Estudo do IBGE revela fuga dos jovens do interior para os centros urbanos

Explicam o fenômeno a falta de oportunidades econômicas para jovens nas cidades pequenas, o crescimento goiano acima da média nacional e mudanças no agronegócio 

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Censo 2021 | Foto: Divulgação

Em 2021, Goiás ficou em 11º lugar na lista de estados com maior concentração da população em centros urbanos. O levantamento é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em Goiás (IBGE-GO) e aponta para diversos fatores que se traduzem no aumento do ritmo com que Goiás acumula pessoas nas grandes cidades – a falta de oportunidades econômicas para jovens nas cidades pequenas; o crescimento goiano acima da média nacional; mudanças no agronegócio, entre outros. 

Edson Roberto Vieira é professor na Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas da Universidade Federal de Goiás (Face/UFG), além de ser superintendente do IBGE no estado e ter sido o coordenador operacional do Censo 2010. Edson Vieira afirma que, historicamente, Goiás ocupou um lugar mais baixo na lista da concentração da população, mas a imagem de Goiás como um estado ligado ao agro e à atividade rural pode estar mudando, pelo menos para a maior parte dos habitantes.

O estudo “Estimativas da População 2021” revela que capital goiana, sozinha, possui 21,5% da população do estado e, quando são somadas à sua população as dos outros 20 municípios que abrangem a sua região metropolitana, são 37,4% (2,7 milhões) dos residentes em Goiás. Além da região metropolitana da capital, há concentração também no sudeste do estado (Rio Verde) e no entorno do Distrito Federal. 

“Cerca de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) de Goiás vem do campo, enquanto a média nacional é de apenas 5%. Mas estamos falando da agroindústria, das grandes propriedades que não necessariamente retém os jovens no campo”, diz Edson Vieira. A mecanização das atividades agrícolas faz com que cada vez menos trabalhadores rurais sejam necessários. “Os peões das fazendas trocaram seus cavalos por motos e, até por questões de segurança, residem em cidades próximas, ao invés de morar nas propriedades rurais onde trabalham”.

Além disso, o setor que representa a maior parte do PIB de qualquer estado moderno é o de serviços. No brasil, 70% do PIB e força de trabalho é dependente do setor de serviços. “Em municípios pequenos, não há a dinâmica dos serviços que gera oportunidade e atrai os jovens”. Outro fato que explica a rápida concentração nos centros urbanos é o crescimento econômico do estado acima da média nacional. “Atraímos alguma população do Maranhão, Tocantins, Minas Gerais e Distrito Federal”, diz Edson Roberto Vieira.

Campo não oferece mais oportunidades para os jovens, revela o estudo | Foto: Reprodução

O estudo Estimativas da População 2021 também aponta que quase 70% das cidades brasileiras possuem menos de 20 mil habitantes. Nesses municípios, a economia é muito dependente dos salários dos funcionários da administração pública local, e de repasses do governo estadual e federal, diz Edson Vieira. “Aqueles que não se colocam no funcionalismo, ficam sem oportunidades, pois muitos municípios não têm fonte de receita própria. Os jovens saem para estudar e acabam não retornando.”

Mais da metade da população brasileira se concentra em 5,8% dos municípios do país; e 21,9% dos habitantes do país residem em apenas 17 metrópoles, que possuem população acima de 1 milhão. Nesses locais, diz Edson Vieira, se verifica o crescimento desordenado, problemas de infraestrutura, moradias em lugares e condições inadequadas, transporte público insuficiente, aumento da violência e recrudescimento da desigualdade social.

O fim dos vilarejos?

Desde 2019 o tema da extinção de municípios com até 5 mil habitantes e insustentabilidade financeira vem sendo cogitado no Congresso Nacional. No dia 05 de novembro daquele ano o presidente Jair Bolsonaro e seu Ministro da Economia, Paulo Guedes, levantaram a ideia dentro de um pacote chamado “Plano Mais Brasil“. Posteriormente, o pacote sofreu mudanças e se tornou a PEC do Pacto Federativo, que está sendo relatada pelo senador Márcio Bittar (MDB-AC). Recentemente, em setembro, o relator prometeu retirar do texto a medida de extinção dos pequenos municípios para acelerar a tramitação da PEC.

