Goiás tem maior queda no emprego de série histórica e ao menos 200 mil tiveram salários reduzidos

Dados da Junta Comercial mostram, ainda, que o coronavírus interrompeu o ciclo de aumento de novos registros de empresas no Estado

A química Nilma teve redução de jornada, enquanto o fotógrafo Rodrigo perdeu o trabalho informal | Fotos: Arquivo pessoal

Com mais de 41 mil mortes registradas até a sexta-feira, 12, a Covid-19 vem destroçando, também, a economia do País. Em Goiás, que não é uma ilha, a situação não é diferente. O cruzamento de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), dos efeitos da Medida Provisória 936/20 e da Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg) desenham parte do colapso. Enquanto mais de 190 mil goianos tiveram salários e jornadas de trabalho reduzidas ou contratos suspensos, a geração de empregos atingiu o menor patamar da série histórica iniciada em 2004.

Segundo o Caged, em abril, primeiro mês completo de quarentena em Goiás – adotada para tentar conter o avanço de doentes e mortes pelo coronavírus Sars-CoV-2, o causador da Covid-19 –, 19,1 mil vagas com carteira assinada foram extintas no Estado. Foi a primeira vez em 17 anos que abril teve saldo negativo de empregos, decorrente de 23,8 mil contratações e 43 mil demissões.

Nem mesmo em 2015, ano mais agudo da crise econômica que iniciou em 2014 (e que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff) ocorreu algo semelhante. Em abril de 2015, o saldo foi de 2,2 mil vagas geradas – que já havia sido o pior da série história disponível no site do Ministério da Economia.

Os dados do Caged referentes ao mês de abril,
de 2004 a 2019

A situação goiana reflete, em parte, o que ocorre em todo o País. “No Brasil, os efeitos da Covid-19 sobre a economia são catastróficos: 1,1 milhão de trabalhadores já perderam seus empregos, elevando a taxa de desemprego para 12%”, diz o economista Júlio Paschoal, que é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

A relação entre a pandemia e o fechamento de vagas – que é observada empiricamente nas ruas dos maiores municípios goianos – fica ainda mais clara quando se observa a curva desde o início de 2020. Em janeiro, foram gerados 5,3 mil postos de trabalho formal no Estado (saldo entre contratações e demissões). Em fevereiro, o saldo subiu para 8,2 mil.

O tombo começou no mês seguinte. Em março, houve fechamento de 1,2 mil empregos com carteira assinada. Foi também a primeira vez que o saldo de março ficou negativo, de acordo com a série histórica do Caged. Antes, o pior desempenho havia ocorrido em 2014, com saldo positivo de 2 mil vagas criadas.

Ressalte-se que foi em março que começou a quarentena em Goiás. O primeiro decreto que fechou as atividades econômicas não essenciais é do dia 16 daquele mês. O governo do Estado optou por uma medida mais drástica para evitar a lotação dos hospitais e o aumento exponencial de mortes pela Covid-19. Havia, então, 19 casos confirmados. Dois decretos de relaxamento depois, e ainda com muitas atividades econômicas paralisadas, eram 7,8 mil diagnósticos, com 194 mortes até sexta-feira, 12.

Isolamento social

Devido ao bom desempenho do primeiro bimestre de 2020, o saldo negativo do ano, até abril, era de 2,4 mil vagas de trabalho fechadas em Goiás. Os dados de maio só devem ser divulgados no final de junto. Aí, então, serão dois meses desde o início das medidas de isolamento social no Estado.

As perspectivas não são muito animadoras, ao menos com os dados da pandemia existentes hoje. “A continuar nesse ritmo de propagação do vírus, novos fechamentos de unidades empresariais ocorrerão, prejudicando ainda mais a economia, podendo ao final ano alcançar 3,5 milhões de trabalhadores [no Brasil]”, alerta Júlio Paschoal. O economista lembra que esse número, caso seja atingido, superará os 2,8 milhões de postos de trabalho fechados na crise de 2015 e 2016.

Júlio Paschoal, economista: propagação do vírus pode fechar 3,5 milhões de vagas de emprego no Brasil | Foto: Divulgação

Extinção de empresas interrompe ciclo de crescimento em Goiás

Conforme citado pelo economista Júlio Paschoal, a extinção de empresas é um dos efeitos colaterais da pandemia. Em Goiás, a doença interrompeu um ciclo virtuoso de empreendedorismo. No primeiro trimestre do ano, segundo dados da Junta Comercial de Goiás (Juceg), foram abertas 322 empresas a mais que no mesmo período de 2019. No entanto, entre abril e maio, foram registradas 937 empresas a menos que nos meses equivalentes do ano passado.

Euclides Barbo, presidente da Juceg: pausa em
um ciclo de 5 anos de crescimento
| Foto: Divulgação

Presidente da Juceg, Euclides Barbo diz que esperava uma situação ainda pior, devido à pandemia. “Houve a interrupção de um crescimento médio de 10% [na abertura de novas empresas] dos últimos cinco anos. Mas os números mostram que as pessoas continuam empreendendo”, afirma. Porém, apenas na conclusão de junho é que a verdadeira situação poderá ser melhor entendida – positiva ou negativamente.

Barbo explica que as novas empresas abertas em Goiás são focadas em “ajudar outras empresas em dificuldade”. Elas concentram-se no ramo de consultoria nas áreas financeira e tributária, entre outras.  “Alguns empreendedores estão mudando de ramo e estão tentando se recuperar do susto [causado pela pandemia]”, acredita.

