Empresários apontam o que não pode faltar em um plano de governo

Como se estruturam propostas exequíveis para apresentar à população na hora da campanha? Escutando várias opiniões, diriam alguns. Se for assim, sete empresários palpitam a respeito do assunto

Pedro Alves, da Fieg, e Helenir Queiroz, da Acieg: redução do custo Brasil é uma das soluções para o País | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Pedro Alves, da Fieg, e Helenir Queiroz, da Acieg: redução do custo Brasil é uma das soluções para o País | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro

O Brasil é como uma em­presa que pegou todo o seu dinheiro e não investiu em nada. Não aplicou seus recursos na produção, negligenciou os negócios e as vendas. Para onde foram todos os recursos? Foi parar tudo na folha de pagamento e nas despesas correntes. Ou seja, o Brasil trabalha para pagar o almoço. Isso é bom? De jeito nenhum.

Essa é a visão de grande parte dos sete empresários ouvidos pelo Jornal Opção, que foi perguntar-lhes: o que não pode faltar no plano de governo de um candidato à Presidência da República ou ao governo do Estado de Goiás? Foram procurados empresários da indústria, do comércio, do setor de serviços e da construção civil, assim como do agronegócio. Mas as respostas foram todas semelhantes, sempre girando em torno dos temas mais comuns, como infraestrutura –– energia, sobretudo em se tratando de Goiás ––, investimentos e diminuição da carga tributária.

Empresário da construção civil e presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi), Ilésio Inácio Ferreira ressalta a questão da energia elétrica. Ele diz: “A falta da infraestrutura realmente preocupa o empresário na hora de investir e, às vezes, inviabiliza. Esperamos, por exemplo, que não falte energia para a instalação de investimentos, sejam eles quais forem. O que pode ser feito? Planejar. Sem planejamento, não se faz nada.”

Porém, outros pontos foram citados e é importante que os pré-candidatos fiquem atentos às dicas dadas e estudem bem os temas antes de apresentá-los à população durante as campanhas eleitorais. Comecemos pelo pensamento apresentado pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Pedro Alves.

De forma geral, seu pensamento sobre os temas a serem levados em consideração pelos próximos governantes –– tanto presidente da República quanto o governador –– se resume em quatro pontos: desenvolvimento de forma sustentada; redução da pobreza e da desigualdade; preservação da sustentabilidade ambiental; e garantia da diversificação e transformação da estrutura produtiva. Mas como alcançar tais objetivos? O presidente, Pedro Alves, que viajou à Ásia recentemente, cita alguns exemplos de como tornar as empresas brasileiras melhores.

Ele conta que foi à Coreia do Sul e ao Japão convidando empresas para se instalar em Goiás. E a resposta foi a seguinte: “Deus é brasileiro”. Os asiáticos disseram isso devido às riquezas, clima, bacias hídricas e demais recursos naturais dos quais o Brasil dispõe. “Contudo”, continuaram eles, “vocês também precisam lidar com algumas dificuldades: 1) Sério problema trabalhista, que traz insegurança para as empresas; 2) Alta tributação 3) Burocracia; 4) Questões ambientais, pois o setor cria muitos problemas; e, por último, particularmente em Goiás, existe o problema da energia elétrica”. Segundo Alves, ele ainda ouviu alegações de que um país continental como o Brasil não poderia sofrer com problemas de infraestrutura co­mo acontece atualmente. “Os investidores do mundo acompanham o Brasil. Somos o país das maravilhas, mas também cheio de entraves criado pelo próprio sistema”, conclui o presidente da Fieg.

