Oficialmente, houve apenas 13 mortes por Covid ao longo de dezembro. No entanto, a China tem critérios limitados para confirmar mortes por Covid-19, que incluem apenas aqueles que morrem diretamente de doenças respiratórias causadas pelo coronavírus, e não mortes causadas por seus efeitos indiretos.

O método de contagem não corresponde à orientação da OMS e resulta em um número muito abaixo do número de mortos em muitos outros países. A China já interrompeu os testes em massa e está registrando apenas casos positivos em hospitais e clínicas onde o paciente apresenta sintomas de Covid. Casos assintomáticos e resultados positivos de kits de testes caseiros não são registrados.

Atualmente, a contagem oficial registra apenas cerca de 5.000 casos por dia. Na realidade, 37 milhões de pessoas podem ter sido infectadas pelo SARS-CoV-2 apenas no dia 23 de dezembro. O dado foi divulgado pelo site norte-americano Bloomberg News, que vazou estimativas internas da agência de saúde do governo chinês, a Comissão Nacional de Saúde de China. Segundo o relatório obtido pela Bloomberg, cerca de 248 milhões de pessoas (quase 18% da população do país) provavelmente contraíram o vírus nos primeiros 20 dias de dezembro.

A empresa de pesquisa Airfinity, sediada no Reino Unido, disse que seu modelo estima que os casos na China possam chegar a mais de três milhões por dia em janeiro. Apesar dos números oficiais serem baixos, a Organização Mundial da Saúde alertou que o sistema de saúde na China pode estar sob forte pressão. A Reuters informou que os hospitais chineses ficaram sobrecarregados durante o período de Natal, com imagens mostrando longas filas para clínicas e pacientes em leitos hospitalares no meio de salas de espera movimentadas.

Vídeos surgiram nas redes sociais ao longo de dezembro, parecendo mostrar hospitais lotados. Ao cruzar referências com outras imagens postadas online, a BBC conseguiu verificar dois vídeos de superlotação em um hospital infantil na cidade de Tianjin, no norte da China. Veja o vídeo:

Jornalistas da imprensa ocidental em Pequim relatam longas filas fora das clínicas de saúde e alta demanda por remédios para febre nas farmácias. Centros de saúde temporários estão sendo criados junto com instalações de terapia intensiva em todo o país. A emissora nacional CCTV informou que o Hospital Chaoyang de Pequim aumentará sua capacidade à medida que o número de pacientes internados quadruplicar. Também foi relatado que em Xangai foram disponibilizados 230.000 leitos hospitalares extras.

A política de Covid da China mudou

Houve um levantamento repentino de muitas das restrições da Covid na China após os protestos de novembro contra as medidas de contenção. A política de tolerância zero ou de Covid-zero, como era conhecida, incluía bloqueios rígidos, mesmo que apenas alguns casos de Covid tivessem sido encontrados, testes em massa em locais onde os casos foram relatados e pacientes tendo que se isolar em casa ou em instalações do governo.

Os bloqueios foram cancelados e as regras de quarentena foram abolidas. Já não é necessário um teste Covid negativo para entrar em transportes públicos, restaurantes, ginásios e outros edifícios públicos (com exceção de orfanatos e lares de idosos). As autoridades chinesas também disseram que abrirão totalmente as fronteiras a partir de 8 de janeiro, sem restrições de viagem ou medidas de quarentena para chegadas.

Imunização na China

O governo da China diz que mais de 90% da população foi vacinada. No entanto, menos da metade das pessoas com 80 anos ou mais receberam três doses dos imunizantes. A taxa vacinal nessa faixa etária era de apenas 20% até abril de 2022. As autoridades dizem agora que exigirão que os serviços de saúde locais reforcem a imunização de toda a população, em particular dos idosos.

Há dúvidas se as principais vacinas usadas na China – Sinovac e Sinopharm – são eficazes contra a Omicron, a cepa mais difundida. Enquanto a China se recusou a usar amplamente as vacinas ocidentais, o governo não deu nenhuma justificativa oficial. 

O Brasil registrou aumento de 80% no número de casos e mortes pela doença nas últimas semanas. Mas, tendo recebido mais de 4,5 milhões de doses das vacinas bivalentes BA1, mais eficazes em conter a propagação da Omicron, o país pode estar em posição mais confortável do que a China – isto é, se as pessoas forem convencidas a se vacinar. 

Segundo o epidemiologista Ben Cowling, que leciona na University of Hong Kong, em entrevista à agência de notícias pública dos Estados Unidos NPR, o vírus está se espalhando mais rápido na China do que em qualquer outro lugar durante a pandemia. 

Para estimar a transmissibilidade de um vírus, os cientistas costumam usar um parâmetro chamado número reprodutivo ou número R, que indica, em média, quantas pessoas cada doente infecta. Assim, por exemplo, no início da pandemia de COVID, no início de 2020, o número R era cerca de 2 ou 3, diz Cowling. Naquela época, cada pessoa espalhava o vírus para 2 a 3 pessoas em média. Cientistas da Comissão Nacional de Saúde da China estimam que o número R seja atualmente de 16. 

Além disso, o vírus parece estar se espalhando mais rapidamente na China do que o omicron se espalhou em surtos em outros lugares. No pior momento da pandemia no Brasil, os casos dobraram a cada quatro dias. Agora, na China, o tempo de duplicação é de horas. Mesmo se você conseguir desacelerar um pouco, ainda vai dobrar muito, muito rapidamente. E, portanto, os hospitais ficarão sob pressão, possivelmente até o final deste mês, afirmou Cowling.