Goiano que lutou pelo exército americano no Afeganistão antecipa caos no país

Antônio Caiado participou de duas missões pelo US Army: integrou grupo enviado para reconstruir o Afeganistão e encarregou-se da segurança das tropas

Antônio Caiado no Kwait, 2021 | Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

O goiano Antônio Caiado lutou em duas guerras pelo exército dos Estados Unidos: integrou o primeiro grupo de soldados enviados para reconstruir o Afeganistão de 2010 a 2011; e, recentemente, como primeiro sargento, fez parte do comando responsável pela proteção da força americana em diversos países ocupados. De 2020 a 2021, durante nove meses, Antônio Caiado esteve entre Egito e Líbano, na base americana do Kwait, na península do Sinai. Sua experiência na inteligência militar o permitiu conhecer o planejamento de retirada das forças do solo afegão.

O militar do US Army diz que o recente ataque terrorista que matou 180 pessoas em Cabul pode estimular outros grupos a tentar ações contra americanos que ainda estão na região. As novas investidas, no entanto, devem acarretar reações mais duras por parte dos EUA, que esta pressionados a impedir proliferação de ataques. Assim como no atentado do dia 26 de agosto, assumido pelo Estado Islâmico, os possíveis novos atos terroristas não devem partir do próprio Talibã, diz Antônio Caiado.

Segundo o militar, em razão da ainda frágil organização governamental do grupo Talibã, que tomou o poder do solo afegão há poucas semanas, células radicais devem aproveitar da aparente fragilidade de segurança para impetrar ações terroristas contra cidadãos dos EUA que seguem no país. “E não será apenas em território afegão. É provável que tentem atacar embaixadas dos EUA em países próximos”, prevê Antônio. 

Além de fazer prognósticos com base em sua experiência na região, Antônio Caiado concedeu entrevista ao Jornal Opção, na qual falou sobre sua trajetória, sua vida profissional paralela com sua atividade militar e suas perspectivas. Ele também relata suas experiências em sua página pessoal no Instagram.

Antônio Caiado no Afeganistão, 2011 | Foto: Reprodução/Acervo Pessoal
Pode recapitular brevemente sua história até seu trabalho atual?

Nasci em Mossâmedes, Goiás, mas ainda novo me mudei para Sanclerlândia, e depois para Goiânia, em 1995. Me graduei em Ciências da Computação pela Universidade Paulista (Unip-GO) e fui morar nos Estados Unidos com meu pai. Após quatro anos vivendo nos EUA, consegui a cidadania americana e me tornei militar do exército, o US Army. Ingressei no exército porque eu sempre tive vontade de seguir a carreira militar – tentei duas vezes servir as forças armadas brasileiras, mas não fui chamado. Talvez por eu medir apenas 1,64 metros (risos). 

Além de militar, sou funcionário público federal nos Estados Unidos. Trabalho no departamento de comércio como examinador de patentes. Na prática, faço a análise de softwares que pretendem conseguir uma patente – vejo se já existe a ideia, se o algoritmo pode ter direito de propriedade. Sou especializado na análise de softwares de busca e de bancos de dados.

É difícil conciliar as duas carreiras. Tenho de fazer vários treinamentos por mês e posso ser chamado a qualquer momento para servir novamente. Entretanto, nos Estados Unidos, essa condição militar entre a ativa e a reserva é protegida por lei: minha empresa não pode me prejudicar enquanto estou em serviço militar – continuo recebendo salário normalmente.

Como foi o treinamento e sua primeira ida ao Afeganistão?

Primeiro, todos têm de passar por 12 semanas de treinamento básico. Depois disso, você vai se especializar em uma das mais de 40 ocupações em um treinamento específico. Eu me especializei em armas de destruição em massa, porque essa área tem muita tecnologia embarcada e eu queria aproveitar meus conhecimentos de computação. 

Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

Terminei meu treinamento em outubro de 2009 e me voluntariei. Cheguei na capital do Afeganistão, Cabul, em julho de 2010. Fiz parte do primeiro time de reconstrução do país. Cerca de mil tropas foram distribuídas para cada uma das 16 províncias do país com a função de identificar as necessidades de cada vila e investir determinado valor. Ao longo de uma década, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) investiu mais de um trilhão de dólares nessas operações pelo Afeganistão.

