Foguete da SpaceX e Boeing inaugura nova fase da exploração espacial

A iniciativa privada barateou o lançamento de espaçonaves e deu novos objetivos para a exploração espacial

Em 2011, a agência espacial americana Nasa aposentou seu Ônibus Espacial (Space Shuttle), um modelo de espaçonave parcialmente reutilizável que por 30 anos voou 833 vezes, levando 135 astronautas para a órbita da terra. Uma das razões para o encerramento do programa foi a morte de 14 tripulantes – sete em um desastre durante a decolagem em 1986 e outros sete no acidente de 2003, durante a reentrada na atmosfera. 

Desde então, a Nasa veio utilizando os serviços da espaçonave russa Soyuz, pela qual o astronauta brasileiro e atual ministro Marcos Pontes foi à Estação Espacial Internacional (ISS). Enquanto o “bilhete de embarque” no Space Shuttle custava cerca de 170 milhões de dólares por astronauta, o preço de um assento na Soyuz era de apenas 80 milhões de dólares em 2011, data em que a Nasa e a agência espacial governamental russa (Roscosmos) fecharam o acordo. 

Entretanto, em 2019, o preço da viagem de ida e volta, do Cazaquistão à ISS, via Soyuz, havia subido para 90 milhões de dólares por pessoa. Esta foi uma das pressões que favoreceram o acordo entre a agência governamental e as empresas privadas americanas SpaceX e Boeing. Além de eliminar a dependência americana da Rússia, enviar astronautas para a órbita por meio do programa chamado Commercial Crew criou o voo espacial mais barato em quase 60 anos de história da Nasa. 

Segundo a revista americana Forbes, os contratos concedidos pela Nasa para  SpaceX e Boeing no valor de 3,1 bilhões e 4,8 bilhões de dólares, respectivamente, resultaram no desenvolvimento do Foguete Falcon 9, da SpaceX, e a cápsula espacial Crew Dragon, de onde a tripulação comanda a nave. A razão para o barateamento se deve à inovação de que o foguete lançador consegue retornar sozinho à base de lançamento.

Foguete Falcon 9, controlado remotamente, retorna para o solo. Os lançadores podem ser reaproveitados com propósito de reduzir custos | Foto: Reprodução

As espaçonaves americanas voltaram a partir do Centro Espacial John F. Kennedy, na Flórida. No sábado, 30, os astronautas Bob Behnken e Doug Hurley deixaram o solo terrestre às 15:22, no horário local. A Crew Dragon atingiu a órbita com segurança e atracou na Estação Espacial Internacional em 31 de maio. O Rendezvous, ou Docking, aconteceu 422 quilômetros acima da China e, após verificar se havia vazamentos e se a pressão e temperatura estavam em conformidade, a dupla desembarcou para se juntar à tripulação russa e americana já na ISS.

Além do par de astronautas, a Crew Dragon levou carga para a tripulação da estação, segundo a porta-voz da NASA Stephanie Schierholz publicou. A carga também inclui serviços auxiliares relacionados a lançamentos e pousos. Entretanto, a primeira vez que uma espaçonave comercial se acoplou à ISS tem mais importância do que apenas os objetivos imediatos da missão podem transparecer. 

O que dizem os astrônomos

Rafael Santucci é professor do Instituto de Estudos Socioambientais (IESA) na Universidade Federal de Goiás (UFG). Graduado em física pela Universidade de São Paulo (USP), mestre e doutor na área de astrofísica estelar. Professor de pós-graduação e pesquisador na área de astrofísica estelar. O astrofísico concedeu entrevista ao Jornal Opção sobre o lançamento.

Cápsula Crew Dragon momentos antes de se acoplar à ISS | Foto: Reprodução

Por que é importante enviar humanos ao espaço? 

Existem muitos interesses por trás de ações deste tipo, indo desde curiosidade pura até lucro, por parte de ambos os lados. A união entre a Nasa e a SpaceX tem benefícios mútuos. Os astronautas são submetidos a (e também realizam) diversos estudos. Há uma necessidade de entender o comportamento humano em ambientes fora do nosso cotidiano, consequências para os nossos corpos, realização de experimentos etc. Sem essas viagens, seria impossível avançar nesses aspectos e melhorar a capacidade e conforto das naves espaciais. Pelo lado da SpaceX, a empresa nunca escondeu a vontade de lucrar com o turismo espacial, mas também é verdade que os ideais da empresa simpatizam com a curiosidade humana.

