Em Goiás, Maio de 68 foi tímido e demorou a chegar

Personalidades goianas que vivenciaram a época dizem que o impacto do movimento no Estado se deu em uma escala bem menor na comparação com outras regiões do Brasil

Foto: Reprodução

Daniel Cohn-Bendit, ou “Da­ny le Rouge” (“Da­niel, o Vermelho”, em tradução livre), é um anarquista filho de judeus alemães que fugiram do nazismo. Ele foi um dos líderes do Movimento 22 de Março, que culminou na ocupação de um prédio da Faculdade de Sociologia da Uni­versidade de Paris, em Nanterre, em protesto à prisão de seis alunos.

Aquele episódio ficou conhecido como o estopim dos célebres protestos de Maio de 68, que marcaram ge­rações e cujo sentimento de mu­dança se faz presente até hoje. Uni­versitários de Sorbenne se juntaram às manifestações e a rebeldia rapidamente tomou conta de toda a França.

As reivindicações eram diversas: fim da divisão de quartos das universidades por sexo; renovação dos padrões de comportamento; liberdade sexual; melhores condições salariais para operários, entre outras. Além disso, o que unia os estudantes eram, claro, as drogas e o rock and roll. Afinal, era “proibido proibir” — uma das mais famosas frases vistas em cartazes e grafites pelas ruas francesas. A propósito, também era “proibido não colar cartazes”.

Parecia utopia — e era. Mas Maio de 68 não ficou restrito à França. Praticamente todos os países do mundo ocidental sentiram os ventos vindos de Paris, como o Brasil, que se encontrava em plena ditadura militar e a poucos meses da emissão do Ato Institucional Número Cinco (AI-5) — datado de 13 de dezembro de 1968 —, popularmente chamado de “golpe dentro do golpe”, que restringia ainda mais as liberdades ao aumentar os poderes dos militares.

Contudo, em Goiás, Maio de 68 demorou a chegar e, quando chegou, foi de maneira tímida na comparação com outras regiões brasileiras. Pelo menos é o que dizem personalidades goianas que vivenciaram a época.

Tarzan de Castro enxerga Maio de 68 como uma revolução que passou a influenciar valores, hábitos e costumes mundo afora | Foto: Reprodução

Atraso
Ex-deputado federal — ocupou cadeira em Brasília de 1989 a 1991 pelo PDT —, Tarzan de Castro começou a militar politicamente desde muito cedo. Em 1964, quando já tinha 26 anos, foi preso pelo regime militar. No ano seguinte, viajou clandestinamente à China e voltou ao Brasil alguns anos depois, sendo preso novamente. Hoje aos 79 anos, não se lembra ao certo onde estava em maio de 1968. “Devia estar preso em São Paulo ou ainda estava na China.”

Para ele, o movimento foi uma revolução que passou a influenciar os valores, os hábitos e os costumes mundo afora. “Um despertar para uma nova fase de respeito aos valores humanos, luta pela democracia, direito da mulher, dos homossexuais e liberdade religiosa”, sublinha.

Segundo Tarzan, Maio de 68 foi importante do ponto de vista religioso para tirar o monopólio exercido pela Igreja Católica ao dar a oportunidade para o surgimento de novas correntes “rebeldes”. “Venho de uma origem católica e vivi intensamente o rigor do catolicismo. A quebra disso a partir de 68 foi algo que me chamou a atenção.”

Tarzan ressalta que, em Goiás, por se tratar do interior do Brasil, os acontecimentos eram noticiados depois de passarem por algumas cidades litorâneas do Brasil, como o Rio de Janeiro. Mas, posteriormente, o Estado se inseriu neste contexto e, para o político, teve um papel considerável na luta contra a ditadura.

Valdivino Braz se politizou mais a partir de Maio de 68 | Foto: Reprodução

Nascido em Buriti Alegre, o jornalista e poeta Valdivino Braz morou 14 anos em Uberlândia e, em fevereiro de 1964, chegou a Goiânia aos 26 anos de idade. Ele conta que não era tão politizado, mas passou a tomar consciência a partir de então e mais ainda após Maio de 68, que, segundo ele, não chegou a Goiás “no calor do movimento”.

“Não vi maiores participações de Goiás em relação a 68, mas o movimento com certeza mexeu com o mundo todo”, pontua. Em seu trabalho, Valdivino tratou frequentemente sobre o tema com críticas sarcásticas, como em um poema em que questiona como uma juventude queria um mundo melhor usando drogas.

O artista plástico Siron Franco, que tinha 21 anos em 1968, diz acreditar que o conservadorismo de professores universitários à época influenciou no atraso das informações, assim como as condições ruins de comunicação à época. “Goiás sempre foi muito escondido”, frisa.

