Juscelino Kubitschek, o presidente da República ‘goiano’

Por duas vezes, o político que construiu Brasília teve seu mandato parlamentar cassado por duas ditaduras diferentes

Juscelino Kubitschek entendeu que o Brasil só se desenvolveria com a descentralização do crescimento econômico | Foto: Reprodução

Mineiro de Diamantina, Juscelino Kubitschek foi o vigésimo primeiro presidente da República, de 1956 a 1961. O início e o fim de sua carreira política estão intimamente ligados ao estado de Goiás e, embora todos reconheçam o impacto do construtor de Brasília na região Centro-Oeste, muitos goianos ignoram a importância que o estado teve na trajetória de JK.

Enquanto cursava medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), de 1923 a 1927, Juscelino Kubitschek foi colega de Serafim de Carvalho, um goiano nascido na fazenda Rio Doce. A amizade perdurou após a graduação, e Serafim de Carvalho, que viria a se tornar um líder político na cidade de Jataí, apresentou Juscelino Kubitschek a Pedro Ludovico Teixeira, fundador de Goiânia. 

Pedro Ludovico, por sua vez, apresentou JK a Benedito Valadares, que veio a se tornar o governador (interventor federal) de Minas Gerais em 1933, e nomeou Juscelino como seu chefe de gabinete. Todos os políticos mencionados eram do Partido Social Democrático (PSD), sigla à qual JK se filiou e pela qual foi eleito deputado federal em 1934. Ele, entretanto, teve seu mandato cassado pelo golpe do Estado Novo e pela ditadura de Getúlio Vargas, durante a qual o Congresso deixou de funcionar.

Os bastidores da história são relatados pelo escritor e jornalista Hélio Rocha, que atualmente colabora com uma coluna no Jornal Opção e se dedica à pesquisa e escrita do livro “Goiás no Destino de JK”. Ele, que já publicou um livro na ocasião do centenário de nascimento de Juscelino Kubitschek, em 2002, “JK para Juventude”, se dedica há mais de vinte anos a coletar material e estudar a biografia do presidente brasileiro.

Hélio Rocha foi editor de “O Popular” e do “Diário da Manhã” e correspondente da revista “Veja” em Goiás | Foto: Arquivo pessoal

Hélio Rocha conta que, em outubro de 1954, quando JK lançou sua candidatura à Presidência da República – candidatura que ficou marcada pelo discurso desenvolvimentista e pelo slogan de campanha “50 anos em 5” – Goiás retornou à história. Serafim de Carvalho foi o coordenador da campanha eleitoral e organizou o primeiro comício de Juscelino Kubitschek em sua cidade natal – Jataí. 

A história está registrada em livros, na memória das testemunhas e publicada pelo Congresso Internacional de História, realizado na cidade de Jataí. Os historiadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), Campus Jataí, publicaram relato do filho de Serafim de Carvalho : “JK falou o seguinte: ‘quero começar a minha campanha no reduto mais forte do PSD, onde que é?’ [Doutor Chifone responde] “É em Jataí/Goiás”. [JK pergunta]: “quem é o chefe lá?” [Doutor Chifone responde]: “É o Serafim”. [JK acrescenta]: “Mas o Serafim é meu colega”. Então passou um telegrama para o meu pai dizendo que vinha abrir a sua campanha presidencial em Jataí”. 

O primeiro comício da campanha de Juscelino Kubitschek foi marcado por um momento histórico, conforme conta o jornalista e historiador Ronaldo Costa Couto: “A maior pequena multidão e o mais importante acontecimento político da história da cidade goiana estava marcada para acontecer no palanque na praça central da cidade”.

“Chegando ao palanque, o céu desaba em água, dando início a um tromba d´água dos diabos. No sufoco, alguém sugere o galpão de uma oficina mecânica ali perto. O espaço é pequeno, as pessoas se espremem. Na carroceria de um caminhão Bedford, Juscelino improvisa. Fala de desenvolvimento, fim da miséria, empregos. Também de democracia, cumprimento fiel das leis da Constituição. Empolgado, JK instiga as pessoas a fazer perguntas”, descreve Ronaldo Costa Couto no livro “Brasília Kubistchek de Oliveira”. 

Depois do primeiro voluntário terminar de fazer suas perguntas, é a vez de um jovem de 29 anos sair do anonimato e entrar para História. O Toniquinho da Farmácia – ou melhor, Antônio Soares Neto, inspetor de seguros – pleiteava vaga num concurso público e sabia a Constituição de cabo a rabo. A Agência Brasília de comunicação oficial do DF guarda o relato da pergunta lançada por Toniquinho a JK: “Se eleito for, o senhor vai mudar a capital para o interior do país, conforme está previsto no artigo 4º das Disposições Transitórias da Constituição?”

