Governo teme desespero de Cunha

Palácio do Planalto sabe que o presidente da Câmara, que avisou que não cairá sozinho, tem grande potencial de causar danos

Presidente da Câmara, dep. Eduardo Cunha (PMDB-RJ) concede entrevista  Data: 20/08/2015 - Foto: Alex Ferreira / Câmara dos Deputados

Presidente da Câmara, dep. Eduardo Cunha (PMDB-RJ) concede entrevista 
Data: 20/08/2015 – Foto: Alex Ferreira / Câmara dos Deputados

Cezar Santos

Ok, o principal adversário foi ferido de morte. Essa é a leitura mais aparente que se pode fazer do lado dos governistas, após a denúncia, na quinta-feira, 20, da Procuradoria-Geral da República contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Na sexta-feira, 21, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a notificação do presidente de Cunha e do senador Fernando Collor (PTB-AL), que também foi denunciado, para apresentarem defesa em 15 dias.

A denúncia causa enorme desgaste para o principal opositor do governo, o que tende a trazer benefícios para a presidente Dilma Rousseff e enfraquecer a oposição. Certamente o governo espera que a denúncia ajude a reverter a maré de impopularidade de Dilma. Mas a economia continua rendendo péssimas notícias para o governo. O Ministério do Trabalho divulgou, na sexta-feira, 21, que em 2015, 494.386 mil trabalhadores foram demitidos (-1,20%). Só em julho, foram perdidos 157.905 empregos celetistas. Esse é o pior resultado para o mês desde 1992.

E a extensão do estrago para Eduardo Cunha depende ainda da decisão dos ministros do STF de aceitar ou não a denúncia e tornar o presidente da Câmara réu. No primeiro momento, até pelo espírito de corpo e pelo fato de Cunha ter dado um protagonismo inédito à Casa, a maioria dos deputados tem defendido o direito dele de seguir como presidente da Câmara e se defender. Mas parlamentares de dez partidos (PSol, PSB, PT, PPS, PDT, PMDB, PR, PSC, Pros e PTB) emitiram uma nota defendendo sua saída. Sim, até gente do PT, o partido que montou o esquema de assalto à Petrobrás, pede a saída de Eduardo Cunha.

O problema para o governo é que o presidente da Câmara dos Deputados não está fora de combate. Por isso, cautela tem sido a ati­tude do Palácio do Planalto, que comemora, claro, o enfraquecimento do inimigo. Mas os governistas sabem que é preciso ter cuidado. Depois da denúncia apresentada pelo procurador-geral Ro­drigo Janot, Cunha avisou a ministros, ao vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) e a líderes do governo que não cairá sozinho.

E todos sabem que o potencial de danos de Eduardo Cunha é imenso. Antes de ser defenestrado da presidência da Câmara, e antes mesmo de ser cassado, ele poderá fazer um estrago enorme. Ele sabe de muita coisa contra muita gente, dentro e fora do governo, em seu partido e em outras siglas.

Como anotou o “Correio Braziliense”, a percepção do Palácio do Planalto é a de que o peemedebista já se movimenta para dar o troco e deve aceitar a tramitação de qualquer pedido de impeachment da presidente — já há alguns protocolados na Câma­ra. A previsão de ministros de Dilma é de “guerra política” nos próximos dias. Sabe-se que o peemedebista é muito forte é não será fácil tirá-lo do comando da Câmara, uma vez que ele ainda conta com um time poderoso de aliados.

Não é por outra razão que os caciques petistas estão divididos sobre a conveniência de engrossar a fila dos que pedem o afastamento de Eduardo Cunha. O medo é que o peemedebista se sinta ainda mais acuado e cause sérios danos colaterais. Fera acuada, sabe-se, tende a ir para o desespero.

Sem dúvida, a denúncia sobre Cunha dá um alívio para o governo. Com exceção de um ou de outro mais afoito — como o senador Humberto Costa, que, aliás, tem culpa no cartório e também foi citado no escândalo da Petrobrás, ou seja, mais telhado de vidro impossível —, no primeiro momento os petistas não tripudiaram em cima do adversário. A presidente Dilma seguiu um roteiro de deixar o escândalo de corrupção envolvendo Cunha e o aliado senador Fernando Collor (PTB-AL) – também denunciado na investigação da Operação Lava Jato – bem longe do Planalto.

“A Presidência da República e o Executivo não fazem análise a respeito de investigações, de maneira alguma, nem a respeito de outros poderes”, afirmou Dilma após almoço com a chanceler alemã Angela Merkel, no Itamaraty, na quinta-feira, 20.

Com muita cautela também agiu o ministro da Defesa, Jaques Wagner (PT-BA), que tem sido o principal porta-voz do governo petista. Ele disse que a Câmara viverá dias difíceis, admitiu problemas para unir a base, mas evitou comentar o impacto da denúncia contra Cunha sobre o Planalto. “Esse é um problema que complica para a Câmara. O fato de estar denunciado não implica uma obrigação de afastamento. Mas, seguramente, vai ter uma guerra política.”

