Janela partidária fortalece MDB e PP e definha PSDB

Partidos foram os que mais ganharam filiações nos grandes municípios goianos, enquanto tucanos perderam presença

Período de janela partidária, encerrado no dia 3 de abril, trouxe mudanças para o jogo político / Foto: Reprodução

Quem mudou, mudou. Quem não mudou, não muda mais. Isso porque foi encerrado no último dia 3 de abril o período em que os agentes públicos eleitos para cumprir mandato podiam trocar de legenda sem nenhum ônus. O lapso eleitoral, chamado de janela partidária, possibilitou a diversos vereadores migrarem para outras siglas que julgaram adequadas, estrategicamente falando, de olho na renovação de seus mandatos nas eleições que devem acontecer este ano. E como já era esperado, a julgar pelas mudanças na legislação e análises de especialistas, a janela fortaleceu alguns, que já eram fortes, e até extinguiu a representatividade de outros, que não andavam bem das pernas há algum tempo.

O troca-troca de partidos foi registrado em todos os grandes municípios de Goiás. Um dos fatores de maior preponderância para a migração de uma legenda para outra foi, sem dúvida alguma, o fim das coligações. Nas próximas eleições, o partido deverá atingir o quociente eleitoral sem contar com o apoio de outros partidos, o que era comum nos pleitos passados. Na prática, a mudança é uma alteração radical no jeito de fazer política, uma vez que os partidos, sobretudo os menores, precisarão, agora, lançar o máximo de candidatos admitidos para aumentar as chances de atingir o quociente.

Os vereadores que tentarão uma reeleição, cientes da dificuldade que os partidos nanicos terão para colocar seus nomes na praça, se movimentaram para tentar garantir a renovação de seus mandatos. Mesmo aqueles que estavam em partidos considerados médios decidiram “mudar de ares” em busca de chapas mais sólidas.

Em Goiânia, maior reduto eleitoral do Estado, as trocas foram intensas. Ao todo, 20 vereadores mudaram de partido ou se filiaram a um – no caso daqueles que estavam sem. São eles: Álvaro da Universo, do PV para o PP; Anderson Sales Bokão, do DC para o DEM; Anselmo Pereira, do PSDB para o MDB; Carlin Café, do CD para o MDB; Denício Trindade, do SD para o MDB; Divino Rodrigues, do Pros para o Patriota; Dra. Cristina, do PSDB para o PL; Dr. Gyan, do PSB para o MDB; Dr. Paulo Daher, do DEM para o PMN; Emilson Pereira, do Podemos para o Patriota; Felizberto Tavares, do PL para o Podemos; Gustavo Cruvinel, do PV para o MDB; Izídio Alves, do PL para o MDB; Jair Diamantino, do DC para o DEM; Kleybe Morais, do DC para o MDB; Paulo Magalhães, do PSD para o DEM; Oséias Varão, estava sem partido e foi para o PP; Sabrina Garcez, estava sem partido e foi para o PSD; Tiãozinho Porto, do Pros para o MDB e Welington Peixoto, que estavam no MDB e foi para o DEM.

Sumiço dos verdes e debandada dos tucanos

O troca-troca de partidos deixou um cenário (quase) atípico na Câmara Municipal de Goiânia. Isso porque o PSDB, partido que governou Goiás por anos a fio, pela primeira vez em muito tempo ficou sem nenhum representante no Legislativo goianiense.

A primeira a pular do barco foi a Dra. Cristina, que desde o ano passado havia confirmado sua ida para o PL. Segundo ela, sua saída do partido não teve nenhuma relação com qualquer tipo de desgaste sofrido pela sigla nos últimos anos – sobretudo no que tange às denúncias envolvendo o ex-governador Marconi Perillo -, mas sim a uma falta de espaço dentro do tucanato.

