Em 2018, política internacional e futebol devem se misturar

Donald Trump, Oriente Médio, Coreia do Norte e Copa do Mundo são alguns dos temas que vão pautar os debates do ano que se inicia

A Copa do Mundo de 2018 servirá para promover a Rússia de Vladimir Putin | Foto: Divulgação

Não são somente os brasileiros que irão às urnas em 2018. Nos Estados Unidos, as eleições para a Câmara dos Representantes  o equivalente à Câmara Federal no Brasil  e para o Senado serão realizadas no dia 6 de novembro. O pleito servirá para testar o mandato do presidente Donald Trump.

Atualmente, os republicanos dominam as duas Casas. De acordo com Paulo Henrique Faria Nunes, doutor em Ciência Política pela Universidade de Liège, na Bélgica, os democratas possivelmente obterão mais cadeiras, mas um predomínio da oposição no Legislativo ainda não deve ocorrer.

Em 2017, houve uma série de tentativas para abrir um processo de impeachment contra Trump. Nenhuma obteve sucesso. Com os republicanos permanecendo no controle do Congresso, a possibilidade de isso ocorrer em 2018 é baixa.

Professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Danillo Alarcon avalia que o presidente dos Estados Unidos já conseguiu sobreviver a algumas políticas impopulares e, além disso, tem cumprido promessas de campanha, como a lei que barra a entrada de imigrantes oriundos de determinados países e a transferência da embaixada estadunidense em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

Paulo Henrique Faria Nunes aponta quatro possíveis consequências da decisão de transferir a embaixada: reforçar o sentimento de unidade árabe e/ou islâmico; estreitar os laços entre os grupos palestinos Fatah e Hamas, que firmaram um acordo de paz há pouco tempo; incremento das relações entre alguns países do Oriente Médio com Europa Ocidental, Rússia e China em detrimento dos EUA; facilitação do recrutamento de pessoas, dentro e fora da região, por movimentos rebeldes e terroristas.

A embaixadora estadunidense na Organização das Nações Unidas (ONU), Nikki Haley, anunciou um corte de 285 milhões de dólares do financiamento dos EUA à entidade em resposta ao pouco apoio que o país teve da comunidade internacional no tocante à questão envolvendo Jerusalém, o que representa um mau presságio do que será a cooperação internacional voltada para as zonas socialmente vulneráveis em 2018.

Segundo Danillo Alarcon, os Estados Unidos podem fazer com que países economicamente dependentes sigam a medida de Trump. Até o momento, a Guatemala foi o único a fazê-lo.

Ainda no Oriente Médio, no que tange à guerra da Síria, a derrota do Estado Islâmico pode acarretar na transferência dos principais polos de gestação de terroristas para a África, principalmente Líbia e Somália. Dessa forma, o conflito sírio tende a ter uma intensidade menor. “Com a vitória praticamente assegurada de Bashar al-Assad, apoiado pela Rússia de Vladimir Putin, o foco no Oriente Médio deve se concentrar ainda mais na disputa de hegemonia entre Arábia Saudita e Irã”, indica o professor da PUC-GO.

Coreia do Norte

Danillo Alarcon (esq.) e Paulo Henrique Faria Nunes (dir.) descartam um conflito militar na península da Coreia | Fotos: Denise Xavier

Para Paulo Henrique Nunes, o status quo das tensões entre Coreia do Norte e Estados Unidos deve continuar, isto é, sem um conflito real e com o governo norte-coreano usando a política armamentista como escudo contra eventuais invasões estrangeiras.

“Um conflito na região vai contra interesses chineses e russos e uma guerra na península da Coreia poderia ter impactos graves na economia mundial em virtude de sua posição geográfica”, sublinha o cientista político. Danillo Alarcon acrescenta que a Coreia do Norte tem consciência de que o uso de armas atômicas leva à destruição mútua assegurada.

De fato, a China não deixará que ocorra uma guerra em seu quintal. Pequim não enxerga com bons olhos a possibilidade de uma Coreia unificada, sendo a do Sul dominante. Em 2018, os chineses devem estar mais preocupados em intensificar sua política de expansão econômica direcionada para a África com a aquisição de minérios e petróleo, venda de manufaturados e serviços na área de infraestrutura. 

Rússia vai usar Copa do Mundo como vitrine

Jamil Chade: ” Pode ser que os cerca de 6 mil jornalistas que chegarão à Rússia mostrem um país que Putin não gostaria que fosse mostrado” | Foto: Repdroução/YouTube

Outra eleição importante marcada para 2018 é a de presidente da Rússia. Nessa, porém, é mais fácil de fazer previsões. O líder da oposição russa, Alexei Navalny, está impedido de disputar em razão de uma condenação por desvio de dinheiro de uma estatal na cidade de Kirov. Com isso, o atual presidente Vladimir Putin é mais do que favorito para vencer o pleito no dia 19 de março, mesmo Navalny tendo convocado um boicote.