Siron Franco diz que “Goiás sempre foi muito escondido”

Àquela altura, Siron já viajava muito e passava pouco tempo em terras goianas. As artes plásticas “deram uma mexida” pelo mundo em virtude de Maio de 68 e, por isso, o artista goiano, que já buscava inspirações tanto no Brasil quanto em outros países, teve seu estilo influenciado.

Outro goiano que foi impactado por Maio de 68 é o músico Fernando Perillo, que se interessou pelo movimento porque ele era interligado com assuntos mundiais, como o movimento hippie e os diretos civis nos Estados Unidos. “Era adolescente e virei músico por causa disso. Por causa da Tropicália de Caetano Veloso.”

Natural de Palmeiras de Goiás, Fernando recorda que seus pais assinavam o jornal “O Estado de S. Paulo”, meio pelo qual ele conseguia se informar. “Se não fosse assim, as informações não chegavam. Palmeiras nem luz elétrica tinha.”

Hippie de boutique
Mais um cantor goiano que vivia sua adolescência em 1968, Pádua lembra do termo “hippie de boutique”. Em outras palavras, aquela pessoa que se deixou influenciar pelas vestimentas hippies, como calças rasgadas, mas geralmente tinha boas condições financeiras e, na prática, não vivia como um hippie.

Em relação às informações, o cantor argumenta que a localização geográfica, o preconceito latente em uma cidade provinciana e a repressão da ditadura contribuíram para o atraso. “Nem sei se esse movimento realmente ocorreu em Goiânia”, enfatiza Pádua.

De acordo com ele, que iniciou sua carreira profissional em 1976, Maio de 68 começou a ser sentido no cenário da música goiana justamente a partir da segunda metade da década de 70.

GEN
Talvez o que mais tenha se destacado de Goiás durante Maio de 68 foi o Grupo de Escritores Novo (GEN), criado com o objetivo de estudar literatura goiana, brasileira e internacional. Um dos fundadores, o escritor Miguel Jorge explica que o GEN foi um meio de resistência.

Os membros do grupo se reuniam toda quinta-feira, publicavam artigos em jornais e participavam de aulas de teatro experimental. Do GEN surgiram inúmeros livros, revistas e movimentos de declamação de poemas e teatralização de peças.

Miguel Jorge, de 21 para 22 anos em 1968, relata que, se não fosse pelo GEN, os desdobramentos das manifestações iniciadas na França teriam chegado a Goiânia com uma dificuldade ainda maior, haja vista que a cidade, “interiorana”, foi fundada a partir de pessoas que moravam em fazendas, como coronéis, e o preconceito era visível. “Não existia a rapidez que existe hoje. Jornais e livros chegavam com atraso. Mas nós conseguimos fazer contato com muita gente de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o que facilitou bastante.”

Uma goiana em Paris

Em Paris, Telma Camargo se deparou com várias manifestações

Em 1968, a professora Telma Camargo tinha 16 anos e circulava entre Anápolis, onde moravam seus pais, e Goiânia, onde estudava. Em 1975, ela foi para Paris a fim de dar continuidade aos seus estudos e, mesmo sete anos depois, ainda se deparou com uma atmosfera marcada pelos protestos de Maio de 68, pois, como a própria Telma define, o movimento não foi algo pontual que aconteceu em uma data específica: “Ele teve precedentes históricos e suas consequências reverberaram após 1968”.

Para ela, Maio de 68 está situado no contexto de outros movimentos históricos contestatórios que marcaram as décadas de 60 e 70, cujas agendas clamavam por mudanças, como o Movimento da Contra Cultura, em São Francisco, na Califórnia (1960-1966) e o movimento de libertação da Argélia do domínio francês (1954-1962), além da luta pelos direitos civis nos EUA (1955-1968), que combateu a discriminação e a segregação racial.

Em Paris, o cotidiano de Telma foi marcado por grandes manifestações lideradas por estudantes e trabalhadores, bem como os seus enfrentamentos com a polícia. “As ruas parisienses de 75 ecoavam intensamente as agendas defendidas em Maio de 68 e que interligavam as chamadas lutas específicas, como maior liberdade sexual e contra a ordem autoritária da burocracia universitária, às chamadas lutas gerais, como as dos trabalhadores sindicalizados por melhores condições de trabalho e de salários e os movimentos que lutavam contra a presença colonial da França na África”, descreve.

Ademais, a goiana encontrou manifestantes contrários à ditadura militar no Brasil. Segundo ela, vozes se erguiam pela anistia, contra a censura e a restrição dos direitos políticos. “Maio de 68 estava presente na ‘minha’ Paris de 75”, afirma Telma, que considera esta experiência fundamental para a ampliação e consolidação de sua atuação política na volta à Goiânia, destacando-se como uma das principais militantes feministas de Goiás, Estado cuja história, de acordo com ela, é marcada pelo coronelismo e pelo patriarcalismo e, por isso, ideias e valores forjam o comportamento ainda hoje de muitas pessoas.