Aviso é recebido como ameaça

O aviso de Eduardo Cunha a ministros, ao vice-presidente Michel Temer e a líderes do governo de que não cairá sozinho foi entendido como uma ameaça de retaliação. O presidente da Câmara não tem dúvida de que o governo está por trás da delação premiada do lobista Júlio Camargo, que acusou Cunha de cobrar propina de US$ 5 milhões num contrato da Petrobrás.
Antes mesmo de ser denunciado, Cunha já vinha afirmando que os escândalos na Petrobrás são patrocinados pelo PT e pelo governo. Após a denúncia, ele reiterou a acusação em nota. Afirmou que não seria possível “retirar do colo deles e tampouco colocar no colo de quem sempre contestou o PT” as denúncias de corrupção.

“O governo da presidenta Dilma acredita na isenção das instituições que apuram as denúncias”, disse o ministro Edinho Silva (Comunicação Social), também em nota.
Por essas e outras, a ordem no governo é não atiçar ainda mais o adversário peemedebista. Mas os auxiliares de Dilma comemoram o fato de que Eduardo Cunha não pode mais pressionar o governo.

Mas, recentemente, quando já se sabia que a denúncia de Janot seria questão de dias (ou de horas), Cunha deu um “calor” na análise de quatro contas de governos anteriores (uma do ex-presidente Itamar Franco, uma do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e duas do ex-presidente Lula), uma manobra para abrir uma trilha para a possível votação de um processo de impeachment contra Dilma Rousseff nas pedaladas fiscais, sob exame no Tribunal de Contas da União (TCU), ou de pedidos feitos por deputados da oposição.

O fato é que a denúncia da Procuradoria-Geral, que atribui a Eduardo Cunha os crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, “tira a legitimidade” do presidente da Câmara para levar em frente um pedido de impedimento de Dilma. É como reza o velho dito popular: “fica o sujo falando do mal lavado”.

O governo tem um parceiro e tanto no Senado, o próprio presidente Renan Calheiros (PMDB-AL), para barrar qualquer tentativa de aprovar o impeachment de Dilma.

Ainda tem força

Na sexta-feira, 21, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) reafirmou, em evento com apoiadores da Força Sindical, na capital paulista, sua inocência das acusações de envolvimento no escândalo de corrupção na Petrobrás. E disse que não pretende renunciar à presidência da Câmara dos Deputados. “Além de eu ser absolutamente inocente, não há uma única prova contra mim em todas as páginas da denúncia”, disse.

Cunha foi recebido com moções de apoio e gritos de “Fora Dilma” e “olê, olê, vamos prender essa quadrilha do PT”. No discurso realizado no evento da Força Sindical, Cunha disse que “renúncia” não faz parte de seu vocabulário e nem fará. “Não há a menor possibilidade de eu não terminar meu mandato à frente da Câmara. Renúncia é um ato unilateral.” Ele também disse que não vai retaliar quem quer que seja e que não é do time “Fora Dilma”, nem do time de “dentro”, de apoio ao governo. “Não vou retaliar quem quer que seja, tampouco vou abrir mão dos meus direitos e deveres.”

Após a denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o peemedebista divulgou nota em que classificou de “muito estranho” o fato de a denúncia começar por ele e de ter ocorrido no dia de manifestações pró-governo pelo País. “É estranho (…) que essa lama tem que ir pro colo de quem não participou (da corrupção), nós não vamos admitir isso”, afirmou. O peemedebista destacou que em 2003 foi denunciado e virou réu no STF e foi absolvido. “Continuo andando de cabeça erguida.”

No auditório em que ocorreu o evento, cartazes faziam menção a conquistas pró-trabalhador ocorridas em matérias colocadas em votação na Câmara dos Deputados, na gestão de Cunha na Presidência da Casa, como o fim do fator previdenciário, o aumento para aposentados, a PEC das domésticas e a correção do FGTS, entre outros. “Esses projetos não foram aprovados por mim, sou apenas o presidente. A Câmara aprovou por maioria e é assim que tem que ser”, disse. E destacou a “independência” proporcionada à Casa com uma maioria agora “exercida e não controlada” pelo Executivo.

Uma resposta para “Governo teme desespero de Cunha”

  1. Avatar Eurânio Batista Alves Batista disse:

    É isto mesmo Cunha. Se você cair, leva junto toda curriola do PT, inclusive a Dilma que aceitou as ideias de seu chefinho que começou tudo que não presta neste Brasil a fora. Ele não vei para administrar o Brasil, ele vei para bagunçar como está aqui agora acabando e envergonhando os brasileiros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.