Frigorífico causa incômodo à população da região noroeste de Goiânia

Instalações da JBS se encontram há décadas entre os setores Jardim Nova Esperança e Finsocial, mas ainda causa muitos transtornos aos moradores vizinhos

Vista aérea da área do Frigorífico JBS (ao centro) se encontra na parte interna de dois cursos d’água | Foto: Reprodução Google Maps

Vista aérea da área do Frigorífico JBS (ao centro) se encontra na parte interna de dois cursos d’água | Foto: Reprodução Google Maps

Elder Dias

A memória olfativa é algo que não se perde facilmente. O cérebro humano a processa de tal forma que basta alguém citar uma dama-da-noite numa conversa ou contar sobre o arroz com pequi do almoço para lembrarmo-nos facilmente da experiência que também nós tivemos esses cheiros. A infância, a merenda da escola, a primeira paixão da juventude, o armazém de secos e molhados, o fumo de rolo: basta alguém citar esses e outros elementos para que a cena, em nossa mente, se componha com a inserção da fragrância respectiva, ainda que ausente naquele momento.

É assim que me recordo, mesmo que com quase três décadas de distância temporal, do odor característico daquele frigorífico no caminho do ônibus rumo à Vila Finsocial, onde havia uma firma a que eu ia todo mês, como office-boy do escritório do meu pai, para pegar notas fiscais e receber honorários pelo serviço de contabilidade dele. Bastava se aproximar da região para que o aroma nada agradável tomasse conta do interior do coletivo, perturbando as pessoas menos acostumadas. Um cheiro diferente, difícil de classificar, do qual no entanto não se podia deixar de falar que era muito forte e ruim.

O Frigorífico Anglo era, à época, um caos para todos em seus arredores. Muitos se mudavam da região por não suportar o infortúnio; outros, que cogitavam eventualmente adquirir um imóvel por ali ou mesmo se mudar para o local, também se sentiam repelidos por aquela atmosfera. Outros, por falta de opção, iam ficando, ainda que sofrendo náuseas e problemas respiratórios. Em 2000, a Anglo foi comprada pelo então ascendente grupo JBS-Friboi. A indústria passou por reformulações e adequações desde então, o mau cheiro diminuiu, mas ainda incomoda bastante, principalmente os vizinhos imediatos.

O jornalista e também empresário Sebastião Montalvão conhece bem a região, onde se estabeleceu há 20 anos. Mora no Setor Santos Dumont e tem sua oficina mecânica no Morada do Sol. Residência e empresa a cerca de um quilômetro do frigorífico, que fica no meio do trajeto. “Isso lá já foi bem pior, então creio que eu não sofra tanto. Mas tem gente que vive e trabalha do outro lado da rua do frigorífico. Esse povo que mora perto reclama bastante ainda”, conta.

A técnica em enfermagem Rose Fonseca confirma: “Moro perto, no Jardim Nova Esperança, e realmente o mau cheiro é forte.” Outro que dá testemunho ruim é o zelador Mario Antonio Sobrinho, morador do Jardim Curitiba 4, também na região noroeste da capital. “Percebemos que diminuiu esse mau cheiro, mas não acabou. Parece que plantaram eucaliptos para atenuar essa sensação, mas mesmo assim não foi o suficiente. O mau cheiro não acaba, tanto que tenho de fechar os vidros do carro toda vez que passo por lá. Minha esposa sofre até náuseas”, conta.

Entrada do Frigorífico JBS, no Setor Jardim Nova Esperança: empresa diz que cumpre todas as normas exigidas e que está aberta a vistorias | Renan Accioly/Jornal Opção

Entrada do Frigorífico JBS, no Setor Jardim Nova Esperança: empresa diz que cumpre todas as normas exigidas e que está aberta a vistorias | Renan Accioly/Jornal Opção

No lugar errado
O caso de transtorno do Frigorífico da região noroeste de Goiânia não é uma exceção. Ocorre toda vez que se juntam indústrias de processamento de carne e aglomerados populacionais. Protestos não são raros nos casos mais graves. No mês de maio, em Araguaína (TO), moradores de um bairro fecharam uma rodovia estadual, a TO-222, colocando fogo em pneus e galhos de árvores. O motivo era o mau cheiro espalhado por uma unidade da Friboitins na área. Entre as imagens constrangedoras havia a de um bando de urubus sobrevoando as instalações da unidade. “Precisamos respirar”, clamava uma faixa erguida por populares. A empresa alegava que cumpria todas as normas ambientais estabelecidas.

