Ejaculações frequentes diminuem a incidência de câncer de próstata?

Estudo sugere que maior frequência mensal de ejaculações tem o poder de reduzir o risco de desenvolvimento da doença, mas houve redução de incidência só nos casos de câncer de próstata de risco baixo ou intermediário

Imagem Ilustrativa

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Rafael Macedo Mustafé
Especial para o Jornal Opção

O câncer de próstata é o segundo tipo mais comum entre homens (o primeiro se excluirmos o câncer de pele). Só nos Estados Unidos estima-se que, em 2016, haverá 181 mil novos casos — com 26 mil mortes em decorrência desse mal. Apesar de muitas ocorrências serem de natureza indolente e de lenta evolução, os casos graves e agressivos, bem como as potenciais sequelas provenientes de procedimentos diagnósticos e terapêuticos, tornam essa doença um grande problema de saúde.

Para grande parte das doenças, “prevenir é melhor que remediar”, diz o ditado. A prevenção nada mais é do que atuar precocemente em fatores de risco visando reduzir a incidência e melhorar o prognóstico de uma determinada moléstia. No entanto, muitos fatores de risco — os chamados fatores “não modificáveis” — não podem ser mudados e, portanto, são apenas marcadores para guiar um diagnóstico mais precoce, não sendo úteis para a prevenção. Os fatores de risco mais associados ao câncer de próstata, até hoje, são os “não modificáveis”: idade, etnia, história familiar e herança genética.

Em março deste ano, foi publicado no periódico científico “European Urology” um artigo intitulado “Ejaculation frequency and risk of prostate cancer: updated results with an additional decade of follow-up”. Trata-se de um estudo realizado pelo departamento de epidemiologia da escola de saúde pública da Universidade Harvard em parceria com o departamento de epidemiologia da escola de saúde pública da Universidade de Boston, sediadas nos Estados Unidos, com o objetivo de estudar uma hipotética relação causal entre o número médio de ejaculações mensais e a incidência da doença. Em outras palavras, seria o baixo número médio de ejaculações mensais um fator de risco modificável para o câncer de próstata?

Essa hipótese possui uma base fisiopatológica — teoricamente, com o menor número de ejaculações mensais, a secreção produzida pela próstata (líquido que faz parte da composição do sêmen) ficaria estagnada por um tempo maior dentro do órgão, acumulando-se substâncias que teriam um potencial de induzir carcinogênese. Além disso, as ejaculações mais frequentes poderiam dificultar a oxidação da secreção de citrato presente no líquido prostático — algo conhecido por ocorrer precocemente na gênese do câncer de próstata — e poderiam reduzir a formação de cristalóides intraluminais, associados, também, à carcinogênese. Contudo, a prática médica atual ancora-se no paradigma da “medicina baseada em evidências” – movimento que orienta a aplicação do método científico a toda a prática médica e submete toda hipótese ao crivo científico, buscando a sua confirmação ou refutação – e, portanto, hipótese e fisiopatologia não bastam. Havia, então, a necessidade de um estudo de grande porte, com boa qualidade metodológica científica e com poder estatístico suficiente para se buscar a resposta mais próxima da verdade.

Assim foi feito. Os pesquisadores produziram um estudo longitudinal prospectivo (estudo de coorte) com 31.925 homens, profissionais de saúde, em sua maioria brancos (>91%), com idade entre 40 e 75 anos, acompanhados durante 18 anos (de 1992 até 2010).

Em 1992 os participantes receberam um questionário com a seguinte pergunta: “Em média, quantas ejaculações você teve por mês durante essas faixas etárias da sua vida? (20 a 29 anos; 40 a 49 anos e no último ano)”. A partir de então, o mesmo questionário era aplicado a cada 2 anos, sendo colhidas informações médicas e sociais. Quando algum homem reportava o diagnóstico de câncer de próstata no questionário, eram revisados o prontuário médico e o laudo anatomopatológico, a fim de se confirmar o diagnóstico e de se obter informações relativas ao estágio da doença.

Após 18 anos de seguimento, foram diagnosticados 3.839 casos de câncer, sendo a incidência consideravelmente menor entre indivíduos que apresentavam média de ejaculações mensais de 8 a 12, de 13 a 20 e especialmente entre os que apresentavam média maior ou igual a 21, quando comparados aos que apresentavam média de 4 a 7. O resultado foi ainda mais expressivo entre indivíduos que mantinham esse número de ejaculações na faixa etária entre 40 e 49 anos. A redução relativa do risco foi em torno de 10% para os que ejaculavam de 8 a 12 vezes por mês e de 20% para os que ejaculavam 21 vezes ou mais.

Fatores de confusão

Quando se obtém um resultado significativo em um estudo de natureza importante, a atenção dos pesquisadores foca-se nos fatores (variáveis) de confusão que possam estar influenciando os resultados. Como assim? Imagine que em outro estudo pretenda-se avaliar uma possível relação entre o hábito de tomar café e o desenvolvimento de câncer de pulmão, tendo como “positivo” o resultado final: tomar café causa câncer de pulmão. Esse resultado soaria estranho, certo? Após análise dos dados, ver-se-ia que, na verdade, as pessoas que tomavam mais café seriam, também, as que mais fumavam, e o café nada mais seria do que um fator de confusão, sendo o tabagismo o verdadeiro responsável pelo aumento do número de casos.

Todos os estudos de coorte possuem fatores de confusão identificados e, a partir de cálculos estatísticos, é feita uma análise de todas essas variáveis (análise multivariada). Após ajuste para essas potenciais variáveis de confusão — disfunção erétil, idade, etnia, histórico familiar, atividade física, índice de massa corpórea, altura, diabetes, estado civil, ingestão de álcool, tabagismo, etc. —, o resultado manteve-se positivo e com significância estatística, mostrando que o número de ejaculações é uma variável independente de outras, no que diz respeito à incidência de câncer prostático.

Mesmo tendo sido uma pesquisa notória e de expressivo resultado, algumas ressalvas devem ser feitas, pois nenhum artigo deve ser lido de forma superficial, mas, sim, de forma crítica. Vale ressaltar que houve somente redução de incidência nos casos de câncer de próstata de risco baixo ou intermediário, não apresentando redução nos casos de doença mais avançada, de maior gravidade, os casos letais, que são os que mais importam.

Outro fator que merece consideração — e os próprios autores mencionam na conclusão do artigo — é que os pacientes com maior número de ejaculações e, portanto, mais ativos sexualmente podem ter se preocupado menos com o diagnóstico de câncer de próstata, podendo ter realizado menos exames e avaliações preventivas do que os indivíduos menos ativos sexualmente. Uma das causas seria o receio de que procedimentos diagnósticos e terapêuticos pudessem causar impotência sexual. Dessa forma, a doença pode ter sido subdiagnosticada naquela população, pois muitos casos são assintomáticos, levando a um falso resultado do número menor de casos. Além disso, existe, sempre, a possibilidade de haver outros fatores de confusão não identificados pelo estudo.

Tudo indica a existência de um benefício modesto na prevenção do câncer de próstata, mas há outras ameaças ainda maiores do que os potenciais benefícios, caso a atividade sexual não seja praticada de forma segura, com o uso de preservativos para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, principalmente nos casos de relacionamento com múltiplos parceiros ou parceiras.

Rafael Macedo Mustafé é médico cardiologista

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