Lulopetismo jogou a República no chão

Derrocada moral do partido que ganhou o poder há 13 anos empobrece até a noção de cidadania dos brasileiros

Lula com faixa presidencial ao lado de FHC: esperança frustrada pela corrupção e incompetência do lulopetismo

Lula com faixa presidencial ao lado de FHC: esperança frustrada pela corrupção e incompetência do lulopetismo

Cezar Santos

O PT venceu a eleição presidencial pela primeira vez em 2002, depois de várias derrotas, e Luiz Inácio Lula da Silva subiu a rampa do Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2003, para receber a faixa presidencial das mãos de Fernando Henrique Cardoso. O PT era então o portador de uma mensagem de esperança e nova prática política.

Mas o que ocorreu na verdade é que a partir daí, o PT tratou de destroçar o sonho de milhões de brasileiros que acreditaram nessa utopia. Utopia que o Lula disse na semana passada que seu partido perdeu. Hoje, o PT é protagonista dos maiores escândalos de corrupção de que se tem notícia desde a redemocratização.

Próceres da sigla foram condenados no mensalão, o esquema de compra de apoio de parlamentares para votar medidas de interesse do governo na primeira gestão de Lula. Outros estão sob suspeita com evidências inquestionáveis de culpa no monumental esquema de corrupção que assaltou a Petrobrás e que está sob investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

E agora, se sabe — se é que alguém tinha alguma dúvida — que o maior nome da legenda, o mesmo Lula da Silva, presidente de honra do partido, foi um dos grandes beneficiários do assalto à empresa petroleira nacional, com o instituto que leva seu nome recebendo generosas doações de empreiteiras envolvidas no escândalo. Não é por acaso que o ex-presidente disse há alguns dias que é o próximo alvo da operação Lava Jato, referindo-se à possibilidade de ser preso, como já foram vários enrolados no esbulho da Petrobrás.

Cientista político Paulo Kramer: “Lulopetismo foi tremendo conto do vigário” | Glaucio Dettmar

Cientista político Paulo Kramer: “Lulopetismo foi tremendo conto do vigário” | Glaucio Dettmar

O petismo, que tinha certa aura romântica, com o tempo e o exercício do poder exacerbado pelo instituto da reeleição, que deu ao partido quatro mandatos consecutivos, caiu no que se chama lulismo ou lulopetismo, que tem vida, pensamento e autonomia em relação ao partido. O objetivo maior dos lulopetistas é manter-se no poder, a qualquer custo, custe o que custar, pois assim continuam tendo acesso ao dinheiro fácil que o poder possibilita.

O resultado do lulopetismo em 13 anos de poder está aí. A economia brasileira já quase destroçada, inflação subindo, desemprego aumentando, contas públicas maquiadas, famílias endividadas como nunca. E talvez o que seja pior, a corrupção praticamente foi institucionalizada como instrumento de governo. O Brasil há muito passou a ser motivo de piada entre analistas no exterior, onde é visto como um país de corruptos.

Diante desse quadro fica a pergunta: o lulopetismo jogou a República brasileira no chão?
Profissional da análise de cenários políticos e econômicos, o cientista político e doutor pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), professor licenciado do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB), Paulo Kramer, é acido na resposta.

Ele diz que falar que o lulopetistmo jogou a República no chão é generosidade e eufemismo.
Segundo Kramer, o lulopetismo fez com a República um palavrão que não convém escrever num jornal de família. “Para classificar o que foi feito no Brasil nos últimos anos só usando um linguajar chulo e forte, porém totalmente aplicável nesse caso. O lulopetismo acentuou e levou às últimas consequências traços negativos da nossa cultura e instituições políticas. Esses traços negativos, é bom que se diga, não foram invenção dele, mas ele conseguiu piorá-los substancialmente.”

Segundo Kramer, o patrimonialismo na era PT foi exacerbado, sob o disfarce daquilo que o jornalista Reinaldo Azevedo chamou de roubo social — eu roubo, mas não estou roubando pra mim, estou roubando para o povo brasileiro, já que o partido se identifica totalmente com o povo brasileiro, no raciocínio torto dos petistas. “Isso se tornou a tônica na política brasileira nos últimos anos, mormente na última década infeliz do lulopetismo.”

Paulo Kramer diz que a história mostra que o lulopetismo foi, na verdade, um tremendo conto do vigário, porque vendeu uma coisa e entregou outra; vendeu moralidade e ética na política, e entregou corrupção e aparelhamento da máquina pública.

Para o cientista político, o mais grave é que pelo fato de ter um nível médio tão baixo, a população acreditou nessas histórias da carochinha. E, em última análise, o culpado disso é o próprio eleitor. “E aí, vale aquele ditado, cruel, mas verdadeiro: cada povo tem o governo que merece. O Brasil mostrou que faz jus a essa porcaria de governo que está aí.”

