Família “estruturada” não é uma questão de tipo, mas de autoridade

É possível que uma criança viva sem pai ou sem mãe. Ou criada pela avó. O que não pode acontecer é que ela cresça sem uma referência a quem se dirigir

Psicanalista e escritora Maria Rita Kehl: “Uma família é desestruturada quando o lugar dos pais está vazio”

Psicanalista e escritora Maria Rita Kehl: “Uma família é desestruturada quando o lugar dos pais está vazio”

Elder Dias

Este é um caso verídico, embora com nomes fictícios. Roberto e Lourdes se casaram no começo dos anos 70 e tiveram três crianças — duas meninas e um garoto. Uma família, portanto, bem típica, pelo menos até no século passado, quando sonhar em ter três filhos não era nenhum exagero. Além de típica, era uma família tida como tradicional: contraíram — esse verbo parece ser sempre estranho para se aplicar a seu objeto, mas faz algum sentido no presente caso — o matrimônio de terno, véu e grinalda, papel passado e cerimônia na igreja matriz.

Ocorre que Roberto tinha um problema sério: bebia demais. Foi sob a penumbra de copos e garrafas que ele viveu todo seu casamento, com o nascimento e o crescimento de Maria, Marta e José e — depois de uma agonia que durou praticamente desde o “sim” no altar —, por fim, a iminente separação. Nessa época, apenas o caçula tinha menos de 20 anos. Durante o período todo, mais de duas décadas, Lourdes vivenciou experiências terríveis, como a de ser insultada, humilhada, espancada e tomada como um pedaço de carne para satisfação sexual. As crianças presenciaram várias dessas cenas. Depois de estar separado, Roberto seguiu a quem foi fiel até a morte: o alcoolismo. Seu lar antigo deu como frutos uma mãe solitária e frustrada com a vida e filhos inseguros e revoltados em relacionamentos instáveis e mesmo repetidores do que viveram originalmente.

Outro caso é o da garota canadense Dawn Stefanowicz, que cresceu com o pai, separado. Gay, ele recebia seus namorados em casa, desde quando ainda morava com a mãe de Dawn — então, o casal já não se relacionava. Já adulta, com mais de 30 anos, ela declarou que o fato de o pai não gostar de mulheres tinha mudado a vida dela e que os relacionamentos dele com outros homens — além da vida profissional — acabaram por distanciá-lo.

O trauma pela forma com que tinha sido criada foi enorme. Tanto que ela elegeu como causa para a vida toda combater, em verdadeira cruzada — escreve livros e artigos para contar sua história —, o “casamento gay”. Sustenta ela que o crescimento em uma família biológica tradicional (pai, mãe e filhos) traz às crianças “dons únicos e complementares”. E Dawn cita, como um de seus exemplos, o de que a maior parte dos presidiários não teria tido a companhia de seus pais em casa.

Nos parágrafos acima estão relatados dois dramas, ambos tão verídicos quanto diferentes na origem e semelhantes no resultado. O primeiro chega a tornar irônicos alguns argumentos do segundo. O fato é que as histórias parecem ter menos a ver com a sexualidade dos pais ou o tipo de união que eles tenham (ou não tenham) do que com a qualidade do envolvimento. Tanto a garota canadense como os três filhos do pai alcoólatra e agressivo tiveram consequências nefastas em suas vidas por conta do que não receberam de quem os deveria acolher e educar. Tanto os maus-tratos quanto a indiferença geram distúrbios, não importa o tipo de família em que se encontrem. Essa é a questão.

Psicanalista Cristiano Pimenta: “A família tradicional é apenas uma entre várias formas de família” | Fernando Leite/Jornal Opção

Psicanalista Cristiano Pimenta: “A família tradicional é apenas uma entre várias formas de família” | Fernando Leite/Jornal Opção

Os tempos atuais mostram o fim dessa família que se convencionou designar como “tradicional”, e que muitos entendem como um modelo hegemônico que sempre existiu dessa forma – embora vários autores apontem para seu aparecimento em passado relativamente recente no curso da história, no início do século 19. Em outras palavras, a estrutura que conhecemos como “típica” não seria tão típica assim.

