Entrevista exclusiva com sobrevivente da bomba atômica

As bombas nucleares são mais do que armas, são um recado militar, um feito tenebroso da ciência e um alicerce da geopolítica contemporânea

Nuvem em forma de cogumelo sobre Hiroshima | Foto: Reprodução

Há 75 anos, neste mesmo dia, os Estados Unidos encerravam os conflitos da segunda guerra mundial e inauguravam a era nuclear com o lançamento da bomba atômica sobre a cidade portuária de Nagasaki, no sul do Japão. O tour de force foi um recado militar para a União Soviética, um feito tenebroso na história da ciência e um alicerce da geopolítica contemporânea.

O avião B-29 lançou o artefato (apelidado de Fat Man, o gordo) a nove quilômetros de altura. Quando estava a 500 metros do solo, o sistema de lentes explosivas disparou, pressionando 6,2 kg de liga de plutônio enriquecido contida em apenas nove centímetros, o tamanho de uma bola de tênis – sólida, exceto por uma cavidade de 2,5 cm no centro onde o iniciador de nêutrons feito de berílio foi colocado. As ondas de choque vindas do disparo fizeram com que plutônio e berílio rapidamente se misturassem. Partículas alfa emitidas pelo novo isótopo atingiram átomos de berílio, desprendendo nêutrons (talvez um a cada 5 a 10 nanossegundos) e foram estas partículas que progrediram para a esfera de urânio ao redor do iniciador e forneceram o material para a explosão em uma reação em cadeia.

A energia liberada na fissão dos átomos de urânio, desbalanceados em uma reação fora de controle, foi suficiente para destruir cinco quilômetros quadrados da cidade de Nagasaki e matar até 140 mil pessoas (dados não são precisos) ao final de 1945. Entretanto, a devastação não foi o maior legado das detonações – Nagasaki é atualmente a capital de sua província e Hiroshima é uma pulsante metrópole com dois milhões de habitantes. O real efeito duradouro foram as perguntas lançadas pela criação de um arsenal que assegura a destruição total do planeta: 

Quais responsabilidades éticas cabem aos cientistas no desenvolvimento de suas pesquisas? Devemos conceder uma vitória à ignorância quando o assunto é potencialmente perigoso? E quanto a tecnologias pacíficas subvertidas para fins militares? O conhecimento, quando dissociado da engenharia para matar, é desejável? A curiosidade e a guerra são constantes na história humana; é razoável supor que tratados internacionais conseguirão domar estas forças?

Desde o fim da Crise dos Mísseis em Cuba, mais de cinco sextos das armas nucleares no mundo foram desativadas (de 30 mil em 1966 para cinco mil atualmente), segundo o departamento de defesa americano. A quantidade atual, entretanto, se distribui entre mais países com interesses conflitantes, e não apenas dois pólos, como ocorria na Guerra Fria. Em ordem daqueles que possuem mais artefatos nucleares para os que possuem menos, as nações atomicamente armadas são: Rússia, Estados Unidos, França, China, Reino Unido, Paquistão, Índia e Coreia do Norte.

Não proliferação

Carlo Patti é professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor em história do programa nuclear brasileiro e global. O pesquisador explica: “Desde as detonações de 1945, nunca houve outro uso de armas nucleares. As armas foram utilizadas em teatro de guerra e nunca mais. Seu uso foi banido pelo Tratado de não proliferação de armas nucleares (1968) e, no tratado de Moscou (1963), houve até mesmo o esforço de eliminar a possibilidade de se realizar testes com bombas atômicas”. 

Carlo Patti: “Do ponto de vista militar e estratégico, é improvável que as armas nucleares sejam banidas” | Foto: Reprodução / UFG

Outros tratados, como o de Interdição Completa de Ensaios Nucleares (1996) e o de Proibição das Armas Nucleares (2017) foram celebrados, mas não ratificados pelas principais potências nucleares do planeta. “Há iniciativa de banir as armas, mas, do ponto de vista militar e estratégico, é improvável que isso aconteça. O que existe é o consenso tácito de non first use, quer dizer, de utilizar as armas de forma exclusivamente defensiva; apenas para responder a um ataque”.

Apesar do entendimento comum que manter artefatos que podem eliminar a vida humana na Terra é uma ideia obviamente ruim, Carlo Patti analisa o cenário de 2006 para cá com preocupação. “O que está havendo com a Coreia do Norte é preocupante. Os Estados Unidos recuaram de diversos tratados e, mesmo durante a administração Obama, que contava com esperanças iniciais que lhe renderam o Nobel, houve modernização do arsenal. Mesmo que o número de ogivas seja relativamente baixo, os engenhos estão sempre mais poderosos, alcançando maiores distâncias mais rapidamente, com menor possibilidade de detecção. No longo prazo, é improvável vislumbrar renúncia das armas ou pensar que novos países se absterão de consegui-las”, afirma o professor.