Eu fiquei a maior parte do tempo em Cabul, fazendo patrulhas pelas ruas, caminhando de cinco a dez quilômetros por dia, visitando líderes religiosos e representantes tribais para identificar o que precisavam. Eles queriam principalmente rede de esgoto, restabelecimento da eletricidade, escolas para meninas. 

Naquela época, o Afeganistão era muito mais perigoso do que é hoje: quase todas as mortes ocorreram de 2010 à 2013. Não tínhamos o controle das províncias – elas estavam sob domínio do Talibã. À medida que conquistamos os territórios, eles se retiraram para a província de Kandahar, na fronteira com o Paquistão, e a situação foi se acalmando. 

Como você avalia a atuação americana no Afeganistão? Como os afegãos viam vocês?

Há um fato que a maioria das pessoas não vê, que a mídia deu pouca atenção: nunca tivemos apoio do governo afegão. É inusitado, porque foi um governo estabelecido com interferência americana, então se imagina que era um estado marionete dos EUA, mas isso não é verdade. Somente algo como 60% do governo apoiava nossa atuação. 

Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

Era muito difícil fazer qualquer coisa sem consenso. Não podíamos entrar nas instituições e supervisionar o investimento que fazíamos, porque a ideia era dar autonomia e legitimidade ao governo estabelecido. Então, o que aconteceu foram repasses de dinheiro como apoio humanitário. Com um governo extremamente corrupto, nossa atuação ficava comprometida.

Além disso, o Afeganistão é uma região de conflitos. Há mais de 40 línguas no território e uma infinidade de tribos. Os dois presidentes do período democrático eram pashtuns (grupo étnico com origem relacionada aos persas); eles falavam pashto e representavam bem seu povo e a região de Kandahar. Entretanto, a língua mais falada é o Dari, e além dos pashtuns, há os Tajiks, Hazaras e Uzbeks. Então os outros grupos se sentiram abandonados pela mediação americana. 

Por esses fatores, a atuação foi muito limitada. Tanto é que, após a retirada americana,  os Talibãs não levaram uma semana para reconquistar o poder.

O Talibã é um grupo tão radical, que fez um governo tão sangrento no início dos anos 2000 – por que não encontraram resistência da população?

Essa é outra questão pouco discutida na mídia ocidental. O Talibã é um grupo horrível em quase todos os aspectos, mas quando se fala em proteção das famílias, o Talibã tem aceitação muito grande na população – especialmente entre os mais velhos. Esse grupo nasceu para proteger pessoas comuns de abusos sexuais. 

Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

Para compreender isso, é preciso conhecer a prática do “bacha bazi”, que foi proibida pelos talibãs quando eles estiveram no poder no Afeganistão, entre 1996 e 2001, e que ressurgiu nos últimos anos durante a ausência do Talibã. O bacha bazi significa literalmente “brincar com crianças”, e consiste em converter jovens meninos em escravos sexuais. 

É ritual realizado por qualquer pessoa rica ou influente (geralmente chefes de guerra, comandantes, policiais, políticos) e é comum em zonas rurais do sul e do leste do país, assim como nas regiões tayikas do norte. Além da questão sexual, o bacha bazi tem um fator social, pois é símbolo de autoridade e influência. 

Os bachas (crianças, garotos) muitas vezes são sequestrados ou vendidos por suas próprias famílias e vivem presos por anos. É comum vesti-los de mulher, maquiá-los e pintar seus cabelos. Esses meninos entre 10 e 18 anos são usados como dançarinos e escravos sexuais durante encontros entre homens.

Vários adeptos da tradição são policiais que, com contatos dentro dos órgãos de segurança, evitam punições. Essa prática é mais uma grande incoerência do Afeganistão, já que o islã pune o estupro e a homossexualidade. Outra incoerência é o álcool, que também é proibido; mas lá, todo mundo consome bebidas contrabandeadas. 

Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

Somado aos graves problemas psicológicos que essas crianças desenvolvem, cresce nelas o desejo por vingança. Isso é usado pelo Talibã, que recrutam os “bachas” para atacar postos policiais. Nós inclusive tentamos investigar os policiais que fazem isso, mas sem apoio do governo é impossível. Eles se acobertam. A execução pública dos sequestradores pedófilos é uma das principais sustentações populares do Talibã. 

