Hillary era mais risco de causar a 3ª Guerra do que Trump

Doutor em Ciências Políticas e professor de Direito Internacional diz que ao vencer a eleição, milionário deu voz à América profunda, dos que pagam a conta e são menosprezados

Donald Trump: o milionário azarão que venceu a eleição americana e deu voz a milhões de desassistidos | Foto: Divulgação

Donald Trump: o milionário azarão que venceu a eleição americana e deu voz a milhões de desassistidos | Foto: Divulgação

Cezar Santos

A vitória do milionário re­publicano Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos causou uma comoção no mundo inteiro. A­fi­nal, era dada como certa por praticamente toda a imprensa americana (e do Brasil) que seria eleita a democrata Hi­llary Clinton. No início da campanha, a vitória da senhora Clinton, a­poiada por Barack Obama, seria tranquila.

O desempenho de Trump foi im­pressionante. Ele seguiu firme contra a imprensa, às vezes contra aliados de seu partido, falando besteiras, sendo atacado pelos adversários e respondendo à altura. Mesmo com muitos tropeços, o republicano foi ganhando adeptos. Com o decorrer da campanha, a imprensa pró-Hillary, majoritária, chegou a admitir que a disputa não seria tão tranquila, mas mesmo assim a eleição dela seria inevitável.

Com a vitória do milionário, as especulações explodiram. Primeiro, a estupefação: como e por que ele ganhou? Depois o temor sobre o que vai acontecer agora. O que boa parte dos inconformados com a vitória do histriônico personagem especula beira a sandice: o mundo vai acabar, porque Trump vai detonar a Terceira Guerra Mundial; os negros serão eliminados; os imigrantes latinos que vivem nos Estados Unidos serão todos expulsos; muçulmanos não poderão mais entrar no país; as mulheres vão virar escravas sexuais…

Mas já na primeira manifestação pública após a vitória, Donald Trump amaciou seu discurso. No dia seguinte, foi recebido pelo titular da Casa Branca e o que se viu foram delicadezas mútuas, com o eleito dizendo que vai recorrer aos conselhos de Barack Obama no futuro. Pragmatismo puro, afinal, mesmo que não tenha experiência política, Donald Trump não é o tolo que a imprensa americana (e a brasileira atrás, feito um cacho­rrinho) quis e quer fazer acreditar.

Para ajudar a entender o fenômeno Trump, causas de sua eleição e o que se pode esperar, o Jornal Opção ouviu um “goiano” que até por dever do ofício observa e analisa a conjuntura internacional. O professor Jean Marie Lambert é belga de nascimento, mas está radicado em Goiás há mais de três décadas. Doutor em Ciências Políticas e professor de Direito Internacional da Pontifícia Univer­sidade Católica de Goiás (PUC-GO), Lambert começa dizendo que a eleição de Trump não o surpreendeu. “Eu tinha mais ou menos previsto — cheguei a apostar uma cerveja com vários colegas da universidade e agora vou ficar de pileque (risos). Na verdade, conheço a realidade dos Estados Unidos, tenho uma filha que mora lá e a visito todos os anos.”

O professor diz que o cenário político americano tornou-se um paradoxo, em que milhões de pessoas não se viram representados pelos dois candidatos à Presidência. Ele vê nessa situação meio que um sintoma de decadência do sistema político, em que os eleitores não contam com uma opção válida.

A filha de Lambert, por exemplo, que tem nacionalidade norte-a­mericana, não votou porque nem Hillary Clinton nem Donaldo Trump a satisfazia. “Ela é cristã, e vo­tar na Clinton seria votar no a­borto, no feminismo radical, na li­be­ração da maconha e coisas as­sim. Mas ao mesmo tempo, ela ti­nha medo do Trump, por isso não votou. Isso mostra o dilema em que ficaram milhões de americanos.”

