Filha de Olavo de Carvalho conta ao Jornal Opção como ajudou na prisão de Queiroz

Heloísa de Carvalho detalha o que teve que fazer para descobrir a presença do ex-assessor em propriedade do advogado de Flávio e Jair Bolsonaro

Heloísa de Carvalho e Bruno Maia em frente à casa de Frederick Wasseff / Foto: YouTube

Manhã de quinta-feira, dia 18 de junho. O Brasil acorda em polvorosa com uma notícia que já estampava a capa de todos os jornais: o policial militar aposentado Fabrício Queiroz fora encontrado e preso numa operação do Ministério Público de São Paulo e a Polícia Civil. O assunto toma as redes sociais e a boca da população. Desde que veio a público o escândalo de um suposto esquema de rachadinha envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente da República, e Queiroz, seu ex-assessor, uma perguntava não calava: afinal, onde estava o Queiroz? Ironicamente, a pergunta foi respondida por ninguém menos que Heloísa de Carvalho, filha do ideólogo e guru do governo Bolsonaro, Olavo de Carvalho.

O polêmico Queiroz, que rendeu série de reportagens, investigações e até memes, estava em uma casa em Atibaia, interior de São Paulo. O município interiorano ficou amplamente conhecido por conter o suposto “famigerado sítio” do ex-presidente Lula. Para completar o caráter bizarro da história, o imóvel onde se abrigava o ex-assessor de Flávio Bolsonaro pertence a um advogado do parlamentar e do próprio presidente Jair Bolsonaro, Frederick Wassef, que por duas vezes em entrevistas concedidas à imprensa havia afirmado desconhecer o paradeiro do tão procurado (mas não foragido) policial aposentado.

Queiroz é investigado por participação em esquema de rachadinha, tipo de desvio de verba em que o recurso destinado à contratação de servidores é, na prática, enviado para o próprio contratante por meio de repasse de parte do salário dos funcionários, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde Flávio Bolsonaro ocupou cadeira parlamentar antes de ser eleito senador. Entretanto, ninguém poderia imaginar que o paradeiro do Queiroz, que por algumas vezes foi chamado ao Ministério Público para prestar esclarecimentos mas sequer deu as caras, seria apontado justamente por uma familiar em primeiro grau do grande influenciador do governo federal, o filósofo Olavo de Carvalho.

Heloísa de Carvalho começou a investigar o esconderijo de Queiroz em Atibaia, lugar onde ela vive com o marido, ainda no ano passado, e protagonizou situações dignas de filme para obter a confirmação.

Ao Opção, a filha de Olavo de Carvalho conta que em abril de 2019 foi questionada por um amigo jornalista se ela teria conhecimento do suposto paradeiro de Queiroz no Jardim dos Pinheiros, bairro de Atibaia. Segundo ela, a informação coincidiu justamente com sua rotina na região.

Heloísa de Carvalho, filha que rompeu com Olavo de Carvalho / Foto: Facebook

“Jardim dos Pinheiros é um bairro que eu conheço muito bem, porque eu tenho muito amigo lá. Na época, uma amiga minha faleceu e morava numa casa enorme nesse bairro. E a herdeira, que é minha amiga também, não quis ficar indo à casa. Então comecei a ficar indo lá, para conferir se estava tudo bem”, recorda.

Ela relata que o jornalista havia lhe segredado que suspeitava que Queiroz estava na casa de um advogado e lhe passou o nome de Frederick Wassef. A coincidência a deixou chocada. “Na hora que eu puxei na internet e olhei o endereço do escritório falei: ‘Não acredito’. Tive um susto, porque era literalmente do lado, de muro, da casa que eu tomo conta”, diz.

A partir de então, a filha do ideólogo bolsonarista se engajou numa missão versão “espiã” e passou a levantar todas as informações a respeito das movimentações na casa de Wassef. “Eu sabia que tinha um casal de caseiros vivendo lá, porque várias vezes eu os vi saindo de carro. Comecei a ficar de olho. A casa principal nunca abria a janela, eu achava estranho isso”, relembra Heloísa.

Em uma ocasião específica, Heloísa conta que seu carro quebrou durante uma de suas idas à casa da amiga. Ela, então, resolveu pedir ajuda justamente na propriedade do advogado. O evento a deixou ainda mais desconfiada. Ao chamar na entrada da casa, a caseira a atendeu à distância e informou que ali não havia nenhum homem que pudesse ajuda-la com o carro. “Mas achei estranho porque tinha um carro mais velho na garagem, que eu sabia que era do caseiro. Ali não tem nada pertinho que dá para ir a pé. É bem evidente que o marido dela estava lá e ela não queria que ele saísse”, relata. Ali, ela decidiu que precisava de reforços para a missão Queiroz.

A chegada do “comparsa”

A filha de Olavo de Carvalho havia firmado um compromisso consigo mesma de que descobriria o que, ou quem, estava escondido na casa de Frederick Wassef. Decidida a tocar a investigação, Heloísa entrou em contato com seu amigo Bruno Maia, mais conhecido como Todd Tomorrow nas redes sociais, e pediu sua ajuda. Sua reação foi instantânea. “Contei tudo, e ele disse: ‘Heloísa, que loucura!’. Começamos os dois a investigar”.

A dupla começou a bolar uma estratégia para tentar vislumbrar mesmo que um vulto de Queiroz dentro da casa de Wassef. Foi quando veio a ideia. “Contei para ele que havia um lote baldio atrás das duas casas. A gente passou a ir lá, às vezes juntos, às vezes sozinhos, e ficávamos olhando na fresta do muro”, revela. Mas o movimento na área externa de casa era zero. Porém, numa das ocasiões, o presente veio para os “espiões”.

Postagem feita por Bruno Maia no Instagram / Foto: Instagram

Heloísa conta que num dos dias em que o amigo foi ao lote baldio sozinho, conseguiu olhar pela fresta do muro e viu um senhor calvo na área externa de casa. Não havia certeza de que era quem eles procuravam, mas a semelhança era notável. Decidiram agir. Com autorização de Heloísa, Bruno fez uma denúncia no Ministério Público de São Paulo e do Rio de Janeiro, e em maio chegou a publicar uma foto da fachada da casa com os dizeres: “Advogado de Flávio Bolsonaro afirma que Queiroz foi exonerado para se aposentar. Sim! E foi curtir uma longa temporada numa casa no meio do nada em Atibaia, que, por coincidência, é de propriedade do Sr. #Wassef, o advogado”.

No dia da prisão de Queiroz, Heloísa relata que Bruno a telefonou e disse: “Vamos até lá tirar uma foto tomando suco de laranja”. “Lá estamos tirando foto e o povo perguntando por que estávamos fazendo isso. A gente começou a dar risada. Um jornalista perguntou: ‘Quem é você?’, e eu respondi. Estava cheio de jornalistas lá. Foi uma correria, todos vieram de uma vez falar comigo”, recorda.

A “missão Queiroz” levou mais de um ano desde o dia em que Heloísa recebeu a pista do amigo jornalista até o dia da prisão do personagem chave da trama. Ela, que é rompida com Olavo, conta que o pai até o momento não se manifestou de forma alguma sobre o ocorrido e sua participação nele. “Ele ficou caladinho, não falou nada, e eu não tenho mais contato com ele. Até evito para não correr o risco dele falar que eu estou ameaçando, constrangendo. Eu conheço a família que tenho”, desabafa.

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