Celg é essencial, mas há outros meios para solucionar o problema da energia

De fato, a resolução dos problemas energéticos do Estado passa pela empresa. Mas é preciso ficar refém dessa questão? Especialistas respondem

As discussões em torno do problema da energia, que começaram com a venda de Cachoeira Dourada, precisam de solução, não tão distante quanto se imagina

As discussões em torno do problema da energia, que começaram com a venda de Cachoeira Dourada, precisam de solução, não tão distante quanto se imagina

Marcos Nunes Carreiro

A discussão da energia em nosso Estado passa, inevitavelmente, pela Com­panhia E­nergética de Goiás (Celg). Porém, é necessário haver alternativas, tanto de geração quanto de distribuição, para suprir a crescente demanda do Estado, sobretudo um que tem seu setor industrial em franco crescimento. Visando essa questão, o Jornal Opção ouviu especialistas goianos e de outros Estados para saber: quais são as possibilidades de solucionar o problema de energia em Goiás?

As possibilidades são muitas e, do ponto de visto técnico, todas viáveis. São as chamadas energias alternativas, isto é, aquelas que fogem à mais utilizada no Brasil: o sistema das hidrelétricas. Mas primeiro é necessário entender o sistema energético brasileiro. Há dois tipos de suprimento de energia no Brasil: um diz respeito à energia elétrica e o outro trata de combustíveis fósseis, com ênfase em petróleo e derivados e no gás natural.

Neste último caso, a estatal Petrobras é responsável por distribuir esses energéticos para todos os cantos do país. O exemplo mais usado para entender a questão é o das usinas termelétricas, que estão operando desde o final de 2012 e usam os derivados do petróleo como fonte de geração de energia. Caso da termelétrica de Campina Grande, no interior da Paraíba.

No que diz respeito à energia elétrica, o sistema brasileiro é interligado. Isto é, a rede de transmissão energética cobre quase a totalidade do território brasileiro, inclusive a região Norte, que era isolada, mas foi ligada ao sistema nos últimos anos. De fato, o Brasil é um dos poucos países que têm uma malha de transmissão que cobre um espaço territorial tão grande.
E isso só é possível porque o sistema brasileiro é predominantemente hidrelétrico.

A análise é do secretário nacional de Plane­ja­mento e Desenvolvimento Ener­gé­tico do Ministério de Minas e E­nergia, Altino Ventura Filho. O secretário disse ao Jornal Opção que o sistema foi criado dessa forma, ainda nos anos 1950, justamente para aproveitar a diversidade hidrológica e distribuir a energia pelo país.

Ventura cita um exemplo: “Para esclarecer, pense que agora estamos com cheia no Rio Grande do Sul e com baixa no rio São Francisco, no Nordeste, e na bacia do rio Paraná, no Sudeste. Então, geramos no Sul e mandamos essa energia excedente para abastecer as regiões que precisam. E o inverso também ocorre em algumas épocas do ano.”

De acordo com ele, esse formato favorece o Brasil, pois, em comparação com outros países, consegue suprir — em um cenário cuja crise energética vivida pelo país está fora de questão — parte das demandas de todos os estados. “Os Estados Unidos, por exemplo, que têm um sistema predominantemente térmico, não podem produzir energia em Miami e mandar para Los Angeles. No sistema térmico, coloca-se a usina próximo ao local onde irá se utilizar da produção. É assim na Europa, no Japão e nos Estados Unidos”, diz.

Porém, o sistema energético brasileiro tradicional já não tem conseguido suprir todas as demandas, vide a crise que é falada periodicamente pela imprensa nacional. Assim, há a necessidade de criar novas hidrelétricas e de investir em outras fontes de energia.

Em relação a outras usinas hidráulicas, o secretário afirma que o país ainda possui potencial não aproveitado, em especial nos rios Madeira, Xingu e Tapajós, todos no Centro-Norte brasileiro. “Por isso, estamos dando prioridade às usinas situadas nessa região, como Belo Monte que está distante dos mercados do Nordeste e do Sudeste, mas que terá um sistema de transmissão de grande porte. Estamos fazendo o primeiro bipolo de corrente contínua de 800 kV que ligará a usina ao Sudeste”, explica.