A história contada por Alves retrata uma realidade que o Brasil ainda precisa viver no que concerne à educação. Os países asiáticos, geralmente, fazem investimento pesados em educação. Principal­mente Coreia do Sul, Japão e China, três dos países mais desenvolvidos economicamente no mundo atual. Por isso, Alves defende que os candidatos tanto ao governo quanto à Presidência devem focar grande parte de seus esforços em educação. “Temos que saber que qualquer país para se desenvolver e aumentar a qualidade de vida precisa passar pela educação. Não pode ficar só no discurso. O filho do trabalhador precisa ter, no mínimo, escola de tempo integral. No ensino médio, o aluno já precisa ter um ensino técnico-profissional. Isso facilita empregar essas pessoas, além do que faz com que cerceemos os desvios de conduta”, relata.

Custo Brasil

Não apenas na visão da Fieg, para criar um ambiente de negócios favorável e incrementar a competitividade do parque industrial brasileiro é necessário reduzir o chamado custo Brasil. Isso significa: simplificar o sistema de arrecadação, uma vez que a estimativa é de que no Brasil existam mais de 300 mil normas tributárias; melhorar a infraestrutura; simplificar a legislação trabalhista; prover segurança jurídica; reduzir o excesso de burocracia, o custo do capital de giro e investimentos e o peso do custo da administração pública sobre o setor industrial.

Por quê? Quem explica é a pre­sidente da Associação Comer­cial, Industrial e de Serviços de Goiás (Acieg), Helenir Queiroz. “No Brasil é tudo muito caro. Quando se vai para o exterior, fica-se chocado. E não são apenas os impostos. Tudo está embutido no preço.” Helenir, que recebeu a reportagem em seu escritório, no Setor Oeste, conta que no carnaval colecionou quatro projetos de lei que, se aprovados, influenciarão diretamente os preços dos produtos brasileiros. “Um deles tramita no Senado. Trata-se de um projeto que dá gratuidade no pedágio a pessoas com algum tipo de deficiência. Certo. A intenção é muito boa, mas quem irá pagar a despesa desses motoristas? Os outros motoristas. É como as passagens de ônibus. Quem paga as passagens de quem tem passe livre, ou paga meia? Os outros passageiros que compram a passagem inteira. Ou seja, por que temos tantos impostos para pagar os benefícios sociais e ainda há oneração embutida nos produtos para pagar os mesmos benefícios?”, pergunta.

Para ela, esse custo Brasil é o motivo para que os produtos brasileiros não sejam competitivos nem no país, pois “quando os produtos estrangeiros entram, ganham dos nossos”. Solução, segundo ela: “Investir em infraestrutura e logística. Nossa internet está entre as mais lentas e caras do mundo. E é cara pelo mesmo motivo que a energia, a telefonia e o restante são caros. Por outro lado, nós empresários precisamos investir em produtividade. Essa é a nossa parte, pois a produtividade é baixa em todos os setores: construção civil, comércio, indústria, serviços, etc. Precisamos nos reinventar. Exemplo: um hotel no Brasil de 200 reais é relativamente barato. Um hotel de 100 dólares nos EUA, com a exceção de lugares como Nova York ou San Francisco, já é de médio porte. E ele lucra mais do que o hotel brasileiro. Lá eles acharam um jeito de reduzir custos e otimizar mais. Precisamos achar um meio de reduzir os custos e parar de embutir custos no preço final”, declara.

Quando questionada sobre uma forma de reduzir os custos e oneração do preço final dos produtos, Helenir é direta: “É muito simples. Basta simplificar o jeito de cobrar. Revogam-se todas as normas existentes e cria-se apenas uma nova. A Receita Federal faz isso todos os anos e é um exemplo de eficiência no país. Agora, saem todos os meses, cerca de 700 mudanças tributárias no Brasil. Ou seja, todos os dias alguma delas está sendo descumprida e o empresário nem sequer sabe”.

 

Sem BNDES, empresas de transporte pesado têm sofrido com falta de crédito
artigo_jose maria e silva.qxd

William O’Dwyer: “Situação atual pode culminar em surpresas desagradáveis no ano que vem”

Dono da Anadiesel, concessionária Mercedes-Benz de veículos pesados em Goiás e Tocantins, William O’Dwyer é outro empresário a reclamar do sistema tributário brasileiro. Porém, ele ressalta que existe outro problema atualmente no país e que irá afetar a economia em larga escala: a falta de liberação de crédito por parte do Banco Nacional do Desen­volvimento (BNDES).

