Histórico eleitoral recente evidencia importância das pesquisas em campanhas vitoriosas

Seja na hora de definir estratégias com levantamentos qualitativos ou verificar a eficácia das ações com quantitativas, o candidato precisa conhecer o perfil de quem vai às urnas e como decide seu voto

José Eliton (PSDB), Ronaldo Caiado (DEM) e Daniel Vilela (PMDB) podem contornar dificuldades com pesquisas

Augusto Diniz

Goiás viu a história das eleições estaduais ser contada, desde 1994, por viradas que deixaram para trás os favoritos ao cargo de governador. O início dessa narrativa se deu há 24 anos, quando o então vice-governador Maguito Vilela (PMDB) derrotou a primeira-dama no governo Irapuan Costa Júnior (1979) e na época deputada federal Lúcia Vânia, hoje no PSB, no segundo turno. Nessa disputa, o senador Ronaldo Caiado, naquele ano pelo PFL, terminou o primeiro turno na terceira colocação.

A eleição seguinte, de 1998, veio com um resultado que as pesquisas quantitativas, de intenção de votos, não apontavam como tendência nem de longe no início da campanha. Com mais de 70% da preferência do eleitorado goiano, o ex-governador Iris Rezende (PMDB) queria voltar ao cargo e era o favorito, tido por muitos como já eleito. Figura mais do que respeitada na política estadual, o peemedebista apostou em uma campanha de rádio e TV que evidenciava o homem de origem do campo. E acabou por ser surpreendido pelo deputado federal em primeiro mandato, o tucano Marconi Perillo.

A virada veio ainda no primeiro turno, em um apertado 48,59% dos votos válidos para o peessedebista contra 46,91% do experimentado duas vezes como governador Iris Rezende. A diferença foi um pouco ampliada no segundo turno, quando Marconi chegou ao cargo pela primeira de quatro vezes com 53,28% da votação. O mesmo aconteceu com o vice-governador do tucano, Alcides Rodrigues, ainda no PP, que tirou a vantagem de Maguito e foi reeleito em 2006.

Um caso curioso e interessante de ser lembrado também é a liderança na pré-campanha do deputado federal Delegado Waldir Soares (PR) à Prefeitura de Goiânia em 2016, quando estava empatado com Iris – que acabou sendo eleito no segundo turno contra Vanderlan Cardoso (PSB) – com 27% das intenções de votos para o membro da Polícia Civil goiana e o peemedebista. A campanha solitária do Delegado Waldir, que ignorou o apoio do partido e os apontamentos das mudanças do eleitor, que aos poucos desistia de declarar voto no candidato do PR e migrava para outros concorrentes, por pouco não terminou a corrida eleitoral na quarta colocação.

Semelhança

O que as derrotas dos líderes nas pesquisas quantitativas iniciais têm em comum, principalmente nos casos de 1998 para governador e 2016 em Goiânia? A falta de atenção e importância devida ao trabalho estratégico de formulação de ações de campanha e adequações de acordo com os resultados apontados por pesquisas qualitativas e seus resultados verificados pelos levantamentos quantitativos.

Muito se pergunta sobre qual seria a pesquisa mais importante na consolidação de uma candidatura para que ela tenha mais chance de ser a escolhida pela maioria do eleitorado. De acordo com diretores de institutos de pesquisa goianos e pesquisadores, tanto a qualitativa como a quantitativa têm sua importância, mas cada uma deve ser usada com objetivos diversos. Enquanto o levantamento qualitativo aponta comportamentos, sentimentos, sensações e direcionamentos do eleitor nas suas demandas e detalhes analisados na escolha do voto, o quantitativo, evidenciado pelas pesquisas de intenções de votos, molda a eficácia ou não de uma estratégia eleitoral das campanhas eleitorais em curso.

“Não se pode dizer o que é melhor ou pior dos dois modelos de pesquisa”, afirma Antônio Lorenzo, sócio-proprietário do instituto de pesquisa Serpes. Lorenzo lembra que se o objetivo é medir como está a intenção de voto, o ideal é o levantamento quantitativo. Mas quando o assunto é perceber para onde vai o sentimento do eleitor, o melhor é optar por uma qualitativa. “O marqueteiro tem de saber qual é melhor em cada momento”, lembra.

Para o sócio-proprietário do Serpes, o mais importante é que a pesquisa seja bem feita, com adoção de critérios que garantam a credibilidade do levantamento feito e dos resultados apontados. E também é necessário que a campanha de um candidato entenda que aquele recorte da realidade representa um determinado momento que ao longo da eleição pode mudar. “Não dá para dizer se aquele resultado da pesquisa quantitativa será o mesmo cenário verificado nos próximos 15 ou 30 dias, se haverá mais ou menos eleitores indecisos.”

O trabalho feito com base nos dados quantitativos, quando comparados os resultados de pesquisas atuais com outras mais antigas, ajuda a comprovar a tendência eleitoral de um recorte de tempo no período de campanha. “Mas o trabalho de uma qualitativa pode descrever melhor como esse voto se dá e levantar opiniões de como essa decisão é direcionada”, descreve. Lorenzo defende que dois detalhes precisam ser bem definidos na aplicação de uma pesquisa qualitativa: a representatividade do eleitorado, com suas diferenças, e o bom direcionamento do levantamento feito.