Pouco menos de três meses após a eleição, a Copa do Mundo será aberta em Moscou. “A Rússia utilizará a Copa do Mundo como vitrine e estará em evidência”, assinala Paulo Henrique Faria Nunes.

Jamil Chade, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Genebra, na Suíça, ressalta que a Rússia tenta mostrar, por meio de eventos esportivos, que deve ser considerada uma potência internacional. Além da próxima edição da Copa do Mundo, o país sediou as Olimpíadas de Inverno de 2014 e passou a receber etapas da Fórmula 1 e de mundiais de atletismo.

A Rússia, afirma o jornalista, certamente estará no centro das atenções em 2018, mas nem sempre para o lado positivo. “Sempre digo que um evento como a Copa do Mundo é um espelho do país. E um espelho mostra tudo. Pode ser que os cerca de 6 mil jornalistas que chegarão à Rússia mostrem um país que Putin não gostaria que fosse mostrado.”

A Copa de 1978, na Argentina, foi utilizada como propaganda pelo ditador Jorge Rafael Videla. A de 1938, na Itália, por Benito Mussolini. A Alemanha nazista de Adolf Hitler sediou as Olimpíadas de 1936 e era a favorita para receber a Copa de 1942, que acabou não sendo realizada por causa da guerra. Longe de querer comparar Putin com Videla, Mussolini e Hitler, mas, em 2018, o maior evento do futebol mundial também servirá para promover a Rússia.

Suspensão

O Comitê Olímpico Internacional (COI) suspendeu a Rússia das Olimpíadas de Inverno de Pyeongchang, na Coreia do Sul, que começam no dia 9 de fevereiro. O COI alega que a Rússia, durante a última edição dos Jogos, manipulou o controle de doping. Os atletas russos ainda poderão participar, mas sob a bandeira olímpica e desde que provem estarem “limpos”.

O impacto da suspensão, para Jamil Chade, será muito grande no mundo dos esportes, especialmente em um ano em que a Rússia é a sede da Copa do Mundo. “Suspender a Rússia das Olimpíadas de Inverno é o equivalente a suspender o Brasil, a Argentina ou a Alemanha de uma Copa do Mundo.”

Vitaly Mutko, ex-ministro de Esportes e atual vice-primeiro-ministro da Rússia, é apontado como chefe do esquema e foi banido, de forma vitalícia, de qualquer evento olímpico. Mutko era o presidente do Comitê Organizador da Copa do Mundo até quarta-feira, 27, quando renunciou ao cargo para, segundo ele, se concentrar em sua defesa.

Jamil Chade enfatiza que há, sim, movimentos contrários à realização do mundial. Entretanto, não ganham a devida visibilidade, pois são abafados pelo governo e, sem o controle da imprensa e dos órgãos judiciários, as investigações de corrupção acabam sendo limitadas. “Ousaria dizer que a corrupção na Copa da Rússia chega a ser maior do que a que ocorreu no Brasil.”

Terrorismo

No entendimento de Danillo Alarcon, o principal problema que os russos vão ter durante a organização da Copa do Mundo é em relação à segurança em decorrência dos rebeldes chechenos que estavam na Síria e estão voltando para casa. A 25 de outubro de 2017, a Rússia já havia registrado o retorno de 400 combatentes.

É importante ressaltar que, em 2017, a Rússia foi vítima de atentados terroristas, como o do metrô de São Petersburgo, em março, quando um imigrante do Quirguistão matou 11 e feriu dezenas. Ademais, o Estado Islâmico já ameaçou o mundial com postagens na internet que “estrelam” Lionel Messi e Neymar.

Favoritos

Política, escândalos e terrorismo à parte, a Copa da Rússia promete um bom nível dentro de campo. Os grupos são considerados equilibrados, mas algumas seleções já despontam como favoritas.

A atual campeã Alemanha se rejuvenesceu com a conquista da Copa das Confederações comandada por promessas do futebol local que tendem a integrar o elenco no mundial, mesclando-se com os jogadores mais experientes. A nova geração da França, que talvez esteja mais pronta em 2022, também é cotada para ser protagonista.

A Argentina, de Messi, Portugal, de Cristiano Ronaldo, a Bélgica, de de Bruyne, e a Espanha, que está se recuperando do fiasco de 2014 — sequer passou da fase de grupos — com um forte jogo coletivo pelo meio, também têm chances de conquistar a taça.

Comentarista dos canais ESPN, Paulo Calçade lembra que trabalhos a longo prazo ganharam as duas últimas Copas: a Espanha, em 2010, que havia conquistado a Eurocopa dois anos antes e voltou a vencer a competição europeia em 2012; a Alemanha, em 2014, que se preparou desde 2006, quando foi eliminada, jogando em casa, nas semifinais.

