Lideranças históricas criticam direção de Alexandre Baldy no PP

Para nomes como Roberto Balestra, José Lima Cruvinel, Issy Quinan e outros, presidente do partido toma decisões pessoais à frente da legenda

Roberto Balestra: “Partido, depois que se transforma em moeda de troca e de vantagens, perde o sentido” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Quem vê as movimentações do Partido Progressita em Goiás pode imaginar uma legenda sólida: novos políticos têm se filiado, o grupo ocupa um cargo no governo de Goiás, tem deputados na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Esse avanço, contudo, esconde a insatisfação de nomes históricos do partido, que veem no presidente Alexandre Baldy uma direção autocrática.

É o caso, por exemplo, de Roberto Balestra. Deputado federal por oito mandatos (estando no Congresso desde 1987, quando foi constituinte, até 2019), ex-secretário de Estado da Agricultura e Extraordinário, ele tem a mesma ficha de filiação desde os tempos de Arena e acompanhou o partido nas mudanças e fusões até chegar ao nome atual, Partido Progressista.

Atualmente, ele se diz aposentado. “Estou quieto, assistindo de camarote [os rumos do partido] e tirando leite”, diz Balestra, aos 75 anos de idade. É de se estranhar que um político com tantos mandatos – no último pleito, a despeito de não ter sido eleito, alcançou 48,6 mil votos, ficando fora da Câmara por causa do quociente eleitoral – se diga distanciado da arena política. “O que for definido [pelo partido], vou acatar. E vou apoiar quem for escolhido para ser o candidato do PP [a prefeito de Inhumas]”, diz, lacônico.

Aos poucos, porém, Balestra revela o motivo para o distanciamento. “Partido, depois que passa a ser moeda de troca e de vantagens, perde o sentido”, afirma. O que isso significa? “Vantagens no sentido mais amplo da palavra”, comenta, para logo emendar: “Troca de cargo, por exemplo, é vantagem”.

Segundo Balestra, essa troca de vantagens não é nova. Ele diz que tudo começou quando o ex-senador Wilder Morais assumiu o Progressista, no lugar do ex-governador José Eliton – coincidentemente, ambos oriundos do DEM. Wilder assumiu o partido de “porteira fechada”, como diz o jargão da política em relação a quem chega com poder de mando.

O bastão foi passado, em 2018, para o ex-ministro das Cidades, Alexandre Baldy. Em 2018, Baldy se filiou e, pouco tempo depois, foi alçado presidente da legenda. De acordo com Balestra, as práticas seguiram as mesmas. “Sou de outra filosofia de trabalho. Cargo é para quem tem capacidade”, afirma o ex-deputado, que acusa os ex-dirigentes de usarem o partido para benefício pessoal.

Sob Baldy, o PP, que, por muitos anos, foi umbilicalmente ligado ao marconismo, ligou-se ao caiadismo. Alexandre Baldy indicou o irmão, Adriano Baldy, para o cargo de secretário Estadual de Cultura, em substituição a Edival Lourenço.

Mesmo insatisfeito (“Porque eu não faço negócio”), Roberto Balestra diz que não pretende deixar a legenda, “a não ser que seja expulso”. “Não estou conversando com ninguém [da direção do PP]. O que for definido, vou acatar”, resume.

Torcedor do Goiânia

Outro que tem muito tempo de estrada no PP é Joveny Cândido. “Minha ficha de filiação é a número 12”, conta. Assim como Balestra, ele se diz afastado “por inércia” das discussões do partido. Mas também nega que se desfiliará. “Torço para o Goiânia desde 1950. Estou no PP desde a Arena. Não troco de time nem de futebol”, diz, comparando o momento de ambos, o clube de futebol e o partido.

Reitor Joveny Cândido: “Não tive oportunidade, não tive contato, não houve convite [para falar com Baldy]” | André Costa

Joveny diz que “não gosta dessa coisa de comissões provisórias”, estratégia que, segundo ele, tem sido utilizada pelo presidente da sigla para impor os nomes que lhe interessam. Ele, porém, enxerga em Alexandre Baldy uma continuidade do que ocorre há mais tempo, mesmo sob a batuta de Balestra, Alcides Rodrigues (ex-governador, atualmente deputado federal) e outros.

Reitor da Universidade Anhanguera, Joveny Cândido afirma que a maioria das comissões municipais do PP em Goiás é provisória. A política partidária segue esse rumo, acredita, por causa da direção nacional, de onde vêm todas as decisões. Por isso, sua decisão de “cruzar os braços”.

“Não tive oportunidade, não tive contato, não houve convite” do atual presidente para uma conversa, afirma. Ainda assim, Joveny diz que topa conversar, se for convidado, porque acredita que sua experiência – ele tem 88 anos de idade – ainda seja útil para o partido. “Isso se o partido tiver interesse em novas propostas para o Brasil, começando dos municípios”, conclui.

José Lima Cruvinel foi prefeito de Hidrolândia por três vezes: de 1993 a 2000 e de 2004 a 2012. Sempre pelo PP. No intervalo entre 2001 e 2003, o prefeito foi Eci do Nascimento, também do Progressista. “É o maior partido do município”, afirma.

O ex-prefeito lamenta, contudo, que “o pessoal que sempre foi adversário” está tomando conta da legenda no município. Ele cita, por exemplo, a possibilidade de o ex-vice-prefeito e ex-vereador Fernando Nazaré ser o candidato do partido à prefeitura de Hidrolândia, com apoio do atual prefeito, o tucano Paulo Sérgio de Rezende, o Paulinho. “Ele [Fernando] está andando com adesivo 12 no peito”.