Segundo ele, o último quadrimestre de 2013 foi um pouco melhor que o restante do ano. Contudo, tem sentido certas complicações neste primeiro trimestre. E ele está certo. Nos últimos quatro meses de 2013, a economia deu uma leve recuperada, mas cresceu muito aquém do esperado devido à queda de 3,5% da produção industrial, que se arrastou para o primeiro trimestre desde ano, sobretudo no setor de bens de capital. A produção de caminhões, por exemplo, sofreu bastante.

Por isso, O’Dwyer sentiu as consequências em sua empresa, que tem sede em Anápolis. Ele diz: “O fim do ano foi melhor que o restante, mas ainda muito aquém do que vivemos nos anos de 2011 e 2012. E agora estamos sentindo muitas dificuldades neste primeiro trimestre, especialmente no que diz respeito a financiamento. Há uma demora enorme na liberação dos créditos por parte do BNDES. São créditos que já foram aprovados, mas que não são liberados. Isso nos impede de entregar os produtos já vendidos.”

Segundo ele, no pátio da concessionária há pelo menos 100 caminhões vendidos esperando a liberação de crédito para serem entregues aos clientes. “Es­pe­ramos que a partir de julho, por conta do aspecto eleitoral, tenhamos uma flexibilização nesse sentido. Até lá, ficamos sem grandes perspectivas”, fala o empresário dizendo estranhar tal demora, uma vez que “no passado a liberação era feita em trinta dias, no máximo”. Quando questionado sobre os possíveis motivos da demora na liberação do crédito, o anapolino responde:

“É muito difícil precisar. Eles dizem que o dinheiro agora está indo para o Porto de Cuba, ou nas operações do Eike Batista. Quando não, jogam a culpa na alta do dólar, no endividamento interno, etc. Ou seja, há muitas especulações a respeito de para onde está indo o dinheiro do BNDES. Agora, uma coisa é certa: essa situação pode, no caso dos empresários de veículos pesados, culminar em surpresas desagradáveis no ano que vem.”

 

Dez temas que os próximos governantes precisam olhar com afinco
Paulo Afonso Ferreira: CNI está produzindo um relatório com sugestões para os candidatos ao governo

Paulo Afonso Ferreira: CNI está produzindo um relatório com sugestões para os candidatos ao governo

Empresário, ex-presidente da Fieg e diretor-secretário da Con­fe­de­ração Nacional da Indústria (CNI), Paulo Afonso Ferreira diz que a CNI está preparando um relatório para entregar aos presidenciáveis. Segundo ele, porém, grande parte dos temas que compõem o do­cumento pode ser analisada profundamente pelos candidatos ao governo de Goiás. O documento ain­da não está pronto, mas Paulo re­sume as necessidades do País e do es­tado em dez temas com as quais os próximos governantes precisarão atentar:

1) Ambiente macroeconômico, em que é necessária uma melhoria na gestão fiscal brasileira –– que é complicada. “Estamos sempre lidando com mudanças fiscais, logo não temos estabilidade macroeconômica. É preciso, por exemplo, estimular os investimentos. O Brasil é um dos poucos países no mundo em que se paga imposto para investir, o que é absurdo”, diz Paulo.

2) Eficiência do Estado. Para ele, não há eficiência no gasto público. Assim, enquanto as empresas brasileiras fizeram um investimento forte no aprimoramento da gestão empresarial –– até porque se não fizessem seriam engolidas pelo mercado ––, o Estado continua sem se renovar e sem competitividade, uma vez que é a sociedade que o mantém. “Os candidatos precisam ter essa questão como prioridade. O Estado não pode, por exemplo, ser um provedor de empregos, mas deve prover serviços para a sociedade. Se observarmos bem existem muitos candidatos que veem a máquina pública como um cabide empregatício e isso não pode acontecer. Fora isso, temos um sério problema previdenciário, falta de transparência, etc.”, aponta. Quanto questionado sobre como seria um bom modelo de eficiência no país, o empresário é rápido e conciso: “Receita Federal.”