Há 9 anos a Nasa não lançava missões tripuladas. O que mudou desde então? Houve grandes avanços em segurança ou tecnologia?

A Nasa aposentou suas missões tripuladas (os Space Shuttles) no ínicio desta década pois estavam com custo acima do orçamento e tiveram sérios acidentes fatais em alguns dos últimos lançamentos. Desde então, ela tem investido em voos de astronautas americanos através de foguetes russos e chineses, mas internamente ela alimentou financeiramente algumas empresas para que conseguissem baratear e viabilizar as missões dentro do país.

Hoje ao invés de pagar 90 milhões de dólares por um assento em um voo russo, a SpaceX consegue oferecer o “passeio” por 55 milhões, mas com certeza isso vai ficar cada vez mais barato. Além disso, a tecnologia desenvolvida pela empresa para chegar neste objetivo foi, em alguns aspectos, inovadora, principalmente ao conseguir reaproveitar os módulos usados na parte inicial do lançamento.

Apenas os governos dos EUA, Rússia e China haviam enviado pessoas ao espaço. Com empresas privadas entrando nesse campo, o que muda?

Rafael Santucci | Foto Fábio Costa / Jornal Opção

Esse é o sonho de muita gente, não é mesmo? Acredito que muitos de nós já pensamos em ir ao espaço, em ter a sensação de estar em órbita, ver se a Terra é redonda mesmo de fora, etc. Assim como tudo o que acontece na investigação científica, com a exploração espacial não é diferente. O mundo investe (com razão) muito dinheiro em ciência de base (coisa que o Brasil está se esforçando para não fazer atualmente), aquela ciência despretensiosa que existe para sanar a nossa curiosidade.

Por exemplo, a Astronomia desenvolve constantemente novas câmeras para fotografar o céu, muito melhores do que os mais finos e caros equipamentos profissionais que os fotógrafos usam. Isso porque queremos entender os detalhes do funcionamento dos astros e do Universo, entretanto, as empresas que recebem muito dinheiro para desenvolver essas super câmeras acabam conseguindo implementar essas tecnologias inovadoras na sociedade ao longo do tempo, e assim conseguem excelentes lucros.

A SpaceX viu na exploração espacial uma oportunidade desse tipo, fazer com que turistas (por enquanto só os muito ricos) possam ter essa experiência. Se eu tivesse condições de poupar para fazer esse passeio, estaria tentando entrar em contato com a empresa para agendar uma viagem dessa no futuro, agora imagine alguém que tenha o dinheiro para gastar agora e nem fará falta!

Como a SpaceX, Blue Origin e outras empresas privadas no ramo podem se financiar? O que elas têm a ganhar com a exploração espacial, além de parcerias com governos em contratos público-privados?

O próprio turismo espacial e as diversas formas de produtos que serão resultantes dele servirão para sustentar essas atividades. Mesmo antes de enviar os astronautas com sucesso para a ISS, certamente já deveriam existir no comércio norte-americano diversas réplicas do foguete, camisetas, chaveiros, adesivos, etc. Com o desenvolvimento cada vez maior desses novos foguetes, não só a Nasa, mas até as outras agências espaciais famosas tendem a se tornar usuárias dos serviços da SpaceX, até mesmo a agência espacial brasileira poderá ser uma usuária no futuro, quem sabe?

 Sobre esta missão especificamente, quais são os principais objetivos?

A SpaceX tem obtido sucesso com o lançamento de seus foguetes, mas ao lançar pessoas até a ISS com segurança, a empresa mostra que já possui maturidade e confiança o suficiente para levar esta atividade aos próximos passos. Portanto, mostrar a todos que o turismo espacial se tornará uma realidade através de lançamentos seguros e, para poucos, financiáveis foi o maior objetivo alcançado, com muito sucesso eu diria.

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