Iris desistiu de construir Corumbá. E fez a Celg abrir mão de ser grande

Os lamentos sobre a venda de Cachoeira Dourada, em 1997, são bastante conhecidos. Mas em seu primeiro mandato como governador, Iris, com outra usina,
tomou a decisão que começou a mudar negativamente o futuro da empresa

Usina de Corumbá: hidrelétrica, que seria patrimônio da Celg, teve  sua concessão devolvida à União no primeiro governo de Iris Rezende | Foto: Rodrigo N. Silveira

Usina de Corumbá: hidrelétrica, que seria patrimônio da Celg, teve
sua concessão devolvida à União no primeiro governo de Iris Rezende | Foto: Rodrigo N. Silveira

Elder Dias 

Quando o tema é o problema elétrico e energético de Goiás e a crise da Celg, o primeiro foco que se dá para suas causas é a venda da usina de Cachoeira Dourada em 1997, no governo Maguito Vilela (PMDB). Este episódio, não só pelo governo desfazer-se de um patrimônio de tal porte, mas por tudo que se seguiu — o que se fez com os R$ 800 milhões da venda é algo sem maiores explicações até hoje —, é bastante contestável. Mas há uma outra história, mais antiga, porém nada desprezível, e que, pelo passar das décadas, ficou esquecida. A história da usina hidrelétrica de Corumbá.

No fim dos anos 70, o Brasil ainda vivia os resquícios do milagre econômico. As obras faraônicas — como a megalomaníaca construção da Transamazônica, que o presidente Emílio Garrastazu Médici queria abrir na marra por entre os igarapés — haviam ficado para trás, mas o carimbo de empreendedor que consagra políticos como Paulo Maluf — que até hoje fala de seus feitos arquitetônicos como verdadeiras obras de arte, sem trocadilhos — e outros nem tão polêmicos ainda levava a desafios grandiosos.

É nesse contexto que surgiria, no município de Caldas Novas, um gigante de concreto, como muitos houve durante o regime militar: a usina hidrelétrica de Corumbá era a aposta para marcar o governo Ary Valadão (1979-1983). A primeira questão era obter a concessão para construir a obra, que também era pretendida por Furnas, empresa do governo federal. O ex-governador contou, em entrevista ainda em 2009 ao “Diário da Manhã”, que usou a influência que tinha com o então ministro-chefe da Casa Civil da Presidência e homem-forte dos militares, Golbery do Couto e Silva. “Ele era meu compadre e nos ajudou a adquirir essa concessão para a capacidade energética de Corumbá. As indústrias estavam chegando e necessitavam de energia”, disse.

À época, era farto o dinheiro internacional para financiar obras em outros países, e Goiás recorreu a instituições financeiras europeias para conseguir o financiamento, o que acabou sendo bem-sucedido. O Clube de Paris, com o banco francês Paribas à frente, puxou uma negociação que envolvia kit completo: no pacote já estava incluída a venda das turbinas e de muitos outros equipamentos. Uma espécie de venda casada, muito comum nas negociações de empréstimo para o poder público naquele tempo, o que, embora questionável, não era ilegal.

A eleição ao governo de Iris Rezende (PMDB), que voltava ao poder após 14 anos de sua cassação como prefeito de Goiânia, pegou a obra já iniciada, sob a batuta da empreiteira Odebrecht, e pelo menos já US$ 180 milhões concedidos pelos bancos estrangeiros. Duas turbinas tinham então sido adquiridas e entregues. Mas, no fim de 1982, a obra parou.

À paralisia momentânea da obra se juntou uma suposta ameaça ao lençol hidrotermal de Caldas Novas, caso o reservatório fosse elevado à altura planejada. Ambos foram os fatores que Iris Rezende considerou suficientes para parar a execução da usina de Corumbá.

O próximo passo seria devolver a concessão da obra, conquistada com esforço, ao governo federal. E isso ocorreu no governo Onofre Quinan, em 1986, quando Iris já tinha renunciado para se tornar ministro da Agricultura de José Sarney.

Equipe técnica

O engenheiro Augusto Francisco da Silva tem quase quatro décadas de Celg. Seu colega Donizetti Martins de Araújo Neto, também é veterano na empresa. Ambos são técnicos, mas exercem hoje posições de comando na estatal: Augusto é diretor comercial da Celg GT e Donizetti é superintendente de Engenharia e Manutenção da Transmissão. Em uma sala da empresa, eles falaram com a reportagem do jornal.

Ambos, com toda uma vida profissional dedicada à empresa que viram crescer e, depois, definhar. Donizetti chegou a trabalhar no canteiro de obras de Corumbá. E Augusto é bem direto ao definir qual foi o primeiro fato grave a podar o voo ascendente da Celg e trazer turbulência: o governo de Goiás ter abrido mão de construir a usina de Corumbá. “Imagine como seria se a Celg tivesse ficado com as duas usinas. Teríamos uma outra realidade em termos energéticos e de saúde financeira para a empresa”, diz.

