Eleições de 2016 mostram futuro incerto para pesquisas de intenção de votos

Prognósticos distantes dos resultados apresentados nas urnas por candidatos a prefeitos apontam para reinvenção dos métodos de levantamento utilizados

Francisco Jr (PSD) chegou a 9% dos votos em Goiânia com crescimento na reta final | Foto: Renan Accioly

Francisco Jr (PSD) chegou a 9% dos votos em Goiânia com crescimento na reta final | Foto: Renan Accioly

Augusto Diniz

Todo ano de eleição é a mesma coisa. É candidato que reclama de resultado de pesquisa de intenção de votos, outro que utiliza seus números para destacar seu crescimento junto ao eleitor e casos dos que simplesmente ignoram os levantamentos feitos pelos institutos. Com a votação válida obtida pelo ex-prefeito peemedebista Iris Rezende em Goiânia, que chegou a 40,47% dos votos válidos no primeiro turno, abaixo dos quatro pontos de margem de erro divulgado pelas principais pesquisas que apontavam um prognóstico da votação do eleitorado goianiense, e outros casos pelo País, as pesquisas voltaram a ser colocadas em xeque.

O caso mais simbólico nesse questionamento ao atual formato adotado e permitido para que sejam feitos esses levantamentos de intenção de votos nas cidades está a eleição inédita em primeiro turno do candidato do PSDB, o empresário João Dória, que obteve 53,29% da votação válida na capital paulista, com 3.085.187 votos dos eleitores paulistanos. As pesquisas não apontavam uma possibilidade de fim da disputa na maior cidade do País no dia 2 de outubro. Havia um cenário de incerteza de quem iria para o segundo turno com Dória, vaga disputada nos levantamentos entre a senadora Marta Suplicy (PMDB), o repórter Celso Russomanno (PRB) e o prefeito Fernando Haddad (PT).

João Dória (PSDB) aparecia com 35% e venceu em São Paulo com 53,29% | Foto: Werther Santana/ TV Estado

João Dória (PSDB) aparecia com 35% e venceu em São Paulo com 53,29% | Foto: Werther Santana/ TV Estado

A dificuldade dos institutos de pesquisa em apontar um cenário mais próximo daquele que pôde ser verificado depois com a apuração dos votos foi assumida em entrevista publicada no dia 7 de outubro pelo jornal “Valor Econômico”, na qual a CEO do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari, admitia que o eleitor teria se tornado um “enigma” e que há mesmo uma dificuldade de se registrar a oscilação que acontece na decisão em quem votar entre a noite da sexta-feira anterior à votação, último prazo para se colher dados para as pesquisas, e a hora do voto na urna, no domingo. Esse período de um dia e meio a dois dias que antecede o momento do voto não é retratado pelos levantamentos.

Tanto é que em São Paulo o Ibope apontava que João Dória teria 35% dos votos válidos, seguido de uma disputa acirrada pelo segundo lugar no segundo turno contra o tucano entre Russomano, que aparecia com 23% das intenções válidas, Marta com 19% e Haddad nos 15%. Russomanno e Marta passaram longe desse prognóstico, com 13,6% e 10,1% na sequência. Já o petista, que ficou com 16,7% da votação válida, viu seus 967.190 não representarem nem um terço da votação recebida por Dória.

Alerta vermelho

O assunto ligou o alerta dos institutos de pesquisa, que já pensam em analisar novas propostas e discutir com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a adoção de um novo modelo que consiga acompanhar a mudança de comportamento eleitoral dos votantes. Para o diretor do Grupom Consultoria e Pesquisas, Mario Rodrigues Filho, as eleições têm mostrado uma necessidade de atualizar e aperfeiçoar os métodos empregados atualmente.

“A gente precisa sentar e analisar o que está acontecendo.” A declaração de Mario Rodrigues mostra o quanto as empresas de pesquisa de opinião estão preocupadas com o momento vivido. Mesmo que os levantamentos de intenção de votos tratem apenas de um prognóstico, ou seja, um provável cenário, a legislação eleitoral exige que sejam adotados critérios, como o da margem de erro para mais ou para menos pontos porcentuais, na qual tenta se reduzir as possibilidades de tirar a credibilidade da pesquisa realizada.

No dia anterior à votação do primeiro turno, as pesquisas em Goiânia traziam um cenário de votos válidos que mostrava os candidatos e deputados estaduais Francisco Jr (PSD) e Adriana Accorsi (PT) empatados com 6% cada. As mudanças apontadas por Márcia, do Ibope, e Mario, do Grupom, que acontecem na reta final, principalmente durante o final de semana da eleição, não são verificadas na pesquisa final apresentada ao eleitor com os números de intenções de votos de cada candidato.