Uma verdade meramente legal, que ratifica uma injustiça ao bem-estar social de uma coletividade: ainda que sejam cumpridas as normas, a população está sacrificada em sua qualidade de vida e é forçada a viver em um ambiente altamente degradado. O certo não seria, pois, mudar as regras de forma a que as pessoas passassem a não se sentir prejudicadas. Uma convivência pacífica e o mais harmoniosa possível, já que, sem a empresa, vários postos de emprego da mesma comunidade seriam extintos.

No caso do frigorífico da JBS em Goiânia, um fator se destaca bastante: é que a cidade cresceu, exatamente nas últimas décadas, de forma exponencial na região noroeste. É hoje o pedaço mais populoso da capital e onde também se encontra a principal captação de água: o Rio Meia Ponte, manancial que vai sendo poluindo ao longo do trecho urbano. O frigorífico encontra-se na confluência de dois cursos d’água: o Córrego Fundo e o Córrego Caveirinha, o primeiro afluente do segundo.

Frigoríficos não são, obviamente, as indústrias mais adequadas para serem erguidas às margens de mananciais, quanto mais dentro do perímetro urbano. Para agravar a situação, ocorreu a expansão do povoamento da região. Melhor ideia seria o fechamento da unidade naquele local, com sua transferência para um ponto mais adequado, seguida da recuperação ambiental da área, degradada não só pela presença daquelas instalações, mas pela ação humana decorrente de outras atividades.

No caso do Frigorífico JBA, curiosamente, segundo Sebastião Montalvão, o odor aumenta em período chuvoso, ao contrário do que ocorre nas imediações do Rio Meia Ponte – onde o Caveirinha deságua –, que tem seu ponto crítico nos meses de estiagem, em que o odor se manifesta nitidamente, de modo mais grave quando passa pela Perimetral Norte, próximo ao complexo Cargill-Unilever, nas Chácaras Retiro, e à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), no Setor Urias Magalhães.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de comunicação da JBS, que, de São Paulo, responde pelas informações sobre a base em Goiânia, pedindo esclarecimentos sobre as questões relativas ao frigorífico. No fim da tarde da sexta-feira, 1º de julho, veio a seguinte nota, republicada na íntegra: “A JBS informa que investe constantemente na questão sustentável da unidade de Goiânia, bem como nas suas demais plantas no Brasil e no mundo.

Fato comprovado pela implantação, nesta planta, de um dos melhores sistemas de tratamento de efluentes em frigoríficos da atualidade, resultando, inclusive, em geração de efluentes com qualidade superior à qualidade do corpo hídrico receptor destes efluentes. A companhia já investiu mais de R$5 milhões em medidas de controle ambiental nesta unidade desde 2010 e presta continuamente informações ao Ministério Público e aos órgãos ambientais, estando permanentemente aberta a vistorias e visitas dos órgãos de controle governamentais. A unidade realiza atividade de cortes e miúdos in natura e possui mais de 900 funcionários.”

JBS vira alvo de operação da PF

Córrego Caveirinha, em sua passagem próximo ao frigorífico: empresa garante que trata os efluentes que emite | Foto: Renan Accioly / Jornal Opção

Córrego Caveirinha, em sua passagem próximo ao frigorífico: empresa garante que trata os efluentes que emite | Foto: Renan Accioly / Jornal Opção

Em meio à elaboração desta matéria, o grupo JBS foi alvo de uma operação da Polícia Federal, com a deflagração da Operação Sépsis, na última sexta-feira. Um mandado de busca e apreensão foi cumprido em São Paulo, na casa do principal sócio do grupo, Joelhe Batista. A ação é mais um desdobramento da Operação Lava Jato, cuja investigação apura pagamento de propina a Eduardo Cunha (PMDB-RJ) por empresas que receberam recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Outra holding também proprietária do frigorífico JBS, divulgou nota em função da operação em outra empresa do grupo, a Eldorado, alegando não saber as razões da ação policial. “A companhia desconhece as razões e o objetivo desta ação e prestou todas as informações solicitadas. A Eldorado sempre atuou de forma transparente e todas as suas atividades são realizadas dentro da legalidade”, diz a nota da empresa.

