Futebol, tragédia e solidariedade: o que vai ficar depois da comoção?

O desastre aéreo com a Chapecoense uniu duas cidades para sempre e mostrou a Colômbia como lugar de uma generosidade tamanho continental

Estádio Atanasio Girardot, em Medellín: na hora do jogo que nunca aconteceria, uma multidão se reúne para homenagear os rivais mortos | Foto: AP Photo/Luis Benavides

Estádio Atanasio Girardot, em Medellín: na hora do jogo que nunca aconteceria, uma multidão se reúne para homenagear os rivais mortos | Foto: AP Photo/Luis Benavides

Elder Dias 

Qualquer acidente fatal é em si uma tragédia, por trazer o inesperado à tona, por colocar a vulnerabilidade à mostra e as certezas em xeque. A morte, surda, caminha ao lado e não se sabe em que esquina ela vai nos beijar – é como Raul Seixas descreve, em “Canto Para Minha Morte”, essa imponderabilidade que incomoda tanto a todos.

Um acidente aéreo vai além, como algo que toma de assalto a atenção das pessoas por sua raridade e sua particularidade: é que o homem não voa e, para ousar insistir em voar – algo recente na história, a não ser nas mitologias, como a de Ícaro –, entra em máquinas que fabricou. Cada avião leva pessoas diversas, com histórias diversas, a diversos destinos. São desconhecidos entre si, mas que confiam ali sua vida à tecnologia. Afinal, estão em um equipamento com mecanismos redundantes para garantir a segurança: na baixa probabilidade de um item falhar, há outro para substituí-lo e até um terceiro, se for o caso. De qualquer forma, é preciso ter fé para se fiar na ciência: por mais que tenda a esse índice, um voo nunca será 100% seguro. E o piloto, quanta capacidade terá, de quanta sanidade necessita?

Em uma eventualidade raríssima, um voo acaba por não ser bem-sucedido, porque o peso da gravidade não transige: é lei física que todo avião vá descer à terra. Quase todos pousam; os que caem ou batem são quantidade ínfima. À raridade acresça-se a notoriedade: aviões eram, até décadas atrás, um meio de locomoção inacessível à maioria das pessoas.

Um acidente aéreo em um voo fretado acrescenta dados importantes a uma tragédia. Quando um grupo, qualquer que seja, aluga um avião, muda-se a história dos parágrafos anteriores. Podem até se tratar de desconhecidos, mas é provável que tenham trajetórias de vida semelhantes e objetivos em comum; provavelmente estarão ali na aeronave com colegas ou até amigos; e, certamente, o destino é o mesmo: um evento, uma festa, um congresso ou um passeio.

Mas o que dizer de um acidente aéreo com um time de futebol, senão que seja uma tragédia triplamente qualificada? Mais do que voo comercial, ou o de um grupo de amigos que tivesse um mesmo destino, uma delegação esportiva carrega com ela um patrimônio imaterial: a paixão de uma torcida, a identidade e a simpatia de uma multidão.

No caso particular em que este texto adentra agora, temos a Associação Chapecoense de Futebol, o time “filho único” de uma cidade de médio porte do interior. Chapecó tem uma população pouco acima de 200 mil habitantes, sendo apenas a 5ª mais populosa de Santa Catarina, e fica no oeste do Estado, separada das terras gaúchas somente pelo Rio Uruguai. É um bom lugar para quem trabalha com o turismo de negócios e com a agroindústria.

Mas, se antes de 2014 perguntassem a dez brasileiros de outros lugares do País onde ficava esse município catarinense, pelo menos nove deles teriam dificuldade para apontar a localidade. Naquele ano, porém, a Chapecoense subiu para a Série A do Campeonato Brasileiro, como outros times desconhecidos nacionalmente e de fora das capitais já haviam feito, entre eles Ipatinga (MG), Juventude de Caxias do Sul (RS), Bragantino, de Bragança Paulista (SP) e União São João, de Araras (SP). No Brasil, poucos fatores e situações são capazes de promover institucionalmente algo quanto o futebol no horário nobre da principal emissora de TV.

Depois de três anos na Série D, a Chapecoense pulou da Série C para a B em 2012 e da B para a A no ano seguinte. Jogando contra os grandes do Brasil a partir de 2014, os alviverdes catarinenses conquistaram resultados espetaculares. Em particular, as goleadas de 5 a 0 sobre o In­ternacional, na temporada de estreia, e de 5 a 1 sobre o Palmeiras, em 2015. O nome de Chapecó ganhou a América este ano, com a surpreendente campanha na Copa Sul-Americana, uma espécie de Série B continental. Superou todos os adversários até a semifinal, quando uma defesa esplêndida do goleiro Danilo no último minuto dos acréscimos do segundo tempo pôs o time na decisão. Não era um feito de um time para sua torcida, apenas: era uma cidade toda vivendo o sonho. Filho único tem essas primazias.

