Há 50 anos, o maior feito da história da humanidade

O voo do homem à Lua, 50 anos atrás, colocou os EUA na dianteira da Guerra Fria. Entenda a coragem dos três homens que tripularam a Apollo 11

50 anos do homem na lua

Buzz Aldrin na “Base da Tranquilidade”, o acampamento temporário do homem na Lua | Foto: Reprodução / NASA

No dia 20 de julho de 1969, às 17h17 no horário de Brasília, um quinto da população mundial estava abismado diante de suas Telefunkens. Setecentos milhões de pessoas assistiram à transmissão ao vivo do pouso da Eagle no Mar da Tranquilidade – um planalto deserto basáltico sob céu escuro –, a abertura da escotilha, e então a descida desajeitada de Neil Armstrong até o solo lunar, que descreveu como “carvão em pó que se adere à sola e às laterais das minhas botas”. Por fim, o pequeno passo de Armstrong que foi um grande salto para a humanidade. 

Apesar de o momento ter se tornado a imagem duradoura da corrida espacial, ele é apenas o símbolo do que Richard Nixon chamou de “a maior realização da história da humanidade”. Tendo deixado um legado científico, político e cultural inestimável, o processo de deixar a Terra envolveu o esforço de diversos engenheiros, cientistas e pilotos de várias nações, com custo médio de um bilhão e meio de dólares para cada uma das dezenas de missões. 

Tal esforço, que pode ser comparado apenas ao descobrimento das Américas, foi um fenômeno possibilitado pela Guerra Fria. Em nenhum outro contexto líderes mundiais foram estimulados a traçar metas tão ambiciosas pela liderança simbólica. Em 1961, John F. Kennedy afirmou: “Acredito que esta nação deve comprometer-se a atingir o objetivo, antes que esta década termine, de pousar um homem na Lua e devolvê-lo em segurança à Terra”. 

pegada de 50 anos na lua

Pegada de Neil Armstrong | Foto: Reprodução / NASA

História

A corrida espacial começou muito antes do pouso na Lua. Em 1957, o cientista de foguetes Sergei Korolev tinha todo apoio da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ao contrário do engenheiro especialista dos Estados Unidos, Wernher von Braun. Foi Korolev quem colocou o primeiro satélite artificial em órbita da Terra, o Sputnik 1. Por uma hora e meia, a esfera de metal transmitiu um sinal de rádio que pôde ser captado por todos ao redor do mundo. Apenas um mês depois, os russos lançaram o Sputnik 2 a 1.600 quilômetros de altitude, carregando a cadela Laika. 

Com o sucesso soviético, os EUA foram incitados a entrar na corrida espacial. Um dia após ser comunicado do êxito de Sputnik 1, o presidente Eisenhower convocou uma coletiva de imprensa para acalmar o público e o Congresso americano. Sua principal intenção era comunicar que o Sputnik não representava uma ameaça aos Estados Unidos. “Pelo que dizem os soviéticos, eles colocaram uma pequena bola no ar”, afirmou o presidente segundo os arquivos da NASA.

Quando perguntado como sua administração poderia ter deixado os soviéticos serem os primeiros no espaço, Eisenhower disse que “ninguém nunca me sugeriu uma corrida, exceto, é claro, mais de uma vez nós dissemos que, bem, haverá uma grande vantagem psicológica na política mundial para colocar a coisa em prática. Mas em vista do verdadeiro caráter científico de nosso desenvolvimento, não parecia haver uma razão para ficar histérico sobre isso.” Ele acrescentou que ele forneceria os esforços de mísseis e satélites dos EUA com fundos “até o limite de minha capacidade, e isso é tudo que posso fazer”. 

Com este início formal da corrida espacial, os foguetes Vanguard, NOTS, Pioneer e Explorer 2 foram explodidos, tiveram falhas na ignição ou perderam a comunicação com o centro de comando na tentativa de alcançar a órbita terrestre. O primeiro sucesso americano veio com Juno-1, em janeiro de 1958, que levou uma sonda até o outro lado do mundo ao longo de 106 minutos. Os EUA ainda seriam batidos nos critérios: primeiro homem no espaço (Yuri Gagarin pela missão Vostok 1, em 1961), primeiro impacto e primeiro vôo pela Lua (Lunik 2 e 3, 1959) e primeiro satélite a orbitar a Lua (Lunik 10, 1966).

