Entrevista exclusiva com diretor goiano da Anvisa

Rômison Mota falou sobre sua trajetória profissional, a aprovação do uso emergencial das vacinas, e a valorização da ciência no Brasil 

“Acredito que a pandemia tenha contribuído para reduzir a distância entre a sociedade e as pesquisas científicas, o que leva a uma maior valorização do conhecimento em nosso país”, diz Rômison Mota | Foto: Reprodução / Anvisa

Rômison Mota é anapolino e atualmente trabalha supervisionando as áreas subordinadas à Quarta Diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O economista, que se graduou pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), acumula 15 anos de experiência na iniciativa privada, além de outros 15 anos no setor público, sempre atuando na área de gestão administrativa, financeira e orçamentária. No dia 17 de janeiro, o diretor substituto da Quarta Diretoria da Anvisa votou pela aprovação do uso emergencial das vacinas de Oxford/AstraZeneca e CoronaVac.

Em entrevista ao Jornal Opção, Rômison Mota explica sua trajetória profissional, os critérios seguidos para aprovação do uso emergencial das vacinas, a divulgação da ciência e a valorização do conhecimento no Brasil. 

Italo Wolff: O senhor nasceu em Goiás? Chegou a trabalhar no estado após sua graduação na UEG? Ainda tem ligações com o estado? 

Romison Mota: Sim. Sou Goiano de Anápolis. Nasci, cresci e trabalhei em Anápolis até 2005 quando vim para Brasília trabalhar na Anvisa, na qual ingressei por meio de concurso público de provas, títulos e curso de formação. Em Anápolis iniciei minha vida profissional aos 16 anos, em 1989, quando ingressei no então Grupo Coplaven, local onde tive oportunidade de ter uma excelente iniciação profissional, em uma empresa moderna e que estava à frente do seu tempo. Em 1995 ingressei no Grupo Nasa, incialmente em Goiânia. Em 1996 fui transferido para a Nasa Veículos em  Anápolis. No Grupo Nasa tive oportunidade de reconhecimento e crescimento profissional,  sempre na área de gestão administrativa e financeira. Quando ingressei no grupo Nasa já cursava o primeiro ano da graduação em Ciências Econômicas na UEG. Quando concluí a graduação, a empresa me proporcionou a primeira pós-graduação a nível de especialização em gestão financeira, cursada na Faculdades Alves Faria em Goiânia.     

Por que se interessou pelo trabalho na Anvisa? Como foi a trajetória de funcionário da agência até um cargo de diretoria? 

Inicialmente, por influência da minha esposa Helenita e minha irmã Rosilene,  me interessei em ingressar no serviço público. Ingressar na Anvisa foi uma feliz coincidência por haver um concurso aberto em 2004, ano em que me dediquei a estudos com essa intenção. Fui aprovado no concurso público para a vaga de Analista Administrativo na especialidade Economia. De 2005 até 2011 atuei na Gerência de Orçamento e Finanças, executando atividades relativas à execução orçamentária e financeira. Em 2011 assumi a Gerência da mesma área. Em 2015 assumi o cargo de Gerente-Geral de Gestão Administrativa e Financeira, após ser selecionado em processo seletivo público que contou com a participação de 44 inscritos. Essa Gerência-Geral é responsável pela supervisão das áreas de Orçamento e Finanças, Arrecadação, Contratos e Parcerias, Licitações Públicas, Logística e Contabilidade e Custos. Em abril de 2020 fui designado por meio de Decreto Presidencial para compor a lista de substitutos de Diretores da Agência, nos termos do artigo 10 da Lei 9.986/2000, tendo assumido no período de maio de 2020 a novembro de 2020 a supervisão da Terceira Diretoria da Agência. Desde dezembro de 2020 supervisiono a Quarta Diretoria.  

Fachada do edifício sede da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) | Foto: Reprodução / EBC

Quais atribuições e responsabilidades o senhor tem na Quarta Diretoria?  

A Anvisa é dirigida por uma Diretoria Colegiada, composta por cinco diretores, sendo um deles o Diretor-Presidente. As decisões da Agência são tomadas por esse colegiado. A Quarta Diretoria da Agência supervisiona diretamente a Gerência-Geral de Inspeção e Fiscalização Sanitária, a Gerência de Laboratórios de Saúde Pública e a Coordenação de Análise e Julgamento de Infrações Sanitárias. Além da supervisão direta das áreas subordinadas à Diretoria, os Diretores da  Agência têm atribuições comuns. 

