‘Marias’ Malheiros: A goiana francesa que passou a vida na clandestinidade

Perseguida política que mais tempo viveu de forma clandestina construiu sua história na militância e ousadia

Maria José em documentário da Rede TVT | Foto: Reprodução/Rede TVT

No dia 24 de outubro de 2013, mais de 30 anos após a publicação da Lei da Anistia de 1979, a goianiense Maria José Malheiros, nascida Maria Neide de Araújo Moraes, foi absolvida pelo Estado brasileiro pelos apontados crimes políticos cometidos ao longo do período da ditadura militar. O fato marcou um novo começo para uma mulher que, ao longo de uma vida toda sustentada na clandestinidade, adotou diferentes nomes, histórias e endereços que a fizessem escapar do mesmo destino de muitos dos seus amigos: a prisão, a tortura e a morte.

A história de Maria José, hoje com 69 anos, foi resgata pelo escritor e jornalista Emiliano José num livro lançado em 2017, intitulado “A Última Clandestina em Paris e Outras Histórias”, que acabou por dar origem ao documentário “A Última Clandestina”, produzido pela Rede TVT. A obra audiovisual, disponível no YouTube, narra a jornada de Maria Neide, Mariana, Maria José Novaes e Maria José Malheiros, quatro diferentes nomes para uma só pessoa, por Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Paris, na França, para militar e sobreviver à ditadura que assolou o Brasil por 21 anos.

A militância de Maria José começou cedo, logo após o golpe de 1964, e se intensificou com o ingresso da então jovem de 17 anos, em 1967, na antiga Escola Goiana de Belas Artes, hoje Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (UFG). Maria José passou a militar pelo movimento de esquerda Ação Popular (AP) ao mesmo tempo em que seu trabalho como chargista ganhava destaque.

Charge feita por Maria José, na época em que estava no O Popular | Foto: Reprodução/Rede TVT

Por indicação de um professor, a jovem Maria José foi contratada pelo jornal O Popular, onde publicava charges de conteúdo social e político e aperfeiçoava sua arte, ao mesmo tempo em que se mantinha ativa na militância estudantil na Escola de Belas Artes. No entanto, com o Ato Institucional Nº5 de 1968, o AI-5, a repressão ganhou contornos mais densos e rígidos e a chargista sentiu os efeitos na pele.

No documentário, Maria José narra que, no prazo aproximado de apenas três meses, foi expulsa da Escola de Belas Artes por seu envolvimento no movimento estudantil e também foi demitida do jornal O Popular. Os tons críticos de suas charges acabaram por lhe render consequências e o cerco se fechava.

A repressão chegou diretamente em Maria José quando foi detida por conta de um ato de pichação na Escola de Belas Artes, considerado pela ditadura como “subversivo”. Porém, a chargista não havia se envolvido no ato e tampouco sabia quem havia participado dele. No documentário, a mulher se lembra quando foi interrogada e até induzida a cometer suicídio.

“Fui interrogada de pé. Eles me colocaram ao lado de uma janela, era grande e baixa […]. Eles diziam: ‘Se você quiser pular, você pode. É a única maneira de você sair daqui”, se recorda na obra “A Última Clandestina”. Resistente, Maria José não cedeu à pressão e tampouco continuou presa.

A Mariana

Com a expulsão da Escola de Belas Artes e a demissão do O Popular, as portas estavam fechadas para Maria José em Goiânia. Foi quando, já no início da década de 1970, ela decidiu rumar para São Paulo. Lá, a militante assumiu o nome de Mariana. Segundo ela, o nome tinha origem num personagem de Jorge Amado, da trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade”.

Maria José, agora Mariana, militava pelo partido no movimento metalúrgico ao lado de outra goianiense chamada Aparecida. Porém, Mariana logo foi transferida para o movimento bancário. No documentário, ela recorda de um momento marcante quando operava como caixa de uma unidade bancária, em que teve que negligenciar, propositalmente, assinaturas falsas de cheques para que os companheiros do movimento, já na clandestinidade pudessem descontá-los sem serem pegos.

