Focos de incêndio crescem 7% no país, mas Goiás se mantém estável

No mês de setembro, o Cerrado foi o bioma que mais sofreu com as chamas descontroladas

Céu de Goiânia é tomado por nuvem de fumaça devido a incêndio em parque ecológico | Foto:  Augusto Diniz/Jornal Opção

Como as mil mortes diárias por Covid-19, o Brasil parece ter se acostumado às nuvens de fumaça que invadem as cidades. São Paulo, Cuiabá, Campo Grande e Goiânia foram algumas das capitais que registraram intensas neblinas carregadas de vapores tóxicos e fuligem nas duas últimas semanas. O problema já era uma grave questão ambiental, econômica e de saúde pública em 2019, mas este ano o País registrou aumento de 7% no número de focos de incêndio e atingiu a marca histórica de 148.513 pontos de fogo sem controle.

Mapa acima mostra a fumaça em 22/09/2020 sobre o Brasil | Imagem: Inpe

A maior parte desse incremento se deve aos incêndios no Pantanal, onde atualmente existem 16.201 focos de incêndio que totalizam mais de 2,5 milhões de hectares, segundo o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PrevFogo). O espaço queimando é equivalente a dez vezes as cidades de SP e RJ juntas. Segundo o Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Estado do Mato Grosso registrou aumento de 40% no número de focos de incêndio em relação a 2019.

Os dados para Goiás não mostram diferença significativa no número das chamas em relação ao ano passado, segundo o Corpo de Bombeiros. De acordo com o tenente Thyago Rodrigues de Oliveira, comparando os meses de agosto de 2020 e 2019, houve redução de 2% no número de ocorrências atendidas pelos bombeiros no Estado. Entretanto, isso não quer dizer que os números sejam aceitáveis. São 100 ocorrências por dia no mês de setembro apenas em Goiás. O Cerrado é o segundo bioma mais atingido por incêndios, atrás apenas da Amazônia.

Áreas destacadas em verde se referem às unidades de conservação ambiental brasileiras. As cruzes vermelhas são focos de incêndio | Imagem: Inpe

Embora a Amazônia corresponda ao bioma onde se registrou a maior área queimada ao longo do ano, nos meses quentes e secos o Cerrado passa a queimar ainda mais do que a floresta úmida. Em agosto deste ano, 38,6% das queimadas do Brasil aconteciam no Cerrado e 35,1% na Amazônia. O tenente Thyago Rodrigues de Oliveira explica que isso se deve a uma junção de quatro fatores: baixa umidade relativa do ar, temperaturas elevadas, ventos fortes e acúmulo de vegetação combustível.

Quanto à origem do fogo, o tenente afirma que incêndios florestais são em geral causados por ação humana e de forma criminosa. “Provocar incêndio em mata ou floresta é crime ambiental definido no artigo 41 da Lei de Crimes Ambientais, com previsão de pena de reclusão de dois a quatro anos, assim como causar incêndio expondo a vida, integridade física ou patrimônio de outro a perigo sujeita o infrator à reclusão de três a seis anos”, afirma o tenente.

A Lei do Fogo (Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo) regulamenta o uso da técnica das queimadas. Segundo o texto da lei, um agrônomo habilitado deve preencher formulários que serão analisados pelas agências municipais do meio ambiente e poderão resultar em uma guia que autoriza o proprietário de terras a queimar uma área de forma controlada. Mas na maior parte das ocorrências de incêndios do Brasil, essa guia inexiste, segundo o Corpo de Bombeiros.

Lobo guará avistado em plantação de soja | Foto: Paulo Crispim / Acervo Pessoal

Sem as normas de segurança, o fogo não fica restrito às áreas produtivas. O Banco de Dados de Queimadas mostra que os incêndios ocorrem mais em áreas de vegetação natural do que em propriedades agrárias. Fora de controle, as chamas se alastram para Unidades de Conservação (UCs), como o Parque Nacional das Emas, que em 2010 foi 90% incinerado, ou a Chapada dos Veadeiros, que em 2017 foi quase completamente destruída no maior incêndio da história do País.

Este ano, o Parque Altamiro Moura Pacheco, que tem no total três mil hectares, queimou por sete dias e foi 30% destruído. Ao todo, foram empenhados na missão de controlar o incêndio 50 bombeiros por dia e 12 viaturas. “Vários animais foram resgatados e encaminhados ao centro de triagem. Protegemos boa parte do parque e também toda vegetação, mas infelizmente perdemos uma quantidade enorme de animais”, afirma Thyago Rodrigues.

Em Goiás, as áreas de proteção com maior área de desmatamento em 2020 foram a área de proteção ambiental das Nascentes do Rio Vermelho e a reserva extrativista Lago do Cedro. Ao contrário do que afirmou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na abertura da assembleia da ONU nesta terça-feira, 22, agricultores causam a maioria das queimadas, e não índios e caboclos.

Soluções na inovação

Noely Ribeiro é doutora em Geografia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professora do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais (Iesa). A pesquisadora trabalhou por nove anos associada ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama). Atualmente, a cientista trabalha no Norte de Goiás, no Território Quilombo Kalunga, com o objetivo de desenvolver um modelo preditivo de fogo que sirva para o Brasil, respeitando as características físicas e ambientais de cada bioma.

Noely Ribeiro criou um núcleo de estudos e pesquisas voltado para as ciências do fogo | Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

“Já realizamos alguns produtos, como um aplicativo que ajuda o pessoal a fazer o manejo integrado do fogo”, conta Noely Ribeiro. “Agora, os brigadistas fazem a coleta de dados em campo e utilizam o aplicativo para cadastrar as informações em um banco de dados que auxilia na modelagem para saber onde foi queimada e onde foi incêndio.”

A professora, que criou um núcleo de estudos e pesquisas voltado para as ciências do fogo, enumera outros produtos que poderão auxiliar a sociedade a lidar com o problema dos incêndios.

“Pretendemos criar um aplicativo de alerta de fogo que possa funcionar em todo o Brasil. Uma coisa é o dado do Inpe existir no software de geoprocessamento ou na plataforma do instituto, outra coisa é essa informação chegar até à sociedade. Este aplicativo já está em funcionamento na área dos Kalungas. No alerta, fazemos roteamento dos dados do Inpe via Telegram – você pode digitar ‘kalunga/foco’ para obter uma lista de todos os focos na região do momento com o link para o georreferenciamento do Google”, explica a pesquisadora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.