Goianos fazem sucesso no cenário mundial do poker

Estado tem tradição neste jogo de cartas e tem um campeão mundial, João Bauer, como um de seus representantes

Campeão mundial de poker, o goiano João Bauer joga profissionalmente há 13 anos | Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

Segundo a última atualização da Confederação Brasileira de Texas Hold´em (CBTH), o poker tinha mais de 7 milhões de jogadores no Brasil em 2019. No país, o jogo de cartas mais popular do mundo tem conquistado espaço com crescente número de competições, afirmação das casas de apostas e consagração de campeões mundiais brasileiros. Internamente, Goiás é tido como estado que tem uma “escola forte” no poker, além de ser um dos pioneiros deste, que tem deixado de ser visto como vício ou brincadeira, para se tornar um esporte da mente. 

No ano de 2012, o Ministério do Esporte registrou, oficialmente, a CBTH em seus quadros, permitindo que os eventos de poker possam ser incluídos no calendário esportivo oficial do país. O jogo de cartas escapou à categorização de “jogo de azar” – a que pertence, por exemplo, o Blackjack ou Vinte-e-um – sob a justificativa de que em cerca de 70% das partidas os jogadores não chegam a revelar suas cartas. O blefe, a capacidade de cálculo probabilístico e a leitura interpessoal são algumas das habilidades necessárias ao jogador; ainda que a sorte possa contribuir.

Swami Falcão e Elizeu Lemos são os proprietários do Social Poker Club, uma casa premium de Poker em Goiânia. O local, que nasceu há três anos, aceita apenas jogadores convidados e se classifica como “exclusivo”. Voltado para as classes B e A, o Social Poker Club não identifica seus clientes e não cobra pelos produtos que oferece – todo faturamento está incluso na porcentagem retida pela casa nas apostas dos jogos, e que repassa 26% deste valor em impostos à prefeitura.   

“Temos como filosofia principal sempre conscientizar nossos clientes para que disponibilizem à prática um tempo que não irá lhes atrapalhar nas atividades profissionais e no convívio com a família”, diz Swami Falcão. “Além disso, usar um dinheiro que não irá lhe fazer falta no final do mês. Assim o jogo se torna saudável e pode muitas vezes ser lucrativo”.

O Social Poker Club surgiu de reuniões caseiras entre amigos que jogavam cartas despretensiosamente desde 2006. Hoje, além do local físico, os jogadores se encontram online em reuniões pelo aplicativo Pppoker. 

Poker tinha mais de 7 milhões de jogadores no Brasil em 2019| Foto: Michał Parzuchowski / Creative Commons

Campeão Goiano, Brasileiro e Mundial

João Bauer é campeão goiano, campeão brasileiro (individualmente e na categoria por equipes) e campeão mundial de poker. O goianiense já conquistou o World Series of Poker (WSOP) de 2019 no Uruguai; o World Championship of Online Poker (WCOOP) em 2010; entre outros. Em seu website, ele revela que seus prêmios recebidos nas competições totalizam mais de 10 milhões de reais e que já participou da formação profissional de mais de 500 jogadores, sendo por meio do seu time, coachings individuais ou por meio dos seus cursos.

“Jogo profissionalmente há 13 anos”, conta João Bauer. “É um trabalho, então chego a jogar 12 horas por dia quando estou em torneios. Mesmo nos dias em que não estou competindo me dedico exclusivamente ao poker, estudando e formando jogadores novos. Nesse ofício, preparo aulas e acompanho a carreira de jogadores, o que também me ajuda muito a evoluir”.

O jogador relata que seu interesse pelo poker começou quando ele assistiu pelas primeiras vezes as transmissões televisivas do campeonato mundial, que um dia ele mesmo viria a conquistar. “Sempre fui muito competitivo. Eu via as transmissões dos jogos pela ESPN e gostava muito do formato. Então, comecei a jogar pela internet, por brincadeira, até que tive minha primeira premiação. Quando saquei o dinheiro, entendi que era possível viver daquilo. Menos de um ano se passou entre a descoberta do jogo e minha dedicação total ao poker”.

João Bauer diz que o início de uma carreira profissional hoje é mais concorrido, mas com maiores facilidades. “Há inúmeros cursos, material didático e livros sobre o assunto na internet. Quando eu comecei, havia apenas seis artigos sobre poker em português. Para quem quer seguir essa carreira, eu daria como conselho: ‘entre de cabeça’. Se você tem vontade de se tornar um profissional, se é isso que te faz feliz, se dedique. É um jogo extremamente competitivo, como qualquer outro esporte, e apenas os melhores conseguem se manter no topo, então é necessária muita dedicação.”

Segundo João Bauer, Goiás foi um dos primeiros estados a criar um time profissional, o que fez com que outros jogadores tivessem uma escola a seguir. “No campeonato brasileiro por equipes, os estados formam seleções de cinco ou seis jogadores que disputam com outros estados. Goiás ganhou a última edição (2019) e o estado sempre chega ao torneio como um dos favoritos.”

Futuro do poker

Para João Bauer, o poker ainda está na fase embrionária em terras brasileiras. Enquanto competição, o jogo é praticado há apenas dezesseis. “Nos Estados Uunidos, é comum ver avós jogando poker com os netos. Aqui ainda não há esse tipo de relação porque as pessoas não conhecem. A partir do momento que essa geração envelhecer e ensinar as próximas, veremos esse jogo criar raízes na nossa cultura”, diz João Bauer.

Na opinião de Swami Falcão, a legalização e regulamentação dos cassinos faria o poker crescer muito no Brasil, além de gerar retorno ao país na forma de turismo e impostos. Há 28 anos tramita na Câmara dos Deputados um Projeto de Lei (PL 442/1991) de autoria de Renato Vianna (PMDB/SC), atualmente sob relatoria de Guilherme Mussi (PP-SP), que busca regulamentar práticas que atualmente são entendidas como contravenções e que poderia tornar viável o estabelecimento de cassinos. 

Palácio Quitandinha, em Petrópolis, foi construído para ser o maior cassino da América Latina dois anos antes da proibição dos jogos | Foto: Reprodução / Wikicommons

Atualmente na situação de Pronta para Pauta no Plenário (PLEN), bastaria que o presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) decidisse que a apreciação fosse iniciada pelos congressistas. Entretanto, 70 anos depois da proibição dos cassinos, o tema ainda enfrenta severa oposição moral religiosa, mas desta vez por parte da bancada evangélica, e não pelos católicos. (Em 1946, a esposa do presidente Eurico Gaspar Dutra, Carmela Teles Leite Dutra, teria exercido forte influência para a decisão de banir a atividade, motivada por sua devoção à Igreja Católica).

Os cassinos são proibidos em 37 dos 193 países-membros da Organização das Nações Unidos (ONU). A maior parte das nações que veta o jogo é de maioria muçulmana, sendo que as três exceções são: Cuba, Islândia e Brasil. O estudo técnico que foi realizado para basear o PL 442/91 estima que, caso regulamentado, o Brasil poderia recolher R$ 50 bilhões em impostos e gerar 70 mil empregos direta e indiretamente. O jogo de poker é considerado o maior atrativo dos cassinos.

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