Macaco Trump virou o dono da sala oval. E agora?

A questão que se põe neste momento é: até onde pode ir Trump dentro da máquina de moer que é o establishment norte-americano?

Manifestantes protestam em Nova York no dia da posse de Donald Trump como presidente dos EUA | Foto: Darren Ornitz/Reuters

Elder Dias

Reunião familiar, todos muito à vontade. A ponto de o policial da casa deixar uma pistola automática displicentemente em cima da mesa. De repente, um macaco invade a casa e pega a arma. O que vai fazer? O animal eu não sei, mas os demais presentes terão o pânico como certo e arranjarão uma forma de se proteger desesperadamente. Foi essa a primeira imagem que me veio a cabeça quando houve a confirmação do resultado das eleições norte-americanas: Donald Trump havia surpreendentemente vencido a favorita Hillary Clinton e seria o novo presidente dos Estados Unidos.

Não tinha como ser diferente para mim, haja vista uma pesquisa trivial a respeito do perfil traçado pelo ghost writer Tony Schwarz na autobiografia do magnata, no primeiro semestre de 2016. A partir daí, uma matéria com o jornalista, publicada pela revista “New Yorker”, serviu como base para um artigo que publiquei no fim de julho do ano passado, na coluna “Imprensa” (Jornal Opção 2143). Nele, a reprodução dos alertas do verdadeiro autor de “The Art of the Deal” – Trump garante que foi ele próprio, apesar de ter um relacionamento bem pouco íntimo com a leitura –, o best-seller que catapultou Trump à fama e que, em português (nunca foi traduzido), seria algo como “A Arte da Negociação”.

O jornalista havia passado 18 meses junto de Trump para escrever o livro, que ele hoje rebatizaria, segundo suas próprias palavras, como “The Sociopath” (“O Sociopata”, em inglês). Falando até mesmo em “perigo nuclear”, Schwarz dizia, à época, que o mundo não poderia ficar à mercê de alguém que não tem escrúpulos e não consegue se concentrar em nada. E o óbvio: que ninguém conhecia mais o risco chamado Donald Trump do que ele mesmo.

A figura descrita por Schwarz foi corroborada pelo que se viu na campanha eleitoral. Foram vários os insultos e grosserias, além de ideias estapafúrdias levadas adiante, como a do muro para separar totalmente o México dos Estados Unidos – com a conta enviada para os latinos pagarem(!). Mas os americanos, talvez por monotonia no quadro político, compraram a ideia dos extremismos de Trump – hoje, sabe-se, isso se deu com uma forcinha de hackers russos e vazamentos de e-mails comprometedores à imagem da adversária Hillary Clinton.

O fato é que nesta sexta-feira, 20, subiu ao comando do mundo, para suceder o democrata Barack Obama, não um republicano qualquer, talvez nem mesmo um republicano, mas um sujeito com distúrbios narcísicos e um ego maior do que a própria capacidade de entender o mundo. A ponto de considerar com seus próprios botões de ouro, certamente, que o planeta não merece continuar a existir depois de sua injusta, embora inevitável, partida deste mundo.

Não é que falte empatia a Trump; nem que lhe falte bom senso; falta-lhe qualquer senso. A não ser que o personagem que fez campanha, que foi eleito e que escolheu sua assessoria seja apenas isso (um personagem), o país mais poderoso do mundo está nas mãos de alguém que enxerga tudo que o cerca como seus bibelôs. Afinal, se o dinheiro não aceita insultos, muito menos quem o controla.

É difícil estabelecer em quantas décadas de regresso, em termos de humanismo, se fixa a chegada de Donald Trump ao poder. O fato é que esse tipo de discurso nem passou perto dos ocupantes da Casa Branca. A justificativa é de que o novo presidente seria “autêntico” – o mesmo adjetivo dado a outras personalidades radicais, como Jean-Marie Le Pen e Jair Bolsonaro. Como se autenticidade fosse salvo-conduto para destratar estrangeiros, discriminar negros e rebaixar mulheres.

A questão que se põe é: até onde pode ir Trump dentro da máquina de moer que é o establishment norte-americano? A burocracia lhe soprará favoravelmente, ou pelo menos de modo neutro? Seu staff, questionável interna e externamente, fará a roda do governo de fato “girar”?

Fazer a América grande novamente, como prometeu em seu lema de campanha, depende muito além de declarações verborrágicas: é preciso dar os passos certos e, mesmo assim, contar com fatores convenientes em seu favor. Ou seja, como apenas um dos exemplos possíveis, não basta criticar os alemães por roubarem empregos de seus compatriotas por exportarem automóveis para os Estados Unidos; é preciso fazer automóveis melhores do que eles e convencer o mercado dessa nova verdade. Que quantidade de paciência terá o desconectado Trump para fatos que não pode controlar como em um comando de reality show?

Por último, o novo presidente dos EUA é um sujeito que não crê em aquecimento global. Mesmo que o planeta bata recordes sucessivos de aumento da temperatura e que as calotas polares derretam, para o megaempresário é uma “verdade conveniente” – Al Gore perdoe e compreenda o trocadilho – que a causa ambiental seja ignorada. Maiores poluidores do planeta, os Estados Unidos, com Obama à frente, e o governo chinês fecharam acordos importantes para a redução de emissão de gases. Para Trump, tudo isso é “bullshit” – em bom português, “cascata”, bobagem.

Trump começa seu mandato como quem já estivesse no fim dele: desgaste com a imprensa desde o início da campanha, desacerto com seus próprios pares (melhor seria dizer “ímpares”) no Partido Republicano e alta desaprovação popular. E recebe, das mãos de seu antecessor, um país “redondo”, sem escândalos políticos e com a economia recuperada e estabilizada.

O site Buzzfeed, que provoca o magnata desde o lançamento de sua candidatura, já criou e jogou no ar um cronômetro regressivo para o fim de seu mandato. A população da capital, Washington, e de Nova York, redutos de seus opositores, promete não lhe dar descanso. Resta saber, também: até onde quem se opõe ao número 1 do País terá fôlego para esse gasto de energia? Será uma guerra fria endógena, que pode ser abafada ou agravada. E isso sempre vai depender muito de quem a protagoniza. Lá, tomando conta da Sala Oval da Casa Branca, resta a Trump provar não ser o macaco da alegoria inicial.

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