Iris Rezende foi eleito, mas está de “segunda época”. E precisa entender o que levou Goiânia a escolhê-lo

O candidato peemedebista não ganhou mais do que uma nota 4 dos eleitores goianienses. Portanto, longe de se sentir “aclamado”, é preciso que ele compreenda as novas exigências da população que vai governar

Iris nos anos 60, em sua ascensão na carreira política e agora, meio século depois, eleito prefeito pela 4ª vez

Iris nos anos 60, em sua ascensão na carreira política e agora, meio século depois, eleito prefeito pela 4ª vez

Elder Dias

Imagine-se, por um momento, uma outra pessoa, desde que estrangeira ou pelo menos de outra parte do Brasil que não Goiás. Navegando pela internet, você se depara com um jornal de fatos bizarros. Então, você repara em três notícias. Todas verdadeiras. A manchete de cada uma delas: 1) “Indiano leva mordida de cobra ao tentar fazer selfie com o réptil” (aconteceu em Rajasthan, no noroeste da Índia, depois de populares capturarem uma serpente píton); 2) “Após fugir da polícia, americano para em drive-thru para comprar lanche” (foi em Phoenix, no Estado do Arizona, nos Estados Unidos, quando o motorista Joshua Adkins, mesmo perseguido, não resistiu a um “pit stop” para comprar hambúrguer, fritas e milk-shake; acabou preso); e, por fim, 3) “Metrópole brasileira elege mesmo prefeito para governá-la mais de meio século depois”. Pausa para reflexão.

O que seria uma exótica referência para um forasteiro é hoje a realidade de Goiânia, cujos cidadãos, no dia 30 de outubro, entenderam que Iris Rezende (PMDB) era a melhor opção para administrar a cidade, pela quarta vez. Com o fato, se no “Guiness” existisse uma categoria que nominasse o prefeito eleito novamente para o cargo depois do maior intervalo de tempo desde seu primeiro mandato, a capital de Goiás certamente teria entrado para o livro dos recordes.

Quando Iris assumir a principal cadeira da cidade, em 1º de janeiro de 2017, terá 83 anos. Será o quinto prefeito mais idoso do Brasil. Mesmo somadas as populações de todos os municípios de gestores ainda mais velhos (por ordem decrescente de idade, os de Catende/PE, Ituiu­taba/MG, Iepê/SP e São Fe­lipe/BA), a população de Goiânia é oito vezes e meia maior.
A questão menor, porém, é sua idade física. Ao entrar no palácio como prefeito, Iris terá quase 51 anos desde sua primeira posse no cargo, em 31 de janeiro de 1966. Mais de meio século, portanto.

Mundo afora, temos visto exemplos e mais exemplos de idosos que se mostram com a cabeça rejuvenescida e tendo ideias brilhantes a apresentar, bem como projetos inovadores a executar. São políticos que acompanharam o ritmo das mudanças. Como presidente do Uruguai, Pepe Mujica, que já tinha mais de 75 anos quando bancou a descriminalização da maconha (projeto que quebrou grande parte do poder do tráfico no país vizinho); o papa Francisco, aos 79 anos, é tido como o maior renovador da Igreja Católica desde João XXIII, outro idoso que mudou a história do Vaticano — há mais de meio século; Ulysses Guimarães foi o Senhor Diretas e o condutor da Assembleia Nacional Constituinte, já com mais de 70 anos; o ex-senador Eduardo Suplicy (PT), de 75 anos, se transformou no “Papito” e virou fenômeno das redes sociais por saber se reconstruir e entender a linguagem dos jovens, tornando-se o vereador mais votado do nas últimas eleições — na verdade, mais do que isso, foi o petista eleito mais votado do País, mesmo contando os prefeitos.

O prefeito eleito comemora sua vitória bem a seu estilo, em contato direto com o povo: agora, em tempos de crise, Iris terá de buscar alternativas para superar a desconfiança da maioria que não o escolheu

O prefeito eleito comemora sua vitória bem a seu estilo, em contato direto com o povo: agora, em tempos de crise, Iris terá de buscar alternativas para superar a desconfiança da maioria que não o escolheu

Por isso, a questão verdadeira, a grande questão que pesa contra Iris, é o “meio século”. Durante esse ínterim, o mundo passou por mudanças vertiginosas; Iris, não. Se Iris for um político atento — e ninguém pode dizer que ele não seja, do contrário não chegaria a esse quarto mandato —, terá percebido, bem mais rapidamente de que aqueles que lhe fazem salamaleques, que a eleição que venceu não elegeu o candidato “preferido”, mas o “menos preterido”.

