Fechamento de lojas na Rua 90 assombra comerciantes da Avenida Goiás

Lojistas instalados no trecho que foi interditado pela prefeitura temem que a obra cause o mesmo efeito colateral ocorrido no Setor Sul

Trincheira da Rua 90 dificulta o trânsito de carros no local | Foto: Rafael Oliveira/Jornal Opção

Três meses ininterruptos de baixa no faturamento de comerciantes da Rua 90, no Setor Sul, levaram nove empresários a deixarem suas atividades comerciais no local. Esse número foi contado na semana passada por Virgínia Fátima, 62 anos, proprietária de um salão de beleza localizado no coração da Rua 90, no centro entre o Terminal Isidória e a Praça do Cruzeiro. As causas são as mesmas dos relatos de comerciantes ainda ativos: confusão no trânsito, que leva a escassez de vagas de estacionamento, falta de energia elétrica constante (relatos de, pelo menos, duas vezes por semana) e a dificuldade de transporte coletivo.

“Já vi nove comerciantes, amigos meus, fecharem as portas nesses três meses de obras. O último foi um verdurão de um casal de senhores que estavam aqui há 35 anos”, lamenta Virgínia. O salão especializado em apliques de cabelo deixou de atender a média de seis clientes por dia. A média agora é uma cliente. O faturamento foi reduzido em 50%, em média, desde que a obra de instalação de um corredor do BRT começou, em março. 

Uma placa de promoção na entrada do salão tenta atrair clientes; o valor do aplique caiu para R$ 450. As seis clientes atendidas diariamente por Virgínia pagavam ao salão, em média, R$ 3 mil. Há três meses com mudanças no trânsito da rua, a dona do salão fatura entre R$ 450 a R$ 900 por dia. 

Parte das clientes usa transporte público para chegar ao salão; a outra parte chama um motorista particular de aplicativo. Enquanto Virgínia concedia entrevista, uma cliente, Naiara Ramos, contou que os ônibus não param mais em vários pontos da rua 90 porque os mesmos foram desmanchados. “Eu parava aqui perto do salão. Hoje tive que descer no Terminal Isidória, que fica longe daqui e vir andando”, relata Naiara; a única cliente atendida na quinta-feira, 11.

O percurso que Naiara faz até chegar ao salão de Virgínia, uma caminhada do Terminal Isidória à loja, vai se tornar mais complicado quando o terminal fechar para reforma. A manutenção periódica do cabelo implicará na busca de outro meio de locomoção.

O salão de beleza na rua 90 perdeu 50% do faturamento mensal | Foto: Rafael Oliveira/Jornal Opção

Provavelmente Naiara vai adotar o transporte privado por aplicativo, mesmo sabendo que as demais clientes deixaram de ir ao salão por dificuldades de encontrar motoristas dispostos a dirigirem ao local.

Na segunda-feira, 8, uma cliente precisou chamar por cinco vezes um motorista de aplicativo. Todos dispensaram o serviço quando apareceu o roteiro da corrida no celular.

“Eles não querem vir aqui. O trânsito está muito bagunçado. Eles dizem que perdem tempo e dinheiro demais nesse trajeto”, narra Virgínia.

Além do transporte, a comerciante reclama da falta constante de energia elétrica na rua, que chega a duas vezes por semana. O salão ficou fechado na sexta-feira, 12, por falta de energia. A dona ligou para três clientes tentando remarcar o aplique. Duas desistiram. “Disseram que depois ligam”, disse.

A falta de energia elétrica e clientes também levou Virgínia a fechar o salão cada semana mais cedo: às 17h. Em condições normais de trânsito na rua, o salão fecha por volta de 20h. “Não sou de reclamar. Espero mesmo que a obra termine no prazo que eles falaram e traga benefícios para a cidade”, afirma Virgínia.

Barbearia quase fechou

Em uma barbearia a poucos metros do salão de Virgínia Fátima trabalha Caíque Lourenço, de 20 anos. O faturamento da barbearia caiu 70%, segundo o barbeiro, em dois meses. A loja quase fechou. O movimento melhorou um pouco há duas semanas.

A barbearia de Caíque Lourenço sofre com a constante falta de energia elétrica | Foto: Rafael Oliveira/Jornal Opção

O faturamento bruto do barbeiro chegou a R$ 2 mil quinzenais. No mês passado, a conta fechou em R$ 700 para o mesmo período. Caíque alega que os clientes não querem enfrentar o tráfego intenso do local e mudam de barbearia. A falta de energia elétrica também atrapalha o atendimento dos barbeiros que continuaram a trabalhar no estabelecimento. Agora ficaram dois de quatro profissionais.

Na semana passada, a empresa fornecedora de energia entregou um aviso de corte no serviço. A barbearia desmarcou 20 clientes. No dia, Caíque voltou ao local e a energia não havia sido cortada.