Fernando Pelegrini é doutor em Física pela Universidade de Sheffield, Inglaterra, e iniciou a carreira acadêmica na Universidade Federal de Goiás em 1976. Há anos o físico realiza debates sobre o uso bélico da energia nuclear. Ele afirma que a principal obstáculo para que um país consiga suas armas nucleares é o enriquecimento de urânio ou plutônio. 

A tecnologia para enriquecimento de material radioativo com fins pacíficos é praticamente idêntica àquela de fins bélicos. A ordem de grandeza de material necessário, entretanto, é bastante diferente. “Em 2006, o Brasil desenvolveu uma das melhores ultracentrífugas para enriquecimento de urânio do mundo, em Resende, estado do Rio de Janeiro. Houve o projeto de construção do submarino nuclear brasileiro, em 2018. Na época, um artigo publicado pela Science estimou que, com esta tecnologia, teríamos a capacidade de produzir uma bomba atômica por mês”.

De volta ao Japão

Carlo Patti afirma que, na ocasião do lançamento das bombas, não havia a consciência dos efeitos da radiação, ou os conceitos de armas de destruição em massa debatidos hoje. O pesquisador diz: “Não se sabia ao menos se a arma ia funcionar. A cidade alemã de Dresden foi destruída por milhares de bombas tradicionais pelos britânicos – o resultado final não foi diferente: uma pilha de escombros e uma cifra de mortos que varia de 25 a 250 mil. O que justifica a importância das bombas atômicas é a inovação tecnológica.” 

Se o resultado podia ser obtido de forma mais confiável com bombas tradicionais, por que explorar esta nova forma de destruição em massa? Carlos Patti explica: “Acredita-se que a resistência na Ásia não teria sido tão curta caso a bomba não fosse disparada.” O historiador inglês Max Hastings registra em seu livro “Inferno: O Mundo em Guerra — 1939-1945” (Editora Intrínseca, tradução de Berilo Vargas) que na guerra contra os soviéticos, soldados japoneses “lutaram até o último homem, sustentando a resistência por 10 dias depois do término oficial da guerra.” Os japoneses derrotaram 12 mil soviéticos, mas perderam mais de 250 mil soldados (mais que a soma dos mortos em Hiroshima e Nagasaki).

Segundo Hal Marcovitz em seu livro “The Making of the Atomic Bomb” (sem tradução para o português), também contaram na decisão a demonstração de força à URSS e a sinalização de que o arsenal contava com mais de um artefato nuclear. Um erro de cálculos dos japoneses teria os levado a acreditar que os Estados Unidos possuiam apenas uma ogiva e que esta fora gasta em Hiroshima.

Fernando Pelegrini lembra que a energia nuclear salvou milhões de vidas | Foto: Reprodução / UFG

Estudos recentes revelam que a decisão não foi unânime entre militares americanos, mas a sentença foi dada por Harry Truman, que havia começado a presidir após a morte de Franklin Roosevelt emabril de 1945. “Roosevelt era quem tinha dado luz verde e sabia do projeto. Quando Truman assumiu, ele foi surpreendido com o projeto concluído e testemunhou o primeiro teste nuclear (Trinity, no deserto do Novo México) apenas três meses após ser empossado”, explica Carlo Patti.

J. Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan, responsável por conceber a bomba, expressou profundo arrependimento ao presidente americano após as detonações. Oppenheimer disse: “Senhor presidente, tenho a sensação de ter as mãos manchadas de sangue”, ao que o presidente americano teria respondido: “Quem tem as mãos manchadas de sangue sou eu – deixe que me preocupe com isto”.

Oppenheimer encontrou alívio no hinduísmo. Em uma das mais conhecidas entrevistas da história, o cientista afirmou à BBC de Londres: “Lembrei-me do trecho das escrituras hindus, o Bhagavad Gita: Vishnu está tentando convencer o príncipe de que ele deveria cumprir seu dever e, para impressioná-lo, assume sua forma de vários braços e diz: ‘Agora eu me tornei a morte, o destruidor de mundos’. Suponho que todos pensamos assim, de um jeito ou de outro”. Governos, entretanto, não passaram pelo mesmo processo de mea culpa.

O conhecimento proibido

Sobre as fronteiras éticas da exploração científica, Fernando Pelegrini afirma: 

“O processo teorizar e demonstrar a reação em cadeia, e depois a produção de reatores para enriquecer o urânio, tudo isso foram feitos magníficos do ponto de vista da física. Na França existem reatores que operam há 50 anos sem problema nenhum. A energia nuclear é uma fonte muito menos poluente que a termoelétrica. Ainda hoje, na Inglaterra há trens movidos a carvão que geram uma quantidade enorme de gases de efeito estufa.”