Tão menos típica que, já a partir da segunda metade do século passado, entrou em crise. No Brasil isso veio um pouco mais tarde e poderia ter como marco a aprovação da lei do divórcio, em 1977. O País começou o século em uma situação de família bastante nucleada – característica advinda principalmente do mundo rural de então, com avós como patriarcas de uma instituição que tinha quase sempre mais de meia dúzia de filhos e dezenas de netos, além de outros parentes — e iria terminá-lo com um conceito bastante pulverizado.

Quem tem hoje menos de 40 anos cresceu por aqui já observando vários modelos de família: entre outros, a mãe criando sozinha seus filhos; crianças vivendo com a avó ou com os tios; ou um pai que se casava de novo, tinha mais filhos com alguém que trazia filhos de outra relação e se tornava também madrasta, entre outros. Mais recentemente, há um novo formato: meninas e meninos sendo adotados por casais gays. Tudo isso carrega o que muitos chamam de “nova família”, mas que também tem ganhado novos conceitos.

Um deles é o de “família tentacular”, termo usado pela psicanalista Maria Rita Kehl para metaforizar essa situação de um núcleo que acaba se abrindo em muitas direções, algumas até imprevistas ou imprevisíveis. Em uma palestra (disponível no YouTube com o título “A família tentacular”), ela traçou um possível cenário de um lar contemporâneo: “Para fazer um desenho arbitrário em relação a muitos outros possíveis, não é incomum que uma família hoje comporte a mãe, os filhos e o segundo marido dela — o que significa que o pai desses filhos esteja em outra residência, que será frequentada por eles. Então, eis que esse pai resolve se casar de novo. Digamos que seja, então, com uma mulher separada que também tenha filhos; dessa nova relação, os filhos do primeiro casal terão meios-irmãos; o padrasto daqueles tem uma ex-mulher com quem possui bom relacionamento e também frequenta a casa, quase como uma “tia” das crianças; por fim, uma filha engravida de um namorado e, sem dinheiro, o traz para viver e criar o bebê.” Muito complexo? Sim, e também totalmente plausível na cena urbana da sociedade atual.

Esse modelo de família só existe, segundo ela, porque as pessoas se deram um direito que era reprimido até então: o de buscar ser felizes em uma relação tanto ou mais do que priorizar a educação dos filhos e a manutenção do núcleo convencional. O que leva a um problema: quem então vai criar esses filhos de forma que tenham a atenção que mereçam? De uma forma totalmente diversa, chega-se à mesma questão que afligia meninos de um século atrás: a falta de atenção ou de cuidado de seus pais – gerando transtornos, obviamente agora de uma espécie diferente.

É possível que uma criança viva sem pai ou sem mãe. Ou criada pela avó. Ou seja educado por dois homens ou duas mulheres. O que não pode é deixar de existir alguém para servir de referência a ela, seja como apoio, seja como ponto de interdição. Não importa se em uma família como as de propaganda de margarina ou em meio a uma confusão de ramificações de neoparentescos e afins: para crescer bem, filhos e filhas precisam de alguém que lhes sirva como a figura de referência. Que lhes dê aconchego e limites. Segurança e frustrações na medida adequada — o que nunca fez mal a ninguém.

Mas é uma lei da física: para todo movimento aparente (ação) há outro, em direção oposta. A medição de forças se dá também na vida social. Durante os últimos tempos, juntamente com o surgimento de um discurso contra o PT como partido hegemônico, levantaram-se vozes reagindo contra tudo o que ele parecia representar. Às forças progressistas se opuseram, então, forças conservadoras – também no que diz respeito à família.

Em um País onde a violência está em alta e a criminalidade toma para si uma faixa etária que abocanha inclusive parte da fase infantil de muitos seres, a bola da vez tem sido culpar a “desestruturação” da família pelos males em profusão. E aqui se chega a uma conclusão que não está errada em nenhum dos lados da disputa, nem dos progressistas nem dos conservadores: ambos dizem que falta “pai” no mundo de hoje.

