Historiador de Goiás conta como a negação do Holocausto deu origem aos movimentos antivacina e terraplanista

Para Makchwell Coimbra, a raiz epistemológica dos negacionistas de fatos históricos e científicos é a mesma

Makchwell Coimbra é autor do livro A Negação da Shoah e a História | Foto: Arquivo pessoal

Uma pesquisa inédita da ONG Avaaz e Ibope, divulgada em setembro deste ano, mostrou que um em cada quatro brasileiros resiste à ideia de se imunizar contra a Covid-19 quando a vacina obtiver o registro. Dos mil entrevistados, 25% manifestou incerteza ou rejeição categórica à vacina contra a doença provocada pelo coronavírus. Apesar do resultado da pesquisa chocar muita gente, uma vez que o processo de vacinação é visto pela comunidade científica como o meio mais eficaz de prevenção às doenças, a negação desse método é um fenômeno que permanece mais vivo do que nunca.

A explicação está nas raízes desse negacionismo.  Assim como o terraplanismo, teoria que nega o heliocentrismo e diz que a terra tem formato plano, e não esférico, e o negacionismo climático, que rejeita a ideia do aquecimento global, o movimento antivacina está ligado a um fenômeno social e cultural que teria influenciado todos os outros da mesma linha: a negação do Holocausto.

É o que explica o professor e doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia, Makchwell Coimbra. Para o professor, que também é autor do livro A Negação da Shoah e a História, que trata da questão da negação do extermínio em massa dos judeus na Alemanha nazista, o Holocausto é o resultado de um processo civilizatório que acabou dando “as bases epistemológicas e filosóficas para as outras negações”.

De acordo com Makchwell, o Holocausto “derruba nossa forma de ver o mundo” e, a partir daí, se revisam todas as ciências , fenômeno que, conforme o professor, foi observado após a queda de Hitler.

Cena do documentário A Terra é Plana, da Netflix, que mostra o cotidiano de um grupo terraplanista | Foto: Divulgação

“Depois da 2ª Guerra, todas as áreas do conhecimento foram revisionadas. As ciências biológicas, por exemplo. Os cientistas hitleristas gostavam muito de ciência. Eles eram embasados sob uma ótica científica da época. Só que nós sabemos que o eugenismo de Hitler era uma coisa assassina. Então as ciências biológicas tiveram que se revisionar, a história se revisionou, a Filosofia, o Direito, a própria Teologia”, explica o professor.

Conforme Makchwell, “os argumentos dos terraplanistas e dos negacionistas da vacina se parecem muito com os argumentos do negacionismo do Holocausto”. “Por exemplo ‘eu não vou tomar vacina porque eu me curei e eu sou a prova viva’. Não existe prova viva, existe amostragem. É o mesmo argumento de alguém que fala que ninguém saiu das câmaras de gás”, compara.

A dúvida sobre o genocídio judeu se espalha

Segundo conta Makchwell, logo após o fim do 3º Reich, não havia “clima para se negar o Holocausto”, uma vez que o assassinato de mais de 6 milhões de judeus no processo de eugenia nazista ainda reverberava pelo mundo. No entanto, uma centelha de questionamento começa a surgir com a publicação, em 1952, do livro A Mentira de Ulisses, do escritor francês Paul Rassinier. Conforme Makchwell, Rassinier, que chegou a passar por campos de concentração, contestou  a função desses locais, lançando, através de um pseudoargumento, a semente da dúvida.

“Ele traz o argumento base para todos os outros negacionistas, que é o seguinte: como que alguém pode afirmar que houve câmaras de gás que matavam pessoas, sendo que nenhuma pessoa saiu dessas câmaras de gás para comprovar que isso é real?  Ele está dizendo que, se eu não posso conversar com alguém que esteve nos campos de concentração, eu não tenho como comprovar que os campos eram de extermínio”, diz Makchwell.

Para o professor, o ponto levantado por Rassinier não se sustenta, uma vez que os fatos históricos utilizados por historiadores são embasados em documentos e registros das épocas analisadas. “O que ele está dizendo com a negação do Holocausto? Que a história é falsa, que a ciência é falsa. Ele está dizendo que o conhecimento humano que as áreas do conhecimento se embasam são falsas”, descreve o historiador.

Judeus em um campo de extermínio | Foto: Reprodução

Mesmo assim, a dúvida quanto à veracidade do terror dos campos de extermínio, que até então não existia, começou a crescer. Makchwell relata que pouco mais de uma década mais tarde, um ensaísta e professor francês, chamado Robert Faurisson, resgata a obra de Rassinier, que já estava esquecida nos recônditos europeus, e a populariza em colunas publicadas no famoso jornal Le Monde.