Como fenômeno sociológico, Jean Marie Lambert diz que o que levou à vitória de Donald Trump é que ele é fruto da ideologia globalista dos Clinton, de Barack Obama e da esquerda americana. Uma ideologia que se diz inclusiva, que se reivindica da diversidade, que se apresenta como tolerante, mas que na realidade acaba sendo a cultura mais excludente e intolerante que apareceu na face da terra nos últimos anos. “É um discurso em que quem pensa diferente é reacionário, preconceituoso, fundamentalista, xenofóbico, machista, esses rótulos todos que usam para desqualificar as pessoas que não estão afinados com eles.”

Segundo o professor, essa mecânica mental exclui quem pensa diferente. “Nós conhecemos isso no Brasil, porque a esquerda brasileira importou essa mecânica mental. É uma equação ideológica onde só existe eles, porque o resto é excluído por rotulação. Isso é grave porque para entender o seu raciocínio tem de confrontar com o raciocínio dos outros, mas eles não fazem isso, por que vivem num espaço impoluto, numa ilusão de serem inclusivos, mas excluindo quem não pensa como eles”, afirma.

Lambert lembra que o eleitorado de Donald Trump representa a América profunda, mais quadrada e conservadora, que não está na cabeça de quem está no poder, mas existe no mundo. E de repente, diz, essas pessoas se manifestam nessa eleição. Trump foi a voz desses esquecidos, da América que cultiva valores de família, de trabalho, de ordem, de mérito. “A América que banca a farra e é desrespeitada, que paga impostos e não recebe agradecimento, mas desprezo de quem se acha no direito de viver de discurso. Essa massa silenciosa acaba de falar alto e diz que existe e não está mais disposta a ser deixada de lado.”

Derrapadas foram falta de traquejo político

Cientista político Jean Marie Lambert: “Trump vai propor mudanças de rumo, mas vai fazer isso com ordem” | Fernando Leite/Jornal Opção

Cientista político Jean Marie Lambert: “Trump vai propor mudanças de rumo, mas vai fazer isso com ordem” | Fernando Leite/Jornal Opção

Sobre os discursos inoportunos de Donald Trump, as várias vezes que ele falou coisas inconvenientes, o professor Jean Marie Lambert lembra que o milionário não tem traquejo político. Derrapada no discurso é próprio de quem não é político, afirma. Já Hillary Clinton, ao contrário, tinha um discurso hiper-rodado, dentro do trilho do establishment, sem erro. “Donald Trump não, ele inventou um novo discurso e aí tropeça mesmo, não tem jeito, ainda mais quem não tem traquejo político.”

Mas Jean Marie Lambert diz que houve momentos em que se assustou, realmente, com falas de Trump. Por exemplo, quando mostraram uma fita em que o então candidato diz que se é rico pode pegar nas mulheres. “Eu tenho filhas, quero respeito para elas, aquilo foi chocante.”

Mas, no restante, afirma Lambert, a mídia inventou muita coisa contra Trump. “Acompanhei a campanha desde o início e, com exceção da tal fita, não vi que ele tivesse uma postura misógina, ou machista, contra as mulheres. Não vi também nenhum momento em que ele tivesse discriminado negros, embora a mídia tenha martelado isso. Quanto ao propalado xenofobismo, ele falou em controlar as fronteiras, no que tem razão, não há porque um país deixar entrar qualquer um sem controle.”

Trump falou também em deportar imigrante que estiver sem documentação, mas isso foi discurso de choque, para começo de conversa. “Trump tinha de ir ao encontro das frustrações da América profunda. O problema da insegurança com imigrantes latinos é real e não se pode simplesmente varrer isso para debaixo do tapete e não falar, como a Clinton queria fazer.”

Tanto, diz, que os imigrantes já legalmente estabelecidos nos Estados Unidos aprovam o discurso de Trump. “Não tem mesmo que deixar entrar bandidos, tem de haver controle. Dizer que os latinos não votariam em Trump por causa desse discurso foi chute da mídia que apoiava a Clinton. E isso se comprovou, os latinos saíram em massa para votar, e votaram em Donald Trump (risos).”