Quando o Avro RJ-85, o único avião em operação da pequena LaMia, pilotado pelo piloto e sócio da companhia aérea, Miguel Quiroga, se chocou contra o monte El Gordo, a 18 quilômetros da cabeceira do Aeroporto José Maria Córdova, em Rionegro, também se partia um sonho. A Chapecoense que até então se conhecia morria ali, com jogadores, comissão técnica e dirigentes. Surgia sua versão mítica.

Como se diz na gíria do futebol, “no papel” seria mesmo complicado para os brasileiros vencerem o Atlético Nacional, de Medellín. Os adversários que enfrentariam na final que nunca haverá são os atuais campeões da Copa Libertadores e buscariam também a segunda conquista mais importante do continente. Logo que a tragédia foi confirmada, a primeira providência que tomou a direção do clube colombiano foi abrir mão do troféu e encaminhar à Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) o pedido de cessão do título aos catarinenses.

Foi só a primeira das muitas surpresas bonitas que ocorreriam, para comprovar uma frase emblemática: a de que “o futebol não é uma questão de vida ou de morte, é muito mais do que isso”. Quem a disse foi Bill Shankly, célebre técnico do Liverpool nas décadas de 60 e 70. Ele morreu em 1981, mas a torcida de seu clube tem um dos mais bonitos e conhecidos cânticos de arquibancada do planeta. “You’ll Never Walk Alone” (“Você nunca caminhará sozinho”, em português). No mesmo dia do acidente, 29, Liverpool e Leeds jogaram pela Copa da Inglaterra e o canto foi trocado pelo silêncio absoluto. Era uma homenagem póstuma aos colegas do time brasileiro.

Futebol e empatia

Aparece, então, mais uma característica que na semana passada talvez tenha assombrado principalmente quem não seja do meio esportivo: a empatia. Futebolistas talvez sejam os mais ciganos entre os atletas. E a globalização fez com que centenas de brasileiros fossem jogar na Europa e em outros continentes. Entre os que do gramado de Anfield reverenciavam em silêncio os mortos de El Gordo, havia pelo menos um que tinha estado em campo com algumas das vítimas: Lucas Leiva, ex-Grêmio e seleção brasileira.

O destino do jogador é instável. Uma contusão pode mudar o rumo de um craque do sucesso para o ocaso. Assim como uma jogada de efeito decisiva e memorável leva muitos medianos a assinarem contratos de cifras milionárias. Fazer o “pé de meia” é, para a maioria, algo aleatório, circunstancial. Uma altíssima porcentagem dos jogadores profissionais passa a carreira com esse sonho e a terminam sem dinheiro nem perspectiva. Apostaram as fichas todas no esporte e a banca levou tudo.

Por coisas assim, é muito grande a empatia corporativista no meio do futebol. Um astro do Liverpool pode conhecer inúmeras histórias iguais às dele, mas com final frustrante. Sabe que é uma exceção. Da mesma forma, vê a rotina dura para chegar aonde chegou. E isso envolve centenas de voos durante a carreira. O hotel é a segunda casa do jogador, assim como o avião vira um veículo a mais, quase um táxi de longa duração. Uma trupe de circo com uma base fixa e dezenas de viagens para apresentações distantes por ano.

Até semana passada, os acidentes aéreos do futebol mais marcantes tinham sido os de 1949, com o Torino, e de 1958, com o Man­chester United. Dois grandes clubes europeus. E desde a década de 90 não ocorria um acidente envolvendo uma delegação de futebol. O último tinha sido com a seleção nacional da Zâmbia, em 1993, em viagem para jogar contra Senegal, pelas Eliminatórias da Copa dos Estados Unidos. O avião caiu no mar de Libreville, capital do Gabão. A comoção foi considerável, especialmente naquele continente. Mas não havia ainda um ingrediente que agora fez toda a diferença: as redes sociais.

Via Twitter, Facebook ou nas páginas oficiais de clubes e atletas, a Chapecoense ganhou fama mundial com sua triste história. O resultado foram monumentos do Brasil (Palácio do Planalto, Cristo Redentor e vários estádios) e do mundo inteiro – como o Estádio de Wembley – iluminados com o verde da “Chape”. Celebridades do esporte, como Pelé, Maradona, Gustavo Kuerten, Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo, entre muitos outros, fizeram questão de demonstrar sua consternação. “A partir de hoje eu sou torcedor da Chapecoense”, afirmou Dieguito.