Fontes alternativas

Na fala do secretário Altino Ventura é possível notar que, além de criar novos meios de gerar energia, é necessário também fortalecer as linhas de transmissão. Nesse ínterim, Ventura defende o incentivo à produção de energia oriunda de novas fontes. A energia eólica é a principal aposta do governo federal. A proposta é que, com 140 parques eólicos, o Brasil possa contar com aproximadamente 4 Gigawatts (GW) de produção. Um número deveras considerável.

Porém, o governo tem enfrentado problemas na construção das linhas de transmissão. Sem elas, a energia gerada não poderá chegar aos consumidores, logo, não adianta. Ventura garante que grande parte dessas questões já foi ou está sendo resolvida.

O investimento em novas fontes visa sanar a demanda de Estados que não são geradores de energia, como o Sergipe, que praticamente não produz energia elétrica, sendo atendido pelo sistema interligado. Isto é, energia gerada pelas hidrelétricas dos outros Estados e distribuída pelas 64 distribuidoras do Brasil. É assim em outros Estados do Nordeste brasileiro.

E o Nordeste deverá ser a região mais beneficiada pelos parques eólicos. Isso porque é a região brasileira com maior “vocação” para a energia eólica, pois conta com uma grande quantidade de ventos. O Rio Grande do Sul também tem um potencial razoável, o que já não é o caso de Goiás. Uma região que poderia gerar algo nesse sentido é o Distrito Federal, sobretudo Brasília por ser uma região de planalto. Mesmo assim, a produção eólica não seria muito grande.

É impossível que o país se desenvolva apenas com energias alternativas? 

Altino Ventura: “Não se pode contar exclusivamente com energias alternativas, mas isso não significa que elas não possam ajudar”

Altino Ventura: “Não se pode contar exclusivamente com energias alternativas, mas isso não significa que elas não possam ajudar”

Dados do Ministério de Minas e Energia mostram como a questão energética é distribuída no Brasil: as hidrelétricas ainda são responsáveis por 47% da expansão do sistema de geração brasileiro. Ou seja, é o carro-chefe. 20% são de usinas eólicas com capacidade de crescimento até 2023, visto que o governo federal tem entendido que esse tipo de energia tem grande potencial competitivo. E 14% da expansão energética brasileira vem da cogeração por biomassa, principalmente pelo bagaço da cana; 15% é de gás natural. E as demais fontes, como a nuclear (2%), é puramente complementar no Brasil.

É possível perceber que, embora as hidrelétricas ainda ocupem maioria esmagadora do setor energético brasileiro, as energias chamadas de alternativas — isto é, aquelas que fogem ao meio mais utilizado no Brasil — estão crescendo. Contudo, de acordo com o secretário nacional de Plane­ja­mento e Desenvolvimento Ener­gético do Ministério de Minas e Energia, Altino Ventura Filho, é primordial que as hidrelétricas continuem atuando.

O argumento é de que as energias alternativas podem representar uma parte interessante no suprimento energético brasileiro, mas não podem ocupar o lugar principal, pois são interrompíveis. “É impossível atender a demanda de energia elétrica do Brasil apenas com essas fontes. O principal motivo é que elas são interruptivas. O vento não é contínuo, à noite não há sol e a biomassa é ligada à safra.”

Porém, a questão principal de incentivar a criação de novos meios de gerar energia diz respeito a auxílio. Afinal, um ponto levantado por muitos é o da extenuação do potencial hidrológico brasileiro, ou seja, o do uso contínuo e desregrado, favorecido ainda pelas mudanças das condições climáticas que o planeta tem sofrido. Assim, seria possível preservar as hidrelétricas utilizando essas novas fontes.

Por exemplo, enquanto os parques eólicos estiverem funcionando, com muito vento, o mercado é atendido com essa energia, resultando em menos geração nas hidrelétricas. Quando a eólica não estiver com o mesmo potencial, utiliza-se da produção que foi economizada na hidrelétrica. Assim, é possível dizer que os reservatórios funcionem como baterias naturais.

