Ameaça ao Fica põe em xeque legado cultural de 20 anos

Pode não ser realizado o Fica, festival de duas décadas que fomentou indústria cinematográfica e tornou-se o principal evento da cidade de Goiás

Fica em Goiás

Realizado desde 1999, o Fica é o principal evento da antiga capital goiana | Foto: Reprodução / IPHAN

O Festival Internacional de Cinema Ambiental (Fica) pode não acontecer pela primeira vez em 20 anos. O evento é um dos mais importantes do calendário goiano e tradicionalmente acontece em junho, mas ainda não foi anunciado ou suspenso pela Secretaria de Estado de Cultura (Secult). Quando perguntado sobre o assunto, o secretário estadual de Cultura, Edival Lourenço, reiterou ao Jornal Opção que nunca falou em cancelamento e que o Estado busca parcerias com a Secretaria Nacional de Cultura do Ministério da Cidadania para sua realização.

No dia 25, na cidade de Goiás, o governador Ronaldo Caiado (DEM) afirmou à imprensa que contas do Fica 2018 estão sendo auditadas e que o pagamento da dívida de R$ 1,5 milhões do festival passado é um entrave jurídico para a realização de um novo evento. O governador anunciou o pagamento de parte do débito, R$ 388 mil em premiações. Um parecer da Controladoria-Geral do Estado (CGE) sobre a realização do festival foi emitido para a Secult, mas seu conteúdo não foi divulgado. 

Edival Lourenço afirma trabalha para viabilizar o evento, “mas não é uma situação tão simples”, diz o secretário de cultura. “O Estado como um todo passa por dificuldades financeiras e a Cultura não está fora desse contexto. Temos restos a pagar que se aproximam de R$ 60 milhões. Aos poucos estamos organizando a situação e, no tempo certo, esperamos implementar nossos projetos. Mas estamos na gestão há pouco mais de seis meses e, neste tempo, não teríamos como resolver uma demanda reprimida há anos”.

Secretário debate Fica Goiás

Edival Lourenço nunca falou em cancelamento, mas não há divulgação de edital | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A importância do Fica

O Fica tem a maior premiação da América Latina em seu gênero e é considerado um dos principais eventos culturais do Centro-Oeste. Segundo os idealizadores do festival, ex-secretários de cultura e diretores de cinema goianos, o evento conseguiu fortalecer o cinema goiano, qualificar profissionais da indústria cinematográfica e chamar atenção para a causa ambiental. Também são apontados como contribuições do Fica para a cidade de Goiás o aumento em receita com turismo e avanços nas áreas de educação, meio ambiente, cidadania, além de colaboração com o título dado em 2001 pela UNESCO de Patrimônio Histórico e Cultural Mundial da Humanidade. 

O ex-superintendente de cultura Nasr Chaul foi um dos responsáveis pela concepção do festival e esteve à frente da realização de 15 de suas  20 edições. O historiador afirma se sentir triste em vê-lo passar por este momento. Ele lembra que o Fica tem atenção internacional, sendo membro do Green Film Network, uma rede mundial de festivais de cinema ambiental que coloca o Brasil ao lado de países como Estados Unidos, Portugal, Itália, França e outros. “É lamentável, o Estado não poderia deixar faltar um evento desse porte”.

Ex-superintendente estadual de Cultura, Nasr Chaul, afirma que Goiás deixou Cultura com caminhos trilhados para atual gestão | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Diretores goianos de cinema também atestam a importância do Fica para Goiás e para suas carreiras. Benedito Ferreira, que atualmente trabalha na finalização de seu primeiro longa-metragem, um documentário filmado em Paris e no interior da França, afirma que o festival foi decisivo em sua formação como diretor de cinema. “Já assumi diversas funções no Fica: fui público, fui premiado, participei como curador, como programador, já ministrei cursos. É um evento que serve como termômetro, marca o que está sendo feito no cinema em Goiás”. 

Daniel Calil, roteirista que participa do desenvolvimento de duas séries e um longa-metragem, também passou por diversos postos no Festival. Ele conta que, além da importância da mostra principal, o Fica contribui para fomentar outros tipos de formação cinematográfica, ao acampar, por exemplo, a Mostra ABD (Mostra da Associação Brasileira de Documentaristas). Daniel Calil revela que no âmbito estadual, a produção cinematográfica está estagnada. “O fundo de Arte e Cultura não foi pago, a Lei Goyazes está paralisada, não somos comunicados sobre políticas públicas, e agora o Fica. É um momento muito nebuloso para a cultura em Goiás”. 

