Goiânia caminha para ser uma São Paulo no período de chuva

Cientistas afirmam que, devido ao regime de chuvas, capital goiana sofrerá tanto quanto a maior cidade do País caso continue impermeabilizando o solo

Chuva enchente

Chuva alaga ruas de Goiânia e assusta motoristas | Foto: Mayara Carvalho/Jornal Opção

Em um verão com menos chuvas do que o normal, tempestades intensas atingiram capitais brasileiras, como São Paulo, Belo Horizonte e Goiânia nos últimos 20 dias. Enquanto climatologistas afirmam que devemos esperar mais tempestades extremas no futuro, arquitetos e engenheiros concordam que as cidades precisam se preparar para eventos radicais; entretanto, políticos não têm executado planos diretores e de saneamento conforme planejado. 

Segundo Gislaine Cristina Luiz, coordenadora do Laboratório de Climatologia (Climageo) da Universidade Federal de Goiás (UFG), com base em estudos para a região de Goiânia, há uma tendência de diminuição de dias com chuvas, mas em contrapartida, os volumes são maiores. “As chuvas fortes apenas dão a falsa ideia de que os níveis dos rios, lagos e reservatórios se elevam. Na realidade, as chuvas fortes criam problemas como inundações e, cessado o efeito do pico de vazão, o nível da água pouco se altera”.

A pesquisadora Gislaine Cristina Luiz afirma: “O que garante que os reservatórios atinjam níveis mais altos é o processo de infiltração. O problema é que a infiltração não está ocorrendo porque as superfícies foram alteradas de tal forma que a água das chuvas tem sido impedida de atingir o lençol freático. Aqui vale a pena mencionar que as atividades agropecuárias também criam superfícies impermeáveis, prejudicando a alimentação das águas de superfícies, como rios, lagos e reservatórios.”

A solução tradicional de cidades brasileiras para lidar com o volume das chuvas é a canalização da água em galerias pluviais para rios. Entretanto, com a urbanização, cursos de água costumam ser pavimentados – como o Córrego dos Buritis, que nasce no Clube de Engenharia, no Setor Sul em Goiânia, e corre subterraneamente até o setor Marechal Rondon; ou o córrego da Traição, sob a Avenida Bandeirantes em São Paulo. Com precipitações extremas se tornando a nova média, dispositivos de drenagem tornaram-se subdimensionados. 

Chuva enchente

Impermeabilização crescente do solo em Goiânia significa que enchentes ocorrem com menor precipitação | Foto: reprodução

Canais subterrâneos e piscinões tornaram-se soluções paliativas, segundo Luiz Pladevall, presidente da Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente (Apecs) e vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES-SP). 

“O que precisamos fazer é permeabilizar o solo com calçadas ecológicas, com parques lineares ou com incentivos de redução de IPTU para os moradores manterem áreas permeáveis nos seus imóveis”. O engenheiro explica que estas medidas, associadas à áreas preservadas ao longo de córregos, retardam a velocidade das corredeiras e impedem enchentes e deslizamentos.

“Infelizmente, nós da Apecs percebemos que o poder público investe muito pouco em planos diretores”, diz Luiz Pladevall. “O plano diretor é importante porque liga as áreas que podem tornar uma cidade urbanística e ambientalmente congruente. A drenagem tem de ser respeitada na parte de verticalização, e isso integrado com a parte viária”.

Luiz Pladevall diz que, em geral, prefeituras investem muito pouco em planos diretores | Foto: Reprodução / ExLibris

Chuvas goianas

Com muito menos habitantes do que Belo Horizonte ou São Paulo, Goiânia não sofreu como aquelas capitais, que somaram 68 mortos por afogamento e deslizamento de terra em duas semanas. Mas Goiás tem suas particularidades que tornam a questão das enchentes especialmente preocupante. A posição no interior do continente e sua localização na faixa tropical justificam as elevadas temperaturas, a baixa umidade relativa do ar e a sazonalidade das chuvas, com a tendência de episódios de chuvas intensas, diz Gislaine Cristina Luiz.

“Tenho dito já há alguns anos que Goiânia é uma futura São Paulo”, afirma a coordenadora do Laboratório de Climatologia. “O nível de impermeabilização tem crescido numa velocidade assustadora e pequenas chuvas implicam em diversas áreas alagadas na cidade. Uma das características das chuvas goianienses é que estas ocorrem sob a forma de pancadas, então há a necessidade de gestores considerarem esta particularidade ao planejar a infiltração da água”.