O Brasil invertebrado e o Brasil negativado

Por ocasião das manifestações populares em 2013, o professor titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Reinaldo Gonçalves, autor de um livro que disseca bem o lulopetismo no aspecto da política econômica (“Desenvolvimento às Avessas. Verdade, má-fé e ilusão no atual modelo brasileiro de desenvolvimento” – Rio de Janeiro: LTC, 2013), concedeu uma interessante entrevista em que define de forma precisa o que se passou nos últimos 13 anos.

Gonçalves disse que as políticas implantadas pelos governos Lula e Dilma se inserem no contexto do que ele denomina como Modelo Liberal Periférico. Na entrevista ele abordou também o aspecto ético desse período, como se lê nos trechos escolhidos, em resposta à pergunta Em que medida as manifestações são, também, uma crítica à gestão do PT nos últimos dez anos?

“A atual crise também é consequência do surgimento de três fenômenos nos dois governos petistas: o Brasil Invertebrado e o Brasil Negativado. O Brasil Invertebrado caracteriza-se pelo fato de que os grupos dirigentes têm sido capazes de cooptar a grande maioria das organizações sociais, sindicais, estudantis e patronais. Grupos sociais não organizados, assim como movimentos sociais de maior envergadura, também são neutralizados por meio de políticas clientelistas.

“O Brasil Negativado, por seu turno, expressa a deterioração das condições econômicas e abarca o país, o governo, as empresas e as famílias. As finanças públicas se caracterizam por significativos desequilíbrios de fluxos e estoques, além, naturalmente, dos problemas epidêmicos de déficit de governança e superávit de corrupção. O aumento da dívida das empresas e famílias tem causado crescimento significativo da inadimplência. O aumento da negatividade é resultado da política de crédito fortemente expansionista no contexto de taxas de juros absurdas, fraco crescimento da renda, inoperância da atividade fiscalizadora e abuso de poder econômico por parte dos sistemas bancário e financeiro. Milhões de pessoas (pobres e classe média) estão perdendo o sono diariamente porque estão negativados, não conseguem pagar suas dívidas. E isto causa sofrimento e revolta.

“Por fim, vale destacar que a eleição de Lula expressou a vontade popular de transformações estruturais e de ruptura com a herança do governo FHC. Entretanto, o transformismo dos grupos dirigentes do PT gerou grande frustração. O social-liberalismo corrompido só se consolidou visto que sustentado por transferências e políticas clientelistas e assistencialistas. Depois de 10 anos de governo há a falência do PT, que tem sido absolutamente incapaz de realizar mudanças estruturais no país. Só houve a consolidação do Modelo Liberal Periférico (que reúne o que há de pior no liberalismo e na periferia) e a manutenção da trajetória de Desenvolvimento às Avessas. O transformismo petista gera frustração e revolta.

“O Brasil Invertebrado, o Brasil Negativado e o transformismo do PT agravam os problemas econômicos, sociais, éticos, políticos e institucionais, comprometem a capacidade de desenvolvimento do país e geram frustração, sofrimento e revolta. Portanto, os governos petistas são os principais responsáveis pela crise atual.”

3 respostas para “Lulopetismo jogou a República no chão”

  1. Avatar Eurânio Batista Alves Batista disse:

    O Lula sujou de lama a Faixa Presidencial e a Dilma sujou de B. Quem ganhar a eleição em 2018 vai ter que desinfetar a Faixa para não contaminar o próximo que assumir.

  2. Avatar Manuel Ferreira disse:

    Este sentimento de frustração é compartilhado por muitas pessoas. Pois, há 15 anos todos tinham o PT no coração, como símbolo de esperança e transformação… mas, de lá para cá, corrupção atrás de corrupção, escândalo atrás de escândalo. Infelizmente, foi uma grande frustração.

  3. Avatar Caio Maior disse:

    Cezar Santos foi direto ao ponto. No já distante ano de 2006 o “mensalão” escancarou para o Brasil e o mundo a face oculta do PT. Mas ainda assim a maioria dos eleitores brasileiros preferiu fechar os olhos diante da realidade. À época parecia óbvio que o “discurso ético” era somente um disfarce para ocultar práticas escabrosas. Com a comprovação dos sucessivos escândalos quem votou – e ainda vota – nesses “companheiros” deve explicações à consciência. Se é que a possui. Caberia aos demais políticos (de todos os partidos) que não se envolveram nessa teia tratar os envolvidos na trama do “petrolão” com o mesmo rigor utilizado contra a gang de PC Farias e seu líder. Aparentemente isso não vai acontecer. Falta coragem ou isenção?

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