3) Inovação e produtividade. O diretor da CNI ressalta que o Brasil precisa fazer mudanças substanciais nessa área para que a inovação seja o foco que irá refletir na produtividade. “Isso deve ser uma política de governo. Já houve certo desenvolvimento nessa área de inovação, mas ainda de forma tímida. O Brasil investe pouco nesse processo. É preciso caminhar mais”.

4) Legislação trabalhista. Nesse ponto, a conversa foi mais longa. Paulo relata que esse é um problema sério e que demanda uma mudança pro­funda, visto que, para ele, “o Bra­sil está andando na contramão da história”. Segundo o empresário, a legislação trabalhista brasileira está ultrapassada e não valoriza a negociação entre o empregador e o em­pregado, por não haver segurança ju­rídica. “Um exemplo: eu sou em­pre­sário do setor de construção ci­vil. Em metade do ano há chuvas e a nossa legislação só permite que os funcionários façam duas horas ex­tras por dia. Eis a questão: o trabalhador desse setor, como só trabalha no período não chuvoso, trabalha pouco. Assim, quando está trabalhando ele quer estender ao máximo sua carga horária para ganhar mais. Mas nós, empregadores, não podemos negociar essa extensão desejada por ele, senão podemos ser punidos na Justiça por infligir a legislação trabalhista”, conta.

Paulo avalia que a legislação atual não só permite como incentiva que haja contendas entre o trabalhador e o empregado. Por isso, em sua visão, o Brasil tem o maior número de ações trabalhistas do mundo. “E gastamos milhões de reais com a Justiça. Um dinheiro que poderia ser aplicado de melhor forma. O grande problema é que o Estado brasileiro é voltado para a punição e não para o incentivo de acordos entre as partes. Acho que não é preciso fazer tanta contenda”.

5) Processo de financiamento. Ele analisa: “Nesse ponto, o Brasil já avançou alguma coisa, mas ainda é necessário avançar muito mais. A ampliação da capacidade de investimento das empresas é uma necessidade. É ter um mercado de capital desmistificado. No Brasil essa questão ainda é muito complexa, exatamente devido à insegurança jurídica que há no país. Nós ficamos com medo, o que gera corrupção e instabilidade. E a melhoria nesse processo iria, inclusive, alavancar o fator inovação.”

6) Infraestrutura. Um tema clássico quanto se trata plano de governo seja dos presidenciáveis ou dos can­didatos ao Palácio das Es­me­ral­das, principalmente no período atual com a crise do setor elétrico. Esse seria o primeiro ponto da lista, mas há outros: “A ineficiência dos nossos portos é assustadora. Também precisamos de uma agenda na área de saneamento, em que o processo de concessão precisa entrar na pauta de modo definitivo”. Paulo diz também que há necessidade de acabar com a instabilidade jurídica do país para que obras não sejam paralisadas sem um motivo comprovado. “Hoje, qualquer pessoa, fundamentada ou não, consegue paralisar uma obra por anos. Ou seja, é preciso criar uma linha de responsabilidade nessa área para que obras não sejam paradas. Vide aeroporto de Goiânia, Ferrovia Norte-Sul, ou até mesmo a duplicação da rodovia Anápolis-Brasília, que demorou anos para ser concluída. Ou seja, esse aparato de fiscalização que o governo tem é necessário, mas ele deve ser aprimorado. De que forma? O próximo governante precisa desenvolver o processo da confiança no país. Confiança entre as instituições, as empresas, os governos, etc. Além de criar instrumentos para que isso seja possível. Hoje, vivemos uma desconfiança generalizada”.

