Jovens de Goiânia dão nota 4,5 e reprovam gestão do prefeito Iris Rezende

Juventude cobra que o gestor crie ou amplie os canais de comunicação e exige mais segurança, lazer e revitalização dos espaços públicos

O Jornal Opção foi às ruas para investigar como o público jovem de Goiânia avalia a gestão do prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB). Não foi fácil encontrar jovens que pudesse avaliar o que a prefeitura está fazendo para eles — o que sugere que a comunicação pública não está sendo eficiente. Um dos principais fatores negativos identificados durante as entrevistas foi o distanciamento entre o gestor municipal e a juventude — que reclama da falta do olhar do gestor, além de uma abordagem específica da gestão para os jovens.

Fernanda Pereira e Vitória Zorzetti dizem que nem percebem a gestão de Iris Rezende | Foto: Fábio Costa

Por unanimidade, todos os entrevistados classificaram Iris Rezende como uma figura “ausente”. Fernanda Pereira, de 20 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC, relaciona os “sumiços” do prefeito à sua saúde, aparentemente, debilitada pela idade. “Sinceramente, nem percebo a gestão do prefeito. Na maior parte do tempo, Iris está doente. Nada contra pessoas da terceira idade, mas ele não está mais em condições de administrar a cidade. Não consegue nem cuidar da própria saúde.”

Vitória Zorzetti, de 20 anos, aluna de Arquitetura e Urbanismo na PUC, amplia o comentário da colega e destaca a escassez de informações que chegam até os jovens. “Não dá nem pra gente ver a gestão ativa de Iris. Ele faz algumas ações pontuais, mas a gente não fica sabendo de nada.”

Pedro Henrique Macedo, estudante de Cinema e Audiovisual da UEG: Goiânia parece não ter prefeito | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

O estudante de Cinema e Audiovisual na UEG Pedro Henrique Macedo Florindo, de 21 anos, corrobora a visão de abandono e negligência por parte da prefeitura. “A impressão é que Goiânia não tem um prefeito. A gente quase não escuta falar dele, não o vê publicamente. Sei que é um sr. de idade avançada e deve haver várias questões que influenciam nisto. Mas estudo em uma faculdade pública e não escuto falar do prefeito ou de alguma ação social na qual esteja comprometido para se integrar às causas da juventude.”

Gabriela Soares, de 22 anos, estudante de Farmácia da UFG, identifica a ausência de Iris Rezende. Ela sugere que o prefeito se aproxime dos jovens, sublinha que o gestor se acomodou e fez opção por se relacionar com o público que julga cativo e, por isso, não se preocupa com o relacionamento com a nova geração. “A imagem dele é de um velho. Muita gente brinca com isso, pergunta se ainda está vivo. Vejo a figura dele como bastante ausente. Nós não vemos uma atuação. Deveria se aproximar mais dos jovens, porque nossos pais e avós o conhecem, mas a gente não. Porque não demonstra preocupação com a nova geração. Acredita que já tem um público fiel e nós não parecemos ser importantes para ele.”

Gabriel Barbosa, de 23 anos, aluno de Farmácia da UFG, enfatiza que Iris Rezende está na vida pública “há muitos, muitos e muitos anos”. Em 2016, foi eleito prefeito de Goiânia pela quarta vez e faz política há 60 anos. “Conheço a figura de Iris há anos. Mas não sei citar nenhuma ação em benefício dos jovens. As pessoas mais velhas amam Iris, meu avô é apaixonado pelo prefeito. Mas eu, particularmente, não sei dizer quais benefícios faz por nós.”

Kaíta Gouveia, de 25 anos, aluna de Psicologia da PUC, acrescenta indignação ao discurso e critica a manutenção do poder pelas figuras políticas habituais, que fazem da vida pública uma carreira estável e longeva, bloqueando espaços para a renovação do cenário político. “Minha indignação como jovem é perceber que pessoas como Iris Rezende estão sempre voltando ao poder. Sempre os mesmos partidos e as mesmas pessoas no comando. A gente sabe quem é Iris, conhecemos o trabalho dele desde sempre, não há nada de novo.”

