Estrangeiros se capacitam para mercado de trabalho em Goiás

Quem vem de fora decidido a ser exceção e busca qualificação para fugir da crise sofre com dificuldades

Haitiano Jossondy Princetile: para realizar o sonho de ser produtor de cinema, procurou capacitação

Yago Sales

“Ho deciso di andare a vivere in Brasile.” Quando Daniela Vézica ouviu a frase do filho, Fabrízio Vézica, numa casa modesta, a 1.200 metros do Vaticano, em Roma, embasbacou-se. Aos 23 anos em 1999, ele terminara o curso de Sistemas de Informações, mas não via muito futuro na Itália, cuja área da tecnologia já se consolidava. Ele não conseguia emprego, mesmo depois de fazer intercâmbio na Inglaterra e ter estagiado em uma grande empresa italiana. A decisão fora tomada, ele queria vir para o Brasil.

Aqui, as ciências da computação se iniciavam timidamente e as oportunidades seriam maiores. Ninguém conseguiria tirar da cabeça de Fabrízio que o país do samba e do futebol seria também um escape da crise de desemprego que impactava os jovens da Itália do final do século XX. A mãe dele não teve outra escolha senão a de deixar e criar circunstâncias para o filho único extrapolar o Atlântico e adotar o país tropical que ele conheceu um pouco nos turistas brasileiros quando, ainda menino, percorria Roma depois da escola com os amigos. Nos becos da cidade, na Praça São Pedro, correndo pelas capelas e escadarias, com olhar curioso, observava a romaria dos turistas.

Com rosto redondo, bigode parecendo ter sido tingido de chocolate, o cavanhaque e cabelos grisalhos, a origem de Fabrízio, hoje aos 41, passa despercebida. Ele não apresenta sotaque algum. Para tanto, dedicou-se à leitura de clássicos da literatura brasileira e aponta uma referência: “Clarice Lispector é uma das primeiras que li, naquele livro ‘Os Cem Melhores Contos da Literatura Brasileira’ que ganhei de um amigo”.

Logo o italiano naturalizado brasileiro correu às locadoras de vídeo para conhecer o cinema brasileiro. “Assisti ao filme ‘Central do Brasil’, com Fernanda Montene­gro”, lembra ele que priorizou a língua portuguesa para conseguir não ser visto como estrangeiro. “Em qualquer lugar do mundo, as pessoas acham que estrangeiro pode ser passado para trás, por isso fugi o máximo do estereótipo.”

Assim que chegou a Goiânia, em 1999, além do idioma, Fabrízio buscou qualificar-se no campo em que havia escolhido na Itália: o da informática. Matriculou-se em Lógica da Programação, que ele já dominava, mas era requisito para cursar outro, Visual Basic, no Serviço Nacional de Aprendiza­gem Comercial (Senac), unidade Cora Coralina. “Era um curso prático. Os termos eram mais em inglês, mas exigia muito do português e eu intensificava a leitura de jornais, livros, histórias em quadrinho. Afinal, existiam os algoritmos em português.”

Fabrízio Vézica: sem sotaque, ele trocou Roma por Goiânia para aproveitar início da tendência tecnológica

“Eu não entendia nada do que ele falava”, lembra, rindo, Luciana Medeiros, professora de Fabrízio à época. “Ele sabia muito, perguntava apenas para testar meus conhecimentos”. Luciana, graduada em Ciências da Informação, continua no Senac, na unidade Aparecida de Goiânia. “Profes­soras como ela me fizeram ter interesse pela docência. Encontrei um jeito diferente de o professor passar conhecimento. Na Itália era – hoje mudou muito – verticalizado. Quase não havia interação, a troca de conhecimento entre professor e aluno.”

Quando terminou o curso, ao lado de um amigo, desenvolveram um software de gerenciamento para um posto de combustível da capital. A dupla de sócio não vingou, mas a experiência com os professores o estimulou a querer ensinar. “Queria ser professor e busquei vagas em escolas técnicas. Passei a ministrar cursos de Informática Básica e continue estudando, me capacitando no próprio Senac. Trabalhava o dia todo e, à noite, ia dar aulas. Sempre vi no ensino um repouso, não mais um trabalho, mas alívio. No fundo, sou um autodidata.”