No dia 17 de janeiro o senhor votou pela aprovação do uso emergencial das vacinas de Oxford/AstraZeneca e CoronaVac. Quais critérios verificou antes de seguir o voto da relatora e das três áreas técnicas da agência? 

Para aprovação do uso emergencial das referidas vacinas, considerei que os aspectos de qualidade, eficácia e segurança dessas vacinas contra a Covid-19 foram analisados de forma minuciosa e seguindo rigorosamente os critérios científicos e as normativas da Agência que tratam do tema (RDC nº 444/2020 e Guia nº 42/2020), além de todos os guias internacionais relevantes, como os da Organização Mundial de Saúde (OMS), da Agência norte-americana (FDA) e da Agência europeia (EMA). Tais análises permitiram o estabelecimento da relação de risco-benefício para essas vacinas, considerando todas as suas particularidades e, principalmente, o cenário de nosso país. Particularmente quanto aos aspectos relacionados à Quarta Diretoria, a análise da documentação apresentada pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz, nas solicitações de autorização temporária de uso emergencial, em caráter experimental, aliada aos resultados das inspeções realizadas, permitiram concluir pelo cumprimento das Boas Práticas de Fabricação pelos sítios fabris responsáveis pelas etapas produtivas das vacinas objeto dos pleitos. Outro aspecto importante que considerei foi que todos os lotes das vacinas Covid-19 a serem utilizados no Brasil serão liberados pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), conforme as especificações aprovadas pela Agência nas autorizações concedidas. Mais detalhes sobre a minha avaliação podem ser consultados aqui. Ademais, todos os aspectos técnicos referentes à aprovação do uso emergencial das vacinas de Oxford e Coronavac podem ser consultados pelo público.  

A divulgação científica tem ganhado espaço no debate público, mas o negacionismo e teorias da conspiração também. Em seu ponto de vista, qual o estado da valorização do conhecimento no Brasil atual?  

O conhecimento é dinâmico e está em constante mutação. Atualmente, com a pandemia que o mundo atravessa, o conhecimento ganhou espaço como fonte de informação relevante para superação das crises de saúde pública e econômico-social. E, para aprimoramento do conhecimento, as pesquisas científicas têm um grande valor. Através delas, podem-se descobrir curas para doenças, desenvolver tecnologias novas que ajudam no crescimento do país, auxiliar a solucionar problemas que prejudicam a população e contribuir na melhor qualidade de vida da sociedade. No Brasil, ainda existe muita falta de conhecimento das pessoas sobre os trabalhos científicos desenvolvidos, principalmente nas universidades, o que faz com que os impactos gerados por essas pesquisas não sejam de conhecimento da população. Mas acredito que a pandemia tenha contribuído para reduzir essa distância entre a sociedade e as pesquisas científicas, o que leva a uma maior valorização do conhecimento em nosso país. O Brasil, que se encontra na posição econômica de país emergente, depende significativamente de pesquisas e inovações tecnológicas para alcançar o status de nação desenvolvida. Portanto, essa valorização do conhecimento é de grande importância para o avanço econômico.   

Em comparação com tempos pré-pandemia, o senhor percebe mudança no prestígio de instituições científicas no Brasil? Nota que a credibilidade da Anvisa foi de alguma forma abalada nos últimos meses?  

Sim, acredito que a sociedade esteja valorizando mais as instituições científicas. Afinal, são delas que obtemos as informações com credibilidade para enfrentamento à pandemia. Cada vez mais, as pessoas buscam informações científicas para que possam se proteger e enfrentar o momento em que vivemos. Vejo que a credibilidade da Anvisa cresceu com todas as ações adotadas para o enfrentamento à pandemia. A Agência tem trabalhado de forma célere, técnica e transparente para contribuir com o país, de forma a proteger e promover a saúde da população. Posso dizer que a atuação da Anvisa não deixa nada a desejar em relação às mais relevantes autoridades sanitárias do mundo, como a norte-americana (FDA) e a europeia (EMA). Nunca a Anvisa teve tanto espaço na mídia, o que permite que o cidadão brasileiro conheça o nosso trabalho e confie no importante papel desempenhado pela Vigilância Sanitária.   

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.