Tanto em 1998 quanto em 2016, as campanhas de Iris e do Delegado Waldir não perceberam, ou deixaram de entender, que o resultado de uma pesquisa de intenção de votos não é definitivo. A partir da tendência apontada pelas quantitativas, é possível fazer um estudo qualitativo que indique direções estratégicas de como convencer aquele eleitor de que o melhor não é de fato o candidato que ele pretende votar naquele momento, seja pelo destaque de qualidades ou a abordagem de temas de interesse daquele eleitorado por outro concorrente.

“A qualitativa não vai eleger um candidato. Ela precisa ser refeita com o acompanhamento das quantitativas e a mudança das discussões eleitorais, o que gera uma alteração de opinião e também de preocupação do eleitor sobre o que é importante em determinado momento da campanha”, diz.

Em concordância com o representante do Serpes, Rui Melo, que é sócio-diretor do Observatório Pesquisa de Comportamento, afirma que os valores subjetivos do eleitor são apontados por um trabalho de pesquisa qualitativa. “Enquanto a quantitativa diz em quem o eleitor quer votar, a qualitativa explica por que um grupo de eleitores decidiu votar em determinado candidato. A qualitativa explica o resultado da quantitativa”, define.

Quando perguntado sobre o cenário pré-eleitoral goiano na disputa para o governo, Rui diz que tudo ainda está muito confuso. Segundo o representante do Observatório, há um cuidado excessivo dos pré-candidatos quanto a gastos antes do início da campanha, além do olhar atento da Operação Lava Jato sobre a atuação dos institutos de pesquisa. “Alguns partidos estão fazendo pesquisas, mas a procura é maior por orçamentos do que a contratação de levantamento de dados de fato”, descreve Rui.

Gean Carvalho, do instituto Fortiori, vê como complementares os resultados apresentados por pesquisas qualitativas e quantitativas. “A quantitativa neste momento pré-eleitoral é menos importante, mas vale como lembrança da intenção de voto, para saber quais nomes o eleitor conhece antes do início da campanha.” Como o momento é de início de trabalho de definição da estratégia eleitoral, as pré-campanhas deveriam focar em dados que reforcem conceitos ou mudem rumos esperados das ações de seus candidatos e coligações.

“A consolidação do voto só acontece na reta final da eleição.” Como explica o proprietário do Fortiori, as campanhas não podem desprezar as pesquisas de intenção de votos, que servem como instrumentos de aferição das decisões tomadas com base em levantamentos qualitativos. “Se não saiu do lugar na preferência do eleitor é preciso mexer no formato da campanha. Por isso a quantitativa é um complemento da qualitativa”, declara.

Dos três nomes conhecidos na disputa ao governo goiano, Caiado (DEM) é o mais conhecido do eleitorado goiano. Até pelo fato de já ter sido candidato a presidente (1989) e a governador (1994), ocupar o cargo de senador e ter sido deputado federal por cinco mandatos. Aos 68 anos, o democrata tem sobrenome tradicional e está na política eletiva desde o final da década de 1980. Já José Eliton (PSDB) e Daniel Vilela (PMDB) são considerados novatos e podem largar atrás caso sejam esses mesmo os nomes quando a campanha começar. O tucano está em seu segundo mandato como vice-governador, enquanto o peemedebista foi eleito uma vez vereador, outra deputado estadual e em seguida para a Câmara dos Deputados.

Segundo os pesquisadores ouvidos pela reportagem, nada disso garante que o nome mais conhecido se consolide na frente quando a campanha de rádio e TV começar. Rui afirma que a rejeição apontada no período pré-eleitoral pode diluir ao longo da disputa com estratégias vindas dos levantamentos qualitativos, assim como o fato de um deles ser desconhecido pode ser algo superado com um trabalho de destaque de qualidades do governadoriável que estejam próximas daquilo que o eleitor identifica como fator determinante na escolha do voto.

Marconi é um exemplo de que, mesmo quando estava longe do legado de Iris em Goiás, foi possível apostar em uma estratégia bem construída de “tempo novo” para vencer o até então imbatível peemedebista. “Não há candidato competitivo que não invista em estudos e pesquisas qualitativas e quantitativas”, explica Gean.

Dúvidas existentes entre os eleitores hoje, mas que podem ser trabalhadas pelas pré-candidaturas e superadas pairam em torno de, por exemplo, a capacidade que Caiado terá de frear uma queda nas pesquisas quantitativas, caso ela venha a acontecer. Outro questionamento é se José Eliton, aos 45 anos, conseguirá mostrar ao eleitor que tem muito mais a oferecer do que ser apenas o nome indicado por Marconi. E sobre Daniel resta saber se sua campanha terá condições de convencer o eleitorado que se trata de um político capaz de comandar o Estado mesmo com apenas 34 anos.

“Campanhas não são produtos, se trabalha com ideias e conceitos”, lembra Gean. Já Lorenzo é mais enfático: “Se não forem bem feitas, as qualitativas se tornam um mero palpite”. E na busca pelo voto palpite não vale nada.

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