Segundo a vereadora Dra. Cristina, disputa não estava sendo justa no PSDB / Foto: Fernando Leite

A vereadora, que também é pré-candidata à Prefeitura de Goiânia, disse que não havia um lugar de “disputa justa” dentro do PSDB, o que a fez optar pelo PL, e recordou uma situação com o presidente dos tucanos. “Assim que o novo presidente do partido, o prefeito Jânio [de Trindade], assumiu, eu fui lá para empenhar meu apoio a ele. E já nessa visita de cortesia, ele me perguntou o que eu achava do nome do Talles Barreto para concorrer para prefeito de Goiânia. Ainda falei: ‘Ué, o que o senhor acha da Dra. Cristina?’. Eu acredito que isso [sua candidatura] pode trazer uma nova proposta, um novo projeto, e seria uma omissão minha, a coisa como está em Goiânia, não apresentar um projeto”, disse.

Já o último dos dois tucanos que ainda formavam a minibancada na Câmara também bateu asas do ninho. Anselmo Pereira, sob as despedidas do partido, aproveitou o período de janela partidária e foi para o MDB.

Assim como o PSDB, o PV também viu serem extintos seus representantes no Legislativo Municipal com a saída dos vereadores Gustavo Cruvinel e Álvaro da Universo. Esse último, inclusive, afirmou que chegou a ouvir da cúpula do partido que a situação da sigla em Goiânia estava “delicada” e que a formação de uma chapa seria algo complicado. “O PV já tinha conversado com a gente, que ia ficar muito difícil nossa permanência no partido porque não seria possível nem montar chapa. Então eles deixaram a gente bem à vontade pra qualquer tipo de atitude, e se a gente tivesse chapa no PV, até ficaríamos, mas vimos a dificuldade”, disse Álvaro.

Ao contrário do PSDB e do PV, que sumiram da Câmara, as bancadas do MDB, partido do prefeito Iris Rezende, e do Patriota, do presidente da Casa, Romário Policarpo, se fortaleceram ainda mais. Os emedebistas estão, agora, em 10 – a maior da Câmara. Em segundo lugar ficou o Patriota, com um total de 8 parlamentares.

PP cresce no interior

O PP, partido recentemente abandonado pelo vice-governador de Goiás, Lincoln Tejota, que foi para o CD, e pelo pré-candidato à Prefeitura de Goiânia, senador Vanderlan Cardoso, que rumou para o PSD, parece estar bem na fita nos interiores, conseguindo bater o MDB em número de filiações em alguns municípios.

Em Aparecida de Goiânia, onde o prefeito Gustavo Mendanha integra o partido do prefeito Iris Rezende, 13 vereadores mudaram de legenda. Desses, quatro foram para o MDB e cinco, para o PP. Os outros se dividiram entre PL, PTC e PSB. São eles: Aldivo Araújo, do CD para o MDB; André Fortaleza, do PRTB para o MDB; Ataídes Teixeira, do PSDB para o MDB; Hilário Giacomet, do PSB para o MDB; Elias Júnior, do PDT para o PP; Erivelton Contador, do DC para o PP; Fábio Ideal, do PSC para o PP; Lelis Pereira, do DEM para o PP; Mazinho do Madre Germana, do SD para o PP; Bira Contador, do DC para o PL; Edinho, do DC para o PTC; Leandro da Pamonharia, do PV para o PTC e Willian Panda, que saiu do PCdoB e foi para o PSB.

A Câmara de Aparecida de Goiânia também repetiu o feito observado na Câmara da capital e extinguiu da Casa o PSDB e o PV, que agora ficam sem nenhum vereador no município, sendo as maiores bancadas a do MDB seguida pelo PP.

Já em Anápolis não foi diferente. Ao todo, dez vereadores mudaram de partido, e a filiação ao PP por parte do prefeito Roberto Naves, ocorrida no ano passado, parece ter puxado a fila. Depois dele, o presidente da Câmara Municipal de Anápolis, Leandro Ribeiro, saiu do PTB e também foi para o PP. Em seguida, vieram as filiações dos vereadores João Feitosa, que também saiu do PTB; Deusmar Japão e Thaís Souza, que deixaram o PSL.