Haroldo Naves Soares (MDB) é o representante da Federação Goiana de Municípios. O gestor comenta a ideia. “Seria uma medida absurda, impopular e ainda por cima burra, porque traria zero economia para a federação. Sem a administração pública, essas cidades desapareceriam, e com elas perderia-se também o aparato de arrecadação. As pessoas se esquecem de que são os municípios que fazem o grosso da coleta de impostos, com sua capilaridade, indo até os confins do Brasil.”

Haroldo Naves afirma que a extinção de municípios pequenos apagaria a história de Goiás | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Haroldo Naves também é prefeito do município goiano de Campos Verdes, cuja população atual é estimada em 1.830. Ele chama a atenção para um fator humano que se perderia com a extinção de municípios. Campos Verdes tem sua história ligada à mineração de esmeraldas, e chegou a ter 50 mil habitantes na década de 1990. Haroldo Naves lembra também de Santa Cruz de Goiás, com 2.819 habitantes, mas cujas origens remontam ao ano de 1721 e que chegou a ter sob sua administração área equivalente ao país de Portugal em 1833. “Santa Cruz hoje é nossa história preservada. Nem tudo é economia”, diz Haroldo Naves.

A doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (Usp), Denise Paiva Ferreira, diz que a probabilidade de tal medida ser aprovada é baixa, já que as elites políticas locais não têm interesse na aglutinação dos municípios, e já que os parlamentares têm suas bases eleitorais nas regiões que seriam prejudicadas com o fim dos repasses. “Atualmente não vemos lideranças políticas capitaneando essas ideias, apesar de ela fazer sentido pela perspectiva racional da economia com a administração local”, diz Denize Paiva. 

Soluções

A cientista política defende que o déficit populacional nas pequenas cidades pode ser combatido com a descentralização da economia. “Temos o exemplo bem sucedido da Universidade Estadual de Goiás, que conseguiu criar empregos para mão de obra qualificada no interior. Em um estado ligado ao agro, incentivar a produção local com pólos afastados dos centros urbanos poderia gerar oportunidades para os jovens”.

Caso o tema não seja abordado, a situação tende a se agravar, diz Denise Paiva. “O governo e o poder Legislativo precisam abordar essa questão, porque a tendência não vai se reverter sozinha. Pelo contrário: a situação deve se agravar, com grandes centros crescendo desordenadamente e pequenos municípios cada vez mais dependentes de repasses.”

Haroldo Naves acredita que o problema já começou a ser solucionado sem necessidade de intervenção do Estado. “O modelo educacional do Brasil sempre foi excludente: apenas as pessoas com dinheiro podiam ir aos grandes centros urbanos para estudar. Agora, com a adoção do ensino à distância em função da pandemia de Covid-19, vemos que muitos jovens têm tido acesso ao ensino superior de dentro de suas próprias casas. Penso que a tendência é que isso se acentue”.  

Sem Censo

Por conta da não realização do censo demográfico de 2020 do IBGE, o estudo foi realizado com base em estimativas, comenta Edson Vieira. “Fazemos boletins mensais com dados estaduais, de mortalidade e natalidade. Desde o último censo, houve aumento de 78% da faixa etária das pessoas acima dos 80 anos de idade. Aliado à redução da taxa de fecundidade, esse fator gera o estreitamento da base da pirâmide etária. Isso, por sua vez, associado à migração dos jovens para os grandes centros urbanos, produz o menor número histórico dos jovens em municípios pequenos.”

Falta de realização do Censo no período certo causou danos irreparáveis| Foto: Reprodução

A realização do censo demográfico do IBGE pode revelar um cenário diferente do projetado, embora isso seja improvável, pondera Edson Vieira. O professor afirma que pesquisas populacionais dessa natureza são primordiais para o desenvolvimento de políticas públicas direcionadas. Além disso, também servem de base para o Fundo de Participação dos Municípios – FPM, que influencia diretamente nas verbas que um município possui para investir em estratégias econômicas e sociais capazes de atenuar a problemática da proporção do número de habitantes. Desse modo, merecem a devida atenção. 

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