Estudo pioneiro com plasma convalescente é feito em Goiás

O tratamento, que já é feito de forma off label, pode ganhar comprovação científica de sua eficácia

A transfusão do sangue dos curados para os doentes é uma técnica conhecida desde a pandemia de gripe espanhola. A eficácia de até 50% foi registrada em estudos de qualidade incipiente, naquela época e na Primeira Guerra Mundial, em que a ciência não havia se formalizado e atingido o rigor dos dias atuais. Estudos do gênero foram repetidos nas últimas décadas com as epidemias de ebola, Sars (2002) e Mers (2009). 

Mireille Guimarães, hematologista do Ingoh, afirma que são promissores os estudos referentes à doação de plasma convalescente para doentes graves da Covid-19: “O primeiro estudo do gênero é chinês, foi feito com cinco pacientes e revelou que todos os receptores deixaram de registrar o vírus em exames de RT-PCR após 30 dias da transfusão. O maior estudo, feito pela Mayo Clinic e FDA, teve 5 mil voluntários e registrou menos de 0,5% de complicações em decorrência do tratamento, o que indica que é seguro. Em outro, realizado com 40 voluntários em um hospital de Nova York, se registrou 12% de óbitos no grupo tratado com plasma convalescente, enquanto no grupo não tratado o número de mortes chegou a 24%. Tudo isso é preliminar, mas é promissor”.

Com base neste estudo preliminar, a Food and Drugs Administration (FDA) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberaram o tratamento associado a protocolos de pesquisa. Isto é, desde que se realize o procedimento com a metodologia e que se publique os resultados, pode-se tratar pacientes com o plasma convalescente. Não é necessário autorização prévia da Anvisa, apenas que se siga políticas de segurança e de pesquisa. O tratamento tem sido feito de forma off label pelo mundo.

Mireille Guimarães afirma que os estudos envolvendo plasma convalescente são promissores | Foto: Reprodução/Ingoh

Tratamentos off label são aqueles cuja indicação de profissional da saúde diverge do que consta no manual de uso do material, ou na bula caso haja. Por não ter eficácia consolidada em estudos científicos, a doação de plasma convalescente ainda precisa de observação com grupos controle que revelarão se o tratamento é mais ou menos eficaz que tradicional. Por enquanto, só o que se tem certeza é de que o tratamento é seguro. 

O Hemocentro de Goiás, sob orientação da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO), iniciou em junho a coleta de plasma convalescente para um projeto de pesquisa sobre a Covid-19, aprovado pela Comissão Nacional de Ética e Pesquisa (Conep). É o primeiro estudo do gênero realizado em instituições do Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado. A pesquisa planeja elucidar a eficácia do plasma convalescente e dar ao tratamento o rigor científico de que uma terapia para a Covid-19 requer.

Marcelo Rabahi, coordenador de Ensino e Pesquisa do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico e Humano (Idtech) e um dos diretores do estudo com plasma convalescente no Hemocentro explica: “O estudo está sendo feito com 140 indivíduos. Metade recebe transfusões e a outra metade não. Comparamos diversos critérios para avaliar se houve melhora do quadro clínico e em quais áreas. Só assim se pode saber se um tratamento novo traz benefícios.”

Hemocentro em Goiânia é um dos pontos de doação de plasma| Foto: Reprodução/ Google Maps

No momento, médicos e pacientes afirmam que o principal desafio é conseguir doadores que estejam  há pelo menos 14 dias sem sintomas. O sangue deste doador tem anticorpos – proteínas com função de garantir a defesa do organismo – contra o novo coronavírus. A quantidade destas proteínas e do sangue em geral será analisada de acordo com critérios da doação de sangue. Caso todos os requisitos sejam atingidos, homens acima de 28 anos e mulheres que não tenham tido filhos podem doar em bancos de sangue.

“É realizado um procedimento aférese” explica Mireille Guimarães.  “Uma máquina separa o plasma sanguíneo que nos interessa (a parte líquida do sangue que corresponde a 55% do volume total, composto por proteínas, sais minerais, gás carbônico e outras substâncias dissolvidas em água). O restante, como hemácias, glóbulos vermelhos que carregam o oxigênio, é devolvido ao doador. Isso faz com que se possa doar até uma vez por semana, enquanto o tempo normal de espera é de até quatro meses”, explica Mireille Guimarães.

Doadores e receptores

A jornalista Andreia Bouson, que já doou plasma quatro vezes desde que soube que poderia ajudar a salvar a vida de alguém, conta que não chegou a sentir fraqueza ou tontura, como às vezes ocorre com doadores de sangue. “Acho que devemos nos colocar no lugar do próximo. Sou muito grata a Deus por ter me curado e é o que eu desejo para todos. Se eu posso ajudar a salvar a vida de alguém, eu vou ajudar quantas vezes for preciso e for possível, porque tenho que cuidar da minha saúde também”, diz a jornalista.

“Se eu posso ajudar a salvar a vida de alguém, eu vou ajudar quantas vezes for preciso e for possível”, diz Andreia Bousan | Foto: Acervo Pessoal

Andreia Bouson diz que foi diagnosticada com a doença junto com seu marido, que estava assintomático na ocasião. Dias depois, o casal sentiu dor de cabeça, no peito, tosse seca, espirros, nariz entupido, coriza, fraqueza, diarreia, fadiga, febre, perda do olfato, conjuntivite e dificuldade para respirar.

Carlos passou 22 dias internado e 12 dias na UTI, respirando por catéter nasal. Ele recebeu, como tratamento off label, uma bolsa de plasma convalescente. Após a alternativa ter sido apresentada por seu médico – que esclareceu o caráter experimental do tratamento – Carlos teve de aguardar três dias por uma bolsa de plasma. “Não havia doadores. Mas, três dias após conseguir, dei uma melhorada e hoje estou me sintindo muito bem! Quero doar, com certeza. Só estou aguardando os 14 dias sem sintomas para que eu possa doar”, afirma Carlos. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.