, químico: o poder da ocitocina.

O corpo humano é uma fábrica de hormônios. Não é por outro fator que no decorrer de um dia nos sintamos melhor ou pior de acordo com as experiências que vamos vivenciando. Não por acaso, a ocitocina ganhou um título curioso e carinhoso: “hormônio do abraço”. Ela é gerada no hipotálamo, região central do cérebro. E como é produzida? As descobertas científicas trouxeram um dado interessante: um dos grandes estímulos para a liberação da ocitocina é exatamente o contato físico.

Não há forma de contato físico ao mesmo tempo tão intensa e tão viável como o abraço. Um beijo na boca pode demorar mais, mas não é aplicável a qualquer pessoa – a não ser em situações bem particulares e de determinadas culturas, não se pode beijar assim “qualquer um”. Já o abraço tem sempre caráter solidário e é praticamente universal. A figura no meio da praça carregando a placa “free hugs” (“abraços grátis”) – um movimento que se iniciou na Austrália, em 2004 – já é conhecida das grandes cidades. E qual era o objetivo da campanha de abraços? Apenas melhorar o dia das pessoas “abraçadas”. E, ironicamente, distribuir de graça algo que as energize durante a correria do dia em busca de ganhar a vida – ou correr atrás do prejuízo.

Chegamos à parte final do texto com uma questão a ser enfrentada com alguma reflexão: haveria no futuro adultos melhores, mais seguros, mais resolvidos, se, como crianças e adolescentes, tivessem sido envolvidos em mais contato físico com seus pais, familiares e amigos? Em uma antevisão um pouco mais ousada, demonstrações de carinho mais constantes poderiam evitar infelicidades, depressões e até crimes?

A morte de uma adolescente de 14 anos por um menino de 13 anos foi a mola propulsora desse texto. Isso foi uma tentativa surreal de buscar uma saída para o que já aconteceu de forma tão funesta e já não mais tem volta. Não nesse caso. Mas fica a sugestão de um método tão prático como cartesiano, uma forma a mais de medir a qualidade de vida: qual a quantidade de abraços em que cada pessoa se envolve durante um dia, uma semana, um mês? Estaria nisso uma chave simples para dias melhores, de culto à vida em vez de flerte com a morte? A química da ocitocina, mais do que qualquer aspecto melodramático em torno da questão, diz que abraços salvam. Um remédio barato, acessível e ao alcance de todos – ainda que não mais ao som das “lentinhas”.

Uma resposta para “Meu dia por um abraço: a humanidade sofre quando a ocitocina falta”

  1. Alícia U. disse:

    Uma matéria realmente comovente! Escrevi sobre o medicamento ocitocina recentemente, se quiser conferir: https://www.drentrega.com.br/bem-estar/dores-e-sintomas/ocitocina-tire-suas-duvidas-sobre-o-medicamento

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