Fechados contra Dilma, senadores goianos já falam sobre futuro governo Temer

Senado decidirá afastamento da presidente até meados de maio. O trio da bancada goiana — Lúcia Vânia, Ronaldo Caiado e Wilder Morais — vai votar pelo afastamento

Yago Sales

Neste momento, a discordância política entre os três senadores não importa para o término do atrofiado governo petista. Lúcia Vânia (PSB), Ronaldo Caiado (DEM) e Wilder Morais (PP) não escondem que vão votar para destituir a presidente Dilma Rousseff (PT) do poder. Como já era o esperado, os representantes de Goiás no Senado são unânimes em relação à cassação do mandato. São três votos que podem fazer uma grande diferença.

Não são recentes os discursos pró-impeachment de Caiado, ao contrário de Wilder Morais, que caminhava com o partido, combalido, mas que saiu do barco petista — menos de uma semana antes de vê-lo sendo nocauteado no domingo, 17. A senadora Lúcia Vânia reconhece a saída de Dilma como oportunidade de o País sair da zona de “rebaixamento” econômico e sobreviver. Seu partido deixou a coalizão com Dilma e seu PT ainda em 2013, quando Eduardo Campos lançou sua pré-candidatura à Presidência.

O calhamaço com 34 volumes e 12.044 páginas foi protocolado na segunda-feira, 18, pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduar­do Cunha (PMDB-RJ), junto ao pre­sidente do Senado, Renan Ca­lhei­ros (PMDB-AL), menos de 24 horas depois de o pedido de ter sido aprovado na Câmara no do­mingo, numa mensagem que visava “obrigar” o segundo a imprimir a mesma celeridade que ocorreu no trâmite do processo de abertura.

Diferentemente da Câmara, no Senado a vitória dos defensores da saída de Dilma do poder dependerá apenas de maioria simples para passar. A única exigência é de que metade mais um dos senadores esteja presente, um quórum de 41 em plenário. Caberá ao Senado, que tem a obrigação de seguir o rito do impeachment, apreciar a relevância da acusação do crime de responsabilidade.

A previsão é de que o Senado trate o assunto com mais serenidade do que o visto na Câmara — sem perder de vista, evidente, o apelo dos que são favoráveis ou não à cassação de Dilma. Conforme prevê o Artigo 52 da Constituição Federal, cabe ao Senado processar e julgar o Presidente da República nos crimes de responsabilidade.

Durante a semana que sucedeu a votação, levantamentos feitos pelos jornais “Folha de. S. Paulo”, “O Estado de S. Paulo” e “O Globo”, além da revista “Veja”, revelavam a iminência da derrota da presidente Dilma no Senado, como ocorreu na Câ­mara dos Deputados. Segun­do os dados, dos 81 senadores, pelo menos 45 pretendem votar contra o governo, isto é, pelo afastamento de Dilma.

Acuada pela oposição e traída por aliados, Dilma é acusada de ter cometido crime de responsabilidade fiscal. Ela assinou seis decretos sem ter caixa e, ainda, atrasou repasse a banco público. O motivo pouco ecoou na Câmara e deve ser analisado e discutido com mais afinco no Senado Federal.

Lúcia Vânia: “Dilma não ouviu ou não interpretou os protestos de 2013” | Foto: Moreira Mariz/Agência Senado

Lúcia Vânia: “Dilma não ouviu ou não interpretou os protestos de 2013” | Foto: Moreira Mariz/Agência Senado

A senadora Lúcia Vânia (PSB) considera importante o país tratar de forma presente e contundente a Lei de Responsabilidade Fiscal. “Em geral, os penalizados eram somente alguns prefeitos, em função da irresponsabilidade fiscal. Nesse nível, é uma coisa inteiramente nova vermos a punição por causa das contas públicas desorganizadas que geram um descompasso na prestação de serviço.” Para ela, “Dilma não ouviu ou não interpretou as manifestações de junho de 2013 e as outras que se sucederam no País. A priori, “a sociedade brigava pelos serviços não prestados pelo governo, impostos altos e resultados.”

À medida que foi camuflada a situação financeira do Brasil, por meio das pedaladas fiscais, a presidente, relembra a senadora, continuou ampliando os programas sociais, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), o Minha Casa, Minha Vida e o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), mas sem um controle. “Sem priorizar as pessoas que realmente precisavam dessas ações, o governo ampliou tudo indefinidamente, como se o orçamento público fosse infinito”. Por fim, a senadora interpreta que as consequências atingiram a estrutura econômica do País.