“Vimos ciclos”, frisa o comentarista. “A seleção brasileira tem só dois anos de trabalho e está muito longe do ideal, embora tenha feito uma grande campanha nas eliminatórias. O Brasil ainda precisa se preparar mais e melhor. Na Copa, vamos perceber isso claramente.”

Um goiano na Copa

Arthur Melo pode ser o primeiro goiano a disputar uma Copa do Mundo | Foto: Lucas Figueiredo/CBF

O volante Arthur Melo, do Grêmio, foi um dos principais destaques da equipe gaúcha nesta temporada. Nascido em Goiânia, o atleta de 21 anos teve passagem pelas categorias de base do Goiás Esporte Clube e, ainda aos 13, rumou a Porto Alegre.

No Campeonato Brasileiro de 2017, Arthur foi o jogador de melhor desempenho no quesito bolas roubadas e com o maior acerto de passes, tendo 90% de precisão. Na Libertadores da América, o goiano foi eleito o melhor em campo da segunda partida da final contra o Lanús, da Argentina. Apesar de ter jogado pouco mais da metade da partida  saiu, no início do segundo tempo, com uma lesão no tornozelo após entrada dura do adversário —, foi quem que mais tocou na bola.

Praticamente todas as jogadas do tricolor gaúcho passam por Arthur, que é cobiçado pelo Barcelona. Não é à toa que Tite já o convocou para a seleção brasileira. O jovem do Grêmio, devidamente recuperado da lesão, tem tudo para carimbar o passaporte para a Rússia. Seria a primeira vez na história que um jogador nascido em Goiás disputaria uma Copa do Mundo.

O jogo dentro e fora de campo no Brasil

Paulo Calçade: “Quanto mais escândalos, maior é a conivência dos clubes” | Foto: Divulgação/ESPN

Em 2017, uma série de denúncias feitas por Jamil Chade foram trazidas a lume, como o envolvimento da TV Globo em supostos esquemas de corrupção e as convocações de jogadores com base nos seus pesos comerciais — e não necessariamente para a estratégia do time —, além do caso de manipulação dos amistosos da seleção brasileira, resultando em uma ordem de prisão internacional para o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) Ricardo Teixeira e na prisão do ex-presidente do Barcelona Sandro Rosell.

O FBI continua investigando a corrupção no futebol e Jamil Chade conta que está convencido de que, em 2018, surgirão novos capítulos dessa história. “Podemos ver prisões em outras regiões fora da América Latina. Além disso, Ricardo Teixeira está com o cerco se fechando e, fora do futebol, os franceses devem chegar a algumas conclusões a respeito das Olimpíadas do Rio de Janeiro.”

O jornalista do “Estadão” acredita que os cartolas vão buscar maneiras de se manter no poder ou permanecer com influência no futebol. Por exemplo, Marco Polo del Nero, presidente da CBF recentemente suspenso da Fifa, deve escolher seu candidato a sucessão a fim de evitar uma situação ainda pior.

Uma reforma da CBF, de acordo com Jamil Chade, passa por uma união entre Justiça, imprensa, torcedor e atletas. “Não dá para esperar que uma organização criminosa, que moldou o futebol durante décadas, possa ser derrubada do dia para a noite. Essa investigação leva tempo. Estamos vivendo uma fase de transição que pode, eventualmente, abrir espaço para um novo tipo de gestão no esporte.”

Paulo Calçade complementa ao dizer que não enxerga clubes incomodados com a atual situação. “Quanto mais escândalos, maior é a conivência dos clubes. Estão dizendo ‘amém’ àqueles que deveriam estar fora da Confederação.”

Violência

Onze pessoas morreram em 2017 devido a brigas entre torcidas organizadas. Este é outro cenário que não deve se alterar tanto em 2018. Na visão de Paulo Calçade, medidas como torcida única não têm condições de resolver esse imbróglio. Segundo ele, o Brasil tem problemas sociais e educacionais e o futebol, que é parte integrante da sociedade, continuará presenciando casos de violência.

Dentro de campo

Paulo Calçade também é pessimista em relação ao nível do futebol praticado em terras brasileiras, com a capacidade de competir internacionalmente sendo perdida aos poucos. “Ainda não percebemos que o futebol deve ser jogado com ideias. Continuamos com um futebol pobre e com treinadores que, em geral, não buscam conhecimento.”

De certa forma, a nova geração de técnicos, que conta com nomes como Jair Ventura, Fábio Carille, Roger Machado e Zé Ricardo, anima o comentarista da ESPN. “Estamos evoluindo nesse sentido, mas ainda não chega a ser uma grande mudança.”

 

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