“O pessoal do Baldy e do prefeito é que vai escolher”, afirma José Cruvinel. “A gente está aqui há muito tempo, talvez ele [Baldy] ache que ficará melhor. Vamos ver o que vai dar”, diz. Segundo José Cruvinel, a comissão municipal do PP foi trocada por Baldy. “A gente [os pepistas históricos] não concorda”.

A intenção do grupo histórico do PP em Hidrolândia era discutir outro nome para disputar a prefeitura. Mas a direção estadual não se mostra disposta a ouvi-los. “Não tenho contato com ele [Alexandre Baldy]. Já fui da Executiva Nacional. A situação é muito esquisita”, lamenta.

Sérgio Lucas: “O partido acabou, o crescimento é apenas numérico” | Foto: Arquivo pessoal

O advogado Sérgio Lucas é ainda mais incisivo. “O partido acabou, o crescimento é apenas numérico”, aponta. A aparente contradição tem uma explicação. “Há uma perda de identidade e de quadros tradicionais. O que solidifica um partido é o comprometimento e o amor à sigla. Do jeito que está, o partido fica vulnerável às circunstâncias”, justifica.

Sérgio Lucas, que foi vice-presidente do Diretório Metropolitano, diz que, assim como os demais citados, ele está distante das decisões. “O PP passou a ser uma sigla de aluguel. Ele foi negociado com o José Eliton, depois para o Wilder Morais e depois, em uma ação surpreendente, caiu nas mãos do Alexandre Baldy, amigo do Ciro Nogueira”, afirma.

Sem citar nomes, o advogado diz que “as pessoas que militam [no PP] estão insatisfeitas”, pois, segundo ele, “não existe compartilhamento de informações” com elas. “O partido já foi o mais tradicional de Goiás, ao lado do MDB. Agora, estamos perdendo ou vamos perder lideranças em todos os 246 municípios”.

Sérgio Lucas acredita que o MDB seguirá forte porque mantém sua identidade, ao contrário do PP. “O Alexandre [Baldy] está usando o partido na sua conveniência própria. Ele sentou-se sobre o partido, nunca houve uma decisão de colegiado. Quem manda é ele”, afirma. O advogado cita o exemplo do deputado federal Adriano do Baldy. “É uma completa subserviência”, critica.

Perguntado sobre as filiações recentes de prefeitos, Sérgio Lucas rebate. “Se o partido estivesse bem, teria perdido um senador?”, questiona, em referência ao senador Vanderlan Cardoso, que deixou o PP para se filiar ao PSD, com objetivo de disputar a eleição para prefeito de Goiânia. Quanto à eleição de dois deputados federais (Adriano do Baldy e Professor Alcides) e dois estaduais (Rafael Gouveia e Coronel Adailton), o advogado credita mais a méritos pessoais dos candidatos e a uma eleição atípica.

Prefeito de Vianópolis, Issy Quinan é outro que critica o perfil centralizador de Baldy. “Desde a eleição de 2018, nunca fui convidado a discutir questões de interesse político-parditárias do partido. Fui convidado apenas para eventos de filiação de prefeitos – e pelo deputado Adriano do Baldy, não pelo presidente”, conta.

Quinan afirma que o partido não tem dono e que, apesar de a reoxigenação ser positiva, os membros históricos não podem ser esquecidos. “Ele chegou ao PP há dois anos, o que não o descredencia, mas não dá o direito de desprezar [os filiados mais antigos]”, acredita.

Um dos pontos de desconforto dentro do PP é a adesão ao governo Ronaldo Caiado. Não ao apoio em sim, mas da forma como ele foi feito, sem consulta às bases, conforme o prefeito de Vianópolis. Issy Quinan lembra que, em 2018, o partido se dividiu entre as candidaturas de José Eliton (PSDB) e Daniel Vilela (MDB) ao governo do Estado.

Issy Quinan: “O apoio ao governo tinha de ser amadurecido”

“O apoio ao governo teria de ser amadurecido, discutido nas diversas instâncias do partido. O que a parceria representa em ganho administrativo para os prefeitos do PP? Até hoje, não vi”, questiona.

Sérgio Lucas também defende que a adesão teria de ser discutida internamente. Para ele, houve incoerência na maneira como a situação foi tratada, já que o partido estava dividido entre o apoio ao MDB e ao PSDB em 2018. “A única retribuição ao PP, até agora, foi um cargo para o irmão. O negócio chega a ser ofensivo”, classifica.

Um dos dois deputados que o PP tem na Assembleia Legislativa, Coronel Adailton é outro insatisfeito com a direção da legenda. Adailton pleiteia a candidatura a prefeito de Anápolis, mas a cúpula do Progressista filiou o atual prefeito, Roberto Naves, que vai disputar a reeleição. “Eu não fui sequer comunicado, minha opinião não foi solicitada para nada”, disse, em entrevista ao Jornal Opção.

Sandes Júnior diz que tem gratidão a Baldy

Ainda que algumas figuras históricas do PP estejam insatisfeitas com o comando do presidente Alexandre Baldy, há nomes importantes que estão ao lado dele. É o caso, por exemplo, do ex-deputado Sandes Júnior, que se coloca como pré-candidato do partido para a prefeitura de Goiânia. “Sou muito grato a ele, de quem fui suplente e assumi o cargo quando ele se tornou ministro das Cidades”, diz Sandes.

Ex-presidente metropolitano do partido, Sandes afirma que se encontrará nos próximos dias com seu sucessor, deputado Rafael Gouveia. “Acredito que formaremos uma chapa forte para vereador em Goiânia”, afirma. Sandes diz que apresentará alguns nomes para essa chapa a Gouveia. Assim como Sandes, Rafael Gouveia se coloca como pré-candidato do partido em Goiânia. “Essa decisão deve ser tomada com base em pesquisas”, acredita o ex-deputado.

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