Segundo Jean Marie Lambert, o candidato fez a coreografia dele para romper com o sistema vigente de campanha eleitoral e levantar lebres, alçar temas incômodos. Para isso tem de ter uma gesticulação meio “brava” e Trump fez isso no momento certo. “Ele é um comunicador, teve programa na televisão, e sabe fazer isso.”

Mas, e o discurso amaciado de Donald Trump depois da eleição?

Segundo Lambert, agora, o milionário cai no sistema de checks and balances, que funciona bem na democracia americana, com zonas de poder que se equilibram umas às outras. O professor se refere à limitação de poder da ação de um presidente americano, especialmente no que diz respeito à política interna.

E aqui fazemos uma digressão para explicar melhor esse mecanismo. O sistema de poder dos Estados Unidos baseia-se na ideia de checks and balances, montado justamente para que ninguém acumule demasiado poder – executivo, legislativo e judiciário podem se controlar e refrear. O presidente tem poder de vetar legislação, mas o Congresso pode, por maiorias de dois terços, anular esse veto; o presidente pode nomear os juízes do Supremo, mas o Congresso precisa confirmar estas nomeações.

O presidente assina tratados, mas após confirmação do Senado. E o Congresso pode ainda, por maioria de dois terços, iniciar um processo de impugnação (impeachment) do presidente – ocorreu duas vezes, com Andrew Johnson e Bill Clinton, mas em nenhuma das vezes o presidente foi destituído do cargo.

O Supremo Tribunal pode pronunciar-se – se lhe for pedido – sobre a constitucionalidade das ações do presidente ou do Con­gresso. Quem domina o Congresso, o Senado, e qual a maioria do Supremo são assim também essenciais para o poder de um presidente. Trump vai ter maioria no Congresso, o que lhe poderá facilitar muitos planos, mas nem sempre isso é garantia de ver aprovada legislação que queira.

Volta o professor Jean Marie Lambert: “Donald Trump vai chegar com proposta de mudança de rumo, mas vai fazer isso com ordem. Ele é um empresário maduro. Vai começar a fazer as alianças para isso. A verdade é que a eleição de Donald Trump não me assusta nem um pouco. Ele não é o fim de um sistema como a mídia quer vender”, afirma.

Terceira guerra
Sobre a possibilidade de Donald Trump iniciar conflitos, Jean Marie Lambert não acredita nisso. Aliás, pelo contrário, ele diz ter certeza de que Hillary Clinton é que seria um perigo no sentido de deflagrar a terceira guerra mundial. Ele lembra que ela é que era a candidata dos bancos, do capital transnacional. E conta que viu na CNN, numa determinada semana, Trump ter recebido 1 milhão de dólares de doações, de pequenos doadores que deram em média 60 dólares (“Foi o povão”).

No mesmo período, Hillary Clinton recolheu 80 milhões de dólares de apenas quatro doadores, quatro bancos. “Por aí se vê quem manda nela. O capital transnacional precisa de regimes estáveis e financia a quem o serve nisso, no regime changes. Por isso foi invadido o Iraque para tirar Saddam Hussein, a Líbia, para tirar Kaddafi. Agora querem tirar Assad na Síria. Isso é comandado pelos bancos.”

O professor dá uma rápida aula para esclarecer a questão: O capital transnacional não tem bandeira, não tem pátria, quer se deslocar livremente para onde dá mais lucro, e para isso tem de haver regimes estáveis. O capital transnacional não se dá bem em regimes ditatoriais. “As mudanças de regimes nos países atendem ao capital, e a Hillary Clinton atende isso. Primeiramente, talvez ela já iria trombar com a Rússia na questão da Síria, onde Assad tem apoio dos russos. Para atender os bancos, Hillary Clinton quer uma mudança de regime na Síria e a terceira guerra poderia começar aí”, explica.

Trump, pelo contrário, é isolacionista, quer se retrancar nos Estados Unidos, quer resolver os problemas internos, não quer se meter em guerras. “Tanto que ele foi contra a guerra do Iraque, a guerra da Líbia, contra a intervenção na Síria. E a Clinton, como secretária de Estado, fez tudo isso.”