O mesmo raciocínio serve para a biomassa. Esse tipo de cogeração é ligado, irremediavelmente, à produção que visa suprir também a demanda por álcool no mercado nacional e açúcar tanto em território brasileiro quanto estrangeiro. Logo, não é possível ter essa energia como principal, pois não se irá produzir cana-de-açúcar apenas para gerar energia. Porém, ela pode saldar uma parte da demanda, o que alivia de certo modo o sistema como um todo.

Das energias alternativas, a solar é a mais cara, embora também possa ser viável, caso haja a atração da indústria de painéis fotovoltaicos para território nacional.

Usinas de biomassa representam nova alternativa em Goiás

O Estado que desponta na utilização de biomassa para cogeração de energia é, indiscutivelmente, São Paulo. Isso acontece porque as maiores usinas de etanol estão em território paulista. Mas Goiás não fica muito atrás. Atualmente, segundo dados da Secretaria de Indústria e Comércio (SIC), das 171 empresas que produzem energia limpa e que estão inseridas nos benefícios oferecidos pelo Produzir/Fomentar, parte esmagadora é formada por usinas produtoras de álcool/etanol, que produzem energia alternativa a partir da biomassa utilizando o bagaço da cana de açúcar.

E entre 2013 e o fim do primeiro semestre de 2014, foram assinados mais dois protocolos de intenção com empresas ligadas ao ramo de energia renovável. A primeira é a Nova Geração Bioenergia SPE, que estuda construir uma unidade na cidade de Jandaia para produzir etanol e energia a partir da biomassa da cana. O investimento previsto é de R$ 220 milhões.

A segunda é a Eletroima En­ge­nharia de Energias Ltda. A empresa planeja construir uma unidade industrial para fabricação de painéis fotovoltaicos em Gameleira de Goiás com investimentos de R$ 23 milhões. Fora ela, há ainda um pedido de licenciamento na Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hí­dri­cos (Semarh) para a construção de um parque solar na cidade de Silvânia. O pedido está sob análise.

Segundo o secretário de In­dús­tria e Comércio, William O’Dwyer, a produção de energias alternativas faz parte do plano estratégico desenvolvido pelo Estado, visto que é uma tendência mundial. Por isso, ele aponta que há uma linha de crédito especial voltada para os micro e pequenos empreendedores interessados em investir em energia renovável.

De acordo com o secretário, o financiamento, que varia entre R$ 2 mil e R$ 25 mil, inaugura o programa Crédito Produtivo da SIC – Energias Renováveis, criado com base na demanda crescente de energia “renovável, sustentável e inesgotável como, por exemplo, a energia solar. Essas empresas serão beneficiadas por uma redução significativa dos seus custos, além de contar com uma fonte limpa, renovável e ilimitada. Hoje, a empresa que investe em sustentabilidade se diferencia no mercado”, avalia William.

A pioneira na cogeração

A sucroalcooleira Jalles Ma­chado, localizada em Goianésia, atualmente não apenas produz toda a energia que consome como produz a mais para vender o excedente. A empresa foi a primeira em Goiás a implantar a cogeração de energia elétrica a partir do bagaço da cana. A central termoelétrica da Jalles Machado tem capacidade para gerar 40 MWh (Megawatt-hora), o suficiente para abastecer uma cidade com 150 mil habitantes.

Os gastos com a cogeração não são grandes, visto que a empresa já possui a matéria-prima: o bagaço da cana de açúcar que sobra da produção principal da empresa. A equipe técnica da empresa explica ainda que dos 40 MWh produzidos aproximadamente 12 MWh são utilizados pela Jalles Machado, somando-se indústria, consumo agrícola e administração. O restante é vendido ao sistema, o que gera lucro.

Além disso, segundo os técnicos da empresa, as vantagens tanto econômicas quanto ambientais da cogeração são grandes quando comparadas às usinas hidrelétricas, visto que os custos da implantação de uma usina termoelétrica baseada na biomassa são, em média, 50% mais baratos que os de uma central hidrelétrica, além de evitar inundações de terras férteis, a necessidade de desapropriações e ainda contar com a redução dos investimentos em linhas de transmissão.