A barbearia reclama que os funcionários da obra usam o estacionamento privado do local. “Pararam um caminhão na minha porta ocupando três vagas. Fui conversar com o pessoal da obra e dizer que meu estacionamento é rotativo por causa dos clientes. O motorista apelou e quase me agrediu”, relata Caíque.

Outra observação na lista da barbearia é a falta de retornos para os veículos e faz com que os clientes precisem dirigir por toda a rua para fazer uma volta. Por fim, os clientes acabam desistindo.

Autoescola perdeu 90% do movimento

Jéssica Reis conta que perdeu 90% do movimento em sua autoescola | Foto: Rafael Oliveira/Jornal Opção

A atendente da autoescola DF Veículos, Jéssica Santos dos Reis, 23 anos, perdeu 90% do movimento de pessoas interessadas em fazer orçamento na loja, momento em que se fechava muitos negócios.

“Quase ninguém passa pela Rua 90 agora. Eu perdi quase todas as chances que tinha de fechar um negócio com uma pessoa que vinha fazer orçamento comigo”, desabafa Jéssica.

O estabelecimento recebia a média de cinco visitas por dia. Nestes 14 dias de julho, apenas duas pessoas encontraram a autoescola em meio a poeira que paira no ar.

Oficina mecânica sobrevive às obras

A oficina do mecânico Vinícius Ornelas sobrevive devido à fidelidade dos clientes | Foto: Rafael Oliveira/Jornal Opção

O mecânico Vinícius dos Santos Ornelas, de 21 anos, acredita que seu ramo de atuação foi pouco prejudicado até o momento devido à fidelidade dos clientes que o procuram por mais de dez anos no mesmo local.

A oficina fica prejudicada quando a obra fecha a rua sem avisar, normalmente durante o dia. “A falta de energia toda semana nos prejudica também porque o maquinário usado precisa de eletricidade para funcionar.

Do lado de fora da oficina, Vinícius chama a atenção para os cortes feitos na calçada, que diminuem a cada semana. “Se continuar assim, mal vai sobrar calçada para os pedestres”, lamenta.

Segundo Vinícius, a Prefeitura de Goiânia poderia estudar formas de reverter o impacto negativo da obra aos comerciantes. Ele sugere que a prefeitura dê desconto em algum imposto para recompensar as perdas financeiras.

Comércio na iminência de fechar na Avenida Goiás

O dono de uma loja de tecidos, Alfredo Quintino, lamenta a interdição total da Avenida Goiás | Foto: Rafael Oliveira/Jornal Opção

Uma loja de tecidos no início da Avenida Goiás, próxima a Praça do Trabalhador, fecha o caixa todo mês com queda de 60% nas vendas.

O proprietário da loja, Alfredo Bruno Quintino, de 26 anos, atende apenas os clientes fidelizados por meio de entregas, já que ninguém consegue chegar a sua loja.

“As minhas vendas mais lucrativas são exatamente as negociadas com clientes ocasionais, que param aqui e compram tecidos e espumas”, explica Alfredo ao lamentar a perda destas vendas. Às 15 horas da sexta-feira, 12, apenas Alfredo e a esposa estavam na loja, os demais funcionários foram dispensados temporariamente.

Entre placas de “aluga-se” emendadas de uma loja para outra, a Associação dos Artesãos do Estado de Goiás (Asaego) tenta sobreviver aos três meses de obras. Um dos funcionários da associação, Nivaldo Lício, de 47 anos, agradece pelo ramo de atuação não depender exclusivamente de clientes que frequentam a avenida.

Nivaldo Lício, da Associação dos Artesãos de Goiás, assistiu diversos lojistas deixarem o comércio em três meses | Foto: Rafael Oliveira/Jornal Opção

“A associação representa os artesãos filiados à ela, por isso colocamos suas obras para serem vendidas nesta loja. Mas como a associação recebe contribuição dos filiados, conseguimos sobreviver por mais tempo”, esclarece Nivaldo.

O artesão assistiu várias lojas baixarem as portas nestes três meses, inclusive, lastimou por um colega obrigado a deixar seu comércio por queda nas vendas.

“Os negócios já não iam bem há alguns anos. A crise ainda afeta a vida dos empresários. A obra apenas contribuiu para o fechamento de lojas aqui na avenida”, assegura Nivaldo.

A reportagem visitou a Praça do Trabalhador na sexta-feira, 12, por volta das 16 horas. Pouquíssimas pessoas caminhavam pela Avenida Goiás e as barracas armadas da tradicional Feira Hippie ainda não operava.

Um comerciante, que preferiu não se identificar, vendia uma garrafa de água para uma mulher e se limitou a dizer: “A nossa vida está desse jeito aí que você está vendo”.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.