Líderes religiosos de Goiás refletem sobre ‘lição aprendida’ em um ano de pandemia

Mais do que tragédias, o ano de 2020 trouxe, também, lições que deverão fazer com que os indivíduos reavaliem seus valores e comportamentos em relação ao próximo

Para religiosos, nem só de tragédias foi feito 2020 | Foto: Vatican News

O mundo atingiu, na última semana, a triste marca de mais de 1 milhão e 700 mil mortos pela covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. O vírus foi identificado no final de 2019 e, ao longo de 2020, virou do avesso as rotinas, expectativas e sonhos de cidadãos do mundo inteiro. Só no Brasil, foram mais de 190 mil óbitos registrados até o momento. Hoje, faltando poucos dias para um novo ano e com a iminência de uma vacina no Brasil, a população se agarra às esperanças sobreviventes para recomeçar.

Milhões de vidas com diferentes personalidades, sonhos, manias, desejos, emoções, lembranças e medos se perderam em meio ao mar da pandemia. Aqueles que ficaram tentam seguir em meio ao luto e ao receio do que está por vir. Porém, mais do que tragédias e infortúnios, o ano de 2020 trouxe, também, lições que deverão fazer com que a humanidade reavalie seus valores, sua visão de mundo e seu próprio comportamento com relação ao próximo.

É o que creem religiosos de diferentes denominações, como o bispo Oídes José do Carmo, uma das principais lideranças da Igreja Assembleia de Deus em Goiás e no Brasil. Para o bispo, é inegável que 2020 foi um ano atípico e fora da curva das expectativas de todas as pessoas. No entanto, Do Carmo diz acreditar que a pandemia do novo coronavírus “nivelou a humanidade” e fez com que os indivíduos percebessem que ninguém pode ser melhor ou pior que ninguém.

Ao Jornal Opção, o líder evangélico relata que a impressão que fica com a passagem de 2020 é que o mundo recebeu “uma grande lição”. “Eu penso que a humanidade vai sair dessa menos arrogante”, pondera. Todavia, ainda conforme Do Carmo, o sofrimento que acomete as pessoas hoje não será permanente.

“Há um versículo da bíblia que diz o seguinte: ‘O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã’. Há sempre a possibilidade de um novo recomeço, e eu penso que a gente tem que focar exatamente nisso. Levantar e nunca perder a esperança. Nunca houve noite que pudesse impedir o nascer do sol. Estamos na expectativa de virada”, diz.

Bispo Oídes do Carmo | Foto: Facebook

O bispo avalia que não é possível medir a dor de um indivíduo que perde um ente querido, a não ser que a pessoa passe por essa experiência. De acordo com Do Carmo, a morte é um processo natural da vida, mas o seu rastro só é compreensível por quem é tocado por ela. “A gente tem que aprender a conviver com a dor, com o sofrimento, mas não se pode tirar de ninguém o direito que ela tem de elaborar o seu luto”, pontua.

“Só se conhece a realidade quando você está dentro do contexto, quando você vive aquilo. Quem está fora não pode dimensionar a dor de quem sofreu alguma situação de perda”, declara Do Carmo.

Para Do Carmo, é preciso aceitar “a vontade soberana de Deus”, mas ressalta: Com o tempo, a dor diminui e a saudade aumenta, e o indivíduo que passa por tamanha tragédia, descobre forças que jamais pensou possuir. “Mas é Deus dando essa força, naquele momento específico da pessoa. Eu penso que, pra toda pessoa que está sofrendo, Deus vai dar uma graça especial pra ela superar esse momento traumático de dor, de perdas que são irreparáveis”, diz.

O bispo considera que, para sair deste ano sem o peso das dores e temores, é preciso haver uma mudança de foco, uma vez que, segundo ele, a dimensão das dificuldades aumenta conforme a atenção que ganham.

“Quando eu olho para o problema, ele se agiganta. Mas quando eu olho para as promessas de Deus, quando eu exerço a minha fé, o problema diminui de tamanho. Mudar o foco, olhar em outra direção. Porque não eu não dou conta de vencer um problema que já aconteceu. Eu preciso é buscar o agora e focar naquilo que me dá esperança, que me dá força”, conclui.

“Quais foram as experiências presenteadas em 2020?”

Com 37 anos, 11 deles dedicados ao sacerdócio, o padre João Paulo Santos é o nome à frente do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade, desde a última semana de setembro de 2020, quando o padre Robson de Oliveira foi afastado de suas funções em razão de envolvimento em atos investigados pela Operação Vendilhões.

Assim como o bispo Oídes do Carmo, Santos vê este ano que termina como um período que vai além de um período unicamente composto de tragédias. Para o sacerdote, é o momento de reavaliar tudo aquilo que se sofreu, que se fez e o que (ou quem) se foi.

De acordo com o reitor da Basílica de Trindade, o novo ano deverá servir para que os indivíduos olhem para trás, antes de olhar para frente, e descubram tudo aquilo que deve ser sepultado, como os sentimentos ruins e sofrimentos, e tudo aquilo que, segundo ele, deve ser celebrado.

“Apesar das dificuldades que a gente viveu, a gente tem sim razões para celebrar. Não temos só fracassos. Quais foram as experiências que me foram presenteadas em 2020? Não só aquelas que eu considero como coisas belas, mas também as dramáticas. O que elas me ensinaram, antes que eu possa olhar pra frente? Que significado que eu consegui dar para minha vida durante este ano?”, questiona o padre, num convite à reflexão.

Reitor da Basílica do Divino Pai Eterno, padre João Paulo Santos | Foto: Danilo Eduardo/Afipe

Santos afirma que as mudanças positivas que as pessoas almejam no ano que virá não são instantâneas, ou como ele mesmo diz, “não acontecem automaticamente com a virada dos ponteiros, mas com as escolhas que fazemos”. De acordo com o reitor, a vida fornece a oportunidade de corrigir ou recomeçar, “e essa oportunidade se chama ‘o agora’”.

“Não basta a gente desejar um bom ano novo, um bom 2021. Porque isso é muito corriqueiro e todas as pessoas dizem. Precisamos desejar um ano de decisões, de ações direcionadas a criar uma nova pessoa. É preciso que cada um abrace uma vida plena.  Que nos tornemos cada vez mais comprometidos como pessoas melhores”, analisa.

O sacerdote também coloca em xeque a tendência de algumas pessoas de, segundo ele, “transferir responsabilidades”. Segundo Santos, é comum encontrar indivíduos que atribuem a pandemia a um “castigo divino”, mas de acordo com o padre, ao fazer isso, a pessoa se arrisca a rejeitar o caráter de misericórdia de Deus e de se isentar dos cuidados necessários diante de um vírus letal.

“Se eu digo que isso [a pandemia] está acontecendo é um castigo de Deus, como eu vou justificar tantas pessoas inocentes, pessoas boas, justas que perderam as suas vidas? Por outro lado, seria eu transferir responsabilidade. Nós não podemos negar a nossa responsabilidade. O cuidado pessoal e o cuidado do outro, observando todas as medidas [recomendadas] das pessoas que são da área da saúde”, declara.

O padre destaca que, para os cristãos, não há razão para desespero, mesmo diante da atual conjuntura. Conforme o sacerdote, os indivíduos de fé têm uma convicção: “A última palavra sobre nós é de vida. “Ele [Deus] se abaixou e assumiu a nossa fragilidade, a nossa dor, para nos ajudar a recordar que a dor, o sofrimento, a angústia e até mesmo a morte, não terão a última palavra sobre nós”, arremata.

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