Tudo esbarra em resoluções do governo federal

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Gelson Cruz, da UFG, defende menos burocratização e leis mais claras para que os investimentos sejam feitos | Fernando Leite/Jornal Opção

Pensando em Goiás, as duas melhores alternativas seriam: pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), visto que o estado não conta com grandes rios, e a cogeração por biomassa. Das duas, entretanto, o caminho da biomassa seria o melhor. A análise é do professor da escola de engenharia elétrica da Universidade Federal de Goiás (UFG) Gelson Cruz Júnior.

Segundo ele, a cana-de-açúcar não é a única matéria-prima utilizada na cogeração de energia elétrica. O farelo de soja — grão cuja produção goiana é terceira no ranking nacional — também pode ser usado. “Além disso, é possível também plantar eucaliptos para usá-los na alimentação da usina”, conta o professor.

Como já foi dito, a questão principal de investir em energias alternativas é aliviar o sistema. O professor lembra que países europeus já têm feito isso, sobretudo no que diz respeito à energia solar. “Na Europa funciona, pois cada casa que fizer investimento em painéis solares deixa de consumir certo quantitativo de energia do sistema”, relata. O problema da energia solar, no Brasil, ainda é o preço. “Mas é possível que o governo interfira na questão, assim como fez com a energia eólica”, declara Cruz.

Contudo, a questão realmente central para o professor são as questões político-administrativas. Segundo ele, as distribuidoras, em geral, estão passando por dificuldades no Brasil, dadas algumas decisões equivocadas do governo federal no que diz respeito às tarifas, por exemplo.

“O governo federal tomou al­gu­mas decisões equivocadas. Al­gu­mas linhas de alta tensão que vi­riam para Goiás foram colocadas a leilão, mas não houve interessados e as outras que estavam sendo construídas não foram entregues no prazo. Temos esse problema de acesso às linhas de transmissão. Então, o cenário está um pouco con­fuso e as empresas têm tido que lidar com isso”, avalia o professor.

Para ele, as questões de licenciamento ambiental, por exemplo, devem ser esclarecidas, pois são burocráticas demais, o que afasta investimentos privados. Gelson conta que tem conhecimento de situações de empresas na região Norte, que, para ter acesso à determinada área para mapear uma usina, precisou da autorização das tribos.

Tudo certo, pois as terras são garantidas por lei aos indígenas. “Contudo, a tribo só aceitou fazer acordo se o contato fosse intermediado por uma pessoa específica, que cobrou um valor pelo serviço. Ou seja, não há regras específicas para isso e a preocupação é justamente essa: investir sem garantias de retorno. E não adianta apresentar políticas de curto, pois elas não resolvem. No setor energético, o planejamento tem que ser feito de 10 a 20 anos antes. Alternativas existem, mas é preciso que elas sejam exploradas”, diz.

Monitoramento

“Smart grid”, palavras em inglês para “rede inteligente”. Essa é uma opção levantada por Gelson Cruz: através de um “smart grid”, é possível monitorar a demanda de cada consumidor para, a partir disso, negociar em valores com os consumidores, apontando seus hábitos de consumo. “Isso melhoria o sistema e faria com que o Estado conseguisse atender melhor a população no que diz respeito à energia.”

Contudo, o professor lembra que questões assim também esbarram em resoluções do governo federal. “A Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica] precisa regular a questão, pois o sistema funcionaria como o monitoramento que é feito pelos servidores de internet. Seria uma solução para aproveitar melhor a energia e a rede que se tem”, analisa.

“Vivemos em um país de dois salários mínimos”

Especialista Carlos Barreira Martinez: a questão política impede que os problemas de energia sejam solucionados

Especialista Carlos Barreira Martinez: a questão política impede que os problemas de energia sejam solucionados

Um dos maiores especialistas na questão energética brasileira é o professor do Centro de Pesquisas Hidráulicas e de Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Barreira Mar­tinez. Ele aponta que, do pon­to de vista técnico, não apenas Goiás, como o Brasil, tem plenas con­dições para resolver seus problemas com o fornecimento de energia elétrica.
Porém, para o professor, a solução dos problemas de energia está nas questões político-administrativas. Martinez apresentou soluções, mas, em todas as respostas relativas aos questionamentos voltados para as soluções dos problemas energéticos, relembrou: “Do ponto de vista técnico, é possível, mas é preciso querer.” Acompanhe:

1) Celg: Martinez, que conhece bem o Estado de Goiás e acompanhou de perto o desenvolver da Celg, começa falando sobre a venda da usina de Cachoeira Dourada, leiloada pelo Estado, em 1997, durante a gestão de Maguito Vilela (PMDB).