A missão de Laika foi um sucesso parcial – a cadela morreu por superaquecimento no quarto dia em órbita

Apollo 11

A missão Apollo 11 durou oito dias ao todo. Tendo aprendido com experimentos dos projetos antecedentes, Mercury e Gemini, os astronautas Edwin “Buzz” Aldrin, Michael Collins e Neil Armstrong foram projetados ao espaço no dia 16. Os 2.970.000 kg do foguete Saturn V (a maior parte do peso composto por combustível), divididos em doze partes e com altura de um prédio de 36 andares levaram os três americanos a 384.400 km de distância em quatro dias, a quase dez mil quilômetros por hora. 

A trajetória da nave não foi linear. O foguete que saiu como um gigante da Terra ejetou por meio de parafusos explosivos suas duas maiores partes (foguetes 5 F-1 Rocketdyne e tanques de combustível). Saturn V gastou seis minutos de combustível do terceiro tanque (S-IVB Douglas) e deu uma volta completa na Terra ao longo de 90 minutos. Durante esse tempo, o perfeito funcionamento da nave foi conferido. Ao receber autorização do comando em Houston, o restante do propelente foi queimado e os três astronautas foram catapultados para a Lua. 

Três dias depois, sem gasto de combustível, o restante da nave foi capturada pela gravidade lunar e começou a girar em torno do astro. A manobra, chamada injeção translunar, contou com um delicado passo de dança no meio do percurso. O módulo de comando se destacou, girou 180º e se acoplou ao módulo lunar em pleno vôo. A estrutura final é a nave Apollo propriamente dita. 

Armstrong e Aldrin se moveram para o módulo lunar, chamado Eagle e desceram em direção à Lua enquanto Mike Collins continuou a orbitar a Lua no módulo de comando, chamado Columbia. Eagle aterrissou (“a águia pousou!”, disse Neil Armstrong ao rádio quando fez contato com solo lunar) e os astronautas se puseram a fazer testes científicos e coletar de 22 kg de amostras do material lunar. 

Eagle foi propelida e entrou no caminho de Columbia, na órbita da Lua, deu um giro de 180º e, delicadamente, uniram-se novamente. Todo o material e astronautas se moveram para o módulo de comando e o módulo lunar foi descartado. No dia 22, os astronautas se lançaram de volta para casa, contando com o escudo térmico do módulo para entrar em atrito com o ar e desacelerarem-nos o suficiente para que os pára-quedas surtissem efeito.

  

  

Os acontecimentos e fatos do maior feito da história da humanidade serão publicados no Jornal Opção, à luz dos conhecimentos modernos e com detalhes, do dia 16 até o dia 24 de julho, conforme aconteciam há 50 anos. 

Há 50 anos lua

Saturn V deixa a base de lançamento, em Kennedy | Foto: Reprodução / NASA

Goianos contam como se lembram de assistir o homem andar fora da Terra

Maria Lúcia Félix de Sousa Bufaiçal

Poeta, cronista, contista. Autora dos livros Rio do Sonho, Rosa no Vento, Vida Dividida e outros. 

Foto: Reprodução

Eu tinha 19 anos. Assisti à transmissão pela TV em preto e branco. Fiquei assombrada, foi muito impactante. Muita gente mais velha do que eu nunca acreditou, eu sempre acreditei. Me lembro que estava todo mundo reunido para assistir aquilo, todos assombrados. 

Eu não me lembro exatamente o que pensei. Na minha infância teve o Gagarin e eu lia gibis de ficção científica, bem como o escritor Ray Bradbury, pelo qual meu pai também era apaixonado. Então essas coisas povoavam nossa imaginação, não era tão distante quanto se pode pensar; não estava tão dissociado da vida das pessoas. Mas as pequenas coisas me assustaram, como quando assisti ao filme 2001: Uma Odisseia no Espaço e vi o personagem conversar por videoconferência com um parente – coisa que faço hoje com frequência. Aquilo parecia completamente fora do comum. 