A idade de Iris Rezende foi um dos principais tópicos apontados pelos entrevistados. Os jovens avaliam que, embora tenha 85 anos, o prefeito deveria se informar sobre a realidade moderna, sobretudo a respeito das demandas dos jovens. No entanto, na avaliação dos jovens, as inovações tecnológicas não despertam do líder político. O emedebista aceitaria usar um aplicativo para se comunicar com os jovens? Ninguém acredita.

Fontes próximas ao prefeito admitem que Iris Rezende não se preocupa com a modernização da máquina administrativa municipal. A comunicação com seus auxiliares é feita por métodos superados — como bilhetinhos (que eram usados por Jânio Quadros, no início da década de 1960, e já não eram símbolos de modernidade). “O prefeito não envia e-mails, não usa WhatsApp e nem se comunica por Facebook e Twitter”, informa um ex-secretário. “Mal usa celular.”

No Parque Vaca Brava existe um placa de wi-fi, mas difícil mesmo é conseguir uma conexão | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

O que caracterizas as gestões de Iris Rezende são as obras de grande porte — que, segundo um auxiliar, chamam a atenção dos goianienses e podem render votos nas disputas eleitorais. Trata-se do popular obreirista, conhecido por asfaltar ruas e construir viadutos. Tais ações chamam a atenção dos eleitores de meia idade e dos mais velhos. Mas os jovens não se interessam tanto, porque, dizem, preferem políticas progressistas que ampliem a conexão entre as pessoas, como praças e parques com wi-fi — que funcionem não apenas nas placas. O Jornal Opção esteve no Parque Vaca Brava e, de fato, há uma placa sugerindo que há wi-fi no local. Na verdade, apesar da placa, é muito difícil conseguir acessar a internet. “É provável que Iris nem saiba o que está acontecendo, porque internet é uma coisa muito distante de seu mundo diário”, pontua um vereador que, em tese, pertence à sua base política.

Em São Paulo, a prefeitura disponibiliza internet gratuita em 120 locais públicos. O projeto WiFi Livre SP, criado em 2014, até hoje não encontrou inspiração suficiente em Goiânia, que disponibiliza o serviço apenas no Parque Flamboyant e no Parque Vaca Brava, onde a rede wireless apresenta falhas com regularidade. O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), tem 39 anos — quarenta e seis anos mais jovem do que Iris Rezende.

Se por um lado há omissão dos jovens na busca de informações e fiscalização da gestão municipal, por outro há a parcela de responsabilidade da gestão municipal, que não estabelece diálogo.

Laissa Santos, João Paulo Araujo Ferreira, Gabriela Soares, Gabriel Barbosa, Bruno Vinícius e Amanda Soares, estudantes de Farmácia da UFG: há problemas em várias áreas | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Bruno Vinícius, de 24 anos, estudante de Farmácia da UFG, confessa que poderia se informar melhor, mas também cobra iniciativa da prefeitura. “Não vejo nenhum esforço do governo para estabelecer uma comunicação com a população jovem de Goiânia.”

A estudante de Farmácia da UFG Laissa Santos, de 23 anos, vai adiante e acredita que “não há intenção deles [gestores municipais] de puxar o jovem para o lado político”.

Erick Moura Duarte, de 23 anos, estudante de Medicina da UFG, aponta a mesma deficiência na gestão e sugere a criação de um canal de comunicação específico para os jovens, capaz de estabelecer o diálogo direto entre a prefeitura e os jovens de Goiânia. “É interessante melhorar a promoção do diálogo, pois, neste quesito, a gestão do prefeito se mostra deficiente. Também desconheço a existência de um canal pelo qual o jovem possa encaminhar suas demandas. Se existe um canal com essa finalidade, poderiam divulgar melhor esta ferramenta, principalmente no meio digital, que é o ‘local’ onde os jovens se encontram de fato.”

