Em quarentena, empresários e trabalhadores compartilham incertezas sobre a crise econômica

Com as portas fechadas desde o dia 19 devido à pandemia de Covid-19, empreendedores e funcionários vivem a expectativa de retorno das atividades

Normalmente movimentadas, as ruas do Setor Bueno, em Goiânia, ficaram vazias durante a semana | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

De um lado, o mundo conta doentes e mortos. De outro, prejuízos na economia. O Brasil, até sábado, 28, tinha 92 mortos por Covid-19. E a previsão de um crescimento nulo do Produto Interno Bruto (PIB). Entre planilhas, medo e lágrimas, empresários e trabalhadores se perguntam: o que fazer para atravessar a crise de saúde, que se transformou em crise econômica e, ao menos no Brasil, política? Até quando o país suportará a interrupção das atividades econômicas? E qual o custo em vidas para retomá-las?

Não existem respostas simples para problemas complexos. Mas setor produtivo e os trabalhadores estão em busca delas. O medo de uma quebradeira geral e da perda de empregos atormenta empreendedores e profissionais desde o início do isolamento social imposto pelo governo – considerada, até agora, a única forma de conter a pandemia.

Cada setor tem sentido os impactos de forma diferente. A administradora de cartão de créditos Elo fez um levantamento em cima dos pagamentos sob sua bandeira. A média diária de pagamentos, a partir de 23 de março, caiu 58% no crédito e 69% no débito, nos bares e restaurantes. No setor de turismo, a queda foi de 83% e 98%, respectivamente. No de vestuário, 82% e 91%.

Marcelo Baiocchi: “Nenhuma empresa está preparada para ficar fechada” | Foto: Reprodução

Em contrapartida, os supermercados tiveram alta de 20% nos pagamentos com cartão de débito e de crédito, enquanto as farmácias tiveram acréscimo de 13% e de 15%, respectivamente. “Nenhuma empresa está preparada para ficar fechada, sem faturamento”, diz o presidente da Federação do Comércio de Goiás (Fecomércio), Marcelo Baiocchi.

Ainda não há levantamentos concretos sobre o impacto econômico da “quarentena”, como o isolamento social e o fechamento de estabelecimentos está sendo chamado, em Goiás. A Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Goiás (Acieg) realizou uma sondagem entre empresários, sem caráter científico. O levantamento apontou que 31% dos empresários perderam mais de 90% da receita; 11% perderam mais de 70%; 23%, mais de 50%; e 35% viram a receita cair mais de 30%.

No comércio, a situação é ainda mais dramática: 44% perderam mais de 90% da receita e 16%, mais de 70% da receita. “O comércio é [o segmento] mais frágil, porque tem mais dificuldade na obtenção de crédito e os custos são mais imediatos”, afirma o presidente da Acieg, Rubens Fileti, que divulgou os dados durante uma videoconferência na sexta-feira, 27. Sem fluxo de caixa diário, 89% dos empresários do setor disseram que não conseguirão reabrir os estabelecimentos se a quarentena durar mais de quatro semanas.

Sem renda

Além do temor do desemprego – o levantamento a Acieg mostra que 23% dos empresários já demitiram funcionários após baixarem as portas –, os trabalhadores que estão de braços cruzados perdem a fonte de renda. “Muitos garçons e atendentes dependem da gorjeta, os 10% pagos pelos clientes”, explica o presidente do Sindicato dos Empregados do Comércio Hoteleiro e Similares do Estado de Goiás (SechSeg), Marlos Luz.

Marlos Luz, do SechSeg: “A prioridade é manter os empregos” | Foto: Pessoal

Desde que passou a vigorar o decreto governamental que proibiu o funcionamento de atividades não consideradas essenciais, como bares, restaurantes, cafeterias e hotéis, os empresários e trabalhadores encontraram uma saída para evitar demissões. Por 15 dias, o pagamento de salários foi suspenso.

“A primeira preocupação foi manter os empregos. Mas já recebo ligações de muitas pessoas desesperadas. O empregador, às vezes, tem alguma reserva. O empregado não”, diz o presidente do SechSeg, que representa cerca de 30 mil garçons, cozinheiros, camareiras, balconistas, trabalhadores de pit dog e outros. Para esses, a saída tem sido apostar no delivery, mas o faturamento é uma fração em relação ao movimento normal.

A Federação da Indústria de Goiás (Fieg) e a Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás estimam que entre 210 mil a 240 mil trabalhadores do setor estão parados, no Estado. Segundo o diretor-executivo da Adial, Edwal Portilho, essa força de trabalho representa aproximadamente 60% da mão de obra disponível.

“As indústrias de alimento, produtos de limpeza, medicamentos e de etanol e açúcar constituem um parque relevante. Ainda assim, o que está parado é muito significativo”, ressalta Portilho. “Estamos todos apreensivos, 15 dias fechado já é preocupante, mas, se mantiver [a quarentena], o que vamos fazer?”, questiona.

Sandro Mabel: “O setor produtivo precisa trabalhar” | Foto: Reprodução

Presidente da Acieg, Sandro Mabel diz que os pequenos empresários são os que mais sofrem com a paralisação dos negócios, mas não apenas eles. “Todo mundo está apavorado, especialmente as pequenas lojas. Vai quebrar a turma toda”, diz. O levantamento da Acieg comprova essa preocupação: 79% dos empregadores dizem que não suportam mais de quatro semanas com as portas fechadas.

Pequenos negócios sofrem mais

A preocupação com os pequenos negócios é compartilhada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). O diretor-superintendente da entidade em Goiás, Derly Fialho, diz que a apreensão é grande. Muitos negócios, afirma, trabalham com recursos para dez dias ou, até mesmo, para apenas três dias. “Os pequenos são mais frágeis, têm mais carência de recursos e clientes voláteis”, explica.