Então o pouso na Lua trouxe o futuro para perto da gente, tirou da especulação literária. Estava no ar, na imaginação dos escritores, mas a comprovação de que era possível inaugurou uma época. Foi falado, documentado, saía em jornais. Durante a corrida espacial, na ditadura, a abordagem era: tudo que era bom para os Estados Unidos era bom para o Brasil. 

Fatalmente chegará o dia em que o homem vai para outro planeta, tentar terraformar e se mudar definitivamente. A exploração é da natureza humana. Fizemos o mesmo ao descobrir a América. Acredito que a superpopulação e problemas ambientais serão um incentivo para que nós colonizemos o espaço.

Lêda Selma de Alencar 

Foto: Reprodução / Academia Goiana de Letras

Poeta, cronista e contista. Preside a Academia Goiana de Letras. Autora dos livros Das Sendas à Travessia, Nem te conto, À deriva e outros.

Eu vi na televisão ao vivo, na casa da minha mãe, quando tinha 21 anos. Meu pai nunca acreditou. Morreu aos 89 anos de idade, em 1993, dizendo que aquilo era um embuste, uma fraude dos americanos para desbancar a URSS.

Quando vi aquilo, pensei: acabou o romantismo da Lua. Como vamos fazer poemas sobre a Lua agora? Como vamos namorar sob a luz da Lua? Foi uma decepção tremenda, achei que o lado emocional estava avariado. Eu sempre gostei muito da Lua, mas ali ela não era mais uma coisa lírica, era cinza, de pedra. Falei: vou ficar com as estrelas, tomara que não cheguem a elas.

Hoje eu já vejo a Lua como via com 14 anos; continuo achando algo muito bonito enfeitando o firmamento, não importa se estiveram lá. Olhando pelo lado não-poético, claro que os benefícios valeram a pena. O voo mudou o rumo da humanidade e da ciência. Mudou até nossa cozinha com o teflon, o microondas, todas as conquistas dos satélites. Não importa se foi fruto da guerra fria, trouxe benefícios. 

Com toda sinceridade, o que mais me impactou foi a coragem do homem de explorar o desconhecido. Apesar de toda tecnologia mostrada, eu achava que aqueles homens nem eram de verdade. Não era possível que alguém se dispusesse a talvez nem voltar mais. A inteligência dos homens da Nasa também me assustou.

A corrida espacial víamos sempre, na TV. A guerra fria não me interessava muito, mas a minha mãe era aterrorizada com a ideia de que a guerra mundial destruiria o mundo, de que os dois lados eram muito potentes e não eram do bem. Ela dizia que brigavam para ver qual deles destruiria o mundo para ficarem sozinhos e começarem do zero. Eram ideias míticas do poder. Uma briga pelo mundo. 

Eu nunca cheguei a concordar com meus pais. Meu pai, que não teve instrução, falava: “vocês têm tanto estudo e os americanos fazendo vocês de bobos”. Ele morreu há 25 anos. Se tivesse visto todas as tecnologias que a corrida espacial proporcionou, talvez passasse a acreditar.

Marco Antônio Lemos

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJ-DF)

Vivíamos tempos de Guerra Fria e foi com muita apreensão, já que se esperava a qualquer momento que EUA e URSS se destruíssem mutuamente, que ocorreu o pouso americano na Lua, pouco antes da meia noite do dia 20 de julho de 1969, hora do Brasil. Eu tinha 22 anos quando presenciei o evento. Houve entusiasmo, mas também temor. Tínhamos esperanças, mas também incertezas, e fico feliz que esse triunfo humano, nestes 50 anos, não confirmasse as expectativas negativas do futuro do planeta.

