Meio ambiente: saiba quais são as demandas e o que pretendem os candidatos de Goiânia

O novo prefeito, ou prefeita, de Goiânia terá o desafio de solucionar uma série de questões ambientais que há tempos afetam a capital

Delegada Adriana Accorsi, Elias Vaz, Maguito Vilela e Vanderlan Cardoso | Foto: Reprodução/Colagem

No final do mês de setembro deste ano, a Associação para a Recuperação e Conservação do Ambiente (Arca), entidade sem fins lucrativos fundada em 1978, em Brasília, e atuante em Goiânia desde 1980, publicou uma carta com 12 propostas direcionadas ao próximo prefeito, ou prefeita, de Goiânia. O documento, que ainda está na fase de envio aos candidatos ao Paço Municipal, tem como objetivo ampliar o debate acerca das principais demandas da capital no que se refere ao biossistema, assim como possíveis resoluções para elas.

Conforme a carta, assinada pelo corpo gestor da Arca, ao longo do tempo, prefeitos de Goiânia têm colocado os “parques, córregos, praças e bosques a serviço de grupos econômicos do mercado imobiliário ou simplesmente substituem as áreas de preservação por avenidas para abrir mais espaço para carros”. As propostas do documento, segundo a entidade, “não esgotam as necessidades da cidade”, mas se mostram como temas essenciais para o momento.

Ao Jornal Opção, o presidente da Arca, Gerson Arraes, conta que a ONG é composta por urbanistas, membros da Secretaria do Meio Ambiente e técnicos que, conforme Arraes, lidam com a questão ambiental diariamente. De acordo com Arraes, a equipe de especialistas se debruçou sobre as demandas existentes em Goiânia para, assim, formularem propostas viáveis para a aplicação pelo gestor da cidade.

“A gente reuniu tudo isso que já vínhamos trabalhando e resolvemos fazer essa carta com o objetivo de tentar puxar um pouco mais, fazer com que o tema do meio ambiente fique mais presente. Ele estando presente no debate eleitoral, vai refletir, depois, na gestão do próximo prefeito”, relata Arraes.

O presidente da Arca reclama que a questão ambiental ainda não tida como prioridade pela administração pública, mas destaca que todos os pontos levantados na carta são decisivos para a coexistência humana na capital de Goiás. “O aterro sanitária e reciclagem do lixo, a questão do abastecimento de água, da infraestrutura, de relação com as unidades de conservação, de todas elas depende o nosso futuro na cidade”, pontua.

Veja abaixo um resumo dos 12 pontos para o meio ambiente abordados pela Arca na carta aos candidatos à Prefeitura de Goiânia:

  1. Posição sobre a revisão do plano diretor e as propostas que estão sendo discutidas na Câmara;

Para a Arca, “é necessário que cada um dos candidatos se posicione em relação a ao que está acontecendo na Câmara Municipal de Goiânia na discussão do Plano Diretor de Goiânia, uma vez que a Câmara, de acordo com a entidade, teria falhado na condução do debate público do assunto.

  1. Abastecimento de água de Goiânia, vazão do Rio Meia Ponte e proteção da bacia do João Leite;

De acordo com a entidade, Goiânia sofre risco de desabastecimento de água por causa da perda de vazão de água nos Rios Meia Ponte e João Leite e a prefeitura é responsável pelo abastecimento, devendo liderar a busca por soluções. “Precisamos discutir a ampliação do Parque Estadual da Serra Dourada, onde está a bacia de recarga das primeiras nascentes do Meia Ponte, recuperar as matas ciliares de toda a sua bacia hidrográfica do Meia Ponte e seus afluentes, fiscalizar a retirada clandestina de água e suspender as outorgas para irrigação”, diz a carta

  1. Acompanhamento do Aterro Sanitário e política de reciclagem do lixo;

Neste tópico, a Arca pede que a Prefeitura de Goiânia dê “início imediato ao Processo de Licenciamento Ambiental do Aterro Sanitário junto ao órgão ambiental estadual que está atrasado em 10 anos”, junto com a necessidade de um projeto de expansão do Aterro e elaborar e implantar um Plano de Monitoramento Ambiental regular em toda a área.

  1. Despoluição do Rio Meia Ponte e reflorestamento e urbanização do seu trecho urbano em Goiânia;

Para a Arca, “é urgente despoluir completamente o Rio Meia Ponte” e também “reflorestar as matas ciliares dentro da cidade e criar um imenso parque linear com equipamentos públicos receptivos abrindo novos espaços de convivência e lazer em estreita relação com a natureza”.

  1. Posição em relação a Operação Urbana Consorciada do Jardim Botânico e prolongamento da Marginal Botafogo;

A entidade diz, neste tópico, que o projeto de Operação Urbana Consorciada na região do Jardim Botânico tira “os pobres para abrir espaço para ricos”. “A construção de prédios em fundos de vale é imoral e ilegal e não deve ser tolerada”, critica.