Para afirmar algo assim, é preciso ter uma referência. No caso, esta vem da penúltima vitória eleitoral de Iris, em 2008. Naquele ano, buscava a reeleição e estava com aprovação em alta. O resultado foi um triunfo incontestável, ainda em primeiro turno, com 74,16% dos votos válidos — as demais opções para a Prefeitura eram Sandes Junior (PP), que teve 15,75%; Gilvane Felipe (PPS), com 5,20%; e Martiniano Cavalcante (PSOL), com 4,88%.

Exatos 472.319 goianienses digitaram nas urnas o “15”, o número do PMDB, de um total de 697.548 que foram votar em 2008. O número total de eleitores aptos a ir às urnas era de 845.540 e o índice de abstenção, portanto, foi de 17,30% (152.992). Somado aos votos nulos (42.285) e brancos (18.414), um total de 206.691 pessoas não quis escolher ninguém para prefeito naquele ano. Em porcentagem, isso deu 24,44% dos eleitores.

Voltando ao tempo presente, a comparação ao quadro atual mostra como Iris não se pode considerar, de forma alguma, “aclamado” como oito anos atrás. Nestas últimas eleições, eram 957.161 os goianienses aptos a votar. Mas só a abstenção do segundo turno já praticamente igualou a porcentagem da totalidade dos que não votaram em ninguém em 2008: 24,09%, ou 230.555 eleitores — em números absolutos, só isso já superaria o total de “votos em ninguém” em mais de 25 mil acima. Mas, entre os que foram às urnas (657.392) no duelo final, quase 10% também rejeitaram escolher candidato: foram 53.736 nulos (7,40%) e 15.478 brancos (2,13%). Ao fim, Iris, que teve 57,70% dos votos válidos (379.318), na verdade não conseguiu atingir nem 40% do universo do eleitorado. Ficou com 39,63% do total de votos possíveis.

Resumindo: em 2016, mesmo em um segundo turno, concorrendo contra apenas um adversário e tendo 112 mil eleitores a mais aptos a votar em relação ao pleito municipal de 2008, Iris Rezende obteve 93.001 votos a menos do que na vitória anterior. O mais grave: se há oito anos 55 de cada 100 eleitores goianienses o quiseram reconduzir ao Paço, desta vez, 60 em cada centena não avalizaram seu nome.

Se a eleição fosse uma avaliação escolar, portanto, Iris Re­zende teria ficado com não mais do que uma “nota 4”. Estaria de segunda época diante do eleitor goianiense. Para avaliar com sensatez como, mesmo tendo um índice de rejeição elevado, conseguiu chegar ao poder, é preciso que ele olhe ao redor e veja o que ocorreu em outras cidades importantes. É preciso se perguntar: por que o milionário João Doria (PSDB) foi eleito ainda em primeiro turno na maior metrópole do País? Por que Alexandre Khalil, do pequeno PHS, venceu o tucano João Leite em Belo Horizonte? Vindo para bem perto, por que Roberto do Órion (PTB) derrotou o prefeito João Gomes (PT) em Anápolis?

Bastaria dizer que os três são empresários e que nunca tiveram cargo público. Ao contrário de Iris Rezende, que, praticamente a vida toda, quando pôde (o que exclui o período em que esteve cassado, de 1969 a 1979) foi o que se chama de “político profissional”. E esse figurino foi algo basicamente rejeitado, o que os exemplos citados acima captaram bem — tanto que o slogan eleitoral de Alexandre Khalil era “chega de político”.

Pois, mesmo assim, “nadando contra a corrente” — até porque não ele próprio não teria como negar a vestimenta que encarnou —, Iris ganhou. Mas a vitória está longe de ser incontestável ou absoluta, como se pôde verificar pelos números acima. Mas por que “bastaria dizer” e não basta? É preciso observar que o adversário de Iris Rezende foi um empresário que poderia, apesar de seus cinco anos e três meses à frente da Prefeitura de Senador Canedo, ser classificado também como distante do perfil de um “político profissional”.

Voltemos, por um parágrafo, ao fim do primeiro turno. Ao abrir das urnas, a grande surpresa foi Francisco Júnior (PSD) que saíra de um constante 5% nas intenções de voto durante toda a campanha para dobrar esse número em menos de uma semana. Um exercício de imaginação faz imaginar que o destino da eleição de 2016 teria sido diferente em Goiânia caso fosse ele o adversário do peemedebista no segundo turno: afinal, além de “novo” na política (menos de oito anos com mandato, entre vereador e deputado estadual), Francisco foi do PMDB e atuou quatro anos como secretário de Iris. Além disso, lançou uma candidatura a prefeito à revelia da base aliada, mostrando independência. Iris conseguiria a vitória, “se” seu adversário fosse seu ex-aliado? É uma pergunta sem resposta e o “se” é usado para aquilo que não existiu, mas isso não deveria deixar de inquietar ambos, vencedores e perdedores.

