Federações de partidos de centro tendem a interferir no cenário político goiano

Com duração de quatro anos, aliança verticalizada pode ter impactos distintos em Goiás do que se tem nacionalmente – ou em outros estados

O fim das coligações partidárias em eleições proporcionais trouxe as federações como uma segunda possibilidade para que partidos pudessem se unir “como um só” para disputar o pleito e ‘refinar suas estratégias’ para os próximos quatro anos. Mesmo com a condição de se manter em aliança pelos próximos quatro anos e de as federações apresentarem algumas inseguranças jurídicas e políticas determinantes – e já apresentadas pelo Jornal Opção –, diversos partidos dialogam quanto a possibilidade de se unirem, tais como: União Brasil, MDB, PSDB, Cidadania, PT, PV, PSB, PCdoB, PL, Republicanos, Pros e PTB.

Para entrarem em vigor nas eleições deste ano, as federações precisam ser registradas até dia 31 de maio, de acordo com os dispositivos da Lei 14.208/2021, aprovada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O prazo inicial estabelecido em medida cautelar estabelecia a necessidade do registro até dia 31 de março. É preciso lembrar, no entanto, que além do prazo mínimo obrigatório de quatro anos a ser cumprido pelos partidos que decidirem registrar a união no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tais federações ocorrem de forma verticalizada.

Assim, o que é principalmente considerado, na formação da aliança, é a relação das siglas em nível nacional, não necessariamente em níveis estadual e municipal. Desse modo, não considerando o contexto regional dos próprios partidos, que podem não ter uma relação semelhante ao contexto nacional, a formação das federações pode causar uma reviravolta no cenário político dos estados e municípios. No estado de Goiás, não seria diferente. A pergunta que não quer calar, no entanto, é de que modo tais alianças podem impactar no cenário político local. Pode trazer novos candidatos? Trazer novos partidos ao palanque? Para especialistas consultados pelo Jornal Opção, talvez.

“[Na análise das possibilidades de federações], a receita é bem simples temos que olhar para as bancadas que existem, para as condições partidárias que as legendas têm nesse momento e pensar, se somados a outros possíveis integrantes em uma federação, faria alguma diferença no cenário”, explica o cientista político Guilherme Carvalho. Tanto na direita, quanto na esquerda, cada caso é um caso. Isso, porque atualmente, das federações debatidas, se fala sobre a possibilidade da união entre o PSDB e o Cidadania, do PT com o PV, PCdoB e PSB, do União Brasil com o PSDB e até do PSDB com um dos dois últimos – ou até com ambos.

Na esquerda, a união do PT os outros três partidos possui o maior destaque, mas antes mesmo da formação oficial da federação já há possibilidade de crise e possíveis entraves a serem enfrentados. Nesse imbróglio, é possível ver o PSB e até mesmo o PCdoB “com um pé atrás” de ser subjugado pelas decisões do grande partido que se consolidou o PT. No “centro”, o diretório nacional do Cidadania aprovou, na última semana, a possibilidade de uma federação com o PSDB, que em cenário nacional se encontra relativamente bem encaminhada. Outra federação cogitada, por grande similaridade ideológica, é a do União Brasil (antigos DEM e PSL) com o MDB. Na direita, apesar de conversas entre PL, Republicanos, Pros e PTB para formar uma federação, algumas lideranças estão mais convencidas de que essa união traria mais ônus do que bônus.

PT, PV, PSB, PCdoB

Articulada nacionalmente, a federação entre os quatro partidos de esquerda também vem sendo conversada no âmbito estadual pelos quatro presidentes das siglas: Kátia Maria (PT), o deputado federal Elias Vaz (PSB), Cristiano Cunha (PV) e Isaura Lemos (PCdoB). A presidente estadual petista, inclusive, relevou que recentemente se reuniu com os três outros líderes para que pudessem colocar as “cartas na mesa” quanto a formação da federação entre os partidos. A expectativa de Katia, inclusive, é pela formação da união, uma vez que, para ela, do ponto de vista da execução política, a aliança deve fortalecer os blocos políticos entre si, dada a grande afinidade ideológica que vem sendo considerada nesse processo.

Nessa ação, a expectativa é fazer com que a federação eleja quatro deputados federais e seis deputados estaduais. “Estamos fazendo uma discussão política em cada estado, mas também está sendo elaborado uma carta de programa da federação e o estatuto da forma de funcionamento. Em Goiás, os quatro partidos têm um bom relacionamento e queremos trabalhar para fortalecer, para que o PT possa cumprir seu objetivo somando os votos com os outros partidos”, pontua. Apesar da possibilidade da aliança poder beneficiar os partidos de esquerda – e principalmente o PT com seus objetivos – no Legislativo, o cientista político Guilherme Carvalho não enxerga tanta influência ou interferência dessa federação, feita a nível nacional, no cenário político goiano no que se diz respeito ao Executivo.

Ludmilla Rosa, que também é cientista política, também divide de análise semelhante, ao não acreditar em grandes implicações da união em Goiás. “O PT entende que aqui em Goiás ele não tem votos o suficiente para eleger um governador, mas se constitui como uma grande força política da esquerda que tem o apoio desses outros partidos como satélites”, explica. Apesar de não ter um candidato a majoritária, Kátia ressalta o objetivo do partido de derrotar o governador Ronaldo Caiado (UB) nas urnas, de modo a explicitar a necessidade do partido – ou da federação – apoiar um outro candidato para que esse objetivo seja alcançado. Um dos nomes cogitados, inclusive, foi Gustavo Mendanha, que é prefeito de Aparecida de Goiânia. No entanto, essa possibilidade só será realmente cogitada caso ele se declare candidato e apoio ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) nas urnas.