É com base neste argumento que Telma é enfática ao dizer que, em Goiás, Maio de 68 não teve grande repercussão. “Se ainda hoje há posições contrárias aos ideais libertários, imagine 50 anos atrás. Eram as pessoas que transitavam entre Goiás e outros países os maiores responsáveis pela veiculação das notícias.”

Feminismo
Telma entende que colocar em discussão questões de gênero, dar visibilidade a aspectos da sexualidade feminina nas palavras de ordem “meu corpo me pertence” e falar abertamente sobre a descriminalização do aborto revelam algumas das influências das ideias defendidas em Maio de 68. “Considero que um dos legados do movimento na França foi a politização do cotidiano. E isso estava presente nos debates, nas mesas redondas e nos artigos impressos publicados pelas feministas em goianas.”

De acordo com Telma, o movimento feminista da época inseriu na política questões até então vistas como pessoais, isto é, da vida privada, como a violência doméstica, o feminicídio — apesar do termo ter sido utilizado naquele momento —, o aborto, a sexualidade, a necessidade de construção de creches e de compartilhamento das tarefas doméstica.

Maria Lúcia Félix Bufáiçal vivenciou Maio de 68 dos EUA

Outra nos EUA
A escritora Maria Lúcia Félix Bufáiçal é outra goiana que vivenciou Maio de 68 fora do País. Aos 17 anos, ela foi estudar nos Estados Unidos em julho do ano em que eclodiram os protestos na França. O local escolhido foi Detroit. Em 1966, Daniel Cohn-Bendit também foi aos EUA estudar nos subúrbios da mesma cidade.

Diferentemente de Goiânia, Maio de 68, em Detroit, foi sentido nitidamente, conforme aponta Maria Lúcia. “Conheci pessoas que tinham conhecido ‘Daniel le Rouge’ e diziam que ele era brilhante. Nos Estados Unidos, o movimento era muito forte devido a Woodstock e o posicionamento contrário de muitos em relação à guerra do Vietnã.”

O Liceu de 1968

Por Maria Dulce Loyola Teixeira

Minha lembrança do Liceu ficou marcada por um dia negro da nossa história política, embora eu tenha boas recordações desse ano também.  O Liceu era visto como uma meta a ser alcançada para quem quisesse nele estudar porque seu exame de seleção era difícil e muito concorrido.

Nesse tempo não existiam os famosos cursinhos para entrar na faculdade, era sair do colégio e fazer o vestibular, quem estudava no Liceu passava direto. Os melhores professores de Goiânia davam aulas ali, a maioria tinha outra profissão, os professores podiam acumular dois empregos. Eu tive um professor de história que era juiz. Assim era desde os idos tempos do Liceu da cidade de Goiás.

No Liceu estudava uma moçada bonita, era um grupo selecionado de bons estudantes, pode até ser dito que estavam no Liceu, realmente, para estudar e aprender. Podia ter algumas exceções, mas vejam isso: quando os alunos chegavam atrasados, o bedel – o vigia da escola – não deixava a gente entrar, não havia tolerância para os atrasos, o que os estudantes faziam? Ninguém voltava para a casa, pulava o muro e entrava para a sala de aula.

Engraçado que, normalmente, se pula o muro para ir embora da escola, para matar aula, conosco era o contrário, era para entrar e assistir as aulas. Muitas vezes eu pulei o muro da rua 19 com a 15, em frente à casa do tio Cleomar Loyola, era bem complicado para as moças pular o muro, isso exigia habilidade e cuidado porque a saia do uniforme era muito curta e justa, sempre olhávamos para todos os lados para não sermos vistas.

Eu cursei o Liceu somente no ano de 1968, em 1969 fui para os Estados Unidos. Foram anos de muita censura e prisões feitas pelos militares que subiram ao poder em 1964, isso gerou inúmeros protestos, foi uma reação contra as arbitrariedades do governo militar que autorizava prender e sumir com as pessoas, muitos estudantes, que eu conhecia, sumiram nessa época. Triste e revoltante lembrança.

Até as letras das músicas e os filmes eram censurados, a censura não tinha um cunho só político não, se a música ou filme falassem em droga ou tivessem um apelo sexual não passavam pelo crivo dos militares. Estavam tolhendo os direitos da população. Músicas de Chico, Caetano, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Juca Chaves, Milton Nascimento e muitos outros foram rigorosamente censuradas.

