João Paulo Teixeira

Especial para o Jornal Opção

Li Joseph Campbell (1904-1987) na adolescência e adorei aquilo de primeira. Era um livro grande, capa preta, cheio de ilustrações, fotos, esculturas. Trata-se de “O Herói de Mil Faces” (Palas Athena, 448 páginas), de 1949. Além da editoração, gostei bastante porque Campbell fazia uma mistura que, para um jovem, parecia quase impossível: de repente “Star Wars”, Moisés abrindo o Mar Vermelho e o rei Davi sofrendo seus perrengues antes de derrubar um gigante com uma funda — que na minha cabeça de menino era simplesmente um estilingue.

Luke Skywalker, Moisés e Davi evidentemente não eram o mesmo personagem, mas havia alguma coisa familiar entre eles. Todos precisavam sair de algum lugar, enfrentar o desconhecido, atravessar provações, encontrar inimigos maiores do que eles e, de alguma maneira, sobreviver, aprender, prosperar e saírem maiores dos desafios que relutaram em entrar.

Uma das ideias mais fascinantes do mitolólogo e escritor Joseph John Campbell: mudamos os nomes, as roupas, os deuses, os monstros e até os planetas, mas continuamos contando algumas histórias muito parecidas

Anos depois, reencontrei Campbell onde talvez menos esperasse: na política brasileira. E foi o antropólogo, psicólogo e filósofo  Jorge Cordeiro quem me fez voltar a ele ao colocar a jornada do herói no centro de sua leitura sobre a construção visual de Jair Bolsonaro.

Joseph Campbell capa de O herói de Mil Faces

Outro herói improvável. Descobri que o soldado Bolsonaro, mais tarde capitão, correu atrás do capitão Carlos Lamarca, um dos velhos vilões comunistas, quando era jovem nas matas do Vale do Ribeira, e que é filho de um dentista prático que fazia o filho pescar e buscar maracujás no mato para ajudar no sustento da família.

O livro de Jorge Cordeiro resulta de uma pesquisa para dissertação de mestrado apresentada na Universidade Federal de Goiás (UFG). Por isso, tem dezenas de referências teóricas, o que faz a obra ser bem assentada. Tem um bom alicerce, como é tipicamente exigido de um bolsista.

Pesquisador gabaritado, principalmente na área qualitativa, Jorge Cordeiro mescla a vida do ex-presidente Bolsonaro com a jornada do herói e a complementa com Chistopher Vogler, roteirista da Disney, para usar a figura de super-herói dos quadrinhos e dos filmes de super humanos para construir uma imagem firme, sólida, que iria impedir o país de cair nas mãos do comunismo, como aconteceu com a vizinha Venezuela. 

A camisa da seleção, a continência, a bandeira, a motocicleta, o corpo cercado pela multidão, o discurso improvisado, a linguagem simples, a mesa sem formalidade: tudo isso junto cria narrativa que vira identidade

Como sabemos, toda eleição precisa de votos, mas algumas precisam também de um personagem. E em certos momentos,  personagem deixa de ser apenas um candidato para assumir alguma coisa maior, quase mítica.

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Jorge Cordeiro e seu livro que busca entender o fenômeno Bolsonaro | Foto: Divulgação

Foi exatamente isso que aconteceu com Bolsonaro em 2018, quando Lula da Silva, preso por corrupção, tentou transferir, sem sucesso, sua imagem de sindicalista para o pupilo Fernando Haddad.

O livro junta o ciclo da jornada do herói de Bolsonaro, bem fortalecida pela facada em 6 de setembro e a posterior hospitalização, como as provações, fundamentalmente necessárias a apoteose do mito que se segue com a eleição de Bolsonaro.

Seu caráter de militar se soma a de homem simples, popular, como as fotos com os filhos, a família e com os colegas de farda.

Da primeira entrevista depois de eleito presidente com microfones dispostos em cima de uma prancha de bodysurf, até charges, cards e memes, o livro ilustra a trajetória do mito que foi eleito presidente com apenas oito segundos de programa de TV e com a campanha concentrada na totalidade nas redes sociais.

O escritor Jorge Cordeiro conduziu uma pesquisa em Goiânia, com moradores de praticamente todas as regiões da Capital, para ilustrar a prevalência das opiniões populares que as imagens de Jair Bolsonaro refletem na opinião pública.