Asfalto, transporte e segurança

A situação precária do asfalto, do transporte coletivo, a insegurança pública e a falta de opções de lazer, bem como a revitalização de parques na cidade, estão ente as principais reclamações arroladas pelos entrevistados.

Erick Moura define o transporte coletivo da cidade como “caótico”. O estudante de Medicina cobra o aumento no número de ônibus, além de mais espaço e mais qualidade na prestação do serviço. “É uma tarefa hercúlea chegar ao campus pela manhã. É um problema antigo e não vejo esforço para minimizá-lo. No que me tange, é a minha principal reclamação.”

A segurança pública aparece entre as principais reclamações dos universitários. Mariana Barreira, de 20 anos, estudante de Medicina da UFG, afirma que não vê policiamento nas ruas e tem medo de esperar o transporte público nos pontos de ônibus da cidade. Gabriela Soares, de 22 anos, estudante de Farmácia da UFG, observa a falta da guarda municipal e pondera que “muitos deles [guardas] não estão preparados para atuar em situações de risco”.

Laissa Santos aponta a precariedade do asfalto em Goiânia. Na visão da estudante, os buracos comprovam o descaso da prefeitura com a cidade. Além disso, a jovem vê a segurança como a demanda mais urgente entre os jovens, antes mesmo do lazer. “Não adianta termos lazer se não temos segurança.”

Carlos Eduardo Coimbra, Ana Julia Dutra, Gabriel Quinta e Douglas Inácio, estudantes de Ciências da Computação; Psicologia; Engenharia e Psicologia na PUC: falta segurança e espaços revitalizados | Foto: Fábio Costa/ Jornal Opção

A mesma opinião é compartilhada por Carlos Eduardo Coimbra dos Santos, de 20 anos, estudante de Ciências da Computação da PUC, que alega não se sentir seguro nas ruas de Goiânia. Bruno Vinícius, estudante de Farmácia, lamenta a falta de um serviço de wi-fi na Praça Universitária, embora admita que “falta segurança para isso”.

A Praça Universitária, onde a presença de jovens universitários é maciça, é apontada como exemplo de espaço que poderia ser mais bem aproveitado pela prefeitura. Quem passa a noite pela praça nota uma atmosfera lúgubre e sombria. Falta segurança e a iluminação é precária.

Os furtos e roubos na região são frequentes. Além disso, os jovens reclamam da presença de usuários de drogas na praça, o que amplifica o cenário de insegurança vivenciado pelos estudantes diariamente. Falta lazer — exceto bares e lanchonetes.

A futura psicóloga Kaíta Gouveia reforça a ideia de que Iris Rezende tem uma “mente ultrapassada”. Ela cobra mais atenção aos espaços públicos. “Sempre escutei que ia ser feito aqui uma pista de skate. Poderiam acontecer vários eventos, oficinas, grupos de estudos, pois a localização é estratégica, mas isso não acontece. Um homem mais velho como ele não se preocupa com o lazer do público jovem. A gente não vê essa atenção. Além disso, não há jovens neste governo, que poderiam ampliar o olhar para nossas reclamações e necessidades.”

A mesma abordagem é feita pela estudante de arquitetura Fernanda Pereira, que cobra a revitalização dos espaços urbanos, principalmente da Praça Universitária. “O jovem gosta de estar na rua. Seria legal ter uns momentos de convivência nesta praça [Universitária], mas não tem como. Além de malcuidada, é insegura. Não gosto de ficar lá. Não gosto nem de atravessá-la para ir à biblioteca.”

Balanço das entrevistas

Dos 18 entrevistados, sete avaliaram a prefeitura e a gestão do prefeito Iris Rezende com nota 4, enquanto cinco classificaram a administração de maneira “mediana”, com nota 5. Dois jovens deram nota 4 e outros dois 4,5. Um dos entrevistados deu um 3 e outro não quis avaliar a gestão e o prefeito. A média final na avaliação dos jovens é de 4,5. O que indica a insatisfação da juventude goianiense ante o trabalho do município.