Assim como os grandes nomes do esporte, torcedores de todos os times também adotaram a Chapecoense como nova paixão. Seria solidariedade de fato, ou apenas comoção? A linha é tênue e é comum seguir o efeito manada nas redes sociais.

Nada, porém, supera o que Medellín fez por Chapecó e cujo ápice se observou na histórica noite em que dois estádios se encheram pelo jogo que nunca aconteceria. Na quarta-feira, 30, Nacional e Chapecoense estariam em campo. As arquibancadas da Arena Condá, estádio dos catarinenses, e do Atanasio Girardot, na cidade colombiana, lotaram para o luto. Em Medellín, milhares ainda acompanharam a cerimônia do lado de fora, compondo um quadro que restará inesquecível na história do futebol. Insólito e belo.

A generosidade não se restringiu aos atos solenes: os familiares de vítimas e os brasileiros que estiveram na Colômbia para cobrir a tragédia se surpreenderam com a disponibilidade dos nativos para recebê-los. Alguns cederam a própria casa para quem não quisesse ficar em hotéis; taxistas não cobravam corridas e ainda esperavam para fazer a viagem de retorno de passageiros; e os acompanhantes dos pacientes descreviam maravilhas sobre o tratamento recebido.

Mais do que isso: até o fechamento desta edição, na sexta-feira, 2, não havia tido qualquer vazamento de fotos com imagem sensacionalistas dos corpos – é bom lembrar que funcionários de clínicas funerárias no Brasil já cometeram o crime de vilipêndio de cadáveres em situações parecidas. Talvez alguém esperasse algo semelhante, o que felizmente não ocorreu. Outra questão, não menos importante: a presteza no atendimento às vítimas, a excelência no tratamento dos feridos e a rápida identificação e despacho dos corpos para as famílias.

Colombianos atuam no resgate às vítimas do voo da LaMia: diante da tragédia, a excelência no trabalho | Foto: Luis Benavides

Colombianos atuam no resgate às vítimas do voo da LaMia: diante da tragédia, a excelência no trabalho | Foto: Luis Benavides

Omayra Sanchez, 13 anos, vítima da avalanche que destruiu a cidade de Armero: morte após 60 horas de agonia | Foto: Divulgação

Omayra Sanchez, 13 anos, vítima da avalanche que destruiu a cidade de Armero: morte após 60 horas de agonia | Foto: Divulgação

Mas como se explica tamanho zelo e eficiência misturados a demonstrações tão grandiosas de solidariedade? Talvez uma resposta esteja no fato de a Colômbia ser o país da América Latina com maior taxa de desastres naturais: grandes terremotos, inundações e deslizamentos fazem parte da vida do país. Somente de 2006 a 2014, foram quase 22 mil chamados de emergência. Pelo menos um entre quatro colombianos já foram afetados por um tipo de catástrofe. Na maior delas, em 1985, uma avalanche que arrasou Armero, uma cidade de 40 mil habitantes. Cerca de 25 mil pessoas morreram, encobertas pela lama. Era uma tragédia anunciada, porque geólogos alertaram previamente sobre o perigo da atividade do vulcão Nevado del Ruiz. A garota Omayra Sánchez, de 13 anos, se tornou um triste ícone do infortúnio, morrendo após ter ficado 60 horas sem chance de resgate, em drama mostrado pela TV.

Muito provavelmente, foi esse tipo de sofrimento que forjou a solidariedade e o desprendimento dos colombianos, motivo de tanta admiração do povo brasileiro. Ficam perguntas inquietantes: como seria se fosse ao contrário? Haveria a mesma rapidez e solicitude com as vítimas? Os corpos seriam respeitados? Um grande time brasileiro seria tão solidário a ponto de doar seu título a um clube estrangeiro? Pode ser que sim, e aqui estejamos apenas usando do velho “complexo de vira-latas”. Mas é importante saber que muitos bolivianos, peruanos e colombianos avulsos são tratados como invisíveis nas grandes cidades do País.

Pelo desprendimento e “fair play”, de forma similar ao que aconteceu com a Chapecoense, o Atlético Nacional tornou-se neste momento o clube do exterior mais popular entre os brasileiros. Um marketing que só a grandeza pode alcançar. No desastre aéreo não morreu nenhum colombiano: havia, claro, além da delegação catarinense, também gente da Bolívia, da Venezuela e do Paraguai na tripulação. Principalmente aqui, a Colômbia ganha outra imagem; não é mais o “país do narcotráfico”, nem Medellín a terra de Pablo Escobar: tornou-se o lugar da generosidade tamanho continental. O futebol foi só o gatilho para algo que já existia sob a pele daquele povo. É isso que fica depois que passar toda a comoção.

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