“Vou utilizar o exemplo de Minas Gerais, meu Estado. Nós temos um conjunto de usinas. Atualmente, vivemos um problema de vazão, é verdade, mas temos um diferencial importante: a empresa. Quando a Cemig [Companhia Energética de Minas Gerais] e a Celg eram empresas coirmãs e que andavam na mesma linha, tudo estava bem. Porém, em determinado momento, a Celg se transformou em instrumento político. Deu no que deu. Espo­liaram o Estado”, lembra.

2) Soluções para Goiás: O especialista afirma que Goiás é rico e que possui muitas possibilidades de energia. Contudo, salienta: é mais importante querer do que ter. “Podem ser pequenas centrais hidrelétricas, ou interligação com redes de transmissão para receber energia de hidrelétricas convencionais, ou centrais térmicas, etc. Goiás é forte em agronegócio e produz mecanismos que tornam isso possível. Mas é preciso querer”, diz o professor.

Acontece que Martinez não acredita na existência de um pacto pela mudança no Brasil. Segundo ele, o pacto feito foi pela conveniência, “em um país de dois salários mínimos, no qual a população abaixo disso sofre muito e quem pretende ganhar mais do que isso paga a conta”. Logo, em sua visão, todos os problemas, e não apenas os da área energética, estão ligados aos acordos políticos costurados nos últimos 40 ou 50 anos.

— Acredito que viveremos uma crise em breve. Não é à-toa que a imprensa internacional vem criticando tanto o Brasil nos últimos tempos. É um alerta, pois estamos fazendo tudo errado. As elites brasileiras firmaram um acordo entre si e fazem o que bem entendem

— Quem são as elites?

Ora, os grupos políticos, os bancos e as empreiteiras. E a população tem achado bom, porque nos últimos 50 anos tem se manifestado pouco. Esse é o pano de fundo dos nossos problemas. E não irá mudar.

— E quais serão as consequências disso?

— Acredito que em 50 anos teremos um padrão de vida muito semelhante ao da Índia. Não que iremos andar para trás, mas porque eles irão avançar e nós ficaremos.
— Por que o senhor acredita nisso?

— No Brasil, demora-se dez anos para tomar uma decisão. Porém, quando tomada, querem fazer a obra em apenas um ano. Assim, o viaduto cai, não é verdade? Observe a Coreia do Sul. Aquele país era um lixo na década de 50 e 60. Olha o que eles viraram.

— E isso se deve a…

— Postura. Algo que nós não temos. Nossa sorte, ou azar, é que somos um país rico. Temos recursos. Por isso, hoje nós vendemos commodities e fazemos pequenos serviços. Ou seja, um país de dois salários mínimos.

Maioria dos candidatos ao governo aposta em novas formas de geração

Como dito no início da matéria, inevitavelmente, a solução da energia em Goiás passa pela Companhia Ener­gética de Goiás (Celg). Contudo, como avaliaram os técnicos ouvidos, é possível criar novas alternativas que ajudem a solucionar o problema energético no Estado. E alguns candidatos enxergam a questão. O Jornal Opção apurou com cada um e utilizando seus respectivos planos de governo, quais são suas propostas para o setor energético.

Marconi Perillo (PSDB):
Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O governador Marconi Perillo começa seu plano de governo falando sobre o que fez durante este mandato, como: investimento de 20% na recuperação do sistema de distribuição de energia; o acordo de federalização da Celg; criação do núcleo de energias renováveis; apoio a projetos de produção de energia renovável a partir da biomassa; e implantação dos sistemas de aquecimento solar e modernização do sistema de energia.

Mas há propostas: a principal delas é “assegurar, em parceria com o governo federal, o suprimento energético necessário ao de­senvolvimento socioeconômico de Goiás, com foco na eficiência energética, na produção de energia limpa e renovável e na am­pli­ação da rede de transmissão e distribuição”.

