Greve nas universidades federais: retaliação ao governo ou luta pela velha pauta salarial?

Com tantos protestos contra o governo Dilma Rousseff, fica fácil pensar que a greve dos servidores técnico-administrativos é mais um ato antipetista. Não é bem assim

Cartaz pregado na Universidade Federal de Goiás dá o tom da greve deste ano

Cartaz pregado na Universidade Federal de Goiás dá o tom da greve deste ano

Marcos Nunes Carreiro

Gabriel sai rapidamente do trabalho e parte em direção à faculdade. Precisa passar na secretaria do seu curso, pegar uma declaração e depois ir à biblioteca. Tudo isso antes da aula. Ele desce do ônibus e faz o planejado. Porém, a secretaria está fechada e um aviso na porta mostra o motivo: greve. Na biblioteca a mesma coisa. “Ainda bem que existe o Google”, pensou. Gabriel até que consegue entender os motivos, afinal quem estuda no ensino público brasileiro já está acostumado com essa situação. Quem estuda em uma universidade federal, então…

Gabriel é um nome fictício, mas reflete bem a realidade dos estudantes brasileiros, afinal, assim como acontece nos bancos, todo ano tem greve nas universidades. Os primeiros rumores da deste ano começaram com os cortes no orçamento do Ministério da Educação (MEC) e, consequentemente, das universidades e institutos federais de educação, anunciado junto com o reajuste fiscal, por parte do governo federal, no início do ano.

Isso realmente afetou diretamente as instituições de ensino superior. A UFG, por exemplo, que tinha uma previsão de orçamento de R$ 28 milhões para o primeiro trimestre, só recebeu R$ 19 milhões. Os cortes, anunciados ainda em janeiro, já deram o indicativo de que uma paralisação iria ocorrer, sendo essa uma das pautas que os servidores técnico-administrativos, categoria em greve, compartilham com professores de ensino superior nos estados onde os estes também paralisaram suas atividades.

O discurso contra a presidente Dilma Rousseff (PT) — em muito alimentado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), que está insatisfeita com o “descaso” trabalhista do atual governo, que aprovou, por exemplo, a lei da terceirização — é, de fato, um ponto importante para a greve, pois aglomera forças de apoio em um momento em que a sociedade não está lá muito satisfeita com o governo petista e com todos os ajustes e reajustes feitos até o momento.

Entretanto, este não é o ponto principal, como se pode pensar. No fim, a pauta é a mesma de todos os anos: a busca pelos ajustes salariais. Tanto é que a greve já havia sido relatada em pauta protocolada no início do ano pela categoria em que pediram, como mantido na reinvindicação atual, 27,3% de reajuste, baseado na inflação do início do ano, que estava perto do teto estabelecido de 6,5%, mas que já passou os 8%.

Isso nos traz ao seguinte ponto: a atual paralisação é uma consequência direta da greve do ano passado. Isso mesmo, a principal pauta de reinvindicação da greve que começou na última quinta-feira, 28, é o não cumprimento do acordo firmado no ano passado, quando o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Napoleão Nunes Maia Filho ordenou o retorno às atividades, com a condição de que o governo federal tentasse firmar um acordo com a categoria, o que não aconteceu.

“Protelaram para depois do primeiro turno das eleições, depois para após o segundo. Veio o terceiro, mas até agora não entregaram uma proposta para as nossas reinvindicações. Por isso, a greve”, é o que fala Fátima dos Reis, coordenadora-geral do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos das Instituições Federais de Ensino Superior (Sint-Ifes) em Goiás. As partes têm conversado desde julho do ano passado. Sem acordo, foi declarada a nova greve, que até o momento atinge 30 universidades — em 19 delas, os professores também paralisaram seus trabalhos.

O motivo pode até ser esse, mas há mais: aliado a isso os grevistas apontam a necessidade de um movimento neste ano para uma reposição salarial no próximo. Acontece que, da greve de 2012, veio o reajuste salarial de 15,8%, dividido em três parcelas — 2013, 2014 e 2015. A última foi paga em março deste ano.

Dessa forma, para que 2016 não passe sem uma melhora é preciso pressionar o governo, que só tem até 21 de agosto para mandar ao Congresso Nacional projeto de lei contemplando as carreiras dos servidores públicos. “Se no dia 22 de agosto, o governo não tiver mandado o projeto, nós só vamos ter qualquer tipo de melhoria em 2017. Por isso a pressão agora, pois se não pressionar, o governo não faz. Então, o movimento precisou nascer forte agora para já em julho fechar a negociação e o governo mandar o projeto em agosto”, relata Fátima.

Quem há de dizer que a pauta não é justa? Sequer é essa a questão. A questão é: os motivos desta paralisação podem até ser políticos, mas são muito mais pragmáticos. Isto é, visam a atender a necessidade de uma categoria em busca por seus direitos; não é retaliação a um governo.

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