Também pode ser enumerada entre as conquistas do Fica a restauração de prédios históricos da cidade de Goiás, como o Cineteatro São Joaquim, que foi revitalizado para receber o festival. 

Fica Goiás

Goiás teve prédios históricos revitalizados para a realização do festival | Foto: Reprodução / Governo Federal

O preço da cultura

Na visão de Nasr Chaul, o maior benefício do festival é abstrato: “O Fica elevou a autoestima do goiano”. Por esse retorno, ele questiona se os custos realmente representam tanto para o tesouro. A realização não tem valor fixo, mas no ano de 2018 custou R$ 3,2 milhões, que deveriam ser repassados à Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) que cuidava do festival, o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Sócio-Ambiental (Idesa). Nasr Chaul afirma que uma versão mais simbólica e menos dispendiosa poderia ser feita. 

O ex-secretário de cultura PX Silveira também acredita que a justificativa oficial – crise generalizada – é frágil e sugere, junto com Nasr Chaul e Benedito Ferreira, que uma versão mais modesta do festival poderia ser executada para evitar o furo no calendário cultural do Estado. “Não existe isso de ‘o Fica custa R$ 3,2 milhões’. Chega-se ao orçamento de acordo com o que se pretende fazer. Por mais que a crise esteja difícil, a cultura tem de ter seu quinhão. O Fica não é símbolo de governo, é patrimônio da cultura. Eu, quando secretário, se não conseguisse fazer o Fica, não teria mais moral alguma”.

Ex-secretário PX Silveira diz que cortar cultura em momentos de crise é falta de visão | Foto: Fernando Costa / Jornal Opção

PX Silveira afirma que é possível economizar na realização e é enfático em suas críticas à relação do Estado com a Oscip Idesa. “As contas sempre foram muito obscuras e é um absurdo que tenha sido realizado apenas por uma entidade, por um grupo de pessoas, que nunca foi acompanhado adequadamente. Vamos aceitar a explicação da crise, mas isso não justifica o secretário ter medo de brigar pela cultura. Edival Lourenço reconhece que o governo está quebrado e fica acanhado de negociar, de tentar”.

Uma evidência de que o evento poderia ser realizado de forma módica é o fato de que hotéis, restaurantes e produtores audiovisuais se organizam para produzir o Festival Internacional Independente de Cinema Ambiental (Fiica), sem qualquer apoio governamental. Entre os apoiadores da versão independente, curiosamente se encontra um opositor do Fica, o jornalista Nilson Gomes. Em seu ponto de vista, gastos públicos com o evento eram mal-direcionados. 

Sem legado 

“O festival não fará falta”, diz Nilson Gomes, que critica o desvirtuamento do evento, que teve em seus palcos artistas como Ana Carolina, Nando Reis, Nação Zumbi, Gal Costa e outros. Para o jornalista, foram as atrações musicais e a festa as responsáveis por atrair multidões de 40 mil pessoas em 2017 e 2018. “Quem tem vocação e interesse para produção audiovisual não precisa daquela farra”, afirma Nilson Gomes.  

Nilson Gomes questiona eficácia do festival | Foto: Divulgação

O jornalista questiona também as conquistas ambientais do festival. “É uma coisa meio ingênua, achar que aquilo forma consciência ambiental, sendo que ao lado do Cineteatro São Joaquim existe o Rio Vermelho, que já passou por seca total, por inundação e derramamento de sangue. Em frente existe a Serra Dourada, que é uma Área de Preservação Ambiental que vem sendo depredada há anos”. 

O ex-secretário de cultura PX Silveira, entretanto, discorda desse ponto de vista: “Cortar a cultura primeiro em momentos de crise é falta de visão”, diz ele. “A cultura é onde mora a esperança. Ela é a luz que precisa ficar acesa, ela tem esse papel de não deixar as pessoas se abaterem. A motivação, a auto estima, a vontade de fazer algo para sair da crise, a cultura alimenta tudo isso”. 

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