As outras fazem parte do plano de metas para atingir esse objetivo. Entre elas:

– Criar o Programa de Promoção da Eficiência Energética e Energias Renováveis;
– Interagir com o governo federal para que a Celg federalizada tenha garantia de re­cur­sos para investimentos em linhas de transmissão e distribuição necessárias no es­tado, assim como recursos para investimentos no sistema de alta tensão substituindo gra­dual­mente a energia rural monofásica pela trifásica;
– Fortalecer a Celg G&T para geração e transmissão de energia elétrica e a exportação de energia para outras regiões;
– Desenvolver um amplo programa de eficiência energética abrangendo prédios públicos, agricultura, indústria, comércio e residências, além de incentivar a produção industrial em Goiás de componentes utilizados na geração de energia renovável;
– E apoiar projetos de produção de energia limpa e renovável de fontes da biomassa, biogás, eólica, solar e hidroelétrica (pequenas centrais hidroelétricas e centrais geradoras hidroelétricas) e apoiar o programa de florestas plantadas.

Iris Rezende (PMDB):
Foto: Fernando Leite

Foto: Fernando Leite

A principal proposta de Iris Rezende é solucionar o problema da Celg como forma de resolver os problemas de falta de investimentos em capacidade energética. Para isso, o peemedebista propõe:

– Aumentar a geração de energia no Estado, utilizando fontes renováveis, em especial a cogeração através do bagaço da cana e biocombustíveis;
– Garantir a eletrificação para todas as unidades da agricultura familiar, inclusive assentados da reforma agrária;
– Investir na expansão em média tensão e alta tensão, com ampliação de subestações, troca de transformadores e construção de alimentadores;
– Construção de linhas de transmissão, como a Morrinhos-Serra de Caldas-Rio Quente, na região Sul do estado;
– Promoção de melhorias de redes de média tensão em toda a área de concessão, além da automação completa de redes e subestações;
– E atendimento das necessidades energéticas urgentes como, o programa Minha Casa Minha Vida e eletrificação de propriedades rurais, no programa Luz Para Todos, além das demandas do setor produtivo.

Vanderlan Cardoso (PSB):
Vanderlan Cardoso quer correr na contramão para sair na frente dos outros candidatos | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Van| Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Vanderlan Cardoso tem um plano para o setor de energia baseado na infraestrutura de transmissão e distribuição de energia que, segundo ele, atualmente não atende à crescente demanda. Vanderlan afirma que o fornecimento de energia em Goiás é de baixa qualidade e apresenta alto índice de interrupções. Além disso, o pessebista enxerga que, atualmente não existem políticas para incentivar a produção de energia alternativa renovável. Assim, se eleito, Vanderlan pretende:

– Promover a implantação de sistemas de produção de energia fotovoltaica conectada à rede como política de inserção de fontes alternativas renováveis na matriz energética do Estado;
– Promover a implantação sistema de micro geração de energia elétrica fotovoltaica distribuída com compensação do consumo Energia, por meio da redução de impostos e financiamento do custo de implantação com juros subsidiados;
– E induzir a implantação e utilização de coleta de água pluvial para redução da de­manda por água potável por meio da ampliação dos incentivos na implantação da micro geração de energia elétrica fotovoltaica;

Em relação à Celg, Vanderlan diz em seu plano de governo que há um sucateamento da plataforma energética do Estado de Goiás em especial das subestações e linhas de transmissão e distribuição, sendo necessários investimentos para a ampliação da infraestrutura de geração, transmissão e distribuição inferiores aos pactuados com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Antônio Gomide (PT):
Foto: Fernando Leite

Foto: Fernando Leite

A proposta do petista Antônio Gomide, apresentada em seu plano de governo, é recuperar a Celg com uma gestão eficiente e transparente, para gerar e distribuir energia de qualidade no campo e na cidade. Segundo ele, isso deverá ser feito com a retomada dos investimentos. “Goiás tem energia. Todos querem investir no estado e temos potencial para ser a unidade federativa que oferece mais energia. Logo, o que está ocorrendo atualmente é uma anormalidade”, declara.