7) Tributação. “Nem é preciso falar muito dessa questão”, ri.

8) Desenvolvimento de mercado. Essa é uma questão chave para o aspecto econômico brasileiro. O Brasil, de fato, possui mercado interno. Contudo, ainda não conseguiu criar mecanismos para desenvolver linhas de mercado externo. “Vivemos em um país grande, mas ainda incapaz de fazer isso de modo transparente e com previsibilidade internacional. É necessário estar presente nesse aspecto. Um exemplo: em 1964, o Brasil tinha aproximadamente 2% do comércio internacional. Atualmente, praticamente mantemos essa média, enquanto países como China e Coreia do Sul se desenvolveram muito mais. Fora Alemanha e Estados Unidos, que fazem trabalhos nesse sentido há muito tempo. Ou seja, não estamos criando novas oportunidades, nem ampliando nossa base de mercado. Ficamos apenas nas commodities e produtos in natura, que é a nossa base. Avançamos, por exemplo, na fabricação de aviões, mas é pouco. Isso precisa ser tratado como política de Estado. Nem os produtos em que o Brasil é líder de produção, ele detém as marcas internacionais”.

9) Burocracia. Outro fator chave evidenciado por todos os empresários, visto que trava o país de forma assustadora. Dessa forma, para Paulo, o próximo governante precisa enfrentar de frente o processo da desburocratização. Ele conta: “Hoje, criam-se normas dentro de contratos já em andamento. Conheço ‘n’ casos em que há empresas assinam contrato com o próprio poder público e, de repente, mudam a regra a do jogo e já não se pode mais conduzir a obra da forma como estava sendo feito. Isso trava o processo. A área ambiental é, talvez, o principal campo dessa burocracia. Por exemplo, dizem que não podemos mais represar os rios nas hidrelétricas ou mesmo liberar caminho para hidrovias. Por que não? Há meios de utilizar esses recursos ao passo em que se preserve o meio ambiente. Ora, basta empreender estudos nesse sentido. Fora a burocracia do setor público”.

10) Educação. Último ponto, mas um dos principais. Contudo, o foco, segundo Paulo, deve ser a educação profissional. “É claro, que antes é necessário aprimorar a educação básica como forma de sustentação da primeira. A questão é que precisam aumentar o número de profissionais matemáticos nos país, como engenheiros, matemáticos, físicos e técnicos. Fora isso, é também preciso empreender uma mudança cultural nas pessoas no que concerne a, por exemplo, pichação, jogar lixo no chão, etc. Isso tudo influencia no desenvolvimento do país e também é uma questão educacional, além de cidadania”, declara.

 

E Goiás, Especificamente?

Paulo Afonso diz que há alguns pontos a serem tratados no Estado, que tem, inegavelmente, crescido em alguns pontos. Para ele, um fator importante para o desenvolvimento do Estado foram as políticas de atração de in­vestimentos e os próximos go­ver­nantes precisam manter isso. “Agora, temos gargalos. A energia, por exemplo, deve ser tratada como prioridade, pois representa, hoje, uma falha grave na constituição goiana. Pre­ci­sa­mos mexer também na matriz lo­gística. Por exemplo, quando a Fer­rovia Norte-Sul ficar pronta, precisa­remos alimentá-la. Qual o projeto? O governador precisará se empenhar nesse fator. Outra coi­sa: precisamos dar atenção para o Entorno do Distrito Federal, pois é um lugar com população ex­tensa e muitos problemas. É possível transformar esse passivo em ativo, fazendo projetos ma­ci­ços de investimento na região, de atrair empresas para aquelas ci­da­des. Mas essas ações não é algo pa­ra aparecer na TV. É para funcionar”.