Em 2004, passou por um processo seletivo para instrutor no Senac e, há 12 anos, ocupa o cargo de supervisor de Informática, com perfil de coordenação dos cursos voltadas à tecnologia, como, entre outros, Designer Gráfico, Excel Básico, Edição de Vídeo com Adobe Premiere.

Foi este último curso, Edição de Vídeo com Adobe Premiere, que o haitiano Jossondy Princetile concluiu há poucos meses. Aos 26 anos, Jossondy quer voltar a trabalhar com audiovisual. No Haiti, ele trabalhou em uma tevê local. Editava a dor captada em vídeo de um país dividido entre a beleza natural e a fome, sendo o país mais pobre da América, segundo seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Mas o Haiti, submergido no estigma de golpes, terremotos, violência e miséria, deu a Jossondy a possibilidade de sorrir quando viu na timeline do Facebook, na sexta-feira, 2, uma notícia na língua crioula haitiana: a cineasta Ayiti Mon Amour é indicada ao Oscar pelo filme que leva seu nome: “Ayiti Mon Amour”. No longa-metragem ressurge o luto do país de Jossondy, que está há dois anos em Goiânia, após o terremoto que deixou mais de 220 mil mortos, em 2010. A película é a primeira a representar o país caribenho na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar.

O sonho do haitiano de trabalhar como produtor fervilhava nas aulas de edição. O rosto curioso, ouvidos atentos, chamou a atenção de um colega da turma, o repórter-cinematográfico Alano Mota, da TV Brasil Central. Para treinar edição, Alano deixava com Jossondy vídeos brutos que capturava por Goiânia para a TV. “Passei material simples para ele, que sempre se mostrava muito interessado. Aposto nele e, claro, ele aprendendo, eu posso indicá-lo. Ele tem que aprimorar mais, claro, mas ele tem muito interesse. Ele é diferenciado.”

Haitiano atua no comércio informal no Centro de Goiânia: cena rotineira

“Aprendi muito com isso, mas quando não tenho esses vídeos, eu baixo imagens do Youtube e edito”, conta Jossondy que, agora, quer uma filmadora. A prioridade, no entanto, é terminar o curso de Designer Gráfico em que se matriculou no Senac. Mesmo com a rotina pesada do trabalho de carga e descarga em uma transportadora, ele encara as aulas como a oportunidade de, como o legado de seu país, mudar a própria história.

Nem as autoridades têm ao certo o número de estrangeiros que vêm para Goiás todos os anos. Mas é perceptível, nas ruas da capital e em bairros distantes de Goiânia e na Região Metropolitana, a presença de homens, mulheres e crianças de outros países. Além de um mercado de trabalho em empresas de fora que se instalam no Estado, os estrangeiros encontram por aqui facilidades, como a falta de fiscalização e controle, no caso do comércio ilegal no Centro de Goiânia. Basta passear com olhos atentos às características excêntricas de haitianos e chineses, por exemplo, e ouvidos aguçados aos idiomas que se misturam ao português.

Lojas de mil e uma utilidades, abarrotadas de produtos até as calçadas, são propriedades de chineses silenciosos. Mostruários de isopor com óculos sem origem explicável atrapalham os transeuntes, que são abordados em frente às lojas. Naturalmente, os tributos sobre essa mercadoria não são recolhidos. Detalhe curioso: os funcionários não podem conceder entrevistas. “Quando entrei aqui, eles disseram para eu nunca contar nossa rotina. Nem o nome deles eu sei”, contou, no fim do expediente, uma funcionária, antes de tomar o ônibus coletivo.

O perfil diversificado da migração que chega a Goiânia, no entanto, precisa ser sublinhado: há estrangeiros que não querem permanecer em serviços impróprios e ilegais, como a venda de produtos de procedência suspeita. Esses buscam capacitação, se especializam, e se transformam em mão de obra para o comércio ou até criam seus próprios negócios, gerando mais empregos. O desafio maior, como alguns oriundos de vários países contam ao Jornal Opção, é aprender a língua portuguesa. É que, sem dominar o idioma, os empregadores não vão se interessar pelo currículo.