Contudo, mesmo acreditando no potencial hidrelétrico de Goiás, Gomide não descarta realizar investimentos em fontes de energia alternativa, caso seja eleito. Segundo o petista, opções como energias eólica e solar, além de termelétricas deverão ser viabilizadas por meio de estudos. “Deveremos olhar o custo das alternativas que podem ser instaladas em determinadas regiões, dada a vocação de cada setor geográfico de Goiás. As próprias universidades podem auxiliar o governo nisso”, explica.

Alexandre Magalhães (PSDC):

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Alexandre Magalhães vê Goiás como um exportador de energia que, entretanto, não possui segurança no abastecimento de energia por parte da integração nacional do sistema de distribuição. Ele diz: “A Celg encontra-se em situação imprópria para afiançar o ritmo de crescimento vivenciado em Goiás. Assim, é necessário que tanto o tema seja priorizado nas relações do governo estadual com o governo federal, quanto tomar providências locais para aumentar a geração e melhorar a distribuição de energia.”

Dessa forma, segundo o governadoriável, é preciso:

– Melhorar a distribuição de energia rural, evitando perda de matérias-primas e produtos de origem animal e vegetal;
– Garantir a qualidade de energia fornecida ao sistema de irrigação rural;
– Implementar programa de apoio à implantação de Pequenas Centrais Hi­drelétricas (PCHs);
– Consolidar o apoio à produção de energia derivada de biomassa de forma mais efetiva;
– E concretizar as negociações de empréstimos quanto ao passivo da Celg e implantar uma gestão profissional focada à sua recuperação e expansão, de forma a contemplar as necessidades do setor produtivo.

Marta Jane (PCB):
Reprodução

Reprodução

A candidata pelo PCB tem sua proposta principal na mudança do atual modelo de geração de energia em Goiás. Ela se refere à questão das hidrelétricas. Para Marta, o sistema de barragens, embora produza energia limpa, traz muitos danos humanos, assim como para o meio ambiente.

“As inundações tornam praticamente irrecuperáveis tanto o sistema ambiental do local como a preservação do bioma cerrado. Fora isso, há a questão da desterritorialização das pessoas que moram à beira dos rios, gerando inclusive o movimento dos desabrigados de barragens”, diz. Assim, a candidata acredita que o governo deve investir no estudo e na implementação de energias alternativas, assim como de biocombustível.

Em relação à Celg, Marta diz que o entende ser necessário resgatar os investimentos, mas primeiro é preciso entender como aconteceu o processo de endividamento da estatal. “Normalmente no âmbito do Estado são produzidos grandes rombos nos patrimônios públicos, o que gera a inoperância e produz uma incompetência em produzir aquilo que a empresa está destinada a produzir. Esse processo de degradação gera os argumentos em defesa da privatização e isso precisa ser averiguado”, conclui.

Weslei Garcia (PSol):
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Weslei Garcia

Para Weslei Garcia, o foco é fortalecer e reestruturar a Celg, principalmente no interior, pois “ela não possui a mesma estrutura que tem na capital. No Entorno do Distrito Federal, por exemplo, a situação é lamentável”. Após a reestruturação da Celg, inclusive com concurso público imediato, a principal proposta de Weslei é utilizar um software gratuito para mapear a otimizar as ações da empresa.

“Existe um software gratuito, o gvSIG, que será usado em parceria com a Uni­ver­sidade Estadual de Goiás, para mapear Goiás e criar um banco de dados sobre o consumo da população. A partir desses dados, poderemos planejar melhor e, inclusive, implantar a produção de energias limpas, como a eólica e a solar. O modelo que pretendemos adotar é holandês”, explica.

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Ivan Bispo

O potencial de geração de energia a partir de hidrelétrica no estado de Goiás, hoje, é pequeno. A vocação de Goiás é agropecuária. A geração de energia hidrelétrica já começa a mostrar os conflitos que vivenciaremos, como o da irrigação x hidroeletricidade em Cristalina. Para gerar 52,5 MW impede a irrigação de milhares de ha, algo acima de 80.000 ha. Na Revista Geociências, 33 (2) foi publicado um trabalho de conclusão de um curso de especialização que fala do conflito irrigação x hidroeletricidade. (http://jornalggn.com.br/blog/ivan-bispo/irrigacao-x-hidroeletricidade). Goiás terá de fazer a opção se quer gerar energia por via de hidrelétrica ou produzir… Leia mais