Crescimento não detectado

Tanto é que nenhum instituto de opinião foi capaz de mostrar o crescimento do candidato do PSD, mesmo que houvesse uma possibilidade dentro da margem de erro, que ficou em torno de três pontos porcentuais acima dos 6% apontados no dia anterior ao primeiro turno. Francisco Jr foi o candidato com melhor desempenho ao apresentar propostas e discuti-las no debate realizado pela TV Anhanguera com cinco dos sete candidatos a prefeito de Goiânia na noite da sexta-feira (30/9) que antecedeu o domingo (2 de outubro) de votação.

“Nós tivemos surpresas como em Goiânia o crescimento do Francisco Jr na reta final, muito pelo bom desempenho no último debate na TV. Mas nós sabemos que nem todos os eleitores ficam acordados até a meia-noite e meia do dia seguinte para acompanhar um programa com os candidatos a prefeito. Se esse debate fosse em um horário mais cedo, por exemplo, e não acabasse tão tarde, talvez tivéssemos a possibilidade de Francisco Jr terminar a eleição no primeiro turno em terceiro lugar, superando talvez até a votação do Delegado Waldir (PR).”

Na opinião de Mario Rodri­gues, o resultado das eleições com distância considerável do prognóstico apontado pelas pesquisas de intenções de votos mostra um momento em que as empresas de pesquisa de opinião estão perdidas. “Nós fizemos um levantamento logo depois do primeiro turno e perguntamos ao eleitor quando ele decide o voto. E 28% dos eleitores disseram que sabem mesmo em que candidato vão votar entre a sexta-feira e o sábado antes da eleição até o dia da votação”, descreve.

Limitação legal

Diretor do Grupom, Mario Rodrigues Filho diz que institutos buscam novos modelos | Foto: Jornal Opção

Diretor do Grupom, Mario Rodrigues Filho diz que institutos buscam novos modelos | Foto: Jornal Opção

Esse é justamente o intervalo que foge ao que é autorizado pela Justiça Eleitoral aos institutos de pesquisa de opinião. “Todas as empresas tentam descobrir como realizar pesquisas que verifiquem esse último momento de decisão de voto por parte do eleitor”, afirma o diretor do Grupom. Mas essa busca por um novo formato de levantamento de intenção de votos que melhore o prognóstico apresentado enfrenta barreiras legais.

Uma delas é a limitação para se colher dados junto aos eleitores até a sexta-feira que antecede o final de semana da eleição. “A pesquisa finalizada na sexta é uma, no domingo da votação ela já não tem mais efeito. Crescem nos últimos momentos da eleição essa transição dos votos dos indecisos.” Mario Rodrigues conta que há até a dificuldade de adotar novos modelos, como o híbrido, que quer utilizar, por exemplo, a aplicação de questionário aos eleitores pela internet. “Hoje as pesquisas já podem ser feitas com uso de tablet, até pouco tempo era apenas no papel o formulário. E a Justiça Eleitoral tentou fazer com que as empresas ainda obrigassem o eleitor a assinar os dados que forneceu ao pesquisador. Isso é impossível!”

Para tentar encontrar um caminho que melhore o prognóstico apresentado pelas pesquisas de intenção de votos, a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) tem um encontro nacional marcado para março de 2017. Nesse evento que reunirá representantes de muitas empresas de pesquisas de opinião, entre elas as 170 maiores, esses institutos, que afirmam ainda não ter a resposta para os erros no apontamento de um possível resultado das eleições, discutirão propostas a serem adotadas e negociadas com a Justiça Eleitoral para melhorar a coleta de dados, ampliar a validade e credibilidade desses levantamentos, além de autorizar outros modelos que supram as limitações dos formulários aplicados face a face (face to face), no contato pessoal com o eleitor.

Influência

Apesar de alguns cientistas políticos afirmarem que as pesquisas de intenção de votos têm o poder de influenciar os indecisos e criar um efeito de onda, na qual a votação de parte do eleitorado tende a seguir o líder dos levantamentos divulgados mais perto do dia da votação, o diretor do Grupom nega que as pesquisas eleitorais causem alguma influência no voto do eleitor. “Como a pesquisa é um prognóstico, não acredito nesse poder de influenciar o voto da pessoa”, conclui.

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