Na área central de Aparecida de Goiânia, por exemplo, haitianos, com seu francês, trazem consigo diplomas de engenheira, contabilidade, jornalismo e até medicina, mas, como não pretendem ficar muito tempo por aqui e buscam empregos mais fáceis, como em construtoras e transportadoras, nem se interessam pela legalização.

O presidente da Federação do Comércio do Estado de Goiás (Fecomércio), José Evaristo dos Santos, entende que a capacitação sempre será a melhor escolha para estrangeiros que adotaram Goiás como morada. Antes, porém, segundo ele, é preciso regularizar a situação de estrangeiro no país. “Primeiro se legalizar, depois aprender a nossa língua. Não adianta buscar capacitação se não aprender o português”, esclarece.

José Evaristo dos Santos: “Temos muitos cursos de tendência internacional”

Evaristo diz que as portas do Senac estão abertas para todas as raças, cores e portadores de necessidades especiais, em respeito ao que determina a legislação. Ele observa que espanhóis, por causa da língua, têm mais facilidade em nossas salas de aula. Mas reconhece, por outro lado, que alguém que vem da China, por exemplo, teria maiores dificuldades.

“Temos muitos cursos de Tecnologia da Informação, que é uma tendência internacional, com acesso à informação, à informatização de todos os sistemas. Quem estuda no Senac fica preparado para atuar em qualquer ramo, em qualquer país”, afirma.

Evaristo, destacando, ainda, a importância de capacitar para tirar, das ruas, da ilegalidade, estrangeiros despreocupados com o preparo profissional. “Lamentavelmente o Centro de Goiânia é ocupado tanto por estrangeiros espalhados pelas calçadas quanto por chineses, bolivianos. Aquilo é péssimo para o comércio legalizado. A prefeitura deveria atuar melhor”, critica.

Nem tiro, nem incêndio desanimou peruano

Peruano Castillo foi vítima de assalto e teve sua loja incendiada

“Boa tarde, chegou na Comercial Carlos o brinquedo do momento, Thumb Chucks. Preço promocional, R$ 4,20. Venha aproveitar!”. Em um dos corredores da loja, com bacias, filtros de barro, churrasqueiras, panelas e cadeiras de plástico, o peruano José Carlos Castillo Gomes, 45 anos, se expressando num castiço “portunhol”, sabe que não precisa falar muito. Nove segundos são o suficiente para aguçar a curiosidade dos clientes.

O vídeo, postado no final da tarde da última sexta-feira, na página da loja, que tem 3.292 curtidas, faz parte da estratégia de marketing que o peruano aprendeu em cursos no Senac. Com a proximidade do Natal e Ano-Novo, Castillo pretende gravar mais vídeos para atrair clientes. Por isso, vai contratar temporariamente nove funcionários, fora os seis já fixos. “Em janeiro devem ser 15, para atender à demanda”, acredita.

Por trás do homem que não se atrapalha ao enumerar geografias por onde passou – viveu no Japão antes de escolher Goiânia –, as dificuldades, os afazeres e os cursos que fez para garantir a sobrevivência de seu negócio na crise econômica do Brasil. Ele formou-se em Educação Física pela Pontifícia Universidade Cató­lica de Goiás (PUC-GO), mas já havia optado pelo empreendedorismo. “É preciso sempre se reinventar para garantir o sucesso do negócio, por isso acabei fazendo cursos no Senac”, lembra ele, que atualmente estuda inglês e saxofone.

O peruano poderia ter desistido. Há 12 anos, ele estacionava a caminhonete que conseguiu emprestada de um amigo. Um rapaz de 19 anos o acompanhava. Assaltantes apareceram, queriam levar o automóvel. Acertaram o ajudante, que morreu. José quase ficou paraplégico.

Haveria mais infortúnios para José. Em 2015, sua loja havia acabado de receber novos produtos, mas houve um incêndio no início da madrugada. Um prejuízo que levou o peruano às lágrimas, mostrou reportagem da TV Anhanguera na época. Dois anos depois, José é um dos comerciantes mais carismáticos de Campinas. Conhecido na região, usou uma estratégia que aprendeu em um curso de Mídias Sociais no Senac para atrair a clientela, presente no Facebook e Instagran, para impulsionar seu alcance.

