Em tempos de mimimi: a “ditadura do politicamente correto” tem razão de existir?

Saudosos dos velhos tempos repetem nas redes sociais que “hoje o mundo ficou muito chato”. Teria como ser diferente?

Samuel, Júlio, Dinho, Sérgio e Bento, o quinteto dos Mamonas Assassinas: músicas proibitivas para os dias atuais | Foto: Reprodução

Sexta-feira, dia 2 de março, completam-se 22 anos do acidente que tirou a vida de um fenômeno chamado Mamonas Assassinas, aquele que foi o último estouro de banda pop-rock no Brasil. Em meio a talentos genuínos – Bento Hinoto era um grande guitarrista e Dinho, um showman que certamente seria muito mais do que apenas um vocalista –, havia também uma pitada de rock bem-humorado que morreu junto com eles: era a escola da Blitz, do Ultraje a Rigor e de bandas menores e efêmeras, como Herva Doce (de “Amante Profissional”) e Dr. Silvana & Cia. (“Ligeiramente grávida” e “Serão Extra”).

Cantavam versos como “Oh, Maria, essa suruba me excita” (em “Vira-Vira”) ou “Minha Brasília amarela/ tá de portas abertas/ pra mode a gente se amar/ pelados em Santos” (do hit batizado com o último verso do trecho). Um humor considerado “de­pra­vado”, “indecente”, pelos mais conservadores; tido como “bobo”, “imbeciloide”, por ranzinzas mais intelectualizados; e era apenas escrachado e divertido pela turma do meio, que curtia tanto o som como as letras que muitas vezes eram literalmente piadas cantadas – “Vira-Vira”, por exemplo, é uma adaptação de uma piada de português do humorista Costinha.

Piadas, muitas delas, que hoje seriam proibitivas. Se o único disco gravado pelo quinteto fizesse uma viagem no tempo da data da gravação, em 1995 e fosse lançado nos dias atuais, seria execrado por várias parcelas de uma sociedade cada vez mais acirrada, ideologicamente falando. Sob o contexto atual, há no álbum trechos que tripudiam da violência contra a mulher (“Uma teta minha o negão arrancou/ e a outra que sobrou está do­endo/ … / Vê se larga de frescura/ eu te levo no hospital pela manhã”, em “Vira-Vira”; e “Não tá fácil de te esquecer/ toda vez que eu lembro de você/ me dá vontade de bater, te espancar, oh meu amor!”, em “Lá Vem o Alemão”); zoofilia (“Co­mer tatu é bom/ que pena que dá dor nas costas/ porque o bicho é baixinho/ e é por isso que eu pre­firo as cabritas”, em “Mundo Ani­mal”); apologia ao homossexualismo (“Abra sua mente/ gay também é gente”, em “Robocop Gay”) e defesa dos transexuais (“O meu bumbum era flá­cido/ mas esse assunto é tão mís­tico/ devido a um ato cirúrgico/ hoje eu me transformei”, da mesma música); provocações a religiões (“Ontem eu era católico/ ho­je eu sou um gay” e “Tem gay que é Mohamed/ tentando camuflar…”, também de “Robocop Gay”); machismo e racismo em um mes­mo verso (“Se der chuva de Xuxa, no meu colo cai Pelé”, em “1406”); e apologia às drogas (“Chegando lá, mas que vergonha/ só tinha maconha”, em “Sábado de Sol”). Certamente seria possível elaborar outro parágrafo com mais versos polêmicos de praticamente todas as 14 faixas do álbum – pode fazer você mesmo sua seleção.

O fato é que a indignação à época do sucesso estrondoso veio muito mais pela suposta “contaminação” das crianças e adolescentes com a música “perniciosa” – por sinal, a garotada em geral amava a banda – e muito menos pelas frases que poderiam servir (ou desservir) à discussão ideológica. O exercício de futurologia como-seria-se-fosse-hoje, porém, não funciona, até porque, pelo talento que demonstravam, os Mamonas Assas­sinas provavelmente inventariam outras temáticas para seu humor na música .