Entre a primeira e a segunda vez que você viajou em missão, o que mudou no Afeganistão?

Em 2014, retiramos quase todas as tropas, mas o envio de recursos no projeto de reconstrução continuou. Os Estados Unidos treinaram um exército profissional e forneceram equipamentos. O mandato do primeiro presidente terminou e outro foi eleito, com a promessa de incorporar mais tribos ao governo. Nesse ínterim, os Estados Unidos criaram um comitê de política de paz para tentar negociar, inclusive com o Talibã, condições de governabilidade sobre o território.   

A aposta na democracia afegã se mostrou frustrada. Por conta da corrupção, a democracia se tornou um sistema para pessoas conseguirem proteger suas famílias e tribos. Quase todos os políticos retiraram suas famílias do Afeganistão. Eles usam a guerra para conseguir asilo no exterior e abandonar o país. No fim das contas, não há incentivo para formar um país com tantos grupos inimigos dividindo fronteiras. 

Foto: Reprodução/Acervo Pessoal
A respeito da retirada, o que aconteceu? As cenas dos ex-aliados dos EUA tentando se agarrar nos aviões repercutiu muito mal. Joe Biden não sabia que aquilo aconteceria?

A retirada já era planejada há muito tempo, mas houve grandes erros na execução, que começou em fevereiro e março. A cena que o mundo viu, no aeroporto, não deveria ter acontecido. Na minha opinião, o governo Biden não se preocupou com a parte humana – retirar os afegãos apoiadores com calma.

Talvez o principal erro tenha sido fechar o aeroporto de Bagram, que tem capacidade para 30 mil pessoas e se localiza a apenas 70 quilômetros de Cabul. O fechamento precoce de Bagram Air Base concentrou todos os colaboradores dos EUA, do Afeganistão inteiro, em Cabul. Você vê o desespero deles, porque sabiam que o exército formado não lutaria para defendê-los, e que o Talibã retaliaria. 

Desde então, muitos colaboradores conseguiram sair do país, mas outros continuam lá. Mantenho contato com dois intérpretes que estão em processo de imigração há mais de cinco anos. O processo pode levar até dez anos. O departamento de Homeland Security está tentando agilizar o trâmite. O próprio Talibã dialoga com os EUA e garante o acesso ao aeroporto daqueles autorizados a entrar na América. 

O problema em emitir autorizações mais rápido é diferenciar os Talibãs. Os afegãos não têm ficha criminal – a maioria não tem nenhum documento. Como diferenciar os amigos? É difícil.

O que você imagina que acontecerá com o Afeganistão sob o domínio Talibã? 
Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

O maior desafio sempre foi formar um governo. O Talibã é uma milícia armada com domínio do aparato do Estado, mas eles não têm técnicos que saibam gerir a burocracia do governo. Eles foram treinados para o combate, mas não conseguirão manter controle por muito tempo. 

Por isso, eu imagino que as províncias do Leste e do Sul logo formem suas próprias milícias, como o IsisK (Estado Islâmico da região de Khorasan). No caso do IsisK, esse grupo terrorista teve início na Afeganistão a partir de um líder dissidente radical que acredita que o Talibã não é conservador o suficiente, que acredita que o Talibã se vendeu para a América. Essas facções vão se formando à medida que oportunidades de subir ao poder se apresentam. 

Prevejo que muitos afegãos ficarão descontentes porque vão enxergar o Talibã como “moderado demais”. O Talibã não vai ser radical porque está mantendo diálogo com todo o mundo, e esse grupo não quer correr o risco de irritar o ocidente e ser deposto novamente. Facções mais radicais podem se insurgir.

Há também as fontes de conflito externo: o Irã fortalece milícias para lutar contra os Estados Unidos há décadas no Iraque. Podem vir a fazer o mesmo no Afeganistão para depor o Talibã caso julguem que seu governo é favorável demais à América. Fortalecerão grupos armados insurgentes principalmente se o Talibã atacar os xiitas, grupo islâmico que é minoria no mundo mas maioria no Irã. O próprio presidente deposto continua influenciando no país, através de facções do norte. 

Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

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