Em relação a novos empreendimentos, abril teve o pior desempenho dos últimos cinco anos, devido à quarentena mais rigoroso ter vigorado durante o mês interior – em maio, em vários municípios houve uma flexibilização maior das atividades econômicas, mesmo com o crescimento das infecções pelo coronavírus. Com 1.329 registros na Juceg, abril de 2020 ficou 36% abaixo do mesmo mês de 2019 (quando foram constituídas 2.085 empresas no Estado).

“O número de empresas que fecharam as portas em Goiás preocupa. Foram 1.830. Goiânia respondeu por 82% desse total, o que explica a demissão de 9.989 trabalhadores, sendo seguida pela ordem por: Caldas Novas (1.238), Rio Quente (901), Catalão (504) e Rio Verde, com 434 demissões”, cita Júlio Paschoal.

Os segmentos mais atingidos, segundo o economista, foram o comércio varejista de vestuário e acessórios, o comércio varejista em geral, o comércio varejista de calçados, lanchonetes e similares. “Eles representam 50,1% do total de empresas fechadas. O restante no comércio varejista de carnes, cosméticos, serviços de escritório, peças e acessórios em conjunto com manutenção elétrica, restaurantes, transportes rodoviários e construção civil”, explica.

Alguns estabelecimentos tradicionais de Goiânia estão entre os que baixaram as portas definitivamente. São os casos, por exemplo, das unidades do Setor Marista do Fran´s Café e do Saccaria. Este último, porque a unidade do bairro onde a empresa começou não tem empório, como nas demais localizadas no Jardim Goiás e no Setor Bueno.

Em Goiás, cerca de 200 mil tiveram salários reduzidos ou contratos suspensos

Para diminuir a sangria nos empregos, o governo federal editou a Medida Provisória 936/20, cuja votação está prevista para a próxima semana. A relatoria está a cargo do senador por Goiás Vanderlan Cardoso (PSD). “Essa MP é extremamente importante e vem promover o socorro necessário a milhões de trabalhadores e a milhares de empresas”, diz.

Senador Vanderlan Cardoso é o relator da MP 936 | Foto: Jane de Araújo/Agência Senado

A expectativa era de votação na semana passada, mas a apreciação do texto no plenário do Senado ficou para esta semana, provavelmente na terça-feira. Isso ocorreu porque havia mais de mil emendas, que foram rejeitadas por Vanderlan. Caso o Senado emende a MP, ela terá de ser novamente votada na Câmara dos Deputados, causando mais atraso.

Segundo o senador, a expectativa é que sejam preservados 21 milhões de postos de trabalho formal no Brasil com a MP. Até o momento, segundo o Ministério da Economia, 10 milhões de trabalhadores foram alcançados, até agora, por uma das possibilidades elencadas no Programa Emergencial de Manutenção de Emprego e Renda: redução de jornada e, respectivamente, de salários (que pode ser de 25%, 50% ou 70%, limitado ao teto do seguro-desemprego), suspensão de contratos ou trabalho intermitente – uma modalidade já prevista desde a reforma trabalhista de 2017.

Segundo o Ministério da Economia, até abril (dados mais atualizados), 190 mil trabalhadores goianos haviam sido enquadrados em algum desses critérios. A química Nilma Cristina dos Santos Batista é um deles. Gerente em uma indústria de cosméticos em Aparecida de Goiânia, inicialmente ficou de férias coletivas por 17 dias. Depois, teve jornada e salário reduzidos. Na prática, a queda na renda foi de 40%.

Casada e mãe de dois filhos, ela diz que a própria quarentena a ajudou a equilibrar os gastos. “Meu marido é policial civil e, por enquanto, não teve redução de salário. E, como não estamos saindo tanto e não estamos gastando com transporte para meus filhos estudarem, não sentimos tanto [a redução de renda]”, explica.

A MP 936, no entanto, não atinge trabalhadores informais. Em Goiás, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), 41% dos trabalhadores não tinham carteira assinada nem Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) no fim de 2019. O porcentual é recorde.

Para esses trabalhadores, o governo federal criou o auxílio emergencial, de R$ 600. O fotógrafo e designer Rodrigo Santos é um dos que estão recebendo. Desde o fim do ano passado, ele trabalhava em uma empresa especializada em fotografia de formatura, sem carteira assinada. “Recebia um valor fixo mais os eventos que fazia. Estava com muita demanda, até vir a pandemia. Com ela, os eventos se esgotaram”, explica.

Como a realização de eventos deve ser uma das últimas atividades a serem retomadas, Rodrigo Santos partiu para outra área: passou a trabalhar com a mãe na produção e vendas por delivery de empadinhas. O que fatura ainda não se iguala ao rendimento que conseguia com a fotografia de eventos, mas ele está otimista. “Ainda estou no começo. Fazendo clientes. Começamos praticamente semana passada. Vai demorar um pouco para equiparar, mas tenho esperança de conseguir”, conta.

Luz no fim do túnel

Segundo o economista Júlio Paschoal, uma luz no fim do túnel foi acesa em Goiás, em maio. Segundo a Federação da Indústria (Fieg), a produção industrial do Estado cresceu 2,1%, o segundo melhor desempenho do Brasil, atrás apenas do Pará, cujo crescimento foi de 4,2% em relação ao mesmo período do ano passado.

“O lado negativo, em Goiás, ficou por conta da produção de veículos automotores, que apresentou queda de 4,2% em relação ao mesmo período do ano passado. Pode ser explicado pelo fechamento dessas indústrias nos últimos três meses, por não serem consideradas essenciais no momento da quarentena”, afirma Júlio Paschoal.

“No Brasil, a queda da produção industrial em maio foi de 18,5%. Nesse aspecto pode se dizer que as políticas públicas centradas em incentivos e benefícios fiscais deram o tom para que Goiás obtivesse os resultados alcançados”, acredita.

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