Quem também avaliou a possível federação foi o presidente do PSD em Goiás, Wilmar Rocha, – que, inclusive, já deu certeza sobre o fato de que sua sigla não irá se federalizar a nenhum partido. Como a federação, por si só, tem o objetivo de transitar os pequenos partidos para se incorporarem aos grandes, Rocha considera que o PT deve ser o mais beneficiado dessa relação, “assumindo o comando da federação”. “É por isso que o PSB está reagindo a fazer a federação, porque como partido médio, ele perde completamente a identidade ao se federar com o PT, que é mais forte”, opinou.  

MDB e União Brasil (e PSDB)

Grandes partidos, o União Brasil e o MDB têm como sinalizada a possibilidade de federação, e por sua tamanha similaridade ideológica, muitos consideram como uma união de “potencial sucesso”. O cientista político Guilherme Carvalho, inclusive, acredita que tudo caminha para que essa federação se consolide, principalmente pelas pretensões dos dois maiores líderes de ambos os partidos: Daniel Vilela, que além de presidente estadual em Goiás, é vice-presidente nacional do partido, e Ronaldo Caiado, que já foi presidente do DEM por tempo considerável. “É uma união possível e que realmente teria relevância para a atuação parlamentar e para a formação de bancada para as eleições”, complementa.

Isso, porque por si só, com a fusão do PSL com o DEM, atualmente o União Brasil possui a maior bancada do Congresso Nacional. O analista político e presidente do PSD, Wilmar Rocha, por outro lado, não vê a menor possibilidade de uma federação entre os dois partidos, exatamente pela grande diferença na relação entre as legendas nos âmbitos nacional e estadual. Isso, não apenas falando do estado de Goiás, uma vez que em território goiano ambas as siglas são próximas – até porque, a previsão é de que um emedebista [Daniel Vilela] integre a chapa do União Brasil para vice-governador.

Quanto a possibilidade da união do PSDB com as duas outras siglas, apesar de já cogitada, especialistas não veem como isso realmente funcionaria. O próprio presidente do MDB em Goiás, Daniel Vilela, chegou a descartar essa possibilidade ao Jornal Opção: “isso já está superado”, afirmou. Até porque, no caso de uma união entre dois ou entre esses três partidos, é quase certo que seria necessária uma integração de Marconi Perillo na chapa do governador de Goiás, que busca reeleição, Ronaldo Caiado. A cientista política Ludmilla Rosa, por exemplo, não enxerga como isso poderia dar certo. “Do ponto de vista prático não conseguimos nem visualizar isso, uma vez que são adversários históricos. Além disso, nas pesquisas, o Marconi Perillo é o segundo colocado ao governo. É quem ainda tem um potencial de ascensão e quem lidera e capitaneia a oposição ao governador Ronaldo Caiado”, pontua.

PSDB e Cidadania

Após o diretório nacional do Cidadania aprovar a possibilidade de federação com o PSDB, essa união vem criando conjecturas e suposições sobre como deve se configurar o cenário político em Goiás nas eleições de 2022. Isso, porque apesar de o PSDB e o Cidadania terem uma boa relação quando se fala da perspectiva nacional, o mesmo não necessariamente ocorre nas esferas estaduais. Especialmente porque em Goiás, o cidadania é presidido pelo vice-governador, Lincoln Tejota, e o PSDB é liderado pelo adversário de Ronaldo Caiado, Marconi Perillo (PSDB). No dia da aprovação, inclusive, Tejota fez questão de dar seu posicionamento em meio a essa celeuma: o de permanecer ao lado de Ronaldo Caiado, com quem se elegeu em 2018 para o Executivo goiano.

“Fui eleito juntamente com o governador Ronaldo Caiado e acredito no trabalho que estamos fazendo nessa gestão. As minhas decisões futuras serão baseadas nessa convicção”, afirmou, no último sábado, 19. Nos bastidores, o que se diz é sobre a possibilidade de Tejota sair do Cidadania e ir rumo ao PSD. Diz-se, inclusive, que as negociações entre o líder e o partido estariam avançadas. No entanto, a assessoria do vice-governador nega qualquer possibilidade de Lincoln deixar o Cidadania, mesmo em meio a possibilidade de federação com o PSDB. Nesse cenário, para o cientista político Guilherme Carvalho, o que se vê, é a possibilidade dessa federação, ao ser feita em nível nacional, ser uma grande “lei que não pega” – ou seja, mesmo diante da federação, que é estabelecida verticalmente, os estados e municípios podem não seguir o determinado pelo diretório nacional.

“Ele [Lincoln Tejota] já sinalizou que vai desobedecer a orientação nacional do partido, então enxergo que há uma tendência de que se forme a aliança pensando em objetivos a nível nacional, mas que a nível local, corra um sério risco da “lei não pegar”. A lógica da disputa a nível nacional é outra, os interesses são outros. Não dá nem para comparar”, pontua Guilherme. Por outro lado, quem vê com bons olhos a federação do PSDB com o cidadania é a presidente do PSDB goianiense, a vereadora Aava Santiago. Isso, porque ela avalia essa união como uma “tentativa de corrigir o esvaziamento de pautas e agendas”. “Isso é muito bom para o Brasil”, opina a tucana.

“O PSDB foi fundamental para a criação de todas as políticas sociais que a gente conhece. Foi o partido que mais fez reformas agrárias, muito mais que nos governos de Lula e Dilma, ele foi o primeiro partido que pensou em políticas afirmativas e foi o responsável pela criação da primeira secretaria de mulheres da América Latina. Faço gosto nas conversas com o Cidadania e, aqui em Goiânia, eu enquanto presidente, tenho total disponibilidade”, complementa Aava.

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