“Além da fonte de energia limpa, deve-se considerar as aplicações biomédicas, por exemplo, que salvaram milhões de pessoas em radioterapias contra câncer. Do outro lado temos a bomba. Mesmo assim, considere que a guerra teria se arrastado por mais tempo sem ela. Entre 129 a 226 mil japoneses morreram pelas bombas, mas quantos mais teriam morrido com o continuar da guerra? Em um exército com quatro milhões de soldados, estima-se que pelo menos um quarto. Nada disso tem respostas simples”, conclui Fernando Pelegrini.

Em seus ensaios, o matemático inglês-polonês Jacob Bronowski tenta resolver a questão com uma dicotomia entre a ciência e a tecnologia. Segundo seus textos, enquanto o conhecimento é um direito universal e a exploração uma necessidade natural humana, a tecnologia tem dono, é uma ferramenta e seus fins são determinados politicamente. Desta forma, enquanto a ciência não tem de que se envergonhar, mesmo sobre as cinzas de Hiroshima e Nagasaki, a sociedade que propiciou a construção da bomba, tem.

Entrevista com um sobrevivente da bomba, por Iúri Rincon Godinho

Iúri Rincon Godinho, especial para o Jornal Opção

Sobrevivente da bomba de Hiroshima vive e trabalha em sua mercearia em São Paulo | Foto: Iúri Rincon Godinho / Jornal Opção

Encontrei o livro de Takashi Morita por acaso em uma livraria em Goiânia. Um morador de São Paulo que sobreviveu à bomba atômica de Hiroshima. Uma história boa demais e próxima demais. Feitos os contatos, sua filha topou nos receber. 

Na sua mercearia tipicamente dos descendentes japoneses que moram em São Paulo, esperamos seu Morita, que estava dormindo. Não demora e ele aparece, animado, mais de 90 anos e subindo as escadas como um menino. O japonês baixo e de gestos contidos sorri e faz uma reverência quando nos apresentamos. 

Com a ajuda da filha traduzindo algumas expressões japonesas, seu Morita fala animado do que viu e viveu. Na saída, nos dá de presente um spinner, um brinquedo giratório de criança também usado para aliviar o stress. Mas o maior presente, claro, é esta história.

Por que o senhor foi para Hiroshima?

Uma semana antes daquele dia (6 de agosto de 1945) eu estava em Tóquio, na escola de polícia militar. Lá havia muitas bombas americanas caindo – bombas incendiárias. O trabalho era prestar assistência à população civil. Eu queria ir para Hiroshima, minha cidade, onde nasci. Na época, havia bastante emprego porque os trabalhadores haviam morrido e as cidades estavam todas estragadas, queimadas. Eu fui à Hiroshima de trem e, chegando lá, fiquei impressionado porque a cidade estava intacta. “Por que esses americanos gostam de Hiroshima? Guardaram a cidade, nenhuma bomba caiu por aqui”, eu pensei. 

O senhor se lembra de tudo nitidamente? Ainda sonha com Hiroshima?

Takashi Morita publicou suas memórias em livro | Foto: Jornal Opção / Iúri Rincon Godinho

Tenho tudo guardado na memória, mas não sonho, não. Naquele dia, 6 de agosto, o tempo estava bom e escutamos bombas caindo em um local próximo de Hiroshima. Eu trabalhava no quarto andar do prédio de uma entidade religiosa que o exército havia confiscado para servir de alojamento. Ao contrário da maioria das construções da cidade, o antigo templo não era um templo de madeira, que por ser mais flexível é o material favorito para resistir a terremotos, mas sim de concreto. Quando ouvi o barulho, eu saí do escritório e fui ver do que se tratava. 

A onda de choque da bomba me arremessou em uma mata próxima, numa montanha. Quando me recuperei, voltei ao prédio e fiquei surpreso de ver que era um dos pouquíssimos que se mantinha de pé e que não pegou fogo. Eu passei este dia inteiro socorrendo as pessoas. Nunca me esqueço. As pessoas estavam todas queimadas. Muitas crianças. As levamos para dentro do templo.

Como era o ânimo no Japão? A população estava amedrontada? E depois? Americanos vieram para reconstruir o país?