Anos depois, em seus livros de memórias, Juscelino Kubistchek lembraria do susto que tomou. “A pergunta era, na realidade, embaraçosa”, escreveu. “Desde muito tempo, já me habituara a ver, no mapa do Brasil, aquele retângulo colorido, assinalado o local do futuro Distrito Federal. A ideia sempre me parecera utópica, irrealista. Entretanto, naquele comício de Jataí, vi-me, de súbito, posto frente a frente com o desafio”, admitiu.

Juscelino não demorou mais do que alguns segundos para responder a Toniquinho – e aos demais moradores do local. “Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição, e não vejo razão para ignorar esse dispositivo. Durante o meu quinquênio, farei a mudança da sede do governo e construirei a nova capital!”, disse – selando para sempre sua história e a do país.

Na presidência

No cerradão, em outubro de 1956, Juscelino Kubitschek posa para a primeira fotografia de um presidente no local onde seria construída Brasília | Foto: Reprodução / Hélio de Oliveira

Jarbas Silva Marques, historiador e jornalista radicado em Brasília, cedeu em entrevista ao Jornal Opção documentos e informações inéditas sobre as personalidades que cercaram Juscelino Kubitschek durante seu governo. Ele, que já passou pelas redações do Correio Braziliense e O Globo, conta que se iniciou no jornalismo aos 19 anos de idade, em 1962, e teve a oportunidade de entrevistar os atores da história brasileira. 

No dia 2 de outubro de 1956, Juscelino Kubitschek veio do Rio de Janeiro para conhecer no planalto central o amplo lugar onde seria construída Brasília. Para cobrir o evento, jornalistas cariocas deveriam viajar atrás do presidente em um Douglas DC-3, “um avião não pressurizado que fazia um calor danado”, como descreve Jarbas Silva Marques. 

O avião da imprensa, entretanto, teve problemas, e os repórteres não puderam vir ao Distrito Federal. Assim, quando Juscelino Kubitschek desembarcou na pista de pouso da Fazenda Gama (onde hoje fica o Museu Palácio Catetinho), os dois únicos jornalistas presentes haviam vindo de Goiânia, de Jipe, em uma viagem de 14 horas por estradas sem asfalto e caminhos entre as fazendas. 

Tratavam-se do repórter Eliezer Penna e do fotojornalista Hélio de Oliveira, do jornal O Popular. Ambos faleceram recentemente, em 2018 e 2020, aos 92 e 90 anos, respectivamente. Jarbas Silva Marques, entretanto, pôde conversar com os jornalistas e relata o que lhe disseram sobre o momento: “Antes de descer do avião, JK disse a Hélio de Oliveira, ‘cuidado com a responsabilidade dessa fotografia. Capriche, porque você vai tirar a primeira foto de um presidente da República na nova capital do Brasil’.”

A candidatura por Goiás 

Oscar Niemeyer, arquiteto, e Juscelino Kubitschek: dois dos “construtores” de Brasília | Foto: Reprodução

Após o término de seu mandato como presidente, gozando de grande popularidade e aprovação, Juscelino Kubitschek tinha algumas opções: enquanto a escolha mais natural seria retornar ao seu estado de origem, Minas Gerais, acontecimentos imprevistos e intrincada articulação política abriram a oportunidade de JK retornar ao poder mais rapidamente por Goiás.

Jarbas Silva Marques afirmou sobre o acordo que colocou Juscelino Kubitschek no Senado, representando Goiás. “De todos os goianos do século XX, aquele tido como mais preparado era o jurista Segismundo de Araújo Mello. Foi ele quem viu a oportunidade de resolver o problema jurídico de JK.” 

A estratégia foi a seguinte: o senador Taciano de Mello fora eleito senador em 1959 e ainda tinha mais cinco anos de mandato no Congresso Nacional. Entretanto, seu primeiro suplente, Sócrates Mardocheu Diniz, morreu em um desastre de avião entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Foi acordada a renúncia de Taciano de Mello, que deixou o cargo vago em janeiro de 1961 e forçou uma eleição solteira para senador em 4 de junho daquele ano. Taciano de Mello foi recompensado com uma indicação a ministro do Tribunal de Contas do Distrito Federal.

“O ‘QG’ da campanha foi montado no Hotel Bandeirantes, na Praça dos Bandeirantes, em Goiânia”, conta Jarbas Silva Marques. “JK disputou a eleição com o apoio de todos os partidos menos um – o Partido Democrata Cristão (PDC), que concorria com o candidato catalano Wagner Estelita Campos”. O pleito foi ganho com folga; foram 146.366 votos de Juscelino Kubitschek contra 26.800 de Wagner Estelita Campos. 

