Escola em tempos de coronavírus pode ter biênio e reprovação como exceção

Autoridades e diretores debatem a realidade diante da pandemia, que pode incluir a unificação do calendário escolar de 2020 e 2021

Tatiana Santana e o novo figurino dos professores do Externado São José | Foto: Pessoal

Sem qualquer data no horizonte para que as aulas sejam retomadas, escolas, alunos, professores, responsáveis e autoridades da Educação se preparam para uma nova escola oriunda da pandemia de Covid-19. Entre as propostas em estudo, estão a possibilidade de um calendário bianual, em que 2020 e 2021 se tornassem um só ciclo, revezamento de alunos nas aulas presenciais e, até mesmo, a possibilidade de não haver reprovação neste ano.

De cara, os estudantes encontrarão, quando voltarem – e na hipótese de que ainda em 2020 as aulas presenciam sejam retomadas –, um ambiente totalmente diferente do que conheciam até março, quando a maioria dos Estados suspenderam as aulas. Em Goiás, o primeiro decreto do governo do Estado sobre o assunto é do início da segunda quinzena daquele mês. Desde então, os mais de 1,1 milhão de alunos estão longe das salas de aula.

Antes dos últimos decretos do governo do Estado e da Prefeitura de Goiânia, os gestores da Educação trabalhavam com a perspectiva de retorno às aulas presenciais em agosto. Porém, com a nova quarentena alternada, no esquema de 14 dias parados e 14 em funcionamento das atividades não essenciais, essa perspectiva mudou. As previsões mais otimistas, no atual patamar da pandemia, é de que os alunos voltem às escolas em setembro.

O que já é consenso entre os profissionais e autoridades da Educação é de que não será possível deixar as aulas on-line tão cedo – talvez não antes do fim do ano. “O mais provável é que sejam mantidos os dois regimes, on-line e presencial”, afirma o presidente do Conselho Estadual de Educação, Flávio Roberto de Castro, que é também presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino (Sepe).

Flávio Roberto de Castro: aulas on-line e
presenciais concomitantemente | Foto: Seduc

Essa necessidade decorre do fato de que não haverá possibilidade de imunização de todos os alunos, já que as vacinas em desenvolvimento devem chegar somente no próximo ano. Assim, o coronavírus Sars-Cov-2, que causa a Covid-19, continuará circulando no País. Dessa forma, mesmo que as aulas presenciais sejam retomadas, não será possível obrigar todas as famílias a enviarem seus filhos para a escola.

Receio das famílias

“Mesmo com a limitação do número de alunos e as outras medidas de segurança, muitas famílias não devem aderir”, acredita o diretor geral do Colégio Integrado, Thiago Oliveira, que tem 1,1 mil alunos em duas unidades em Goiânia. Isso porque, além do receio natural, existem alunos que fazem parte dos grupos de maior risco de evoluir para as fases mais graves da Covid-19. O mesmo ocorre com parte de seus familiares e mesmo com profissionais da escola. Neste caso, professores que não puderem dar as aulas presenciais, continuarão no modelo on-line.

As propostas em discussão giram em torno da limitação do número de alunos em 50% ou 30% da capacidade das escolas. No caso de Integrado, isso significa manter 16 alunos por sala no ensino fundamental (do sexto ao nono ano) e 20 no ensino médio. Cada grupo terá aula por uma semana, alternadamente. As aulas serão transmitidas em tempo real, para que aqueles que não estão na escola possam acompanhá-las de casa.

No Externato São José, onde estudam cerca de 1 mil alunos, a proposta para diminuir a quantidade de alunos na escola é diferente. Como cada ano do ensino fundamental tem quatro turmas (A, B, C e D), elas seriam dividias em duas e se revezariam semanalmente. Assim, cada turma teria uma semana de aula presencial por mês. “A nova rotina terá inúmeros procedimentos, que devem ser repetidos diariamente até se tornarem naturais”, explica a diretora pedagógica da instituição, Tatiana Santana.

Equipamentos de proteção

A mudança na rotina, contudo, será bem mais profunda que apenas a diminuição de alunos na escola e as aulas on-line. No Externato São José, foram adquiridos tapetes sanitizantes e os bebedouros coletivos estão sendo substituídos por filtros. Os intervalos terão horários diferentes para as turmas, de forma que elas não se encontrem. E cada grupo de alunos será direcionado para um espaço específico no momento do lanche e de descanso entre as aulas.

A dúvida ainda é quanto às máscaras. O uso será obrigatório, mas ainda não está definido se a escola as fornecerá ou as famílias serão as responsáveis por elas. Outro cuidado é com as crianças mais novas, pois a escola também atende o ensino infantil. Segundo Tatiana Santana, a Sociedade Brasileira de Pediatria alerta para o risco de sufocamento em crianças com até cinco anos de idade.