A Superintendência da Juventude foi procurada pela reportagem para discutir as políticas que estão sendo desenvolvidas para este público, além da possibilidade de criação de um canal de comunicação direto entre a gestão e os jovens goianienses. A assessoria de comunicação não deu nenhuma informação a respeito. Não há uma secretaria específica para os jovens na Prefeitura de Goiânia. A Superintendência funciona dentro da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas (SMDHPA).

Os jovens estão apáticos? Na verdade, não é o que indica a opinião deles. O que falta é o estabelecimento de diálogo por parte da gestão de Iris Rezende. Onde estão os jovens? Estão nas redes sociais, no Instagram, Twitter e Facebook e, sim, leem jornais e revistas. Onde está o prefeito Iris Rezende? Os jovens sugerem que se trata de uma presença-ausência.

Pesquisa do Datafolha ressalta presença dos jovens na vida pública

Os jovens estão solidamente fincados no cenário político do país. O acirramento ideológico, os escândalos de corrupção dos últimos anos, o sentimento de revolta e o clamor popular pela mudança fisgaram a atenção da juventude brasileira, tantas vezes percebida sob o viés da alienação e do descaso ante a realidade do país. Com o auxílio das ferramentas digitais, os jovens se informam, debatem, discutem propostas, criam conflitos e tomam partido, em busca do afinamento de suas posições políticas, sociais e culturais.

O despertar do gigante juvenil aconteceu em meados de 2013, a partir das manifestações que ficaram conhecidas como “Jornadas de Junho”, além das ocupações nas escolas e repercussões geradas pela mídia e sociedade nas redes sociais, responsáveis por aflorar ainda mais a politização entre o público, trazendo-o para mais perto da participação nos debates.

Uma pesquisa do Datafolha, realizada em agosto do ano passado, comprova que os jovens são o grupo de maior interesse em participar da vida pública atualmente — disputando eleições ou assumindo cargos em governos. Dentre as 2.086 pessoas entrevistadas, em 129 cidades, o maior índice de interesse apareceu entre a faixa de 16 a 25 anos, com 29%. Dos 26 aos 40, a taxa caiu para 19%. Acima de 41, a queda foi ainda maior, para 15%.

Por outro lado, segundo o Tribunal Superior Eleitora (TSE), não houve aumento em 2018 na participação de candidatos mais jovens. Dos 28.617 candidatos, apenas 521 tinham até 24 anos, o que representou, na época, apenas 2% do total. A mesma porcentagem foi registrada em 2014. Nas eleições anteriores, de 2010 e 2006, o índice foi de 1%, o que mostra o crescimento ínfimo durante o período. Se por um lado os jovens manifestam desejo e interesse em ingressar na vida política, por outro esbarram na perpetuação do establishment da velha política, que não concede espaço à renovação e segue com a mesma dança das cadeiras, entre figurões carimbados e apadrinhamentos.

Há ainda um outro problema de origem mais concêntrica e local. A repercussão política nacional é sobrepujante e sufoca, muitas vezes, a vigilância pública sobre as esferas estadual e municipal. Nas escolas, o ensino político mostra-se notadamente fraco e raso, sendo relegado ao campo histórico, que dedica grande parte de sua grade ao cenário nacional e internacional.

Assim, a juventude demonstra relativo conhecimento sobre o Poder Executivo, reconhece nomes de grande alçada e são capazes de citar problemas e preocupações amplas, que dizem respeito ao país como um todo. No entanto, quando esse conhecimento é direcionado ao foco estadual e municipal, nota-se confusão entre a divisão de poderes e um certo alheamento ante o próprio ambiente que os cerca, o que prejudica a cobrança e a fiscalização deste público, que sofrem para compreender e captar o mesmo nível de repercussão do palco geral.

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