Da mesma forma, os humorísticos (“Os Trapalhões” repaginados de hoje que o digam) e os comerciais ti­veram de se adaptar à realidade do – como alguns costumam chamar com certo tom depreciativo – “po­liticamente correto”. A mudança dos parâmetros nas últimas décadas não aceita nem pode aceitar mais o escracho com a dignidade humana (ressalvando que também vale o mesmo em relação aos animais). Hoje, Didi não poderia jamais cha­mar Mussum de “grande ave” num esquete do antigo quarteto; Chi­co Anysio teria de esquecer seu personagem Nazareno, que tratava a mulher como “tribufu” e a man­dava calar a boca várias vezes a cada programa. Por falar nisso, como ficaria Caco Antibes (Mi­guel Falabella) para repreender sua Magda (Marisa Orth) em “Sai de Baixo”? As propagandas com mulheres submissas e “do lar” fo­ram descartadas, e as de cigarro, ex­tintas.

Os saudosos e os que repetem nas redes sociais que “tudo virou mimimi” dizem e dirão que o mundo ficou mais chato. Por isso, talvez o exemplo abaixo seja para lembrar que há motivos consistentes para que essa espécie de freio discursivo tenha passado a existir.

É que seria surreal se não fosse verídico o que protagonizou um programa de esportes goiano nas últimas semanas. “Os Donos da Bo­la”, da TV Goiânia/Band, tinha (a emissora local ex­clu­iu o programa de sua grade, pressionada pela central em São Paulo) um quadro chamado “Desafio das Musas”, em que representantes de clubes de futebol eram submetidas a um quiz totalmente sem noção.

Entre as perguntas de duplo sentido e de extremo mau gosto, algumas pérolas pelo avesso: “Se seu nutricionista lhe dissesse que laranja é bom para a saúde, você chuparia um saco por dia?”; “Se quem não tem perna é perneta, quem não tem punho é o quê?”; “Você é uma musa aberta a colocações dos outros?”; “Em um clássico contra o Vila, se o juiz põe pra fora, você mete a boca?”. Pois Karolina Tavares, do Vila, e Karol Rodrigues, do Goiás, passaram por essa sabatina que faria corar Ary Toledo.

Karol Barbosa, candidata a musa do Goiás, na tela da TV Goiânia/Band, diante de uma das questões sem noção que lhe perguntaram | Foto: Reprodução

 

Para reagir a esse tipo de humilhação, cria-se um anteparo maior de proteção – que acaba, algumas vezes, sendo um excesso do outro lado. É o que ocorreu no carnaval, com uma mulher do povo Kala­palo, Katú Mirim, criticando o uso de fantasias alusivas – “índio não é fantasia”; ou a repercussão raivosa em relação a músicas do disco mais recente de Chico Buarque, criticadas por algumas alas do feminismo por alegação de conteúdo machista e sexista. É o tal movimento pendular, que radicaliza de um lado para contrapor a outro, radicalizado no sentido oposto.

A indígena talvez tenha se esquecido de que a simbologia de uma fantasia não precisa ser necessariamente depreciativa; ao contrário, pode servir como uma homenagem ou reverência à memória do povo – seria em si condenável pintar a pele das crianças na escola no dia 19 de abril? Já quem criticou “Ca­ra­vanas” ignorou, certamente, a história musical e de vida de seu compositor, bem como não se ateve ao eu-lírico das letras.

Publicidades preconceituosas precisam ser combatidas; entretenimento que fere a dignidade e que humilha as pessoas (como as “pegadinhas” de Silvio Santos, no SBT), da mesma maneira. Isso não é mimimi, mas simplesmente um reposicionamento diante de uma tomada de consciência que não existia tempos atrás. Não, o mundo não ficou mais chato; ele ganhou vozes que haviam ficado oprimidas durante séculos. Que as pessoas que viveram outros tempos busquem entender este momento atual; e que as de hoje tentem o contexto do tempo que os mais velhos viveram. Ainda que se debata e se polemize, fica tudo mais fácil e mais produtivo se for assim.

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Jonatas

Ficou chato sim, e isso é tudo mimimi