Estado gasta mais em escola com nota baixa

Estudo do IMB revela as diferenças nos custos por aluno e no desempenho deles no Sistema de Avaliação de Ensino e no Exame Nacional do Ensino Médio

Estudo inédito do Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos, instituição vinculada à Secretaria da Economia de Goiás, lança luz sobre algumas questões que envolvem a escola pública no Estado. A Avaliação da Eficiências das Escolas Estaduais no Estado de Goiás cruzou o custo per capta dos alunos da rede com o desempenho no Sistema de Avaliação Educacional (Saego) e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Um dos resultados é que não existe uma relação direta entre o quanto é investido em cada escola e as notas que eles obtêm nessas provas.

Autor do estudo, o pesquisador em estatística Alex Rodrigues Lima dividiu as escolas estaduais em quatro grandes grupos: escolas padrão, conveniadas, militares e de tempo integral. Para cada grupo, aferiu o custo médio por aluno.

Nessa análise, constatou que, exceto a escola em tempo integral, que tem horário escolar estendido, estão nas escolas padrão os alunos com custo médio mais alto, com R$ 389,81. Por outro lado, os estabelecimentos sob gestão da Polícia Militar são os que têm os alunos com menor custo médio, R$ 325,55 por mês (veja quadro).

O pesquisador explica que o objetivo do estudo não é entrar na seara pedagógica. “Examinou-se o repasse de recursos e o seu retorno em termos de resultados. Isso se faz necessário, principalmente, em cenários de crise econômica, nos quais o controle do gasto público se torna imprescindível”, diz.

“Em um cenário de crise econômica, o controle de gastos se torna imprescindível”

Os dados levantados pelo pesquisador junto à extinta Secretaria de Gestão e Planejamento e à antiga Secretaria de Educação, Cultura e Esporte não levam em conta as eventuais contribuições financeiras dos estudantes – que por lei não podem ser obrigatórias. Os valores são de 2016.

Ao comparar essas informações com as notas obtidas pelos estudantes no Saego e no Enem, o estudo revelou que as escolas mais “caras” proporcionalmente, ou seja, as que têm o custo per capta mais elevado, são as que têm pior desempenho nessas avaliações. A escola padrão, que é a mais comum e tem a maior quantidade de alunos, alcançou as notas mais baixas em todas as séries e disciplinas avaliadas. Essa disparidade é maior ainda no ensino médio (veja quadros).

Já as escolas conveniadas foram as que obtiveram mais êxito em quase todos os recortes, exceto matemática no 5º ano, cuja melhor nota foi conquistada pelas escolas militares.

Outro dado levantado é em relação às escolas em tempo integral. Apontadas por boa parte dos educadores como uma das melhores alternativas para elevar o desempenho escolar no Brasil, pelo menos em Goiás elas ainda não chegaram lá. Tanto no 5º ano quanto no 9º ano do Ensino Fundamental, elas só superaram as escolas padrão no Sistema de Avaliação Educacional, ficando atrás das escolas militares e das conveniadas. A situação se repete no Ensino Médio

Eficiência
Munido dos dados sobre investimentos e resultados nas avaliações do Saego e do Enem, o pesquisador Alex Rodrigues calculou o índice de Eficiência Técnica das escolas estaduais, com base em 1.706 escolas (algumas foram computadas mais de uma vez, pois oferecem mais de uma etapa escolar).

Em uma escala que vai de 0 a 1, nenhum dos tipos de escola da rede obteve a pontuação máxima. Porém, outra vez as escolas conveniadas se saíram melhor, tendo os melhores índices no 5º e 9º anos do Ensino Fundamental e também no Ensino Médio. Já as escolas em tempo integral, por funcionem em dois turnos, o que eleva o gasto, tiveram os piores índices de eficiência tanto no 5º quanto no 9º anos do ensino fundamental. Isso ocorre porque a extensão da permanência na escola não havia se refletido em melhores notas.

“No Ensino Médio, cerca de 66% das escolas conveniadas estão no grupo das escolas eficientes. Por outro lado, as escolas do tipo integral apresentaram a menor média de eficiência para o 5° e 9° anos do Ensino Fundamental. Já no Ensino Fundamental, constatou-se que a menor média de eficiência foi das escolas do tipo padrão”, resume Alex Rodrigues.

A análise do IMB também demonstra que há uma concentração de escolas de baixa eficiência no Ensino Médio nas regiões Norte e Nordeste de Goiás, o que não foi observado no Ensino Fundamental, que teve uma distribuição geográfica de escolas eficientes e não eficientes mais homogênea por todo o Estado.

Por fim, o estudo revela que há uma disparidade de gastos entre as escolas da rede pública estadual. A que tem o menor custo por aluno, por exemplo, é o Colégio Paulo Freire, em Águas Lindas de Goiás. Cada um de seus 1.519 matriculado custa R$ 111,70 por mês. Já a Escola Estadual São José do Retiro, que fica na zona rural de Itaberaí, gasta R$ 3.687,13 mensalmente com cada um dos seus 22 estudantes. Itaberaí, aliás, tem também a segunda escola mais “cara” do Estado: os 32 alunos custam R$ 2.349,45 cada.

O Jornal Opção entrou em contato com a Secretaria da Educação para comentar os resultados, mas foi informado que a secretária Fátima Gavioli iria avaliar o relatório no fim de semana e que só poderia avaliá-los após essa análise.

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Glaucia

Todos sabem que as escolas da polícia militar recebem contribuições de associação de pais, mestres e funcionários. E as conveniadas recebem mensalidade. Que pesquisa tendenciosa e descarada. O Estado dá essa miséria para as escolas padrão e quer que tenham mesmo desempenho que as escolas que recebem investimento mais alto por outros meios. E nem estamos falando da cobrança de materiais, uniformes etc.

Rodrigo Hirose

Olá, Glaucia. A reportagem deixa claro que o cálculo não inclui as contribuições. Os valores demonstrados são apenas os repasses governamentais.