“A imprensa errou porque apoiou Hillary”

Antropólogo Wilson Ferreira da Cunha: “Os EUA não vão ficar isolados” | Fernando Leite/Jornal Opção

Antropólogo Wilson Ferreira da Cunha: “Os EUA não vão ficar isolados” | Fernando Leite/Jornal Opção

Antropólogo, com formação pela antiga União Soviética, cientista político e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-GO), Wilson Ferreira da Cunha afirma que Donald Trump representa a continuação do discurso populista — “aliás, ele é do partido populista que começou no século 19, nos Estados Unidos” —, agradando aqueles mais ressentidos, com mais carências.

O professor classifica a democrata Hillary Clinton também como populista. Mas observa que Trump foi mais efetivo no discurso e se elegeu, falando o que o eleitor americano queria ouvir. Mesmo com as trapalhadas cometidas em vários momentos, como na questão do muro, por exemplo. “Mas esse muro já existe [o democrata Bill Clinton construiu, na década de 1990, um muro de vários quilômetros de extensão na fronteira de Tijuana–San Diego]. As cidades de ferrugem, com o fechamento de empresas que foram para a China. Trump estava defendendo o nacionalismo americano.”

Com relação a mudanças drásticas que talvez o eleito quisesse fazer, Cunha lembra que o presidente americano não tem esse poder todo nas mãos, diferente do Brasil, em que o presidente é quase um monarca. “Verdade que Trump tem maioria no Senado e na Câmara, vai ficar mais fácil governar, mas não tem esse poder todo, é preciso que se diga isso.”

Segundo o professor, não se pode imaginar que o início do governo Trump vai ser um desastre, um fechamento no que diz respeito ao comércio externo. Estados Unidos são capitalistas e o capitalismo quer se relacionar com o mundo inteiro, precisa de mercados, de compradores. “Trump pode até querer evitar que empresas americanas saiam do país, mas é ingenuidade achar que os Estados Unidos vão ficar isolados. Mesmo porque Trump vai querer melhorar a economia americana, que sob Obama não foi boa, isso também provocou a derrota da candidata democrata.”

Se imediatamente depois da eleição, Trump fez um discurso moderado, isso, na avaliação de Wilson Ferreira da Cunha, se deu porque o eleito tirou o personagem do palanque e assumiu outra postura. “A globalização mais presente graças à tecnologia e inovações americanas se virou contra eles também, porque novos concorrentes surgiram.”

Sobre as análises e pesquisas que davam vitória de Hillary Clinton, Cunha diz que a imprensa errou, os analistas fizeram uma leitura errada do processo eleitoral americano, porque torciam pela democrata. “A imprensa fez uma caricatura do discurso de Trump. A imprensa teve certeza, e certeza é próxima do delírio, não contou com o imponderável.”

Consequências da eleição de Donald Trump

Ricardo Balistiero: “Não vejo problema com nossa economia” | Reprodução Youtube

Ricardo Balistiero: “Não vejo problema com nossa economia” | Reprodução Youtube

Responde com exclusividade para o Jornal Opção o coordenador e professor de Administração do Instituto Mauá de Tecnologia (SP), Ricardo Balistiero

  • Para o mundo – Depende de eventuais políticas expansionistas. Caso isso ocorra, haverá pressão inflacionária e subida mais bruscas na taxa de juros, afetando o comportamento da taxa de câmbio de outras economias.
  • Para o Brasil – O Brasil tem balança comercial deficitária com os EUA. Não vejo problemas diretos com a nossa economia. Entretanto, uma alta brusca nos juros nos EUA pode nos afetar, indiretamente, a partir da nossa taxa de câmbio.
  • Para os países que competem com os EUA principalmente na questão agrícola – Os EUA são grandes importadores e exportadores de produtos agrícolas. Não vejo grandes problemas adicionais nesse setor. Parece que as questões macro (expansão de gastos, impacto na taxa de juros e/ou aumento do protecionismo) podem gerar impactos mais indesejáveis. l

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