A “sorte” de Iris foi que Vanderlan Cardoso (PSB), seu adversário no duelo, fez o caminho inverso. Em vez de se afastar do modelo do político profissional, ele traçou a rota contrária. Desde 2010 sua posição tinha sido a de bancar uma terceira via. Pensou assim até ver Iris mudar de ideia em relação a sua aposentadoria da vida pública e se lançar candidato. Então, fez uma aliança com o governo estadual, que foi tomada com risco calculado, mas que sinalizou, para o eleitor, uma perda de autonomia — o que, é preciso dizer, não corresponde à verdade em relação ao perfil de Vanderlan. Não interessa: a propaganda do PMDB surtiu efeito e ele passou a ser visto como o preposto que não é e nem seria. Outro detalhe, não menos importante: em vez de, como fizera no primeiro turno, se ater às propostas– que foram o trunfo de Francisco Júnior para arrancar, ainda que tardiamente —, o pessebista aceitou entrar no jogo do denuncismo e da criação de factoides, e isso contra um grupo já bastante experimentado nesse campo. O resultado foi a interrupção da própria ascensão e, por fim, a derrota eleitoral
.
Mas de onde vieram os eleitores de Iris? Se fosse possível traçar o perfil médio daqueles que abriram mão de interferir no pleito, especialmente no segundo turno, por ação (votos brancos e nulos) ou omissão (abstenções), se verificaria, a partir das próprias pesquisas de intenção de voto, que esse eleitorado descontente foi predominantemente de classe média. Da mesma forma, nas mesmas pesquisas, se considerarmos que o grau de instrução tenha a ver com a faixa de renda, Iris teria maior predominância quando mais os eleitores tendessem aos extremos da tabela.

João Doria (PSDB), em São Paulo, Alexandre Khalis (PHS), em Belo Horizonte, e Roberto do Órion (PTB), em Anápolis: a eleição dos “novos” é sinal a que Iris Rezende deve se atentar

João Doria (PSDB), em São Paulo, Alexandre Khalis (PHS), em Belo Horizonte, e Roberto do Órion (PTB), em Anápolis: a eleição dos “novos” é sinal a que Iris Rezende deve se atentar

Isso é, de certo modo, compreensível pelo modo de fazer política que sempre caracterizou Iris Rezende — e do qual ele se orgulha, fazendo questão de mencionar sempre suas obras e seu contato com o povo. Essas obras interessam aos dois polos que majoritariamente o elegeram: a classe alta é composta de empreendedores, que aguardam um tocador de frentes de trabalho para poder movimentar seu capital em conjunto com a máquina pública; os de menor renda querem a casa própria prometida, nos “conjuntos habitacionais” anunciados por Iris. E essa casa, construída pelos empreendedores acima citados, provavelmente será erguida em um novo loteamento aprovado bem distante do centro da cidade. Foi assim que o ex-prefeito, agora reeleito, procedeu ao autorizar, em sua gestão, os bairros Jardins do Cerrado (extremo oeste de Goiânia) e Orlando de Morais (ponto limite da região norte). Aos que já têm a casa distante, Iris providenciará o asfalto e uma escola ou posto de saúde, também construídos pelos eleitores empreiteiros. Assim, continuará a agradar a ambos os lados que sempre constituíram seu eleitorado mais fiel.

Esse roteiro, característico de mandatos passados de Iris, poderá se repetir agora? Vai ser difícil. Dadas as condições nada favoráveis das finanças das administrações municipais e diante da política de contenção de gastos públicos e da dificuldade de obter empréstimos. E desde que deixou o último mandato para ser candidato a governador, em 2010, o grau de exigência da população subiu bastante — os protestos de 2013 começaram por conta da má qualidade dos serviços públicos.

Outro desafio é bem mais conhecido por Iris: assegurar uma maioria tranquila na Câmara. Não parece difícil, já que, do total de 35 cadeiras, 22 serão ocupadas por novatos. O prefeito veterano saberá lidar com a inexperiência da maioria. Porém, essa mesma facilidade pode se tornar uma dificuldade: como eles lidarão com a pressão da sociedade em votações mais polêmicas. Talvez a situação seja uma maioria, mas com instabilidade. O staff do Paço terá de trabalhar também com essa variável em seu planejamento.

Esses são alguns dos pontos que merecem ser observados por Iris e sua assessoria, na tentativa de entender para que rumo aponta a sociedade e em que direção será preciso trabalhar em Goiânia. Afinal, a capital goiana não é uma ilha. O goianiense é brasileiro também e sofre as mesmas consequências da crise política e de governança dos últimos anos. Neste cenário, não vai adiantar agir como o “iluminado”. E é bom que Iris Rezende esteja ciente disso.

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