“Gosto muito de marketing, redes sociais e não poderia deixar de utilizar essas ferramentas na minha loja. E funciona”, afiança ele que tem visto promoções sendo compartilhadas por centenas de pessoas. “Eu já dei brinde para os pais que levassem boletins escolares com nota 10 dos filhos para que ganhassem prêmios”, conta.

Educação profissional é oportunidade

Rodolfo Martínez Cruz, 40, veio da Ciudad de México ao conhecer uma goiana. Respeitado fotógrafo na capital mexicana, teve de se reinventar em Goiânia, refazer contatos. Mas algo lhe faltava, além de aprender português: um diploma para tentar uma vaga em jornal, revista ou estúdio. Matriculou-se em dois cursos de Fotografia no Senac: Direção Fotográfica: Poses e Criatividade e Fotografia Profissional.

“Logo descobri que eu poderia trabalhar para mim mesmo, como freelance. Fiz contatos e não paro de trabalhar um dia sequer”, disse, interrompendo conversa com uma cliente que foi lhe pedir um orçamento para o casamento. “Sem dúvidas, com o curso, melhorei muito”, diz, oscilando entre o português e o espanhol.

“A nossa intenção é dar oportunidade aos nossos alunos nas nossas 21 unidades, para que eles aprendam e consigam se colocar no mercado. A missão do Senac é educar para o mercado”, diz a diretora Regional do Senac, Felicidade Maria de Faria Melo. Na função há 11 anos, tem a incumbência de garantir que o número de formandos supere os 150 mil por ano. O chamado Sistema “S” existe há 72 anos e, em Goiás, 71. “Desde sempre, nos preocupamos com a capacitação, dar condições para o comércio conseguir boa mão de obra.”

De acordom com ela, o Senac acolhe, criando um clima harmonioso de receptividade e de ensino de qualidade. Eles buscam, além do conhecimento, compartilhar a língua. “Já fizemos trabalhos específicos numa parceria com angolanos. Eles vieram para cá e voltaram capacitados. Isso comprova a nossa importância para a capacitação.”

Felicidade reconhece que a procura dos cursos é muito diversificada. Os cerca de 200 estrangeiros que procuraram o Senac desde 2014, cursaram de Como Falar em Público até AutoCad. Há alunos dos quatro continentes, mas que tiveram de se matricular com o mínimo de fluência em português.

O francês Sebastien Fauchet, 34 anos, deixou o emprego de eletricista para se dedicar ao curso Tecnologia em Segurança da Informação na Faculdade Senac Goiás. Casou-se com uma brasileira e decidiu morar aqui. “E mesmo que um dia eu volte para a França, preciso ter alguma profissão.”

Ele conta que aprende a linguagem da programação, em tempos de hackers, de vírus, e é preciso ter cuidado com a informação, criar mecanismos de proteção. “E este curso me ensina. E outra coisa, sempre quis trabalhar com TI [Tecnologia da Informação]. A internet é o futuro que já chegou, com forte tendência. Aqui no Brasil está fervendo, na França está estabilizado, por isso prefiro aqui.”

O diretor da unidade, Lionísio Pereira dos Santos Filho, acredita na capacitação dos estrangeiros por meio de cursos rápidos, planejados para oferecer profissionais bons ao mercado. “É uma porta aberta. Estamos aqui para prestar um grande serviço: ensinar, promover a pessoa e ajudar no desenvolvimento e crescimento econômico. A faculdade Senac faz dez anos e temos muito orgulho de ter formado grandes profissionais”, destaca.

ERRATA:

A reportagem do Opção errou no sobrenome de três personagens: de Fabrízio Faveli (no corpo do texto e na fotolegenda) quando, na verdade, é Fabrízio Vézica; o mesmo se repete com sua mãe, a italina Daniela Faveli, ou seja, Daniela Vézica. Na legenda da fotografia do presidente da Fecomércio, consta Evaristo Costa, mas, é José Evaristo dos Santos, como no texto. 

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