Os estudantes que foram para as ruas protestar foram brutalmente reprimidos. Os policiais militares usavam para reprimir o povo nas ruas uns fuzis com baionetas (tipo de um sabre colocado na ponta do fuzil), gás lacrimogêneo que fazia chorar e ofuscava a visão; o pior é que atiravam com balas de verdade na multidão, não eram balas de borracha, alguns jovens foram assassinados nesses protestos. Muitos policiais iam montados a cavalo e entravam no meio do povo batendo com o cassetete, era um horror.

Os estudantes corriam e se escondiam nas lojas, os comerciantes, em seguida, abaixavam as portas de aço para os proteger. Os que caiam ou não conseguiam se esconder eram presos e submetidos a constrangedores e agressivos inquéritos. A defesa dos estudantes eram pedras, pedaços de pau e algumas vezes jogavam bolinhas de gude no asfalto para os cavalos escorregarem. Os policiais militares eram intolerantes ao extremo, fotografavam os estudantes e depois iam às escolas e os prendiam.

No Liceu tinha o Grêmio Literário Felix de Bulhões, fundado em 13 de maio de 1934, fazia parte dele os alunos do Liceu. Era uma associação – mais política – dentro da escola que, também, organizava as manifestações de protestos. Na verdade era coisa de jovem – se estávamos estudando no curso secundário, a idade era de 14 a 20 anos isso quando o aluno tomava bomba, senão concluía o curso com 19 anos, no máximo.

Pois bem, o que ameaçavam esses jovens ao país? Não sei, só sei que um dia o Liceu foi todo cercado por policiais, jovens como nós mas, dirigidos pelos militares da ditadura. Foi uma manhã apreensiva. De dentro da sala de aula a gente só via o topo dos capacetes dos soldados estáticos cercando e vigiando todo o colégio.

Não sei dizer quantos alunos tinham ali nesse dia, sei que era um dia normal de aulas, se cada série tinha duas turmas de 45 alunos perto de 800 estudantes estavam dentro do Liceu. Foi demorado e angustiante a espera até que autorizaram a nossa saída, de um em um, pelo portão da frente, o da rua 21, sendo fiscalizados e alguns revistados e presos. Toda essa operação foi dirigida pelo coronel do exército, comandante da polícia militar em Goiânia.

Depois, em uma manifestação na porta da Catedral, os estudantes foram surpreendidos pelos policiais e a maioria correu para dentro da igreja, alguns para as casas ali por perto, inclusive para a nossa casa. Um amigo nosso, escondido atrás da cortina, tirou algumas fotos dos policiais agredindo, sem pena, os indefesos estudantes e dentro da Catedral um policial atirou e atingiu dois universitários, uma moça e um rapaz. Ele saiu correndo porta afora no sentido da rua 93, o Arcebispo Dom Fernando e o Bira saíram atrás dele para ver se alguém o prendia, quando ele passou pelo cerco militar, gritaram: “Deixem ele passar, ele é um dos nossos”. Sim, um criminoso acobertado por eles. A rua Dez estava toda tomada pelos soldados, ninguém podia transitar por ela, nem de carro e nem a pé.

Na verdade era um absurdo do regime ditatorial, comandado pelo exército brasileiro, um autoritarismo sem tamanho mas, é assim que funciona qualquer regime que não é democrático, sob o tacão das leis criadas, a maioria com intuito de punir o povo. Foi assim no Brasil e é assim em qualquer regime de exceção ou ditatorial.

As fotos o Bira entregou a um redator de um jornal de Goiânia, como a censura era extremamente rigorosa, fechava jornais se fosse publicado alguma matéria contra o regime, o jornalista achou melhor enviar as fotos a um jornal de circulação nacional, mandou para o Jornal do Brasil, com sede no Rio de Janeiro e as fotos foram publicadas, no dia seguinte, em destaque na primeira página do jornal.

Até hoje eu me pergunto “que dano esses jovens estudantes poderiam causar ao governo ditatorial?” Só mesmo um regime como a ditadura para usar a força contra jovens estudantes como fizeram e, lamentavelmente, isso continua acontecendo mundo afora em regimes que reprimem o povo sob comando de um maníaco ditador. E ainda tem gente que quer isso de volta.

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Nilson Gomes Jaime

1968 chegou com tudo. Durante uma passeata, os estudantes se esconderam na Catedral Metropolitana de Goiânia, sob proteção de Dom Fernando Gomes dos Santos. A polícia Militar metralhou a catedral. O estudante Euler Vieira (homônimo do líder estudantil, hoje coordenador do Movimento pela Moradia e membro do PCdoB) foi morto e Maria Lúcia Jaime recebeu um tiro na perna. Esse episódio mereceria ser rememorado em futura reportagem.