  1. Posição em relação à obra de duplicação da Rua da Divisa no Setor Jaó;

De acordo com a Arca, a duplicação da Rua da Divisa, no Jaó, “destrói a nascente do Córrego Jaó, desrespeitando mais um dos nossos cursos d’água”.

Gerson Arraes, presidente da Arca | Foto: Arquivo pessoal

  1. Plano de adaptação às mudanças climáticas;

Neste ponto, a Arca afirma que a prefeitura tem a tarefa de instituir um grupo técnico capacitado para “inventariar os gases de efeito estufa no mínimo a cada dois anos, elaborar um Plano de Riscos e Vulnerabilidades Climáticas e por fim, elaborar e implantar uma Política de Adaptação Climática”.

  1. Política pública de arborização urbana e plano de manejo de arborização;

A entidade destaca a necessidade de “arborizar intensivamente a cidade”. Segundo ela, para isso, é necessária uma política de reprodução intensiva de mudas, cooperação e participação da Comurg no plantio e na manutenção das árvores plantadas em parceria com a população das localidades para que todos protejam as árvores.

  1. Posição em relação à proposta de expansão urbana apresentada na Câmara;

Para a Arca, a emenda que havia sido proposta na Câmara “para abrir a expansão urbana para gerar mais lotes vazios pra cidade é um crime” contra o município. “Precisamos que todos os candidatos se posicionem quanto a esse absurdo que inviabilizará a cidade”, diz o tópico.

  1. Posição em relação ao adensamento sem controle da cidade, especialmente dos Setores Sul, Marista e Jaó;

A Arca alega, neste ponto, que a proposta da consultoria contratada pela Câmara “ignora a pressão do adensamento sobre a infraestrutura, provocando um problema difícil de resolver”. Para a ONG, “existe um consenso na nossa sociedade de que prédios muito altos prejudicam a qualidade de vida dos vizinhos e afeta nosso direito a qualidade de vida”.

  1. Infraestrutura dos espaços públicos, calçadas e acessibilidade;

A ONG relata que Goiânia está perdendo seus espaços públicos para a iniciativa privada e que os espaços públicos que restam em Goiânia “têm manutenção precária”. “Praças, parques, pontos de ônibus, calçadas, muitos espaços que deveriam garantir a democracia do acesso, acessibilidade, segurança e conforto são verdadeiros obstáculos”, critica.

  1. Unidades de Conservação;

Neste último tópico, a Arca defende que a prefeitura deve proteger topos de morros, montes, montanhas e serras com altura mínima de 50 metros e mais de 30% de declividade e manter o Morro do Além como Área de Preservação Permanente. “Os parques da cidade devem ser instrumentos de política pública para servir ao cidadão, oferecer lazer, contato com a natureza e possuir atrativos para os visitantes”, finaliza.

De acordo com Gerson Arraes, há ainda um 13º ponto que não foi acrescentado ao texto original uma vez que ele já havia sido entregue para um parte dos candidatos, que é a criação de uma política pública voltada para o combate a incêndios dentro de áreas de preservação e áreas privadas.

O que pensam os candidatos

O Jornal Opção analisou as propostas para o Meio Ambiente apresentadas pelos 4 candidatos à Prefeitura de Goiânia que aparecem mais bem colocados nas pesquisas – Vanderlan Cardoso (PSD), Maguito Vilela (MDB), Delegada Adriana Accorsi (PT) e Elias Vaz (PSB) – e comparou com os pontos levantados pela Arca.

Confira abaixo:

– Adriana Accorsi

A deputada estadual e candidata Delegada Adriana Accorsi apresentou uma ampla gama de propostas para o meio ambiente. Conforme sugerido pela Arca, Accorsi pretende, se eleita, ampliar a arborização em Goiânia e substituir árvores já comprometidas pelo tempo por espécies nativas do Cerrado.

A candidata também tem como plano a conclusão do Projeto Macambira-Anicuns e voltar a atenção para os cuidados com os demais córregos que drenam a cidade, “além de trabalhar para a construção do Parque Linear do Palmito, reivindicação antiga da região, e trabalhar para a recuperação dos fundos de vales e também das nascentes, sempre com a participação das Universidades e sociedade, são parte de nossos compromissos”.

Accorsi também se manifestou pelo desenvolvimento de um plano de drenagem, coordenado pela Agência de Regulação do município, “de modo a estabelecer um programa de retenção e infiltração de águas de chuvas, como construir valas de infiltração nas ilhas das avenidas da cidade, asfaltos e calçadas permeáveis, construir poço de infiltração para alimentação do lençol freático, é um dos nossos compromissos para reduzir os efeitos da crescente impermeabilização do solo”.

Delegada Adriana Accorsi | Foto: Alego

– Elias Vaz

Assim como a Delegada Adriana Accorsi, o plantio de árvores é uma das propostas de Elias Vaz. O candidato do PSB também pretende a estruturação de bosques e parques, juntamente com o reforço do trabalho de jardinagem nas praças.

Vaz também menciona a intenção de implementar o aperfeiçoamento da política de vigilância em saúde ambiental, “de forma a integrar as das áreas responsáveis pelo Meio Ambiente e a Saúde tendo como fio condutor a promoção da saúde integral da população”.