Pouco depois de pisar em solo lunar pela primeira vez, Neil Armstrong pronunciou uma frase que intrigou a todos que a escutaram: “Boa sorte, Mr. Grotsby!”E nunca tocou no assunto ou esclareceu o que quisera dizer com esse enigmático comentário. Somente depois de esquecido, muitos anos depois o fato foi relembrado e retomado por Armstrong. Quando menino, em Wakaponeta, Ohio, Neil era vizinho da família Grotsby e, de certa feita, rebateu uma bola de basebol que acabou por cair no quintal dos Grotsby. Ao recuperar a bola, Neil passou pela janela do quarto do casal e presenciou uma áspera discussão entre os dois, em que a mulher dizia ao marido: “Você quer que eu lhe dê o traseiro; vou atendê-lo no dia em o filho dos vizinhos pousar na Lua!…”

 

O Homem Na Lua

Irapuan Costa Junior

Cinquenta anos da chegada do Homem na Lua. Um episódio marcante da Guerra Fria. A Guerra Fria que nunca poderia se aquecer. Se tal ocorresse, com um conflito nuclear entre EUA e URSS, boa parte da humanidade estaria ameaçada de devastação e morte. E como Guerra Fria, travou-se principalmente nos campos da tecnologia e da propaganda. Pode-se dizer, sem temor de erro grosseiro, que o mundo livre, com os EUA à frente, ganhou de longe a guerra tecnológica, enquanto perdia a da comunicação. A parte dominante da guerra tecnológica travou-se no campo espacial, em três etapas, das quais a URSS foi vitoriosa na primeira: lançou o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957, e logo depois, também em 1957, colocou em órbita a cadela Laika, fotografou em 1959, com a sonda Luna 3 o lado escuro da Lua e levou Gagarin ao espaço, em 1961. A reação dos EUA, bastante mais evoluídos tecnologicamente, mas como sempre perdendo na mídia, não se fez esperar, vencendo a segunda etapa, ao colocar o homem na Lua, em 1969, na missão Apolo 11. A imagem dos astronautas Armstrong e Aldrin pisando o satélite enquanto o companheiro Collins os aguardava no módulo Colúmbia para regresso à Terra, todos conhecem. A terceira etapa, provocada pelo presidente Ronald Reagan, ficou conhecida como Guerra nas Estrelas, e atingiu duramente a União Soviética, que não apenas fracassou em acompanhar o avanço americano na tecnologia espacial, como se exauriu de vez no campo econômico. Onde aliás nunca fora brilhante, exceto nas páginas dos jornais e telas das televisões, inclusive do mundo ocidental. E ao perder essa última etapa da corrida espacial, a URSS perdia também a Guerra Fria e marcava seu fracasso como sistema econômico e social. Desmoronava. Mas até hoje explora seu campo de sucesso – a publicidade – vende uma imagem de vitoriosa que nunca foi, e convence ingênuos, fanáticos e mal- intencionados que sua doutrina é a redentora da humanidade, o caminho do futuro, embora o passado a desminta impiedosamente.

Alguma ironia atinge os contendores de então, EUA e URSS: os pais dos programas espaciais de um e outro, não foram naturais americanos e russos. Beneficiaram-se os contendores tecnológicos da Guerra Fria, de seu inimigo derrotado, a Alemanha, que até a subida de Hitler ao poder era a nação mais avançada cientificamente no mundo. Ao fim da Segunda Guerra, EUA e URSS promoveram intensa caça aos cérebros alemães. Os EUA, mais persuasivos, negociavam com esses cientistas e lhes prometiam condições de trabalho e liberdade nas terras americanas. Os soviéticos simplesmente os aprisionavam e obrigavam ao trabalho, muitas vezes em condições precárias, e ocultamente. Foi assim que todos souberam que o pai do projeto espacial americano foi o alemão Werner von Braun, criador dos foguetes militares nazistas V-1 e V-2. Mas ninguém soube que o pai do programa espacial russo foi justamente o braço direito de von Braun na Alemanha, o cientista Helmut Gröttrup, e não, como se divulgava na URSS, o ucraniano Sergei Korolev. A propaganda – sempre ela – soviética apresentou sempre seus sucessos como fruto do homem soviético, resultado maravilhoso, superior e feliz do comunismo redentor da humanidade.

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