Dawn Stefanowicz, que relatou drama por ter sido criada por pai gay: seria a sexualidade o problema? | Divulgação

Dawn Stefanowicz, que relatou drama por ter sido criada por pai gay: seria a sexualidade o problema? | Divulgação

Apenas o conceito de pai é que muda de uma turma para outra. Para a segunda, a definição é biológica: as separações geralmente levam para longe o “provedor da casa”, aquele que bateria a mão na mesa (e até o cinto, nos mais levados) para restaurar a ordem. “Tá vendo, só podia ser uma criança sem pai” — e então nisso se fundamentam teses, como a alentada pela canadense Dawn Stefanowicz sobre a sina genealógica dos encarcerados.

Para quem entende que o momento é de estabelecimento da “nova família”, esse “pai” é outro: é a figura que imponha a lei, a autoridade de que necessita o filho. Aqui não importa se ela seja biológica ou não, se se apresente com a madrasta ou mesmo que seja a própria: o que há de fundamental é o estabelecimento do limite de ações para a criança ou o adolescente.

Apesar das conquistas sociais dos últimas décadas, uma pesquisa do Ibope revelou que 55% dos brasileiros são contra a união estável e a adoção de crianças por casais homossexuais. Ou seja, reprova-se esse tipo de nova família. Mas o que há de racional nisso? Afinal, um casal gay criando filhos pode ser visto como uma ameaça à “ordem”? Em outras palavras, por que se acredita que um menino criado por dois homens ou duas mulheres poderia ser suscetível a qualquer coisa, traumatizado ou sofrer psicologicamente mais do que um filho de uma família tradicional? O psicanalista Cristiano Pimenta diz que não existe “natural” na satisfação da pulsão humana, que é “desnaturada por excelência”. “Os traços de perversão estão presentes em todos os seres humanos. Pode ser realizado ou contido, mas jamais inexistir.” Ou seja, membros de uma família tradicional podem ser tão autores ou vítimas de abusos quanto os que estão em um núcleo alternativo. Pesquisas nos Estados Unidos apontaram que não há diferença de números entre abusos sofridos em famílias formadas por casais heterossexuais ou homossexuais.

Para Pimenta, as batalhas pelo estabelecimento do que é o “normal” em uma família mostram o lado político daquilo que está em jogo — as formas de satisfazer a pulsão. “É uma disputa política, para que essa pulsão seja satisfeita a partir da particularidade de cada um. No gozo do reacionário, a recomendação é de que tudo aconteça na família que ele prega. Mas mesmo nesse ambiente, o gozo não acaba restrito, porque muitos ‘homens de bem’ têm esposa, mas mantêm a amante. É bom lembrar que há pastores presos até por estupro. Ou seja, por trás do discurso restritivo de Bolsonaro ou da bancada da bíblia, não tem como dar conta do gozo. Veja o caso de homossexuais e travestis ‘restabelecidos’, que voltam à prática do gozo anterior de forma pior, se condenando duramente por agora estarem ‘em pecado’.”

Para estabelecer o lugar ideal de família, seja ela “normal”, tradicional, “nova” ou tentacular, é preciso tentar vê-la com o olhar dos filhos. É para a geração que vai se desenvolver que vale pensar sobre a função da família. Então, mais uma vez o discurso de Maria Rita Kehl faz sentido: “O sujeito, na posição de filho, sente uma família como desestruturada quando o lugar dos pais está vazio. Estes, por lugar geracional, deveriam se responsabilizar pelo que acontece aos da linha geracional abaixo, mas não estão interessados nisso — seja cuidando da própria vida, ou não estando preocupados, ou por não ter condições, ou por serem infantis, ou porque o pai é alcoólatra. Isso é uma família desestruturada. Mas, se há um adulto com a autoridade necessária, esse triângulo se segura.”

E, como que para complementá-la, ressalta Cristiano Pimenta: “Jacques Lacan [psicanalista francês] diz que, de fato, não há relação sexual. Ele quer dizer que a sexualidade não se resolve no encontro do macho com a fêmea, de tal modo a fazer uma unidade que resolveria a questão da satisfação. A relação sexual seria a solução dos problemas, mas não há uma fórmula única para o homem para satisfação, ao contrário do que há na natureza. É por isso que a sexualidade humana faz furo no mundo instável. O que os conservadores defendem é um dos modos (de sexualidade), entre outros. Não se trata de dizer que montar uma família tradicional seja errado, obviamente; de modo algum. Mas é apenas uma entre várias formas.”

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