O jornalista Hélio Rocha tinha 24 anos na data e se lembra de ter votado em Juscelino Kubitschek. Ele relata: “A minha família era amiga da família do candidato de protesto, Wagner Estelita, e eu tinha amizade com seus filhos. Apesar disso, eu acreditava que Goiás tinha a obrigação de agradecer a Juscelino Kubitschek. A mudança da capital para o planalto foi responsável por trazer progresso para a região e, além disso, foi JK quem construiu a primeira rodovia asfaltada do estado, a BR-153; ele também construiu as duas primeiras universidades do estado, a UFG e a Universidade Católica.”

A morte da democracia 

Após anos fechada por causa de disputa judicial, herdeiros reabrir em 2016 a Fazendinha JK para visitação do publico em geral na região de Luziania – GO | Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A

De 1961 a 1964, a atuação de Juscelino Kubitschek como Senador não teve percalços. Seu mandato como parlamentar, entretanto, foi uma segunda vez interrompido por uma ruptura da democracia. JK apoiou a eleição indireta de Castello Branco após a deposição do então presidente João Goulart, em abril de 1964, com a promessa feita pelo militar de que as eleições em 1965 seriam garantidas.

“Em 1964, todos com a exceção de Tancredo Neves apoiaram a posse de Castello Branco”, afirma Jarbas Silva Marques. “Até Ulysses Guimarães apoiou!” A promessa, entretanto, foi quebrada e em julho Juscelino Kubitschek teve seu mandato cassado. 

Hélio de Oliveira explica a razão da traição sofrida pelo ex-presidente: “A ditadura ficou com medo de JK, porque ele provavelmente concorreria nas eleições de 1965 contra Carlos Lacerda pela UDN, e muito provavelmente ganharia, porque era muito mais popular”. 

Jarbas Silva Marques traz a medida da aprovação: 68%. “JK não tinha mau trânsito com os militares, até porque ele próprio fora médico da Polícia Militar mineira. O problema era a proposta que defendia até mesmo no seu lema de campanha: a reforma agrária. A reforma agrária sempre foi o maior vespeiro do Brasil”, diz Jarbas Silva Marques. 

Traído, Juscelino Kubitschek foi intensamente perseguido pelo regime militar. Jarbas Silva Marques afirma que JK sofreu torturas em um quartel de Niterói, onde teve os pés quebrados. “Os militares o colocaram para depor debaixo de uma escada; o ex-presidente da República, antigo chefe de todas as forças armadas, sendo interrogado por um tenente. Eles colocavam baixas patentes para fazer o interrogatório e assim desmoralizá-lo. JK Foi muito perseguido, teve de viver em Portugal, Nova York, Paris, exilado. Quando voltou, continuou sendo perseguido.” O relato de Jarbas Silva Marques é corroborado pelos documentos e análises da Comissão da Verdade.

Sem nunca poder ir a Brasília, Juscelino Kubitschek escolheu uma fazenda próxima à capital para viver. Sua última morada foi na “Fazendinha JK”, em Luziânia, Goiás, há 18 quilômetros de Brasília, de onde “pelo menos podia contemplar as luzes de Brasília ao entardecer”, conforme o próprio presidente escreveu. A história de como o local foi escolhido por ele é relatada pelo museu que hoje funciona na Fazendinha JK:

“Juscelino Kubitschek em uma viagem à Brasília teve seu pouso proibido pelo governo militar no Aeroporto De Brasília, como a aeronave estava em pane, foi autorizado o mesmo no Aeroporto Rural De Brasília, que se situa na cidade de Luziânia, GO. Ao chegar a Luziânia com muitas saudades do filho que ele não viu crescer, “Brasília”, pediu para as pessoas ali presentes que o levassem em algum lugar que pudesse pelo menos vislumbrar ao longe a sua criação. Foi levado então para a Rodovia Braluz, KM 18. Decidiu então adquirir a fazenda nesta localização, conhecida como Fazenda Santo Antônio Da Boa Vista no ano de 1969, que já era um projeto estudado pelo Presidente em seu exílio. Ser fazendeiro no Planalto Central. Denominou então a propriedade como Fazendinha JK”.

Hoje, a casa é o único projeto em zona rural do renomado arquiteto Oscar Niemeyer e tem o paisagismo que compõe o cenário idealizado por Roberto Burle Marx. O ex-presidente residia em Goiás quando morreu em uma colisão de carro cujas causas até hoje são debatidas.

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