O crescimento da JBS-Friboi, especialmente nos últimos 15 anos, sempre gerou muitas especulações — nunca comprovadas, é bom ressaltar. Uma delas, mais comumente repassadas, é a de que a empresa teria, como um de seus sócios ocultos, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

 

Análise

Só mais um exemplo de descaso no planejamento urbano de Goiânia

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Complexo Cargill, que um dia foi fábrica da Arisco, está erguido em cima de nascentes e minas d’água | Fernando Leite/Jornal Opção

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Obra do Nexus, embargada: mais uma ameaça à sustentabilidade da capital, por enquanto suspensa | Renan Accioly/Jornal Opção

Goiânia é pródiga em produzir “corpos estranhos” no tecido urbano. O Frigorífico JBS da região noroeste é apenas mais um entre vários exemplos que existem por todas as partes da capital. Muitos deles já tiveram sua razão de ser onde estão situados, mas o crescimento da cidade deveria, naturalmente, ter readequado seu posicionamento.

O mais tradicional exemplo é o Parque de Exposições Agropecuá­rias de Goiânia, de propriedade da So­ciedade Goiânia de Pecuária e A­gricultura (SGPA), na Nova Vila. Ano após ano, se repetem as queixas dos vizinhos e os pedidos para que haja a transferência das instalações para outro espaço. Várias foram as vezes em que, de fato, houve um movimento para que isso ocorresse, inclusive com propostas de parcerias e permutas. A permanência no local, porém, parece que não vai sofrer alteração ainda por um bom tempo.

Outro caso está na região norte e tem como maior prejudicado o Rio Meia Ponte. Há mais de 30 anos, no primeiro governo de Iris Rezende (PMDB), surgiu a indústria Arisco como a primeira beneficiária do programa Fomentar. A área escolhida para sua instalação foi um setor de chácaras. Apesar dos protestos dos moradores – muitos deles ligados à Universidade Federal de Goiás (UFG), como o professor Gabriel Canedo Quiroga, que puxou a briga contra a indústria –, o projeto foi executado e, ao longo dos anos, transformou uma área repleta de brejo, com minas d’água e lagoinhas naturais, em um complexo logístico com trânsito intenso de caminhões e bitrens, posto de gasolina e até um centro de distribuição da Hypermarcas.

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Na foto Vista aerea da Sede do Parque Agropecuario de Goiania Foto: Divulgaçao

Na foto Vista aerea da Sede do Parque Agropecuario de Goiania
Foto: Divulgaçao

Um terceiro exemplo foi a instalação da Universidade Salgado de Oliveira (Universo) no Setor Sul, na década de 90. Em uma área totalmente voltada a unidades residenciais, a presença de uma instituição de ensino daquele porte mudou totalmente a paisagem, causando reflexos bastante negativos na qualidade de vida de seus vizinhos.

Agora, ao lado da Praça do Ratinho, ponto nevrálgico do trânsito de Goiânia, está lançado o projeto, por ora embargado, do complexo Nexus Shopping & Business, que, por seu porte gigantesco, alteraria totalmente a rotina da região. O Jornal Opção apurou irregularidades no estudo de impacto de vizinhança (EIV), que teve relatórios “fabricados”. Por iniciativa do Ministério Público, que propôs ação, o caso está na Justiça e a obra, parada.

Lugar que tinha, em princípio, ao ser idealizada, um planejamento bem definido, Goiânia foi se perdendo ao longo das décadas. Está agora com sérios desafios a enfrentar para se reestruturar. O frigorífico que um dia margeou (erradamente) o perímetro urbano agora está dentro dele. O que fazer? Pensar em uma cidade de fato sustentável, muito além de mero discurso de campanha. (E. D.) l

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