Na cidade, morreram muitas pessoas e animais, e por isso nasceram milhões de moscas. Se você andava pela cidade, uma nuvem de moscas te seguia. Sabe o que os americanos fizeram? Passaram de avião jogando DDT e todas as moscas morreram. Nós dissemos “Nossa. Que poderio eles têm…”

Quando terminou a guerra, se dizia que quem sofreu a radiação da bomba atômica teria apenas mais dois anos de vida. Eu me casei no ano seguinte à detonação. Não liguei para isso porque me lembro que diziam que na cidade não nasceria um capim por 70 anos, e no final daquele mesmo ano, tudo nasceu de novo. A explicação que deram é de que os tufões levaram a radiação embora.

“Eu não pensava ‘perdemos a guerra’, eu pensava ‘é mais vantajoso terminar’”| Foto: Jornal Opção / Iúri Rincon Godinho

Encontrei boa esposa, me casei, depois abri uma loja na mesma cidade de Hiroshima. Trabalhei bastante. Tive filhos. Onze anos depois, minha vida havia melhorado bastante e me mudei para o Brasil. 

Os americanos montaram um centro de estudos e todos os sobreviventes eram convidados para fazer exames. Mas os resultados eram todos levados para os Estados Unidos e não ouvíamos mais falar neles, o que nos deixava nos sentindo como cobaias. Mas ao mesmo tempo, alimentos e auxílio eram  trazidos. Hoje o Japão é um grande aliado dos Estados Unidos e os jovens japoneses atuais nem conseguem imaginar que os países já guerrearam.

Durante a guerra, o governo japonês pintava os americanos como o diabo, diziam que as mulheres japonesas seriam “atacadas” caso nosso território fosse ocupado, e isso incentivou até os suicídios quando perdemos, por medo da população ter de se submeter a isso. O Japão dizia que lutaria até o último homem, mas as bombas acabaram com a guerra. 

Como foi ouvir o pronunciamento de rendição do imperador no rádio?

Toda casa tinha uma foto do imperador Hirohito. Muita gente não acreditou quando o ouviu. Todo mundo machucado pela bomba atômica na cidade estava em uma escola improvisada como hospital (porque o hospital havia sido destruído) – todo mundo escutou o rádio junto e todo mundo se assustou. Ficamos calados nos olhando. 

Tinha outra base militar próxima de Hiroshima chamada Otake, e o pessoal de lá não acreditou que a bomba existiu. Eles foram até o hospital onde estávamos e disseram que aquilo era uma farsa – uma emboscada dos judeus para nos fazer desistir, e que não era para acreditar no pronunciamento do imperador porque a guerra ainda estava continuando. 

Na mesma noite do pronunciamento, mesmo com energia, deixávamos tudo escuro. Não que a energia tenha acabado, não, mas nós precisávamos apagar todas as luzes para aviões americanos não nos perceberem durante a noite. A guerra acabou, eu dizia no escuro e acendia as luzes. Até o emocional fica mais claro sob a luz. Eu não pensava “perdemos a guerra”, eu pensava “é mais vantajoso terminar”. Estávamos muito cansados. 

Qualquer militar falando em desistência, ninguém acreditaria; mas como foi o Imperador Hirohito – se falou, está falado. Todo mundo chorou ouvindo o rádio, mas ao mesmo tempo sentimos muito alívio. Lutamos tanto para conseguir e não conseguimos, mas sentimos alívio porque agora continuaria a vida. 

Quando melhorei um pouco, logo saí do hospital e – pai e mãe na cara. Eles ficaram preocupados comigo. Precisávamos retomar. Ir para casa. Eu peguei a espada que todos os oficiais tinham e, no caminho da casa de meus pais, entrei em um matagal e comecei a extravasar nas plantas – “Rá! Iáá!”

E sobre a ocupação japonesa em outros países, como a Coreia e a Manchúria?

O Japão via muito mal a colonização da Inglaterra e França. Se dizia que eles só sugavam o que tínhamos de bom. Mas a ocupação do Japão ajudaria a população e a Ásia. O japão argumentava isso – vamos para ajudar a população. Além disso, se a Europa pode colonizar, por que nós não? 

O que aconteceu na reconstrução após a bomba?

Todo mundo estava no mesmo barco. Quando tem catástrofe, o Japão é um dos países que mais se organizam. Lógico que as cidades tiveram mais tarde problemas de saúde por causa da radiação. Aí a opinião pública mundial começou a olhar de forma diferente. Quando terminou a guerra, éramos todos sobreviventes de guerra. Mas Hiroshima e Nagasaki mais tarde ficaram conhecidas como “vítimas da radiação”. Doze anos depois eu já estava no Brasil, mas as pessoas lá ainda tinham problemas: não conseguiam se casar porque, quando uma pessoa fala que vem de Hiroshima, havia muita discriminação. Nós paramos de falar nisso, o que aumentou até o número de suicídios.

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