Derly Fialho, do Sebrae-GO: pequeno negócio é mais vulnerável à crise | Foto: Divulgação

Em Goiás, segundo o Sebrae, são 341 microempreendedores individuais (MEI) e 244 mil microempresas, a maior parte no comércio (242 mil). Juntas, elas empregam mais de 619 mil de trabalhadores, incluindo os próprios empreendedores. Se são as mais frágeis, por outro lado, esses negócios têm mais possibilidade de se reinventarem. “Alguns setores se expandem [na crise], outros se beneficiam da tecnologia, e tem até quem muda de ramo”, diz.

Presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Goiás, Bia de Lima lembra que existem categorias mais expostas e vulneráveis à crise. “Cada segmento tem de ter a oportunidade de discutir com o empresariado para, de uma forma consensual, ou ao menos de bom senso, ter oportunidade de negociar com os setores”, afirma.

Segundo Bia, a proteção do trabalhador não está dissociada da segurança do empregador. “Ninguém almeja isso. O correto é abrir mesas de negociações”, reivindica. Ao menos por enquanto, esse canal parece aberto. “Estamos preocupados em manter os empregos e as empresas”, diz Marcelo Baiocchi, da Fecomércio. “O diálogo [com os empresários] está bom. Antes, havia uma distância entre o sindicato laboral e o patronal. Agora, temos mantido esse contato aberto”, atesta Marlos Luz, do SechSeg.

Insatisfeitos com medidas do governo, empresários vivem expectativa de retorno das atividades

No Twitter, Caiado acena com a possibilidade de flexibilizar a quarentena

O decreto do governo estadual que determinou o fechamento de parte das atividades econômicas em Goiás tem validade até o dia 4 de abril, um sábado. Em postagem nas redes sociais, o governador Ronaldo Caiado não confirmou a flexibilização das regras a partir de então, mas acenou com a possibilidade. “Iniciarei série de reuniões com sindicatos, lideranças, empresários e entidades, por videoconferência, para discutirmos a saída (ou não) de Goiás da quarentena”, postou.

Caiado disse, ainda, que a população sabe qual é sua posição, mas que dividirá a decisão e as responsabilidades diante do que for definido. “De forma gradual, respeitando orientações científicas e técnicas, acima de tudo”, ressaltou. “É necessário que todos usem de bom senso, façam sua parte e cumpram o que for definido depois do dia 4”.

Ainda que não bata o martelo, o setor produtivo trabalha com a possibilidade de retomar as atividades no dia 6 de abril, uma segunda-feira. Para isso, o Fórum Empresarial prepara um planejamento que será colocado na mesa de discussão com o governador, o prefeito de Goiânia, Iris Rezende e outras autoridades governamentais e políticas.

A proposta é uma reabertura gradual. “Pode haver a flexibilização de alguns segmentos”, acredita o presidente da Fecomércio, Marcelo Baiocchi. Diretor-executivo da Adial, Edwal Portilho é preciso acompanhar a evolução da pandemia, de forma que o retorno seja o “mais rápido e seguro possível”. Sandro Mabel, presidente da Fieg, “o setor produtivo precisa trabalhar”.

A proposta a ser apresentada pelo governador levará em conta segmentos que não causem aglomerações, como o de metalurgia, por exemplo, e a prestação de alguns serviços. Segundo Edwal Portilho, o Fórum Empresarial prepara um plano que contém protocolos sanitários, com proteção para trabalhadores e clientes.

Os representantes empresariais goianos admitem que a quarentena está sendo necessária para coibir o crescimento exponencial dos casos de Covid-19 no Estado. Mas cobram medidas dos governos, nos três níveis (municípios, Estado e União) para o período pós-quarentena. Mesmo quando a retomada for plena, a recuperação deve levar um longo tempo.

Edwal Portilho, da Adial: “Estamos todos apreensivos” | Foto: Divulgação

Por isso, eles reivindicam ações mais contundentes, especialmente do governo federal. Edwal Portilho cita a necessidade de oferta de linhas de crédito para capital de giro com juros subsidiados e medidas que diminuam o custo trabalhista para o empregador.

Para o presidente da Fecomércio, Marcelo Baiocchi, as medidas anunciadas pelo governo federal até agora são insuficientes. “Não adianta oferecer linhas de crédito para o empresário se endividar ainda mais. Mesmo que exista carência, um dia essa dívida vai vencer”, lembra. Baiocchi cita como exemplo o governo dos Estados Unidos, que injetará 2 trilhões de dólares na economia, inclusive assumindo algumas dívidas dos empresários.

Outra reivindicação é o parcelamento dos impostos, em todos os níveis. Caso contrário, a Fecomércio prevê o crescimento da inadimplência dos empresários, que não conseguirão arcar com seus compromissos.

Bia de Lima, da CUT: preocupação com os direitos dos trabalhadores | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Segundo o diretor-superintendente do Sebrae em Goiás, Derly Fialho, o governo precisa evitar uma “quebradeira geral”. Para isso, deve oferecer abundância de recursos no setor financeiro, com carência para o pagamento. O pequeno negócio, diz, tem um papel social importante, pois emprega muito. “São os empreendedores que vão tirar o Brasil da crise”, acredita.

Bia de Lima, presidente da CUT em Goiás, cobra a presença dos trabalhadores na mesa de negociação. O receito, diz a sindicalista, é que as medidas para salvar a economia representem mais perdas de direitos dos trabalhadores.

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