 

Mesmo na contramão do País, agronegócio também sente efeito dos aspectos negativos da economia
Presidentes da Faeg e da SGPA, Mário Schreiner e Ricardo Yano: agronegócio vive boa fase, mas precisa de mudanças

Presidentes da Faeg e da SGPA, Mário Schreiner e Ricardo Yano: agronegócio vive boa fase, mas precisa de mudanças

Na contramão da economia brasileira, que cresceu apenas 2,3%, o agronegócio fechou 2013 com uma alta de 3,56% e um aumento de 6,9% (US$ 86,5 bilhões) no número de exportações. Isso significa que, ao contrário de outros setores do país, a agricultura continua aumentando sua produtividade. Dados da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) mostram que nos últimos 30 anos, o agronegócio aumentou em cinco vezes sua produção e com um constante aumento na utilização de novas tecnologias. A isso se justifica a fala do presidente, José Mário Schreiner: “O agronegócio é o único negócio que deu certo no Brasil. Ele tem produzido e incorporado suas tecnologias. Por isso, é o setor que mais avançou.”

Porém, o setor também tem projetos para o país. “Para me­lhorar mais”, diz Schreiner, visto que atualmente o setor tem uma grande dependência de importações. A solução para isso, segundo ele, é desburocratizar a produção de minérios no país. Schrei­ner aponta que atualmente, há prospecções de fósforo, por exemplo, em que há 30 anos está parada, sem produzir nada, sendo importante fazer com que os donos das minas explorem de forma sistemática esses locais, o que facilitaria a produção de fertilizantes.

“O aumento na produção de fertilizantes reduziria os 75% dos fertilizantes que ainda são importados no Brasil. Esse número não é bom, pois se algum dos países quiser nos boicotar, nós sofreremos seriamente. Ou seja, é preciso aprofundar na produção de fertilizantes no país, principalmente os fosfatados e o potássio. E tudo isso passa pela legislação da mineração no Brasil”, avalia. Contudo, Schreiner confessa não acompanhar a discussão do novo Código da Mineração, que tramita no Congresso Nacional. “O Código é mais amplo e se expande para muitos minérios. Precisamos de marcos regulatórios específicos para aqueles usados nos fertilizantes”, explica.

 

Anvisa

Schreiner aponta outra questão para a qual os governantes deveriam se voltar: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo o presidente da Faeg, há um problema envolvendo os produtores e a agência no que diz respeito ao registro de fertilizante. “Temos um problema sério com a Anvisa. Hoje, demora-se cerca de três a cinco anos para se registrar um produto que, às vezes, é menos tóxico do que os utilizados. Porém, não podemos usá-lo porque não há registro. Essa burocracia da Anvisa mata a produção e ninguém aguenta mais”, desabafa.

Recuperação da pecuária e a falta de infraestrutura

Ricardo Yano, empresário e presidente da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA), aponta que o agronegócio passará por um bom momento em breve, devido à recuperação da pecuária, que voltou a aumentar seus preços. Porém, diz que a situação do setor poderia ser bem melhor se não fosse a falta de infraestrutura.

Para ele, o foco principal para to­dos os governantes devem ser os in­vestimentos na estrutura do estado. “Dependemos demais da infraestrutura. Entendemos que o agronegócio tem sustentado o país em termos de PIB há muitos anos, principalmente em Goiás. Em contrapartida, não temos uma boa infraestrutura em termos de estradas, energia, etc. Esses fatores são necessários para que possamos ser cada vez mais competitivos”, ressalta.

Yano diz que o principal ponto da infraestrutura do país, atualmente, é a Ferrovia Norte-Sul, o que iria alavancar a produção não apenas do setor agricultor como de outras áreas. “O Brasil tem tido uma competência grande em termos de produção e o mundo tem aumentado sua demanda. Alguns países, como Austrália e Estados Unidos, devido a catástrofes naturais e outros por maior número populacional ou aumento do poder aquisitivo. Agora, em termos administrativos, se não houver uma reorganização com a distribuição e aplicação das verbas públicas, não acredito que essa boa fase continue”.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.