Thiago Oliveira: “A máscara será item do uniforme”
| Foto: Pessoal

Já o Colégio Integrado adquiriu 4 mil máscaras, que serão distribuídas entre os alunos e os profissionais. “Ela será item indispensável do uniforme. O aluno até entra sem a camiseta, mas, sem a máscara, não poderá assistir às aulas”, afirma Thiago Oliveira. Além das máscaras, a instituição investiu em tapetes sanitizantes, dispensador de álcool em gel, e aquisição de máquinas para limpeza das áreas, vai retirar os bebedouros e ainda avalia como evitar aglomerações nos horários de entrada e saída dos alunos.

Entre as medidas de precaução, as duas escolas adquiriram termômetros digitais. Dessa maneira, ao chegar, os alunos terão a temperatura aferida e, em caso de alteração, serão encaminhados para casa. Na sala, eles encontrarão equipamentos como projetores e câmeras, para a transmissão das aulas em tempo real, espaçamento maior entre os alunos e professores com equipamento de segurança.

No Integrado, somente com produtos de limpeza que não estavam no orçamento, os gastos chegarão a aproximadamente R$ 20 mil. No Externato São José, a aquisição da plataforma para aulas virtuais, projetores e demais equipamentos custará entre R$ 130 mil a R$ 150 mil.

Volta às aulas só com autorização da Secretaria da Saúde

Segundo a Superintendente de Ensino Médio da Secretaria Estadual da Educação e Cultura (Seduc), Osvany Gundim, o retorno às aulas presenciais depende da Secretaria Estadual da Saúde. Enquanto não há condições, o Gabinete de Crise, que reúne órgãos públicos e representantes das redes pública e privada de ensino, elabora um protocolo geral para o funcionamento das escolas em Goiás.

Esse documento trará diretrizes para todas as redes, mas cada uma delas pode incrementar a medidas de combate à disseminação do coronavírus. Osvany explica que o protocolo trabalhará em cinco dimensões: a segurança sanitária, a organização pedagógica, a reorganização curricular e de avaliação, a reorganização administrativa e a comunicação com famílias, alunos e profissionais. De acordo com o presidente do Conselho Estadual da Educação, Flávio Roberto de Castro, esse documento deve ser apreciado e concluído ainda esta semana.

Preocupação maior é com a perda de conteúdo

Em meio à incerteza sobre a retomada das aulas presenciais, os profissionais envolvidos com Educação têm uma certeza: o aproveitamento dos estudantes com as aulas on-line está aquém do que ocorreria em tempos normais. Por isso, os gestores procuram formas de recuperar o máximo possível do conteúdo não assimilado.

De acordo com o presidente do Conselho Estadual de Educação, Flávio Roberto de Castro, há uma discussão nacional sobre o assunto. Entre as medidas avaliadas está a possibilidade adotar o modelo de biênio em 2020 e 2021. “Há uma articulação com o Conselho Nacional de Educação nesse sentido, mas vai ficar a cargo de cada sistema de ensino”, afirma.

Uma das consequências desse modelo seria eliminar a reprovação este ano, além de ser possível cumprir a carga horária mínima de 800 horas/aula. O governo federal, inclusive, editou uma Medida Provisória que dispensa o cumprimento dos 200 dias obrigatórios de aulas em 2020, desde que a meta de número de horas aula seja atingida.

A superintende de Ensino Médio da Secretaria Estadual da Educação e Cultura (Seduc), Osvany Gundim, diz que o Conselho discute o posicionamento em relação ao aproveitamento dos estudante com as aulas on-line. “A avaliação [dos alunos] deve ser rediscutida”, acredita.

Thiago de Oliveira, do Colégio Integrado, afirma que a escola fará uma avaliação diagnóstica no retorno dos alunos. Com ele, haverá um resgate dos conteúdos, conforme o resultado dessa análise. “A preocupação com o retorno é muito maior do ponto de vista emocional. Em termos de avaliação, muito melhor que a reprovação é um plano de resgate de conteúdo”, afirma.

Diretora do Externato São José, Tatiana Santana tem opinião semelhante. “Nos preocupamos em trazer o aluno de volta para o espaço [escolar] e a reprovação não é uma opção. Ela só ocorrerá em casos extremos, em que percebermos que não houve acompanhamento ou houve evasão”, afirma. A escola também oferecerá aulas de reforço para que os estudantes recuperem o conteúdo que não assimilaram.

Termômetro adquirido pelo Colégio Integrado: equipamento básico | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção
Termômetro adquirido pelo Colégio Integrado: equipamento básico | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

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