Esquerda, direita e centro: quem ganha e quem perde sem Lula

Cientistas políticos opinam sobre possíveis cenários eleitorais de 2018

Júlia Dolce Ribero/Brasil de Fato

Marcelo Mariano

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está condenado em segunda instância e, com isso, torna-se inelegível em razão da Lei da Ficha Limpa, sancionada pelo próprio petista durante seu último ano de mandato.

A defesa ainda tem direito a entrar com recurso a fim de assegurar a candidatura, o que deixa imprevisível o quadro eleitoral de 2018, haja vista que é ele quem lidera as pesquisas de intenção de voto e, portanto, a eleição com o ex-presidente é uma e, sem ele, outra.

A única certeza, por ora, é que a situação do petista está mais complicada — a luta principal deve ser para não ser preso ao invés de se efetivar como candidato. Assim, faz-se necessária a análise referente ao destino dos votos de Lula da Silva — em um primeiro momento, do ponto de vista ideológico e, posteriormente, em relação ao principais pré-candidatos já postos.

Há quem diga que, em um cenário tão polarizado como o da política brasileira, a tendência é que se abra espaço para candidaturas de centro. Há, por outro lado, quem discorde, como Marco Aurélio Nogueira, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com Marco Aurélio Nogueira, a esquerda, “livre” do PT, pode se fortalecer

Ao Jornal Opção, o cientista político diz acreditar que quem mais pode ganhar com a provável saída de Lula da Silva da disputa é justamente a esquerda, que, segundo ele, passará a ter disposição para concorrer com “cara própria”, sem estar necessariamente ligada ao PT, ou seja, mais “independente”.

Já Robert Bonifácio, coordenador do curso de Ciências Sociais com habilitação em políticas públicas da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor em Ciência Política pela Universidade de Minas Gerais (UFMG), afirma que a esquerda perde força mesmo se o petista apoiar algum candidato abertamente.

Para ele, a transferência de votos não será tão automática como foi em 2010 com a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), pois, àquela época, Lula da Silva despedia-se de dois mandatos consecutivos com alta taxa de aprovação e, agora, o contexto é outro. “Ele continua sendo o cidadão com maior capital político do país, mas guarda consigo alguma rejeição e qualquer candidato que apoiasse não seria enxergado tão facilmente como seu fiel aliado, papel que Dilma desempenhou muito bem por ter sido ministra de seu governo.”

Pedro Célio Alves Borges, doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e professor aposentado da Faculdade de Ciências Sociais (FCS) da UFG, argumenta que a esquerda está fragmentada e o campo liberal-conservador — de direita —, antagônico ao ex-presidente, angaria pontos para a disputa eleitoral, apesar do quadro ainda ser de indefinição no que tange aos pressupostos imprescindíveis para um bom de­sempenho.

A origem das terminologias “esquerda” e “di­reita” remete à Revolução Francesa de 1789, quando os girondinos, que defendiam uma reforma liberal, se sentaram à direita na Assembleia Geral e os jacobinos, que defendiam ideias consideradas mais extremistas, se sentaram à esquerda.

Entre um e outro, está o “centro”, cuja gênese está na frase virtus in medium est, de Aristóteles (384 a.C–322 a.C), que significa “a virtude está no centro”.

Pedro Célio Alves Borges argumenta que a definição de “centro” é imprecisa

Do ponto de vista da Ciência Política, o centro pode ser conceituado, de acordo com Pedro Célio, como a ausência de conteúdo positivo ou de princípios programáticos como autorreferência no jogo político, negando a nitidez de assertivas que impliquem em compromissos e vínculos sociais, tendo, dessa forma, o pragmatismo como palavra de ordem.

Os slogans de centro costumam girar em torno de “evitar radicalismos”, “meio termo” e “caminhar com a opinião da maioria”. “A um partido ou líder que se diz de centro o que mais interessa é a promessa de êxito na contenda do momento. A meta decisiva é participar no poder e ocupar cargos. A natureza das alianças e da plataforma eleitoral importa muito pouco ou quase nada”, explica Pedro Célio.

Robert Bonifácio esclarece que, em termos práticos, o centro é representado por partidos e políticos com pouco apreço a questões ideológicas e que raramente hasteiam bandeiras e lutam por causas bem definidas. “Os centristas buscam chegar a acordos que tragam o máximo de retorno eleitoral possível.”

Por sua vez, Marco Aurélio Nogueira entende que o centro é uma posição “imprecisa”, não existindo puramente, sendo sempre de direita ou de esquerda — da centro-direita à centro-esquerda.

Pré-candidatos

Robert Bonifácio diz que, com ou sem Lula, outsiders devem se favorecer

Com ou sem Lula da Silva, Robert Bonifácio defende que a eleição presidencial tende a favorecer candidatos que não sejam da política tradicional ou que tenham propostas dentro o espectro da centro-direita. Os três cientistas políticos ouvidos pelo Jornal Opção concordam que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), se enquadra na definição do segundo.

Pesquisa Datafolha, divulgada na quarta-feira, 31, aponta o tucano em terceiro ou quarto na maioria dos cenários, mas com um crescimento de aproximadamente 4% naqueles em que o ex-presidente não é levado em consideração.

Empatados tecnicamente com o referido presidenciável, aparecem Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede), que devem absorver grande parte do eleitorado de Lula da Silva, principalmente se o PT não lançar outro candidato — o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e o ex-governador da Bahia Jaques Wagner são tidos como alternativas.

Ainda no centro, despontam o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia (DEM), e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD). Os índices de ambos são inexpressivos e há um consenso entre os cientistas políticos de que, por estarem ligados ao impopular governo do presidente Michel Temer (MDB), suas candidaturas são pouco viáveis.

No tocante àqueles fora da política tradicional, também chamados de outsiders, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa (sem partido, mas cogitado pelo PSB) surge como opção, mas não empolga e permanece estagnado nas intenções de voto.

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC, mas que deve se filiar ao PSL) é outro da linhagem dos outsiders — apesar estar exercendo seu sétimo mandato em Brasília, tem um discurso nada político — que, conforme aponta a pesquisa do Datafolha, parece ter atingido seu teto.

Na presença ou na ausência de Lula da Silva, o parlamentar fluminense não ultrapassa os 20%. Na segunda hipótese, Jair Bolsonaro perde o seu contraponto, que gera a polarização responsável por dar-lhe força. “Acho que o potencial de crescimento do Bolsonaro é baixo. Independentemente dos adversários, é muito pouco provável que chegue ao segundo turno”, opina Marco Aurélio Nogueira.

Levy Fidelix (PRTB) e José Maria Eymael (PSCD) à parte, há outros nomes que se apresentam como pré-candidatos ao Planalto, mas que ainda inspiram pouco entusiasmo: Álvaro Dias (Pode­mos), João Amoêdo (No­vo), Manuela d’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (sem partido, mas, se for candidato, provavelmente sairá pelo PSol), além do ex-presidente Fernando Collor (PTC), cuja candidatura não é levada a sério pelos especialistas consultados.

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