A ação foi bem-sucedida, mas Mariana teve de ficar alguns dias em Goiânia por segurança. Pouco tempo depois, todos os envolvidos no movimento bancário foram presos, com exceção da militante.

Mariana precisou se esconder por vários dias, nos quais dormia em diferentes endereços e evitava exposições públicas. Até que, por ordem do partido, rumou para o Rio de Janeiro, onde deixou a Ação Popular e se aproximou do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

A Maria José Novaes

No Rio de Janeiro, já dentro da militância do PCdoB, Mariana recebeu a missão de ir à Bahia dar a notícia do falecimento de um companheiro de militância à viúva. A militante sabia que tanto seu verdadeiro nome, Maria Neide, quanto seu codinome, Mariana, não eram mais seguros. Decidiu destruir todos os documentos e quaisquer resquícios que a ligassem à sua vida em Goiânia e São Paulo.

A jovem, então, perdeu todo e qualquer contato com a família. Em Vitória da Conquista, na Bahia, em contato com o dirigente sindical e camponês José Novaes, foi “adotada” por ele e registrada como sua filha no cartório. A partir daquele momento, Mariana, antes Maria Neide, passava a se chamar Maria José Novaes.

No documentário da Rede TVT, Maria José conta que a família de José Novaes só tomou ciência do acontecimento décadas mais tarde, já na época da anistia.

A Maria José Malheiros

Já no ano de 1973, Heládio, militante da AP que havia sido preso durante a ação bancária, em São Paulo, e amante de Maria José, vai para a Bahia ao encontro da amada. A determinação do PCdoB havia sido expressa: os dois não poderiam ficar juntos. Como a ordem acabou por não ser acatada, a direção do partido determinou que Maria José e Heládio deixassem o Brasil e fossem para o Chile para extinguir o risco de serem presos e exporem as estruturas da ação revolucionária.

No entanto, o casal novamente se rebelou e ficou em Salvador, fato esse que, inclusive, salvou Maria José de ser presa no Chile, uma vez que foi o ano da queda de Salvador Allende e da implantação da ditadura de Pinochet. No entanto, Maria José passou a ser clandestina para o Estado e para seu partido.

Mais uma vez, seu atual nome a deixava em exposição. Foi quando Maria José, depois de quase três anos, entrou em contato com sua mãe e explicou a situação. A solução veio com o registro de um nome, o terceiro: Maria José Malheiros.

Em Salvador, a militante conseguiu ingressar, se formar na faculdade de Arquitetura e Urbanismo e também teve seu primeiro filho: Pablo. Em 1979, veio a Lei da Anistia, mas o PCdoB fez um último pedido, acatado por Maria José: não retomar seu nome de batismo.

A “clandestina” na França

No início da década de 1980, Maria José, ainda Malheiros, decidiu deixar o Brasil e ir para Paris, na França. Lá, reconstruiu sua vida: conheceu seu segundo marido, adquiriu nacionalidade francesa, fez mestrado e doutorado em Urbanismo.

A partir de 2009, Maria José passou a ocupar o cargo de chefe da missão territorial na Délégation générale à Paris Métropole et aux coopérations territoriale. Trabalhou na Prefeitura de Dourdan na revisão do Plano de Ocupação do Solo, em projetos de espaços públicos e no Instituto de Urbanismo de Paris. Hoje, é servidora da prefeitura da capital francesa.

Maria José Malheiros foi anistiada em 2013 | Foto: Reprodução/Rede TVT

Em 2011, decidida a se livrar do peso da clandestinidade, Maria José entra com um pedido de anistia. O presidente da Comissão da Anistia, Paulo Abrão, explica que demorou a convencê-la a confiar na resposta que o Estado daria a ela.

A resposta do Estado veio em 2013, com um fato inédito: além de anistiá-la, a Comissão deu a Maria José Malheiros, chargista, militante, revolucionária, doutora, francesa e goiana o direito de permanecer com o nome atual, adquirido durante o período da clandestinidade.

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