A respeito de o vice-presidente Michel Temer (PMDB) subir as escadarias do Planalto como presidente da República, a senadora reitera sua atuação no Senado, como alguém que deve sempre articular e dialogar. “Não posso fechar as portas para a interlocução com o governo.” E completa, comentando a possibilidade de o impeachment ser estendido a Temer: “Nós temos de acompanhar a Constituição. Se ele conseguir essa união nacional, essa unidade, ele fica”. Na Câmara, o PSB de Lúcia Vânia concedeu 29 votos a favor do processo de impeachment e apenas 3 contra. No Senado, a sigla conta com sete senadores.

Crime de responsabilidade

Wilder Morais: "As consequências do crime de Dilma são gravíssimas" | Foto: Pedro França/Agência Senado

Wilder Morais: “As consequências do crime de Dilma são gravíssimas” | Foto: Pedro França/ Agência Senado

Escolhido pelo bloco Demo­cracia Progressista, que representa o PP e o PSD, o senador goiano Wilder Morais (PP), vai compor a Comissão Especial que analisará o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no Senado. Wilder será suplente, juntamente com os senadores Ivo Cassol (PP-RO) e Sérgio Petecão (PP-AC). Os titulares serão Ana Amélia (PP-RS), Gladson Cameli (PP-AC) e José Medeiros (PSD-MT). A escolha foi feita durante reunião do Bloco na tarde da terça-feira, 19.

Ao Jornal Opção, o senador Wilder Morais disse não tem dúvidas de que a maioria do Senado votará de forma favorável à cassação da presidente. Ele considera que, a partir de estudos feitos por especialistas, houve, sim, crime de responsabilidade por parte da presidente. “E as consequências estão sendo gravíssimas e bilionárias”, disse. Ele considera tão ou mais grave que as pedaladas os escândalos como o do petrolão. “O brasileiro faz a seguinte conta: se ele levaria um século para ganhar 1 milhão de reais, precisaria de Goiânia inteira trabalhando durante cem anos para cobrir um dos menores rombos do petrolão, na faixa de R$ 10 bilhões.”

Para ele, o rombo é inimaginável ao brasileiro. “Isso beira o surreal. O povo nem consegue imaginar o que são bilhões em rombo, mas sabe que o custo são 11 milhões de desempregados, empresas fechando, prefeituras quebradas, Estados falidos e famílias penduradas nos carnês.” A respeito de um possível governo de Michel Temer, o senador é categórico: “Vamos nos unir num projeto para reerguer o País. Vamos apoiar a retomada do desenvolvimento do Brasil”.

Segundo o senador, a diferença entre Dilma e Temer é que deram corda para ela e ela a colocou no pescoço do povo. “Se dermos corda para Temer, ele vai atá-la a um balde e tirar o Brasil do fundo do poço”, considera Wilder. Ele desconsidera qualquer motivo para que o processo do impeachment deva se estender, posteriormente, a Temer. “Não há o mais remoto motivo para isso. Os crimes foram cometidos diretamente por Dilma”. Contrário a novas eleições, o senador afirma que isso “quebraria a sequência prevista legalmente para o caso”.

Na Câmara, o PP — a maior legenda da base aliada do PT depois que o PMDB saiu da base — deu 38 votos para a abertura do processo contra Dilma. Qua­tro deputados votaram contra e três se abstiveram. A atitude do PP contrariou a expectativa do Planalto, que queria pelo menos mais dez votos da legenda.

Titular

Ronaldo Caiado será titular na Comissão Especial de Impeachment | Foto:  Pedro França/ Agência Senado

Ronaldo Caiado será titular na Comissão Especial de Impeachment | Foto: Pedro França/ Agência Senado

O goiano Ronaldo Caiado (DEM) — partido que deu todos os seus 29 votos na Câmara para a causa do impeachment — foi indicado à Comissão Especial do Impe­­achment na terça-feira, 19, como titular da Comis­são Especial do Impe­achment que julgará o processo contra a presidente Dilma no Se­nado.

Ao lado dele, Cássio Cunha Lima, Antônio Anastasia e Aloysio Nunes, todos do PSDB formam o bloco da oposição. O bloco Moderador, que tem como líder o ex-presidente Fernando Collor de Melo (PTC), indicou Wellin­gton Fagun­des (PR) e Zezé Perrella (PTB-MG) como titulares.

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