Além disso, o candidato destaca a necessidade de “preciso repensar práticas, nos municípios, que promovam a revisão dos padrões de consumo, da relação com o meio ambiente”, o que se enquadraria no item 7 da carta apresentada pela Arca.

Elias Vaz | Foto: Divulgação

– Maguito Vilela

Entre as propostas para o meio ambiente do emedebista Maguito Vilela, está o compromisso com a adoção de políticas públicas que garantam a sustentabilidade ambiental, “até por entender que não existe desenvolvimento real sem a preservação do nosso meio ambiente”.

Se eleito, Maguito também pretende atualizar o plano de arborização da cidade, de forma a ampliar o plantio de espécies adequadas e “atenuar os efeitos no clima e na drenagem urbana causados pelo adensamento da cidade”.

Atendendo os itens 1, 2 e 4 da carta de propostas de Arca, Vilela pretende implementar uma gestão dos mananciais e seu entorno que enseje numa parceria entre Estado e município, junto com a implantação do Centro de Tratamento de Resíduos de Goiânia, com tecnologia que faça reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos sólidos com aproveitamento energético.

Vilela também pretende realizar a implantação de núcleos de educação ambiental, EcoBrinquedotecas (montagem de brinquedos a partir de materiais recicláveis), nos espaços públicos para disseminação de práticas sustentáveis, em parceria com o terceiro setor.

Quanto ao Plano Diretor, o candidato aprovou a medida da Prefeitura e da Câmara de deixar a discussão para o próximo ano, uma vez que, segundo ele, as propostas passam pelo projeto.

Maguito Vilela | Foto: Reprodução

– Vanderlan Cardoso

As propostas para o meio ambiente apresentadas pelo senador e candidato do PSD, Vanderlan Cardoso, estão entre as que mais atendem aos pontos levantados pela Arca. Cardoso pretende integrar o Plano Municipal de Saneamento Básico ao recém-aprovado Plano Nacional de Saneamento Básico, “com o intuito melhorar a infraestrutura e instalações de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos e drenagem de águas pluviais urbanas”.

O candidato também manifestou intenção de atualizar o Plano Diretor de Drenagem Urbana, “em função da intensificação das ocorrências de alagamentos e inundações, processos erosivos e assoreamento do leito dos cursos d’água, o que afeta diretamente a qualidade das águas e o ciclo hidrológico do município de Goiânia, desenvolvendo ações preventivas para evitar o estresse hídrico no município de Goiânia”.

Além disso, Cardoso tem entre suas propostas o desenvolvimento do Projeto Índice da Qualidade do Ar – IQAR, “devido ao crescente aumento das concentrações de substâncias contaminantes no meio aéreo, sua deposição no solo, nos vegetais e nos materiais acarretam danos à saúde humana, reduzem a produção agrícola e de uma forma geral e promovem um desequilíbrio nos ecossistemas”.

Quanto a um departamento voltado para o meio ambiente e também quanto à reciclagem de lixo, o candidato disse que pretende criar o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Goiânia (IPPUG) com atribuições de coordenar, orientar, instituir e monitorar o processo de planejamento, além de implantar pontos de apoio de coleta seletiva de lixo, realizando a separação adequada dos resíduos e dando a sua destinação final correta.

Vanderlan Cardoso | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Especialista destaca pontos de urgência para o meio ambiente em Goiânia

Para o engenheiro ambiental Murillo Dorighello, há pontos urgentes na capital que precisam ser trabalhados pelo vencedor das eleições municipais. Um deles, conforme o engenheiro, é a área de resíduos sólidos, uma vez que o aterro sanitário já estaria saturado e sem espaço para mais lixo.

De acordo com o engenheiro, o emprego de tecnologias com o objetivo de gerar energia limpa através do lixo seria uma forma de reduzir o “passivo ambiental, que é o aterro sanitário”. “Deveria viabilizar uma nova área para o aterro sanitário e, ao mesmo tempo, fazer a reciclagem desse lixo do aterro, o coprocessamento, geração de energia elétrica através do lixo e também aproveitamento do biogás pra geração de energia elétrica”, avalia Dorighello.

A questão hídrica, para o engenheiro, é outro tema que precisa ganhar a atenção do novo prefeito de Goiânia. Dorighello se refere às bacias do rio Meia Ponte e João Leite como importantíssimas para o abastecimento de água para Goiânia e diz que esse é um ponto que deve ser trabalhado pelo Estado em conjunto com a prefeitura. “A prefeitura [de Goiânia] pode entrar fazendo a doação de mudas, também com o plantio na Região Metropolitana”, diz.

Em relação à preservação ambiental, Dorighello diz ser necessário um programa direcionado para as Áreas de Preservação Permanente (APPs) dos principais córregos, como o Ribeirão Anicuns, João Leite, Cascavel e Botafogo. “Esses mananciais precisam de uma revitalização nas suas margens. [É preciso] um programa consistente e executar para a melhoria das APPs”, conclui.

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