Para uma parcela expressiva de seus eleitores, ele não apareceu apenas como alguém disputando a Presidência da República, mas como o militar, meio capitão Brasil, meio “super-sincero” do dominical “Fantástico”, um caçador do sistema, um amante do politicamente incorreto, como a cena que o projetou nacionalmente no “Pânico na TV”, ao dizer que a colega deputada do PT Maria do Rosário “não merecia ser estuprada” por ser “feia” (uma violência inominável).

Como nenhum herói funciona sem antagonista, foram produzidos vários: o PT de Lula, a corrupção, o comunismo, a criminalidade, a imprensa, a velha política, tudo aquilo que pudesse formar a ideia de ameaça

Tinha ali o homem de “coragem”, o militar, mas ainda assim desbocado, debochado e imprevisível, aquele que verbalizava o que os outros não diziam, o sujeito disposto a enfrentar o sistema, derrotar o PT, impedir o comunismo e evitar que o Brasil se transformasse em uma espécie de Venezuela continental.

Jair Bolsonaro em moto foto de Marcos Corrêa Secom Presidência
A motociata do ex-presidente Jair Bolsonaro: forte caráter simbólico | Foto: Marcos Corrêa/Secom da Presidência

O livro também traz uma pouco explorada relação de Bolsonaro e Enéias, como dois combatentes de guerra que, juntos, buscavam enfrentar e vencer o inimigo em comum, o sistema e a corrupção.

Se tratando de Bolsonaro, figura ainda importante na eleição de 2026, agora transferida ao filho, o 01 Flávio, o livro de Jorge Cordeiro se torna relevante em aspecto nacional porque ele não procura apenas explicar Bolsonaro pelo discurso, pela ideologia ou pela conjuntura eleitoral, mas pela imagem.

E esse é o espólio político de Bolsonaro: a imagem.

E uma imagem diz, por vezes, mais que 1000 palavras (vale a ressalva de Millôr Fernandes: agora diga isto sem palavras). E mil palavras não dá um bom par de parágrafos. O livro tem 156 páginas bem fundamentadas e pesquisadas sobre a campanha política vitoriosa e o início do mandato do que não terminou tão bem assim, dado a pandemia e a não reeleição de Jair Bolsonaro.

Mas o livro “A Invenção do Mito — A Construção Visual de Jair Bolsonaro” não analisa temas do mandato, como a pandemia, as crises ou mesmo o julgamento contra um dos ditos algozes do sistema, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), quando, ao invés de confrontá-lo como a um duelo de morte — como no filme “Por uns dólares a mais”, até citado no livro —, Jair Bolsonaro convida Alexandre de Morais para “ser” seu “vice”. O ministro declina imediatamente.

Na pesquisa feita em Goiânia, com médicos, donas de casa, desempregados, comerciantes e outros mais representantes do povo, a fundamentação do autor goiano Jorge Cordeiro é densa, típica de seu arcabouço construído na antropologia, filosofia e psicologia, temas de sua formação. Também traz uma síntese da infância do autor, a ligação ainda criança com a política e as típicas formas de fazer campanha no interior de Goiás.

O poder precisa sobretudo de cena. Bolsonaro construiu o cercadinho, as motociatas, as multidões, a bandeira nos ombros, as lives, o hospital, o “imbrochável”, a informalidade calculada ou espontânea

O autor usa na sua pesquisa o semiólogo francês Roland Barthes, daqueles visionários pré-internet. Barthes já havia percebido, muito antes de Instagram, WhatsApp, TikTok e de toda essa máquina de produção instantânea de símbolos, que a fotografia política desloca o debate do programa para a pessoa, do que o candidato pretende fazer para aquilo que ele aparenta ser.

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Jorge Cordeiro: mestre pela Universidade Federal de Goiás (UFG) | Foto: Reprodução

O eleitor olha o rosto, a postura, a roupa, o gesto, e ali começa a enxergar valores, medos, desejos e até uma versão idealizada de si mesmo. Bolsonaro  (ou quem o cerca, sob inspiração de Steve Bannon) entendeu isso como poucos.

A camisa da seleção, a continência, o gesto da arma, a bandeira brasileira, a motocicleta, o corpo cercado pela multidão, o discurso improvisado, a linguagem simples, o churrasco, a mesa sem formalidade, tudo isso separado pode parecer banal, mas junto cria narrativa, e narrativa política repetida com eficiência vira identidade.