Sobre as questões ambientais envolvidas, Augusto é sincero. “Isso poderia ser considerado realmente como uma justificativa para não bancar a obra. Era um argumento sustentável, porque, se procedente, afetaria o turismo de Caldas. Mas era sustentável também o oposto, de fazer a obra e readequar o projeto”, lembram. Goiás desistiu e, além disso, teria de arcar com os custos do empréstimo, já que Furnas não levaria em consideração nada da negociação com o Clube de Paris. Eram centenas de milhões de dólares, o que poderia ter quebrado a Celg, não fosse por uma saída encontrada pela equipe técnica da empresa: usar as turbinas adquiridas para executar a quarta etapa de Cachoeira Dourada. “Tenho orgulho de dizer que aquela equipe, da qual não participei, mas a qual acompanhei, foi brilhante para resolver o imbróglio”, ressalta Augusto. Assim, graças à qualificada equipe de engenheiros — reconhecida ainda hoje no Brasil inteiro —, salvou-se em parte o prejuízo que haveria com a desistência de Corumbá. Nem se fala, aqui, do lucro que haveria hoje com a usina.

Antes da venda de Cachoeira Dourada, surgiu outra pedra no caminho da Celg. Poucos se recordarão, mas a empresa esteve entre os setores do Estado que mais sofreram com a criação do Estado do Tocantins, em 1988. Com a divisão do patrimônio, houve perda de recursos humanos e de estrutura. A União indenizou o Estado, mas a companhia nunca viu a cor do dinheiro pelo que perdeu em termos de ativos. “Isso ficou com o ‘dono’”, conta Augusto, referindo-se ao erário estadual.

Se Corumbá cortou a expansão da Celg, se o Estado criado foi outra provação, o golpe fatal veio com a entrega de Cachoeira Dourada. Novamente, os engenheiros da Celg ficam indignados com a história, que não precisa ser repisada aqui.

O que seria da Celg se tivesse hoje as duas usinas? Com certeza, algo parecido com o que hoje é a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e a Companhia Paranaense de Energia (Copel). Seus Estados bancaram o enfrentamento da onda privatizante que atingiu o Brasil em meados da década de 90 e ficaram com as empresas em seu patrimônio. Hoje, a Cemig, por exemplo, tem dez hidrelétricas. Possui 114 mil acionistas em 44 países. Suas ações são negociadas nas Bolsas de Valores de São Paulo, Nova York e Madri. Os mineiros devem agradecer bastante ao estatizador Itamar Franco, o ex-presidente que governou Minas Gerais de 1999 a 2002 e impediu sua venda. Interessante ler agora, um trecho de uma coluna da “Folha de S. Paulo” escrita a mais de dez anos: “O que mais pegou mal no exterior, no entanto, foi Itamar Franco ter rompido o acordo de acionistas das Centrais Elétricas de Minas Gerais (Cemig), que permitiria uma gestão privada imediata da estatal.” A autora foi Cristina Veiga, da equipe do jornalista Gilberto Dimenstein, e assinava a coluna com o título “Itamar Franco pisa na bola outra vez”. Em tempo: a coluna se chamava “Asneiras e Equívocos”. Nada mais útil para fazer justiça do que o passar do tempo.

Voltando à Celg, é quase filosófica a conclusão sobre a empresa do hoje diretor-comercial Augusto da Silva — que lá começou como auxiliar de serviços, em 1975: “Na vida, há momentos-chave, em que é preciso tomar a decisão certa. Quando precisava expandir a geração, fizeram a Celg tomar o rumo errado. Desistiram de Corumbá, numa decisão que não foi técnica. Isso começou a selar o destino da empresa.”

Mesmo sob pressão da Eletrobrás, governador foi avisado para não se desfazer de usina

Ex-governador Irapuan  Costa Junior tentou demover Onofre Quinan de devolver concessão de Corumbá | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Ex-governador Irapuan Costa Junior tentou demover Onofre Quinan de devolver concessão de Corumbá | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O ex-governador Irapuan Costa Junior, que esteve no comando do Estado de 1975 a 1979,também é engenheiro e garante que não houve qualquer discussão mais séria a respeito de um suposto prejuízo ao lençol hidrotermal com a construção da usina de Corumbá. “A possibilidade de influir no lençol de Caldas era remotíssima e não foi algo que chegou a ser pesado em nenhum momento”, afirma.

Irapuan lembra que houve, com a obra parada, uma pressão muito grande da Eletrobrás para que a usina fosse entregue por Goiás a Furnas. Iris Rezende já havia renunciado ao governo do Estado para assumir o Ministério da Agricultura e quem estava, então, na cadeira principal do Palácio das Esmeraldas era Onofre Quinan. “Eu cheguei a me encontrar com o governador e disse a ele para não fechar o negócio, porque tinha sido uma luta intensa para viabilizá-la e, com ela, reforçaríamos o poderio da Celg, que ficaria com duas grandes usinas”, referindo-se também a Cachoeira Dourada. “Onofre me disse, então, que não tinha mais meios para resistir, que ou ele entregava a usina ou o governo federal fecharia as portas para Goiás.”