As saídas de Deusmar e Thaís foram marcadas por ressentimento ao partido que, até pouco tempo, explodia em filiações devido à presença (já inexistente) do presidente da República, Jair Bolsonaro. Durante uma fala na tribuna da Câmara do Município, Thaís chegou a dizer que sua saída do PSL se devia aos “rumos obscuros” que os dirigentes da sigla tomaram em nível municipal, estadual e federal. “A maior parte do tempo que estive no PSL local o partido teve à frente uma direção caótica”, disse ela.

Vereadora Thaís Souza justifica saída do PLS e fala sobre sua chegada ao Progressistas / Foto: Ismael Vieira

Na janela partidária, o PP levou cinco filiações, com o DEM vindo em seguida, com três. Assim como em Goiânia e Aparecida, o PSDB, mais uma vez, ficou sem nenhum representante. Os vereadores que migraram são: Américo, do PSDB para o PP; Deusmar Japão, do PSL para o PP; Jean Carlos, do PTB para o DEM; João da Luz, do Podemos para o DEM; João Feitosa, do PTB para o PP; Leandro Ribeiro, do PTB para o PP; Mauro Severiano, do PSDB para o PSC; Pastor Elias, do PSDB para o PSD; Pedro Mariano, do Patriota para o DEM e Thais Souza, que saiu do PSL e foi para o PP.

No município de Formosa, a bancada do PP passou de dois para três vereadores. O Podemos ficou com a maior bancada no município, com seis vereadores. Os que decidiram mudar de legenda foram: Luziano Martins, do MDB para o Podemos; Bruno Araújo, do MDB para o Podemos; Joelson Trovão, do PRP para o MDB; Netinho Lacerda, do PSB para o PTB; Professor Rafael, do PSB para o PSD; Roberta Brito, do PSB para o PP; Genedir Ribas, do DEM para o PP e Carlim da Vila, do DEM para o Podemos.

Prefeitos também se movimentam, mas crise do coronavírus muda foco

O processo migratório partidário também foi notado no Poder Executivo. Mandatários de vários municípios goianos decidiram trocar de sigla com o intuito de, entre outros, fortalecerem suas bases e se aproximarem das lideranças regionais. Entretanto, a crise gerada pela pandemia do coronavírus tem afetado substancialmente a conjuntura e os diálogos políticos.

O prefeito de Rio Verde, Paulo do Vale, é dos que mudaram de partido recentemente, mas, conforme o próprio, não tem levado o debate político (imprescindível em ano de eleição) em razão da preocupante proliferação da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Vale, que se filiou ao DEM a convite do governador Ronaldo Caiado, em um grande evento ocorrido no dia 7 de março e que contou com a filiação de vários outros prefeitos, adiantou que seu foco tem sido outro.

Segundo o prefeito, sua dedicação, assim como a dos aliados políticos – e oposição – de Rio Verde tem sido voltada ao enfrentamento do vírus na região. “Hoje sumiu, não tem. O assunto político aqui [em Rio Verde] praticamente desapareceu. É um momento de quarentena, de preocupação”, afirmou. De acordo com ele, o foco agora é proteger a população e não há clima para debater a possibilidade de sua reeleição. “Não estou tendo cabeça para isso”, finalizou.

Além de Vale, outros 14 prefeitos foram filiados ao DEM no evento realizado no Tatersal de Elite da Pecuária de Goiânia. Desses, quatro eram do MDB: Jacob Ferreira, de São Luiz do Norte; Sávio Soares, de Pilar de Goiás; Cícero da Bebedouro, de Montes Claros de Goiás e Ovarci Faria, de Arenópolis. Do PSDB, foram três: Miriã Dantas, de Israelândia; Ana Paula Soares, de Buritinópolis e Agostinho da Nóbrega, de Trombas.

Em Jataí, o PSDB contou com outra baixa: o prefeito Vinícius Luz deixou a sigla para se filiar ao PP. Em Catalão, o prefeito Adib Elias, que estava sem partido, foi para o Podemos, assim como a prefeita Luziânia, Edna Aparecida.

Mais em tamanho e menos em quantidade

O cientista político Guilherme Carvalho explica que a nova legislação eleitoral, que determina o fim das coligações, trouxe uma nova lógica partidária que viabiliza o fortalecimento de partidos mais fortes e a redução dos nanicos. Para ele, essa lógica é que tem guiado os parlamentares na hora de escolher a nova sigla.