John Berger, também citado no livro e na biografia como teórico da tese, ajuda a compreender por que isso funciona. A razão é que ninguém olha uma imagem de forma totalmente inocente. Nós vemos também aquilo que aprendemos a ver. E Jorge Cordeir, brinca com isso, ao citar, no final do livro, o diálogo com uma dona de casa, que analisa a mesma foto de um café da manhã de Bolsonaro com os três filhos e, anos depois, induzida pelo entrevistador, “fica com a pulga atrás da orelha” com o novo resultado.

Tratando do tema título do livro, o Mito é construído sobre o militar, que já carrega um repertório de força, disciplina e autoridade. O pai de família carrega outro, também de virilidade. O homem perseguido pela imprensa e pelo sistema, outro, como, o escolhido. O sobrevivente, um mais forte, como predestinado por Deus. O herói, então, talvez seja o mais antigo de todos.

Bolsonaro não inventou esses códigos, apenas ocupou esses lugares simbólicos num momento em que milhões de brasileiros estavam dispostos a reconhecê-lo dentro deles.

É aí que Campbell reaparece com toda força no texto de Jorge Cordeiro, porque a jornada do herói ajuda a organizar uma sequência que, olhando hoje, parece quase construída por um roteirista.

Existe o personagem, existe o chamado, existe a saída do mundo comum, existem os inimigos, as provações, a possibilidade da morte e o retorno transformado.

As mesmas redes que ajudaram a fabricar o mito passaram a produzir a desconstrução. É uma das ironias mais fortes da cultura visual contemporânea: a máquina que cria heróis é a mesma que fabrica as caricaturas

Em 2018, Bolsonaro era o deputado que durante anos esteve fora do centro do poder — uma estatística citada no livro mostra que, antes da entrevista no “Pânico na TV”, o deputado Bolsonaro havia caído de 100 mil votos para menos de 88 mil votos. Ou seja, estava em baixa.

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Flávio Bolsonaro: o bolsonarismo o “empurra” mas não tem o carisma do pai | Foto: Divulgação

De uma hora para outra, é esse mesmo deputado que passa a se apresentar como aquele que enfrentará o sistema, combaterá a corrupção e vai derrotar a “praga” da esquerda.

Como nenhum herói funciona sem antagonista, foram produzidos vários, quase que espontaneamente: o PT, a corrupção, o comunismo, a criminalidade, a imprensa, a velha política, tudo aquilo que pudesse formar a ideia de ameaça.

Se existe alguém disposto a salvar, alguém precisa estar em perigo, e se existe perigo, alguém precisa representar o inimigo. A política encontra a mitologia exatamente aí. Então, acontece a facada, talvez o elemento mais poderoso de toda essa narrativa, porque o corpo do candidato passa a carregar a própria prova da luta.

Jair Bolsonaro não apenas dizia que enfrentava seus inimigos, ele aparecia ferido, hospitalizado, vulnerável e, ao mesmo tempo, sobrevivente, disposto a dar a vida pela Nação.

Do ponto de vista simbólico, é perfeito: o herói sofre, quase morre, atravessa a provação e retorna.

Barthes explica a fotografia, Campbell explica a narrativa, mas ainda falta o palco, e é aí que Balandier, outro nome recorrente no livro de Jorge — e teórico destacado pelo autor na recomendação desse texto  — se torna fundamental para sua dissertação de mestrado.

O conceito de Balandier é que o poder nunca vive apenas de instituições, leis ou cargos. O poder precisa se apresentar. Precisa de cerimônia, gesto, cenário, posição, roupa, enquadramento. Precisa, sobretudo, de cena. Bolsonaro construiu muitas. O cercadinho, as motociatas, os palanques, as multidões, a bandeira nos ombros, as lives, o hospital, o gesto da arma, o “imbrochável”, a informalidade calculada ou espontânea, tudo funciona como uma dramaturgia política.

Problema do Bolsonaro: politicamente continua existindo, seu nome mobiliza milhões, transfere votos, produz candidaturas, rejeições e paixões, mas o personagem e o mito não são exatamente a mesma coisa

O mais importante em Balandier, porém, talvez esteja em outra coisa: toda imagem de poder se desgasta e precisa ser renovada. Um herói não vive para sempre da fotografia de ontem. Precisa matar outro dragão, enfrentar outra batalha, produzir outra prova de coragem, mostrar que a imagem antiga continua válida no presente.