Irapuan ressalta que a empreiteira Odebrecht tinha influência enorme naquela época na Eletrobrás e conseguiu que a empresa pressionasse o governo do Estado, pois interessaria mais a ela o negócio ser com o governo federal. Assim, mesmo com a advertência de Irapuan e de outras pessoas, Quinan sancionou, em 25 de junho de 1986, a Lei 10.066, que transferia a Usina Hidrelétrica de Corumbá da Celg para Furnas.

Peemedebista diz que Goiás não poderia correr “risco”

Procurado pelo Jornal Opção por meio de sua assessoria, o ex-governador Iris Rezende preferiu responder à reportagem em forma de nota, a qual está reproduzida abaixo, na íntegra:

“Em 1983, quando Iris Rezende assumiu o governo, as obras da Usina de Co­rumbá 1 estavam paralisadas – apesar de mais de 200 milhões de dólares em em­préstimos. Havia inúmeros problemas no empreendimento, entre eles, falta de estudo de impacto adequado e desvio de recursos. Com aval de todo o sistema elétrico, Furnas assumiu Corumbá 1 e o governo de Iris Re­zende pode priorizar a construção da quarta etapa de Cachoeira Dourada.

Furnas realizou todos os estudos nos anos seguintes e só retomou as obras da usina em 1987, já durante o governo de Henrique Santillo. Apenas três turbinas foram construídas e o volume de água do reservatório rebaixado em mais de 20 metros. Da forma como os governos da ditatura queriam erguer a obra (com até 8 turbinas), havia ameaça inclusive de atingir as águas termais de Caldas Novas. Um risco que Goiás jamais podia correr!

Em resumo, Iris sempre defendeu os interesses do Estado e empreendeu em seus dois governos o maior volume de obras da história de Goiás, corrigindo os desmandos dos governos que o antecederam. Iris construiu a quarta etapa de Cachoeira Dourada, aumentou as linhas de transmissão em todo o Estado e promoveu o maior programa de eletrificação rural do País à épo­ca. Alavancou o desenvolvimento de Goiás.

Esse debate, tardio e inadequado, que ex-governadores do período mais sombrio da história do País tentam promover, só reforça o quanto Goiás vive hoje um momento delicado, à beira do precipício. Eles querem, a todo custo, manter seu pupilo no poder. Mesmo com todas as mazelas que vivemos, o que infelizmente nos remete ao período mais deprimente da história do Brasil e de Goiás.”

ANÁLISE

Onde estava o Iris gestor e visionário quando entregou Corumbá?

Iris Rezende, no 1º governo: faltou seu instinto visionário

Iris Rezende, no 1º governo: faltou seu instinto visionário

Entre as qualidades pelas quais Iris Rezende é incensado por seus apoiadores, uma delas é a de homem visionário, o principal condutor do progresso de Goiás. De fato, o peemedebista está na história do Estado como um dos mais importantes, um degrau abaixo de Pedro Ludovico e Mauro Borges.

Infelizmente, uma atitude como a de desistir do privilégio que era dar a Goiás — e à sua empresa de energia elétrica, a Celg — sua segunda usina geradora de energia põe abaixo muito dessa imagem de político futurista. Indo ao dicionário, uma das definições para o termo “futurista” é “investidor nato, que planta alguma coisa hoje, pensando colher no amanhã”.
Se Cachoeira Dourada era, já então, na década de 80, econômica e geopoliticamente fundamental para o Estado, qual era o erro em apostar em uma segunda usina de grande porte naquele momento? O ex-governador e hoje candidato alega que havia impedimentos ambientais, corrupção, má gestão, pressões. Ora, mas a função do bom administrador — como ele se autodefine — não seria bancar o prosseguimento de uma obra como Corumbá?

Em relação a essa usina, no melhor dos cenários, faltou a Iris visão de futuro; no pior, sobrou revanchismo. E, ainda que a Celg conseguisse, de certa forma, salvar seu patrimônio com a adequação das turbinas compradas para Corumbá sendo utilizadas na quarta etapa de Cachoeira Dourada — e elevando o potencial desta em 190 MWh, o que não é pouco —, Goiás perdeu para Furnas uma galinha dos ovos de ouro que ainda não tinha começado a botar.

Anos depois, o PMDB venderia Cachoeira Dourada, no governo Maguito Vilela. Se há controvérsias sobre ter sido uma negociação a preço de banana, o que dá para afirmar é que o dinheiro resultante foi pessimamente investido. Torrado. Na época Iris — hoje um defensor intransigente de a Celg ficar com o Estado — era senador, poderia ter subido o tom, endurecido contra a negociação, ainda que o privatizante governo FHC estivesse contando com a venda. Não fez isso. Mais uma vez, a visão do estadista Iris não foi tão de longo alcance como deveria, pelos interesses de Goiás. (Elder Dias)

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