Carvalho esclarece que o troca-troca constatado na última janela partidária expõe um modelo de negociações entre parlamentares para fazer o número máximo de cadeiras em poucas e viáveis legendas, o que pode resultar, consequentemente, na redução de partidos na Câmara.

“A lógica desse movimento, desse arranjo institucional, foi o que propiciou toda uma negociação política entre os vereadores. Então eles dizem: ‘Bom, nós somos vereadores, portanto, já temos, em tese, mais condições de fazermos mais votos. Então, se nós nos juntarmos, vamos conseguir fazer mais cadeiras’”, afirma Carvalho. De acordo com ele, essa lógica infere que se essa for a tônica da eleição, significa que haverá uma redução drástica no número de partidos dentro da Câmara Municipal, pelo menos na composição inicial.

O cientista também falou a respeito da tática de alguns dos partidos menores para se manterem, que é apostando na renovação, o que ele considera como uma estratégia “contra a lógica institucional”. Segundo ele, os partidos que se apegam a essa jogada política são aqueles que “não quiseram aceitar políticos já com mandatos e com o perfil mais tradicional”, e citou o Avante e o PSC como exemplos. “É um discurso muito presente na agenda nacional desde 2018. Faz sentido, mas é um contrassenso, porque você vai ter chapas com pessoas não tão conhecidas quanto os vereadores e que não têm a força da máquina pública”, diz.

Para cientista político, partidos tiveram que abrir mão de algo para receber algo em troca / Foto: Arquivo pessoal

Carvalho analisa o perigo da estratégia, inclusive, para partidos que tiveram bom desempenho na janela partidária. Ele explica que um partido como o PSD, no âmbito regional (que teve desempenho não tão bom), aposta em renovações mas tem em sua conta alguns nomes fortes, além de dispor, a nível nacional, de R$ 145 milhões para fazer campanha. Para ele, é uma aposta bem alicerçada. Entretanto, não é o caso do Patriota.

Ainda conforme o cientista, o partido que conseguiu adquirir a segunda maior bancada da Câmara de Goiânia joga contra a lógica, e só conta com a legislação a seu favor. “A verba de campanha para o País inteiro do Patriota é de R$ 27 milhões. Ou seja, Goiás deve contar com menos de R$ 1 milhão para todos os vereadores fazerem campanha, isso de verba pública”, conta.

Sobre o esvaziamento do PSDB na capital e em vários outros municípios goianos, Carvalho não atribuiu a um possível desgaste sofrido pelo partido em razão da figura do ex-governador Marconi Perillo, mas sim pela falta dele. O cientista afirma que o PSDB nunca foi um partido extremamente competitivo na capital, que, segundo ele, sempre teve o cenário político montado entre o MDB e o PT, e que agora, com ações de Perillo somente nos bastidores, Goiânia acabou ficando “desassistida”.

“O cenário mudou muito, mas a lógica do PSDB ainda permanece no interior. Basta ver que o Jânio Darrot. Até pouco tempo ele estava batendo cabeça com lideranças estaduais sobre onde focalizar os esforços, e está preocupado com as bases dele, em fazer sucessor em Trindade, e Goiânia ficou desassistida”, diz.

Carvalho, em uma análise geral, elege o MDB e o Patriota como os partidos que mais ganharam em Goiânia, mas para “todo” há um “mas”. Segundo ele, assim como as duas legendas que mais tiveram filiações, todas as outras tiveram que “abrir mão de algo para ganhar algo” nessa janela partidária. Ele explica que os vereadores que foram para o Patriota abriram mão de verba partidária para “jogar com a legislação debaixo do braço”.

Já o MDB, de acordo com o cientista, apostou na mesma ideia, mas deu brecha para rachas no partido por conta de disputas locais. “Em algumas regiões pode acontecer de companheiros fazerem campanha na mesma região, e um candidato tentar “engolir” o outro dentro da mesma região”, explica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.