Esse é um dos grandes problemas do mito político. Ele exige manutenção. A imagem que ontem produzia força, amanhã pode produzir caricatura. A frase que antes mobilizava, pode, depois, parecer repetitiva. O gesto que antes parecia espontâneo pode virar encenação.

O livro do pesquisador cita o teórico Mitchell para entender essa autonomia das imagens quando pergunta, provocativamente, o que as imagens querem. Porque elas não permanecem obedientes a quem as produziu.

Circulam, são cortadas, remixadas, transformadas em memes, apropriadas por aliados e adversários, e passam a viver de maneira própria, principalmente no Instagram, TikTok e YouTube.

O escritor Jorge Cordeiro também usa em seu livro o filósofo e crítico Jacques Rancière, que diz que criar uma imagem nunca significa controlar para sempre seu significado, ou seu destino.

Nicholas Mirzoeff, outra base acadêmica do livro, mostra que existe também uma disputa por aquilo que pode ser visto e pela forma como será visto, e Bolsonaro talvez seja um dos melhores exemplos recentes de uma guerra visual permanente.

Para uns, patriota, militar, pai de família, perseguido, corajoso e salvador. Para outros, autoritário, incompetente, violento, bufão ou ameaça.

As mesmas redes que ajudaram a fabricar o mito passaram também a produzir sua desconstrução. Isso talvez seja uma das ironias mais fortes da cultura visual contemporânea: a máquina que cria heróis é a mesma que fabrica suas caricaturas.

Jorge Cordeiro utiliza o filósofo e historiador Didi-Huberman para mostrar que imagem de hoje altera a memória da imagem de ontem.

Bolsonaro militar, Bolsonaro deputado, Bolsonaro carregado pela multidão, Bolsonaro esfaqueado, Bolsonaro hospitalizado, Bolsonaro eleito, Bolsonaro presidente, Bolsonaro derrotado, Bolsonaro investigado e Bolsonaro diante de Alexandre de Moraes formam, quando colocados numa sequência, muito mais do que uma coleção de fotografias. Formam uma narrativa.

E é justamente aí que surge a pergunta mais interessante de todo esse circo chamado Brasil e sua política: o que acontece quando as novas imagens começam a contradizer o personagem construído pelas antigas?

A fotografia de Bolsonaro diante de Moraes é simbólica, exatamente por isso. Durante anos, ele foi representado como aquele que enfrentava o sistema, que não recuava, que falava duro, que estava disposto ao confronto.

Quando finalmente aparece diante de um de seus principais antagonistas simbólicos, o enquadramento já é outro. O palco mudou. A instituição pergunta e ele responde. O homem que costumava controlar o ritmo da cena agora está dentro de uma cena controlada por outro poder, o membro do Judiciário.

O mito começa a ter dificuldade quando precisa explicar suas próprias imagens. É por isso que a ideia da jornada interrompida me parece tão boa.

O herói de Campbell precisa atravessar provas, mas também precisa retornar (como o Ulisses da “Odisseia”, de Homero). Precisa completar a jornada. E talvez o problema de Bolsonaro esteja justamente aí. Politicamente ele continua existindo, seu nome ainda mobiliza milhões, transfere votos, produz candidaturas, rejeições e paixões, mas, o personagem e o mito não são exatamente a mesma coisa.

O homem pode continuar enquanto o herói começa a se desfazer. E ainda há uma possibilidade mais interessante: talvez o mito não esteja morrendo, talvez esteja apenas mudando de forma. O herói derrotado pode virar mártir.

O perseguido pode ocupar o lugar do guerreiro. O impedido pode entregar sua missão a outro, que é o filho, 01, que não vem se ajudando entrando em palanques ao som de dancinhas de funk.

O sociólogo alemão Max Weber também ajuda a entender a fragilidade dessa construção, porque o carisma depende do reconhecimento contínuo daqueles que acreditam no líder. Ninguém guarda carisma num cofre. Ele precisa ser confirmado. Toda semana. Toda batalha. Toda imagem. Toda fala.

Talvez seja isso que o livro de Jorge Cordeiro revele de mais interessante. Bolsonaro é o objeto, mas o problema é muito maior do que Bolsonaro.

Estamos falando da necessidade humana de transformar políticos em personagens, eleições em batalhas, adversários em monstros, e líderes em salvadores. A esquerda faz isso. A direita faz isso. Todos fazem.

João Paulo Teixeira, publicitário na agência Mind Digital e colunista no site GO Portal, é colaborador do Jornal Opção.