Gislaine Cristina Luiz afirma que registros de cinco décadas já revelam a tendência a chuvas intensas. “O que há de diferente é o nível de impermeabilização, que aumentou significativamente nos últimos anos. Não estamos aprendendo com a história. Tivemos exemplos claros nos últimos dias do que aconteceu em São Paulo e Belo Horizonte. Neste momento, ressalto que do ponto de vista meteorológico só o que se pode fazer é conhecer melhor o padrão das nossas chuvas.”

Climatologista Gislaine Luiz afirma que Goiânia não tem aprendido com a história | Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

O que propõe a cidade

Em vésperas da aprovação de um novo Plano Diretor, a Câmara Municipal de Goiânia estuda as novas diretrizes que orientarão a política de permeabilização do solo, drenagem de águas pluviais e destinação de rejeitos na cidade pelos próximos dez anos. Diógenes Aires, coordenador de sustentabilidade socioambiental do plano diretor, afirma que os técnicos se debruçaram sobre maneiras de se preparar para chuvas extremas. 

O novo plano de saneamento propõe duas principais medidas para aumentar a drenagem do solo. A primeira é a replicação para toda Goiânia do plano de drenagem de 2006, que foi implementado na bacia do Anicuns. “Estimamos precipitação pluviométricas ao longo de 20 anos e previmos obras de infraestrutura, como bueiros, canalização, micro e macrodrenagem”, afirma Diógenes Aires. 

A segunda medida para aumentar infiltração de água é o aumento da obrigatoriedade de solo permeável. Em lotes próximos de áreas de proteção permanente (APPs), continua necessária a preservação de 25% do lote permeável. Segundo o plano diretor de 2007, em lotes em áreas adensáveis, a obrigação é manter 15% da área permeável, sendo que estes pontos percentuais podem ser divididos em 10% de floreira e 5% solo natural. Na nova lei, o percentual de solo natural sobe para 10%.

Há também medidas menores, como obras para manter rejeitos separados de águas pluviais e implantação de caixas de recarga (reservatórios de armazenamento das águas pluviais coletadas em telhados, estacionamentos, ruas e avenidas). Por último, o plano diretor em estudo proíbe o rebaixamento permanente do lençol freático, como o que houve no Parque Flamboyant. “Isso foi proibido, mas era permitido”, diz Diógenes Aires. “Agora pode-se construir, mas tem de se ter parede diafragma ou dispositivo que force a água subterrânea a encontrar outra via para percorrer, ao invés de permitir sua infiltração para estacionamentos e bombeá-la de volta para o lago, como acontece agora”.

É suficiente?

Vereadora Dra. Cristina diz que, se obedecido, plano diretor vigente resolveria o problema das enchentes | Foto: Jornal Opção / Fábio Costa

A vereadora e relatora do projeto de atualização do Plano Diretor na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Dra. Cristina, afirma: “O plano diretor vigente nº 171 já é fantástico. Ele já teria evitado o caos que vivemos caso tivesse sido implementado”.

Quando perguntada se acredita que o projeto pode ser produtivo, a relatora é cética: “Sou autora de um projeto de IPTU verde, com descontos no imposto para quem adotar medidas sustentáveis como a captação de água e mantiver área de solo permeável, mas que não se efetivou. Falta vontade política.”

A arquiteta conselheira do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (Cau-GO) Adriana Mikulaschek é ainda mais dura ao afirmar que, mesmo que fossem colocadas em prática, as diretrizes ainda seriam paliativas. Segundo a urbanista, leis que determinam reserva de solo natural não são cumpridas porque a maior parte das construções são feitas sem aprovação de técnicos, arquitetos ou engenheiros; ou quando são aprovadas conforme a lei, logo passam por reformas e geram impermeabilização do solo.

Adriana Mikulaschek diz que discussões sobre urbanismo precisam avançar| Foto: Reprodução / CAU-GO

“A solução passa pela educação da população”, diz Adriana Mikulaschek. “Se soubessem o mal que causam quando tiram gramado da casa, pensariam duas vezes antes de pavimentar o quintal. É claro que isso também implica em diminuição de espaço para carros e calçamento, que atualmente representam cerca de 35% da área de Goiânia”. 

Segundo a arquiteta, um plano diretor ideal seguiria tendências mais modernas do mundo. “Na Europa há discussões acerca de como adaptar as cidades para a nova realidade. Fala-se de aumentar a vegetação em áreas mais quentes, em criar corredores de ventos úmidos para forçar a passagem de ar por massas de água, o estudo do impacto de um prédio alto no clima da cidade. Estas mudanças profundas no desenho urbano necessitam de dados e estudos que são feitos nas universidades, mas que raramente caem no interesse do poder público”. 

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