A ideia de que o Holocausto pode ter sido, na verdade, uma invenção, normalmente usado por grupos de extrema-direita, de acordo com Makchwell, passa a ser usado, inclusive, por membros da esquerda europeia. “Alguns grupos de esquerda, como a editora La Vieille Taupe, A Velha Toupeira, pegam os artigos e começa a vender, para atacar o estado de Israel”, explica.

O uso da mentira e personificação do “outro”

Makchwell destaca que, para que um sistema político autoritário possa ser implantado, é preciso que se aponte um inimigo a ser combatido – seja ele real ou imaginário. No caso da ideologia nazista, o “inimigo dos alemães” foi descrito por, literalmente, uma peça de teatro.

O professor relata que um suposto documento intitulado Os Protocolos dos Sábios de Sião, surgido em finais do século XIX, serviu de base para Hitler e os nazistas em sua caçada antissemita. O documento traz a descrição de um complô formado por judeus, comunistas e maçons para a dominação mundial “através da destruição do mundo ocidental”. Contudo, de acordo com Makchwell, esse mesmo texto usado como fundamentação do Reich nazista não passava de uma falácia.

“Esse texto é, na verdade, uma peça teatral. E o que nazistas como Hitler, Himmler, Goebbels fazem? Colocam isso no centro da cultura alemã, e as pessoas acreditam nesse livro”, expõe.

Capa do livro Os Protocolos dos Sábios de Sião | Foto: Reprodução

Para o historiador, a ascensão do ódio pelo judeu foi fundamental para a consolidação do regime nazista, uma vez que, segundo Makchwell, o autoristarismo precisa “do outro” para se manter, que seria, na verdade, o inimigo comum do povo, real ou imaginário.

O professor conta que, no Brasil, essa mesma artimanha da construção “do outro” foi necessária para, por exemplo, a concretização do Golpe Militar de 1964.

“Na Europa, quem era ‘o outro’ do período [nazista]? O judeu. O outro da França hoje é quem? O muçulmano. No Brasil, criamos ‘o outro’ brasileiro. Que foi quem? Primeiramente foi o negro, o ex-escravo que não teve local na construção social brasileira. Mas depois, na instauração da Ditadura Militar, havia a necessidade do ‘outro’ também, real ou imaginário. E o que foi isso? Um ‘golpe comunista’”, descreve Makchwell.

Revisionismo x Negacionismo

Ao contrário do que se pensa, revisionar a história, isto é, reanalisar os acontecimentos passados para corrigir informações do presente, é algo comum e necessário entre os especialistas, o que não deve ser confundido com negacionismo, que, de acordo com Makchwell, rejeita, sem base fática, informações amplamente aceitas.

Segundo o professor, todo historiador é revisionista e cita um exemplo recente do quão essencial é a correção de informações históricas. “Há menos de um mês se descobriu documentos que comprovam que a maioria dos alemães sabia dos campos de concentração. Até então, todos nós [historiadores] pensávamos que não, que a maioria dos alemães não sabia. Foi uma coisa nova, e o que vai acontecer a partir disso: nós vamos revisionar a história”, conta.

No entanto, Makchwell ressalta que, para haver revisão histórica, é preciso o método científico de comprovação, o que não é o caso da “revisão do Holocausto”, uma vez que os negacionistas, segundo o professor, ignoram registros e documentos históricos que corroboram todas as informações acerca do genocídio de judeus nos campos de extermínio.

Para Makchell Coimbra, autoritarismo precisa “do outro” para viver | Foto: Arquivo pessoal

Mesmo em uma época em que uma parte da população insiste em negar acontecimentos  que contam com amplo registro histórico, como o Holocausto, a Ditadura Militar e até mesmo a vacinação, Makchwell avalia que existem pontos positivos, como, por exemplo, a democratização do conhecimento científico, e reconhece a falha dos especialistas e cientistas. “Nós estamos revisionando a história a partir dessas negações. De fato, a ciência tem um problema grave, que é não conseguir passar para o público externo da academia o que é e como é a forma de fazer ciência”, diz.

“O que os historiadores e cientistas perceberam agora: que nós precisamos, também, passar para o público em geral que o que nós fazemos é conhecimento, e que precisamos traduzir o conhecimento de uma forma que faça parte da vida das pessoas”, conclui.

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